Os sinais na Europa, em matéria de convivência intercultural, são preocupantes. Basta lembrar as medidas do presidente Sarkozy contra os ciganos.
Uma notícia perturbante que nos vem agora da Alemanha faz adensar esta preocupação: um vice-presidente do Bundesbank, Thilo Sarrazin, publicou na passada segunda feira um livro -- chamado "Deutschland schafft sich ab" ("A Alemanha destrói-se a si própria")-- onde é enunciada uma série de teses racistas. O livro está a causar ume enorme controvérsia e a suscitar pressões para que Sarrazin seja demitido do cargo que ocupa. Mas, tem muitos apoiantes...
Na origem desta controvérsia estão os comentários dirigidos sobretudo aos imigrantes turcos na Alemanha. Uma das muitas teses defendidas por Sarrazin é a de que as comunidades muçulmanos têm prejudicado mais do que têm ajudado a economia alemã, já que preferem viver da segurança social. Segundo este banqueiro, transformado em sociólogo e antropólogo amador, os muçulmanos são dotados de uma "estupidez hereditária" mas, ao mesmo tempo, têm uma taxa de fertilidade maior, o que está a contribuir para baixar o QI colectivo do país.
Podem ler-se aqui, aqui e aqui ecos de alguma da polémica que rodeia a publicação deste livro e aqui podem ler-se ainda alguns comentários proferidos ao longo dos tempos pelo dr. Sarrazin, coligidos pelo Spiegel, bem como a análise da imprensa alemã sobre este assunto.
O que as inúmeras análises e notícias saídas sobre este tema não relevam é que, por um lado, há sondagens que mostram que 1/3 da população está de acordo com as teses do dr. Sarrazin e, por outro lado, que ele é membro do SPD.
Os comentários contra as teses de Sarrazin são muitos. Há também quem o aponte como uma vítima da livre expressão do pensamento. Será, mas a simples leitura do resumo da prosa de Sarrazin (não li o livro) pode levar-nos a pensar que estamos perante um documento daqueles que contêm as teses preparatórias de um qualquer congresso do partido nacional-socialista. Mas, não! É um livro escrito por um social-democrata, hoje, na Alemanha.
2010/09/03
2010/09/01
O polvo, a nuvem e o terramoto
Que há um "polvo", e não só o da série televisiva italiana, parece-me claro.
Que há muita gente interessada, em lançar uma "nuvem" sobre esta história absurda, é por demais evidente.
Que esta situação deve poder provocar um "terramoto" nas instâncias responsáveis - FPF, ADoP e Secretaria do Desporto - são os meus desejos mais sinceros.
Que há muita gente interessada, em lançar uma "nuvem" sobre esta história absurda, é por demais evidente.
Que esta situação deve poder provocar um "terramoto" nas instâncias responsáveis - FPF, ADoP e Secretaria do Desporto - são os meus desejos mais sinceros.
2010/08/31
Novo Amanhecer
Sete anos após a invasão, as tropas dos EUA deixaram hoje, formalmente, o Iraque. No país permanecem 50.000 militares e consultores que deverão retirar definitivamente em finais de 2011. O que começou com uma das mais infames mentiras dos tempos modernos - a invasão e ocupação de um país soberano e independente com o argumento da existência de armas de destruição maciça - terminou sem honra e sem glória. Para trás, ficam 4.421 soldados mortos, 35.000 feridos, mais de 185.000 vítimas civis, 3.000 biliões de dólares gastos, um estado inoperacional, milhões de desalojados, um governo inexistente, uma indústria petrolífera semi-operacional, um dos mais valiosos espólios museológicos do Mundo vandalizado, aumento exponencial da mortalidade infantil e epidemias diversas devido à destruição dos hospitais e falta de medicação adequada, um país dividido e ameaçado de ruptura no futuro...É esta a herança da política cega levada a cabo pela administração Bush que, para além de ter destruído o país, isolou os EUA do Mundo e contribuiu para a perda de influência americana na região. Esta parece, de resto, ser a percepção de Obama, que fez desta retirada um "ponto de honra" e anunciará hoje o cumprimento da sua promessa eleitoral. Desta vez, sem usar o termo caro a Bush "missão cumprida", mas aceitando a amarga realidade que lhe foi imposta pelo impasse militar: a consciência de que a América pode ter ganho a guerra, mas não ganhou certamente a paz.
Adão e Evo
Sala de espera das consultas externas do Hospital de Cascais. Apinhada. Um casal, na casa dos setentas, procura a casa de banho. A mulher "quer fazer xixi", o homem segue-a. Lá encontram a porta da dita casa de banho. Antes de entrar, a mulher entrega a mala de mão ao marido.
Este fica a olhar o objecto por um instante e, de repente, desata a gritar "— Toma lá isto (a mala...)! Não percebo porque é que tenho de ficar a segurar isto (olha com desdém para a mala...) sempre que vais à casa de banho. Depois fico aqui à espera, de mala na mão, pareço um maricas!" E lá vai ele, furioso, casa de banho dentro, devolver a mala à mulher...
Evo Morales tem razão. Este não comeu frango com hormonas de certeza. E não era careca, tão pouco.
Este fica a olhar o objecto por um instante e, de repente, desata a gritar "— Toma lá isto (a mala...)! Não percebo porque é que tenho de ficar a segurar isto (olha com desdém para a mala...) sempre que vais à casa de banho. Depois fico aqui à espera, de mala na mão, pareço um maricas!" E lá vai ele, furioso, casa de banho dentro, devolver a mala à mulher...
Evo Morales tem razão. Este não comeu frango com hormonas de certeza. E não era careca, tão pouco.
2010/08/30
A ADoP castigou Queiroz
Esperemos agora que TODAS as figuras públicas envolvidas em casos e polémicas neste país sejam julgadas e condenadas com a mesma rapidez e com o mesmo exacto rigor usado para enforcar o seleccionador nacional!
Se isto é assim com um caso que envolve uns gajos que se limitam a andar a correr atrás duma bola e a urinar para um frasquinho, para verificar se correm por gosto ou por outro motivo qualquer, pergunto como deveria ser com os casos que polvilham diariamente os nossos orgãos de comunicação, que exigem, a meu ver, pelo menos critérios equivalentes.
E espero mais! Espero que a próxima revisão constitucional consagre a ADoP como 4º poder e que seja definido o competente lugar na hierarquia do Estado. Como está a coisa agora, a constitucionalidade da decisão de suspender o seleccionador nacional e as competências que tem este organismo parecem ser duvidosas...
Se a ADoP for, de facto, consagrada constitucionalmente como um dos pilares do Estado de direito, alimento a secreta esperança de que ainda possamos, quiçá, ver o dr. Luís Horta sentado nas cerimónias oficiais ao lado do PR, do Presidente da AR, do PM, dos Presidentes dos Tribunais, das chefias militares, etc, a ver desfilar as tropas em parada...
Devo confessar que a ideia me atrai...
Se isto é assim com um caso que envolve uns gajos que se limitam a andar a correr atrás duma bola e a urinar para um frasquinho, para verificar se correm por gosto ou por outro motivo qualquer, pergunto como deveria ser com os casos que polvilham diariamente os nossos orgãos de comunicação, que exigem, a meu ver, pelo menos critérios equivalentes.
E espero mais! Espero que a próxima revisão constitucional consagre a ADoP como 4º poder e que seja definido o competente lugar na hierarquia do Estado. Como está a coisa agora, a constitucionalidade da decisão de suspender o seleccionador nacional e as competências que tem este organismo parecem ser duvidosas...
Se a ADoP for, de facto, consagrada constitucionalmente como um dos pilares do Estado de direito, alimento a secreta esperança de que ainda possamos, quiçá, ver o dr. Luís Horta sentado nas cerimónias oficiais ao lado do PR, do Presidente da AR, do PM, dos Presidentes dos Tribunais, das chefias militares, etc, a ver desfilar as tropas em parada...
Devo confessar que a ideia me atrai...
2010/08/21
Para além da ficção
A série 24 teve uma enorme popularidade, como se sabe. Uma estrutura narrativa formalmente perfeita, acção a rodos, os heróis do 24 surgiam em qualquer parte do mundo para defender a América dos ataques das mais variadas hordas terroristas, desejosas de destruir o "império". Os cenários em que decorriam os episódios da série eram sempre de uma inverosimilhança na iminência, digamos, da verosimilhança, se assim me posso exprimir. Ou melhor, parafraseando Borges, eram cenários ainda inexistentes, mas perigosamente possíveis.
A ficção está, contudo, a milhas da realidade que é bem mais apimentada. O 24 é mentira, mas aquela conduta é real e a realidade é ainda mais escabrosa.
Há uma empresa privada americana de segurança antes chamada Blackwater Worldwide, agora, pelos vistos, rebaptizada Xe Services. Ex-Blackwatre Xe. O Departamento de Estado dos E.U.A. mantinha com esta empresa privada um lucrativo contrato. Os seus "empregados" faziam segurança diplomática, participavam nas mais delicadas acções da C.I.A., no Iraque e no Afeganistão, e faziam transporte de detidos. Segundo o NYT, a "Blackwater tornou-se alvo de intensa crítica pelo que os Iraquianos descreveram como conduta insolente por parte dos guardas de segurança" [i.e., os empregados da Blackwater], no decurso das diversas acções que levavam a cabo, das quais chegou a resultar a morte de civis.
A empresa terá cometido vários atropelos à lei (imagine-se, os malandros...!) que incluiam, ainda de acordo com o NYT, entre outras coisas, a exportação ilegal de armas para o Afeganistão, propostas de treino de tropas no Sudão e o treino de snipers da polícia do Taiwan. Em 2009 perderam o contrato e perante a possibilidade de serem incriminados, os da Blackwater Worldwide, agora Xe Services, chegaram a acordo com o citado Departamento de Estado americano para o pagamento de uma multa de 42 milhões de dólares, relativa a (pasme-se!) centenas de violações do código... de exportações americano. E volta Xe que estás perdoada!
Perante a actividade de uma empresa —privada, de "segurança"— chamada Blackwater, que actua "worldwide" e agora se chama Xe Services, o poder da ficção televisiva empalidece. Este é o mundo que muda a cacha.
Ex-Blackwater-Xe! Em breve disponível em DVD, para deleite do nosso olhar distraído, 24 horas por dia...
A ficção está, contudo, a milhas da realidade que é bem mais apimentada. O 24 é mentira, mas aquela conduta é real e a realidade é ainda mais escabrosa.
Há uma empresa privada americana de segurança antes chamada Blackwater Worldwide, agora, pelos vistos, rebaptizada Xe Services. Ex-Blackwatre Xe. O Departamento de Estado dos E.U.A. mantinha com esta empresa privada um lucrativo contrato. Os seus "empregados" faziam segurança diplomática, participavam nas mais delicadas acções da C.I.A., no Iraque e no Afeganistão, e faziam transporte de detidos. Segundo o NYT, a "Blackwater tornou-se alvo de intensa crítica pelo que os Iraquianos descreveram como conduta insolente por parte dos guardas de segurança" [i.e., os empregados da Blackwater], no decurso das diversas acções que levavam a cabo, das quais chegou a resultar a morte de civis.
A empresa terá cometido vários atropelos à lei (imagine-se, os malandros...!) que incluiam, ainda de acordo com o NYT, entre outras coisas, a exportação ilegal de armas para o Afeganistão, propostas de treino de tropas no Sudão e o treino de snipers da polícia do Taiwan. Em 2009 perderam o contrato e perante a possibilidade de serem incriminados, os da Blackwater Worldwide, agora Xe Services, chegaram a acordo com o citado Departamento de Estado americano para o pagamento de uma multa de 42 milhões de dólares, relativa a (pasme-se!) centenas de violações do código... de exportações americano. E volta Xe que estás perdoada!
Perante a actividade de uma empresa —privada, de "segurança"— chamada Blackwater, que actua "worldwide" e agora se chama Xe Services, o poder da ficção televisiva empalidece. Este é o mundo que muda a cacha.
Ex-Blackwater-Xe! Em breve disponível em DVD, para deleite do nosso olhar distraído, 24 horas por dia...
2010/08/19
Probabilidades
Uma empresa de desenvolvimento de semicondutores, a Lyric Semiconductor, concebeu um processador que, em vez de se limitar a fazer umas contas simples, como o processador que está dentro do computador que o leitor usa para ler este post, vai mais além: calcula probabilidades. Mediante o influxo de dados calcula a probabilidade de ocorrência de um determinado resultado possível. "Decidimos que há montes de problemas de probabilidades que são tão importantes que merecem o seu próprio hardware," afirmou ao NYT o senhor Ben Vigoda, co-fundador da Lyric e seu principal responsável.
Uma empresa de venda on-line poderá assim, por exemplo, sugerir um determinado produto baseado nos dados que o potencial cliente introduziu na sua pesquisa e os metereologistas terão uma ferramenta que lhes permite uma maior rapidez e fiabilidade na previsão do tempo, com base nos dados que lhe estão a chegar. O novo processador pode até prever a probabilidade de uma compra com um cartão de crédito on-line ser fraudulenta, baseado em dados de compras anteriores. Para já, sabe-se que são as instituições militares americanas que beneficiarão deste novo "brinquedo", para prever, quiçá, qual o país com maior probabilidade de ser invadido a seguir.
Em Portugal também este novo processador vai ter um enorme sucessso e prevejo mesmo um novo modelo do Magalhães, destinado exclusivamente aos membros do governo, equipado com o novo processador da Lyric, em substituição daqueles computadores obsoletos que vemos nas reuniões do CM, atrás de cujos monitores se escondem os ministros uns dos outros.
Teremos assim uma gestão do país mais qualificada. Querem ver?
Problema: Mais de metade da Mata do Cabril ardeu? O Magalhães Lírico diz que a probabilidade de que não ocorram, entretanto, reacendimentos é alta porque já escasseia a matéria combustível. Solução: mandar recolher o "dispositivo" que já nos está a custar balúrdios em horas extraordinárias...
Problema: Aumentou o número de desempregados de longa duração? O Magalhães Lírico diz que a probabilidade desses desempregados morrerem, entretanto, de fome é forte. O seu número vai provavelmente diminuir. Solução: canalizar as verbas do IEFP para mais submarinos que estes dois que vamos agora ter, só, não chegam e os almirantes já andam nervosos...
Problema: As pessoas criticam os encerramentos das escolas, a desclassificação de monumentos ou o fim de subsídios por parte do Estado? O Magalhães Lírico diz que é provável que já haja pouca coisa mais para encerrar, desclassificar ou poucos subsídios que restem ainda para atribuir. Solução: toca a cortar tudo o que ainda sobra, porque estes temas, assim, deixam mais depressa de ser motivo de conversa.
Problema: O problema das SCUT não se resolve e a empresa concessionária vai "mandar a factura" relativa aos meses vencidos sem cobrança? O Magalhães Lírico diz que a probabilidade de ter de ser o PSD a levar com a resolução do problema é alta. Solução: deixa andar, porque quem paga no final é sempre o Zé e, assim, o anjinho do Passos Coelho leva com o odioso.
Problema: O país está num impasse político? O Magalhães Lírico diz que a probabilidade da oposição ou do PR terem uma intervenção qualificada e responsável para encontrar soluções para esse impasse é nula. Solução: deixa, mais uma vez, andar.
Fica aqui uma sugestão para o primeiro-ministro: traga para cá a Lyric. Dê-lhes vinte anos de isenções fiscais e mão de obra barata arrebanhada nos Centros de Emprego. Exija, em contrapartida, esses chips maravilha para todos os computadores da PCM e a promessa da administração Obama de intervir sobre as agências de rating do seu país com a recomendação: go easy on these guys!
Uma empresa de venda on-line poderá assim, por exemplo, sugerir um determinado produto baseado nos dados que o potencial cliente introduziu na sua pesquisa e os metereologistas terão uma ferramenta que lhes permite uma maior rapidez e fiabilidade na previsão do tempo, com base nos dados que lhe estão a chegar. O novo processador pode até prever a probabilidade de uma compra com um cartão de crédito on-line ser fraudulenta, baseado em dados de compras anteriores. Para já, sabe-se que são as instituições militares americanas que beneficiarão deste novo "brinquedo", para prever, quiçá, qual o país com maior probabilidade de ser invadido a seguir.
Em Portugal também este novo processador vai ter um enorme sucessso e prevejo mesmo um novo modelo do Magalhães, destinado exclusivamente aos membros do governo, equipado com o novo processador da Lyric, em substituição daqueles computadores obsoletos que vemos nas reuniões do CM, atrás de cujos monitores se escondem os ministros uns dos outros.
Teremos assim uma gestão do país mais qualificada. Querem ver?
Problema: Mais de metade da Mata do Cabril ardeu? O Magalhães Lírico diz que a probabilidade de que não ocorram, entretanto, reacendimentos é alta porque já escasseia a matéria combustível. Solução: mandar recolher o "dispositivo" que já nos está a custar balúrdios em horas extraordinárias...
Problema: Aumentou o número de desempregados de longa duração? O Magalhães Lírico diz que a probabilidade desses desempregados morrerem, entretanto, de fome é forte. O seu número vai provavelmente diminuir. Solução: canalizar as verbas do IEFP para mais submarinos que estes dois que vamos agora ter, só, não chegam e os almirantes já andam nervosos...
Problema: As pessoas criticam os encerramentos das escolas, a desclassificação de monumentos ou o fim de subsídios por parte do Estado? O Magalhães Lírico diz que é provável que já haja pouca coisa mais para encerrar, desclassificar ou poucos subsídios que restem ainda para atribuir. Solução: toca a cortar tudo o que ainda sobra, porque estes temas, assim, deixam mais depressa de ser motivo de conversa.
Problema: O problema das SCUT não se resolve e a empresa concessionária vai "mandar a factura" relativa aos meses vencidos sem cobrança? O Magalhães Lírico diz que a probabilidade de ter de ser o PSD a levar com a resolução do problema é alta. Solução: deixa andar, porque quem paga no final é sempre o Zé e, assim, o anjinho do Passos Coelho leva com o odioso.
Problema: O país está num impasse político? O Magalhães Lírico diz que a probabilidade da oposição ou do PR terem uma intervenção qualificada e responsável para encontrar soluções para esse impasse é nula. Solução: deixa, mais uma vez, andar.
Fica aqui uma sugestão para o primeiro-ministro: traga para cá a Lyric. Dê-lhes vinte anos de isenções fiscais e mão de obra barata arrebanhada nos Centros de Emprego. Exija, em contrapartida, esses chips maravilha para todos os computadores da PCM e a promessa da administração Obama de intervir sobre as agências de rating do seu país com a recomendação: go easy on these guys!
2010/08/13
Cavaco & Sócrates, os "bombeiros" de serviço
São 12.30h da manhã e Cavaco "fala" à comunicação social sobre os fogos que lavram em todo o país. Depois de endereçar as condolências às famílias dos bombeiros desaparecidos em combate (noblesse oblige) o presidente disse estar "muito mais descansado em relação às condições existentes no combate aos fogos". Às 10 da manhã eram já 20 os fogos em todo o país e, às 13h, eram 30 as "combustões" assinaladas, algumas das quais de grandes proporções...
Segue-se Sócrates, a elogiar as corporações e a realçar a melhoria de meios à disposição, sem os quais as "ignições" seriam muito mais do que em 2003. À pergunta se o estado deve expropriar os terrenos não cuidados, diverge e diz que "é um trabalho sem fim, pois é difícil convencer os proprietários a cuidarem dos seus terrenos". Perante esta "língua de pau" começa ser difícil de argumentar.
Nenhum dos jornalistas presentes, preocupados apenas com o "soundbite" do ministro Serrano na véspera, se lembrou de perguntar o óbvio: para além dos meios, o que faz o estado na prevenção EFECTIVA desta calamidade, que há uma dezena de anos passou a ser apelidada de "época de fogos"?
São conhecidas as causas naturais do aumento dos "fogos" nesta época: temperaturas mais elevadas, baixa humidade, ventos fortes, etc. Atinge Portugal e outras áreas do Mundo com as mesmas características climatéricas.
Mas existem outras causas, que vêm de longe e são conhecidas dos diversos governos há pelo menos cinquenta anos: desertificação acelerada dos meios rurais, devido à emigração nos anos sessenta e setenta (nas aldeias ficaram apenas os mais velhos que deixaram de trabalhar os campos e de limpar as matas); absentismo dos proprietários rurais, que emigraram para as cidades e deixaram de cuidar dos seus terrenos; aumento da monocultura (pinheiro bravo e eucalipto) em detrimento das árvores tradicionais portuguesas, como o castanheiro, o sobreiro e a oliveira; para além de interesses obscuros, que vão desde a especulação imobiliária, ao preço da madeira ardida e ao uso dos baldios para pastorícia (Aquilino já falava disso em "Quando os lobos uivam" de 1956). Isto, para não falar das "queimadas" supostamentee negligentes e dos pirómanos, pois claro.
De acordo com números recentes, existirão cerca de 500.000ha de floresta em Portugal. A maioria destes terrenos (85%) são de particulares e 67% são constituidos por matas de pinheiros e eucaliptos que, além de crescerem rapidamente, são de combustão fácil. Um verdadeiro barril de pólvora em tempos de seca.
Ontem mesmo, um considerado analista económico, dizia na televisão que tinha um pequeno terreno com pinheiros, mas, quando limpava a mata, custava-lhe 2000 euros, um valor equivalente ao rendimento das árvores plantadas. Como ele, muitos proprietários, existirão. Se o governo ajudasse, talvez valesse a pena...
Bom, se é esta a lógica, então porque é que os proprietários devem possuir terrenos dos quais não cuidam e para os quais exigem meios do estado quando as casas estão em perigo devido à falta de limpeza das suas matas privadas? Isto faz algum sentido?
Adenda: às 14horas, o número de incêndios ultrapassava a centena e as previsões apontam para uma média de duzentos fogos ao fim do dia...
Segue-se Sócrates, a elogiar as corporações e a realçar a melhoria de meios à disposição, sem os quais as "ignições" seriam muito mais do que em 2003. À pergunta se o estado deve expropriar os terrenos não cuidados, diverge e diz que "é um trabalho sem fim, pois é difícil convencer os proprietários a cuidarem dos seus terrenos". Perante esta "língua de pau" começa ser difícil de argumentar.
Nenhum dos jornalistas presentes, preocupados apenas com o "soundbite" do ministro Serrano na véspera, se lembrou de perguntar o óbvio: para além dos meios, o que faz o estado na prevenção EFECTIVA desta calamidade, que há uma dezena de anos passou a ser apelidada de "época de fogos"?
São conhecidas as causas naturais do aumento dos "fogos" nesta época: temperaturas mais elevadas, baixa humidade, ventos fortes, etc. Atinge Portugal e outras áreas do Mundo com as mesmas características climatéricas.
Mas existem outras causas, que vêm de longe e são conhecidas dos diversos governos há pelo menos cinquenta anos: desertificação acelerada dos meios rurais, devido à emigração nos anos sessenta e setenta (nas aldeias ficaram apenas os mais velhos que deixaram de trabalhar os campos e de limpar as matas); absentismo dos proprietários rurais, que emigraram para as cidades e deixaram de cuidar dos seus terrenos; aumento da monocultura (pinheiro bravo e eucalipto) em detrimento das árvores tradicionais portuguesas, como o castanheiro, o sobreiro e a oliveira; para além de interesses obscuros, que vão desde a especulação imobiliária, ao preço da madeira ardida e ao uso dos baldios para pastorícia (Aquilino já falava disso em "Quando os lobos uivam" de 1956). Isto, para não falar das "queimadas" supostamentee negligentes e dos pirómanos, pois claro.
De acordo com números recentes, existirão cerca de 500.000ha de floresta em Portugal. A maioria destes terrenos (85%) são de particulares e 67% são constituidos por matas de pinheiros e eucaliptos que, além de crescerem rapidamente, são de combustão fácil. Um verdadeiro barril de pólvora em tempos de seca.
Ontem mesmo, um considerado analista económico, dizia na televisão que tinha um pequeno terreno com pinheiros, mas, quando limpava a mata, custava-lhe 2000 euros, um valor equivalente ao rendimento das árvores plantadas. Como ele, muitos proprietários, existirão. Se o governo ajudasse, talvez valesse a pena...
Bom, se é esta a lógica, então porque é que os proprietários devem possuir terrenos dos quais não cuidam e para os quais exigem meios do estado quando as casas estão em perigo devido à falta de limpeza das suas matas privadas? Isto faz algum sentido?
Adenda: às 14horas, o número de incêndios ultrapassava a centena e as previsões apontam para uma média de duzentos fogos ao fim do dia...
2010/08/12
A "época" dos fogos
Portugal está a arder e não se vê fim à vista. Talvez quando não houver mais floresta, e, ao fogo, faltar o material de combustão que alimenta os telejornais todos os anos por esta época. A "época", pasme-se, passou a fazer parte do léxico comum, como o Verão, ou a nova temporada do futebol. Já tinhamos a "silly season", que começa algures em Julho; a "rentrée", que se anuncia para Setembro; a época "balnear" e, de há uns anos a esta parte, a "época dos fogos", algures entre Julho e Setembro, que é quando os turistas nos visitam e os emigrantes descem ao país real. Assim, à falta de animação regional, arranjam-se todos os anos uns fogos para animar a "época". Alguém deve estar a ganhar com este negócio, pois não se percebe que um país depauperado e onde ainda existe uma das maiores manchas florestais da Europa (provavelmente o seu maior património natural) deixe queimar todos os anos centenas de milhares de hectares em dois meses apenas. Como é isto possível?
Todos sabemos que as alterações climáticas existem, que as temperaturas estão a aumentar e que a região mediterrânica é propícia a fogos. Também sabemos que os fogos não são um fenómeno específico de Portugal e que acontecem em países e regiões bem mais ricas e preparadas para combatê-los, como a Califórnia, a Austrália e, este ano, até a própria Russia. Tudo isto é verdade, no entanto...
...De acordo com a maioria dos especialistas nesta matéria, não há praticamente fogos de combustão espontânea e 97% dos casos terão origem humana, seja por acção criminosa, seja por negligência. Se, no primeiro caso, é difícil detectar o culpado em plena acto; no segundo, muito pode ser feito e não se compreende que a sensibilização e a prevenção não consigam ser mais eficazes.
Veja-se o caso do aumento e melhoramento dos materiais postos à disposição dos bombeiros desde 2003, o "ano de todos os fogos". Mais viaturas, mais aviões, mais helicópteros, mais coordenação e até um plano para minorar o flagelo. Ajudou? Aparentemente sim, tem havido menos fogos e menos áreas ardidas nos últimos anos. Mas, bastou um Inverno de chuva intensa, que fez aumentar a vegetação e o potencial perigo de combustão em tempo seco, para que tudo voltasse ao princípio.
Estamos a assistir a um dos piores verões da última década e ainda Agosto não chegou a meio...que fazer, pois?
Ao longo das últimas semanas, dezenas de comentadores (entre os quais o patético ministro do MAI) vêm-nos dizer o óbvio: que o clima está a mudar, que as temperaturas estão a aumentar, que há material suficiente e que os bombeiros são uns seres abnegados. Retive três intervenções: a do presidente da Liga Nacional de Bombeiros, a da presidente da Quercus e a do presidente da Cãmara de S. Pedro do Sul. Todos eles confirmaram a avaliação do ministro, mas acrescentaram algo mais do que a "panaceia" habitual. É preciso atacar o mal a montante, a saber:
Um novo ordenamento do território; um cadastro exaustivo da floresta; a alternância de arvores tradicionais, como o castanheiro e o sobreiro, com o eucalipto e o pinheiro, a limpeza da mata no tempo próprio; a obrigação dos proprietários limparem os seus terrenos; uma política de prevenção de proximidade que envolva poderes locais, bombeiros e populações, que são quem melhor conhecem o terreno e a forma mais eficaz de combater os incêndios.
É difícil? É. É impossível? Não. É necessário? Absolutamente. Então, porque é que não se faz?
Todos sabemos que as alterações climáticas existem, que as temperaturas estão a aumentar e que a região mediterrânica é propícia a fogos. Também sabemos que os fogos não são um fenómeno específico de Portugal e que acontecem em países e regiões bem mais ricas e preparadas para combatê-los, como a Califórnia, a Austrália e, este ano, até a própria Russia. Tudo isto é verdade, no entanto...
...De acordo com a maioria dos especialistas nesta matéria, não há praticamente fogos de combustão espontânea e 97% dos casos terão origem humana, seja por acção criminosa, seja por negligência. Se, no primeiro caso, é difícil detectar o culpado em plena acto; no segundo, muito pode ser feito e não se compreende que a sensibilização e a prevenção não consigam ser mais eficazes.
Veja-se o caso do aumento e melhoramento dos materiais postos à disposição dos bombeiros desde 2003, o "ano de todos os fogos". Mais viaturas, mais aviões, mais helicópteros, mais coordenação e até um plano para minorar o flagelo. Ajudou? Aparentemente sim, tem havido menos fogos e menos áreas ardidas nos últimos anos. Mas, bastou um Inverno de chuva intensa, que fez aumentar a vegetação e o potencial perigo de combustão em tempo seco, para que tudo voltasse ao princípio.
Estamos a assistir a um dos piores verões da última década e ainda Agosto não chegou a meio...que fazer, pois?
Ao longo das últimas semanas, dezenas de comentadores (entre os quais o patético ministro do MAI) vêm-nos dizer o óbvio: que o clima está a mudar, que as temperaturas estão a aumentar, que há material suficiente e que os bombeiros são uns seres abnegados. Retive três intervenções: a do presidente da Liga Nacional de Bombeiros, a da presidente da Quercus e a do presidente da Cãmara de S. Pedro do Sul. Todos eles confirmaram a avaliação do ministro, mas acrescentaram algo mais do que a "panaceia" habitual. É preciso atacar o mal a montante, a saber:
Um novo ordenamento do território; um cadastro exaustivo da floresta; a alternância de arvores tradicionais, como o castanheiro e o sobreiro, com o eucalipto e o pinheiro, a limpeza da mata no tempo próprio; a obrigação dos proprietários limparem os seus terrenos; uma política de prevenção de proximidade que envolva poderes locais, bombeiros e populações, que são quem melhor conhecem o terreno e a forma mais eficaz de combater os incêndios.
É difícil? É. É impossível? Não. É necessário? Absolutamente. Então, porque é que não se faz?
2010/08/11
Mama did take my Kodachrome away!
Até parece que custa dizê-lo, mas o último rolo de película Kodachrome --mesmo o último!-- foi usado pelo fotojornalista Steve McCurry. A Eastman Kodak anunciou o fim do fabrico desta película que foi a escolha de tantos fotógrafos e inspirou Paul Simon a escrever a sua canção intitulada, justamente, "Kodachrome".Depois da Polaroid, foi agora a vez deste outro ícone da fotografia desaparecer.
Kodachrome
You gave us those nice bright colors
You gave us the greens of summers
Made you think all the world's a sunny day, oh yeah!
O Kodachrome era sobretudo um processo único de fabrico que permitia a produção de um filme de que resultavam imagens mais estáveis ao longo do tempo e com cores mais vivas. Estes poderão ser os factores que ditaram a longevidade desta película.
Que o "digital", finalmente, conseguiu desfazer.
A película fotográfica não vai acabar para já, mas com o desaparecimento do Kodachrome é uma era especial que chega mesmo ao fim. Esta é a era do pixel. Como dizia o outro, "habituem-se!"
Por mim, mais pixel, menos pixel, com Kodachrome ou sem Kodachrome, vou procurar continuar a pensar que o mundo é um "sunny day".
Manobras do "aparelho"
Narciso Miranda, o "vice-rei do Norte", foi expulso do Partido Socialista. Ele e mais 200 militantes de base, que apoiaram a sua lista nas últimas eleições autárquicas de Matosinhos.
Aparentemente, a razão invocada pelo PS, ao qual Narciso Miranda já pertence desde 1974, assenta numa interpretação dos estatutos que impede um militante de concorrer contra listas do seu próprio partido.
Ora, de acordo com a versão de ex-presidente de Matosinhos, a federação do Norte, onde ele e os militantes expulsos estavam enquadrados, não os deixou apresentar listas para escolherem os candidatos locais. Daí, a necessidade de uma lista alternativa nas eleições autárquicas de 2009.
Vem de longe a animosidade, de um certo PS, ao ex-presidente de Matosinhos. Entre outras razões, pelo seu envolvimento no célebre caso da Lota, que terminaria com a morte prematura de Sousa Franco. Acontece que, para além de Miranda, mais gente esteve envolvida nesse deplorável momento da democracia portuguesa, entre os quais o seu principal oponente em Matosinhos, hoje assessor de António Costa na Câmara de Lisboa...
Miranda (com ou sem razão) é um homem ferido na sua honra e não hesita em acusar a geração actual de dirigentes sem profissão que vegetam no partido, sem ideais, para além do poder pelo poder.
Como bem analisou Adelino Maltês, já vimos este filme noutras épocas e noutros partidos, ao longo da história portuguesa recente. Estamos a assistir ao fim de um ciclo que não vai acabar amanhã, mas vai levar alguns, talvez dezenas, de anos...
Que Narciso, um homem do "aparelho" há 37 anos, não tenha ainda compreendido isto e apelide os camaradas de "estalinistas", é difícil de acreditar. E se o homem for mesmo socialista?
Aparentemente, a razão invocada pelo PS, ao qual Narciso Miranda já pertence desde 1974, assenta numa interpretação dos estatutos que impede um militante de concorrer contra listas do seu próprio partido.
Ora, de acordo com a versão de ex-presidente de Matosinhos, a federação do Norte, onde ele e os militantes expulsos estavam enquadrados, não os deixou apresentar listas para escolherem os candidatos locais. Daí, a necessidade de uma lista alternativa nas eleições autárquicas de 2009.
Vem de longe a animosidade, de um certo PS, ao ex-presidente de Matosinhos. Entre outras razões, pelo seu envolvimento no célebre caso da Lota, que terminaria com a morte prematura de Sousa Franco. Acontece que, para além de Miranda, mais gente esteve envolvida nesse deplorável momento da democracia portuguesa, entre os quais o seu principal oponente em Matosinhos, hoje assessor de António Costa na Câmara de Lisboa...
Miranda (com ou sem razão) é um homem ferido na sua honra e não hesita em acusar a geração actual de dirigentes sem profissão que vegetam no partido, sem ideais, para além do poder pelo poder.
Como bem analisou Adelino Maltês, já vimos este filme noutras épocas e noutros partidos, ao longo da história portuguesa recente. Estamos a assistir ao fim de um ciclo que não vai acabar amanhã, mas vai levar alguns, talvez dezenas, de anos...
Que Narciso, um homem do "aparelho" há 37 anos, não tenha ainda compreendido isto e apelide os camaradas de "estalinistas", é difícil de acreditar. E se o homem for mesmo socialista?
2010/08/09
"O ensino do Português"
Entrevista no Jornal das Nove de Mário Crespo a Maria do Carmo Vieira, professora, a propósito de um livro de sua autoria, agora publicado chamado "O ensino do Português". Vou ver se consigo apanhar o link e partilhá-lo aqui convosco. Entretanto, há uma outra intervenção dela numa edição do Plano Inclinado e pode ver aqui uma outra entrevista.
Esta dada a M. Crespo é uma entrevista sem tiques da moda, com silêncios significativos, de verdadeira reflexão, uma mulher certamente apaixonada e totalmente comprometida com aquilo que faz. Não saber escrever correctamente o Português implica não pensar bem; os alunos foram passando nestes anos sem saberem nada; por causa do facilitismo estamos a criar alunos que se vão tornar vítimas da sua própria ignorância, eis algumas ideias fortes, provocações lançadas à nossa consciência por esta mulher de aparência frágil, exuberante discreta, desinibida, sem complexos e sem papas na língua. Vale a pena ver esta entrevista. Um momento raro de televisão.
Ladyzhensky
Não deixa de ter o seu quê de ironia... Enquanto a Rússia sofre uma onda de calor extremo que leva a que a média diária de mortes tenha duplicado durante este período, um russo foi procurar na Finlândia o calor que, certamente, ainda lhe faltava em casa e morreu, sábado passado, vítima de queimaduras graves... numa competição de sauna.
A dita, soi-disant, "competição" chama-se "Campeonato Mundial de Sauna" e consiste em permanecer, o máximo de tempo possível, numa sauna aquecida a 110 º C.
O mais estranho é que a "competição" atraiu cerca de 1,000 espectadores e ao lado de Vladimir Ladyzhensky --o nome do "herói" agora desaparecido-- estavam outros 130 "atletas", especialistas neste desporto de cozer ao vapor.
A dita, soi-disant, "competição" chama-se "Campeonato Mundial de Sauna" e consiste em permanecer, o máximo de tempo possível, numa sauna aquecida a 110 º C.
O mais estranho é que a "competição" atraiu cerca de 1,000 espectadores e ao lado de Vladimir Ladyzhensky --o nome do "herói" agora desaparecido-- estavam outros 130 "atletas", especialistas neste desporto de cozer ao vapor.
2010/08/05
Mas vamos ter submarinos, caraças!
Um "contexto de contenção orçamental e de redução da despesa pública" foi a justificação arranjada pelo Ministério da Educação para congelar as verbas atribuídas ao ensino da música, no âmbito do chamado ensino artístico.
Trata-se de uma manobra feia, feita, como alguém me apontou, assim, pela calada do verão, que apanha toda a gente de surpresa e em contraciclo daquilo que tinha sido a orientação do ME. Nesta onda de disparar em todas as direcções e atacar os mais vulneráveis, os ataques também chegam à pobre da música que fica assim mais pobre ainda...
A medida é tomada numa altura que não permite às escolas honrar compromissos assumidos em tempo oportuno, prejudicando essas escolas, os seus professores e alunos. E suspeito que, no caso dos professores, os mais prejudicados serão justamente os jovens licenciados que buscam uma oportunidade de se "inserir no mercado de trabalho", justamente aqueles por quem os responsáveis vertem lágrimas cínicas a toda a hora e que dizem querer proteger. E vamos ver como se resolve o problema dos alunos já matriculados, que agora ficam de fora por falta de verba...
É significativo que esta medida seja tomada pelo Ministério da Educação numa altura em que uma, digamos, escritora detém a pasta, e em que temos como Ministra da Cultura, digamos, uma pianista. Diz bem do peso que elas, a educação e a cultura terão no Conselho de Ministros e diz bem do peso que para estas ministras tem o ensino artístico. Cultura e ensino, são, como fica amplamente demonstrado para quem ainda tinha dúvidas, conceitos descartáveis.
Não pode esta medida deixar de suscitar a todos nós o mais vivo repúdio!
Trata-se de uma manobra feia, feita, como alguém me apontou, assim, pela calada do verão, que apanha toda a gente de surpresa e em contraciclo daquilo que tinha sido a orientação do ME. Nesta onda de disparar em todas as direcções e atacar os mais vulneráveis, os ataques também chegam à pobre da música que fica assim mais pobre ainda...
A medida é tomada numa altura que não permite às escolas honrar compromissos assumidos em tempo oportuno, prejudicando essas escolas, os seus professores e alunos. E suspeito que, no caso dos professores, os mais prejudicados serão justamente os jovens licenciados que buscam uma oportunidade de se "inserir no mercado de trabalho", justamente aqueles por quem os responsáveis vertem lágrimas cínicas a toda a hora e que dizem querer proteger. E vamos ver como se resolve o problema dos alunos já matriculados, que agora ficam de fora por falta de verba...
É significativo que esta medida seja tomada pelo Ministério da Educação numa altura em que uma, digamos, escritora detém a pasta, e em que temos como Ministra da Cultura, digamos, uma pianista. Diz bem do peso que elas, a educação e a cultura terão no Conselho de Ministros e diz bem do peso que para estas ministras tem o ensino artístico. Cultura e ensino, são, como fica amplamente demonstrado para quem ainda tinha dúvidas, conceitos descartáveis.
Não pode esta medida deixar de suscitar a todos nós o mais vivo repúdio!
Chapéus e cartéis
O presidente do México Felipe Calderón declarou ontem numa conferência sobre crime no México que os gangues da droga se afastaram do seu modo de operação habitual, que consiste na produção e distribuição da droga, para se transformarem num governo de facto nas áreas que controlam. Felipe Calderón diz que só ao governo cabe a cobrança de impostos, mas estes gangues ao extorquirem dinheiro tanto a comerciantes com actividade legítima, como ilegítima --uma espécie de impostos-- estão a desafiar o governo, e até a tentar substituí-lo. Os cartéis da droga, refere Calderón, pretendem criar um monopólio e mesmo as suas próprias leis pela força das armas. Deixá-los entregues às suas actividades, sem reacção, afirma o presidente do México, "é simplesmente inaceitável."
É o que pode acontecer aos estados quando o voto que legitima os seus dirigentes se demite de controlar os abusos.
A linha que divide os cartéis da droga de um governo legítimo pode ser de facto ténue. Há uma diferença real entre a cobrança legítima e a extorsão de impostos, mas ela nem sempre é clara... De resto, cobrar impostos, criar monopólios e leis, pela força das armas se for necessário, não é exclusivo dos cartéis da droga. Há outros métodos para nos extorquir os impostos e cercear a nossa liberdade, e há outros cartéis que não precisam sequer de armas. Basta-lhes palavreado embalador.
A linha que divide o exercício legítimo e ilegítimo do poder é ténue, por vezes mesmo invisível, e vai-se curvando às circunstâncias.
Cartéis, tal como os chapéus, há muitos...
É o que pode acontecer aos estados quando o voto que legitima os seus dirigentes se demite de controlar os abusos.
A linha que divide os cartéis da droga de um governo legítimo pode ser de facto ténue. Há uma diferença real entre a cobrança legítima e a extorsão de impostos, mas ela nem sempre é clara... De resto, cobrar impostos, criar monopólios e leis, pela força das armas se for necessário, não é exclusivo dos cartéis da droga. Há outros métodos para nos extorquir os impostos e cercear a nossa liberdade, e há outros cartéis que não precisam sequer de armas. Basta-lhes palavreado embalador.
A linha que divide o exercício legítimo e ilegítimo do poder é ténue, por vezes mesmo invisível, e vai-se curvando às circunstâncias.
Cartéis, tal como os chapéus, há muitos...
2010/08/03
Estupidez
O Almirante Vieira Matias usou palavras fortes para caracterizar, o que ele considera, uma campanha contra a aquisição dos submarinos. Usou, a propósito, o termo "estupidez" várias vezes e de forma particularmente veemente. Deixa-me sempre inquieto ouvir um alto dirigente militar usar este tipo de "argumentos" para defender o seu ponto de vista.
Acontece que o custo dos submarinos é da ordem dos 980 milhões de euros, o que constitui uma percentagem à volta de 0.6% do PIB. São valores que impressionam. Não quero fazer aqui comparações rigorosas (não é fácil...) mas deixem-me dar dois exemplo. Em 2006, o custo total do sistema de saúde, por exemplo, terá sido de cerca de 10% do PIB. Em 2007, o custo total das pensões mínimas do regime geral de segurança social foi de cerca de 3 milhões de euros, aproximadamente 0.3% do que custaram agora estes subamarinos. Ou seja, em traços muito gerais e mesmo que corrigíssemos o desfasamento temporal destes dados e a sua previsível variação para os anos subsequentes (que eu não fiz!) é fácil perceber que o Estado consome, levianamente, em dois submarinos, uma percentagem incompreensivelmente grande do nosso PIB. Dois submarinos apenas custam mais de 300 vezes o valor que a totalidade dos pensionistas mais pobres recebeu em 2007. São opções que custa aceitar e só por leviandade se pode dizer que quem se opõe a estas escolhas é estúpido.
E por isso acho que uma aquisição destas representa uma injustiça sem justificação e por isso não devia ser feita. Eu diria, se fosse almirante, que é uma estupidez... A situação das finanças públicas agrava ainda mais, claro, todo este quadro, mas nem era necessário tê-la em conta.
Corremos o risco de ver umas dezenas de marujos a divertirem-se à grande com estes brinquedos novos que lhes arranjaram, enquanto os tais "novos pobres" e os velhos pobres vão caindo aí pelos cantos sem nada para comer, batendo à porta do bispo Carlos Azevedo para este lhes arranjar uma bucha.
Ou querem ver que é tudo mentira e que o bispo anda a gozar com a malta e o almirante Matias afinal é que tem razão?
Ou podemos, enquanto rangemos os tridentes de raiva, contabilizar isto como um donativo generoso que estamos a fazer à Alemanha para adquirimos o direito a sair do humilhante grupo dos PIIGs?
Acontece que o custo dos submarinos é da ordem dos 980 milhões de euros, o que constitui uma percentagem à volta de 0.6% do PIB. São valores que impressionam. Não quero fazer aqui comparações rigorosas (não é fácil...) mas deixem-me dar dois exemplo. Em 2006, o custo total do sistema de saúde, por exemplo, terá sido de cerca de 10% do PIB. Em 2007, o custo total das pensões mínimas do regime geral de segurança social foi de cerca de 3 milhões de euros, aproximadamente 0.3% do que custaram agora estes subamarinos. Ou seja, em traços muito gerais e mesmo que corrigíssemos o desfasamento temporal destes dados e a sua previsível variação para os anos subsequentes (que eu não fiz!) é fácil perceber que o Estado consome, levianamente, em dois submarinos, uma percentagem incompreensivelmente grande do nosso PIB. Dois submarinos apenas custam mais de 300 vezes o valor que a totalidade dos pensionistas mais pobres recebeu em 2007. São opções que custa aceitar e só por leviandade se pode dizer que quem se opõe a estas escolhas é estúpido.
E por isso acho que uma aquisição destas representa uma injustiça sem justificação e por isso não devia ser feita. Eu diria, se fosse almirante, que é uma estupidez... A situação das finanças públicas agrava ainda mais, claro, todo este quadro, mas nem era necessário tê-la em conta.
Corremos o risco de ver umas dezenas de marujos a divertirem-se à grande com estes brinquedos novos que lhes arranjaram, enquanto os tais "novos pobres" e os velhos pobres vão caindo aí pelos cantos sem nada para comer, batendo à porta do bispo Carlos Azevedo para este lhes arranjar uma bucha.
Ou querem ver que é tudo mentira e que o bispo anda a gozar com a malta e o almirante Matias afinal é que tem razão?
Ou podemos, enquanto rangemos os tridentes de raiva, contabilizar isto como um donativo generoso que estamos a fazer à Alemanha para adquirimos o direito a sair do humilhante grupo dos PIIGs?
2010/07/31
Chumbos
O governo pretende, ao que parece, acabar com os chumbos no ensino. Confesso que não tenho certezas sobre esta medida, como não tenho certezas sobre a continuação dos exames. Mas, tenho umas quantas certezas sobre outros assuntos. Em primeiro lugar, tenho a certeza que esta medida, como outras deste governo, a ser implementada, correria o risco de, passado algum tempo, ser anulada, voltando tudo à primeira forma. Tem sido o modo de governar deste executivo. Primeiro, mandam o barro à parede, se pegar fica, se não pegar remove-se. Tudo depende do barómetro das sondagens e da "conjuntura" política... É isto o "programa" de governo e é assim que uma série de incautos vai mantendo a crença que o primeiro ministro é um "determinado" e alguém cheio de coragem.
Já a reacção da oposição traz-me à mente os filmes do Borat. As situações criadas por este personagem são tão embaraçosas que nem sequer dão vontade de rir. Deixam-nos incomodados. De entre os argumentos que ouvi para contestar a proposta do fim dos chumbos destaco dois: acabar com eles é um ataque à meritocracia e não contribui para preparar as gerações futuras para o mercado de trabalho competitivo.
Ouve-se e pasma-se!
Esquecem os cavalheiros que cantam estas melodias enganadoras, usando o argumento do mérito, que não basta tê-lo, é preciso que seja reconhecido. Podem os alunos ser sujeitos a todos os exames e testes possíveis e imaginários, podem-se criar todas as escalas possíveis para aferir a sua resposta a estes testes e exames porque no final vai sempre faltar o reconhecimento, na prática, do mérito. De há muitos anos que o mérito está perfeitamente hierarquizado, que sabemos perfeitamente quem o tem e quem o não tem. Desprezamos os primeiros e promovemos os segundos. Até lhes damos lugares de topo no Estado! E sabemos mais! Sabemos que quanto mais mérito tivermos mais nos vão às canelas! Os meritosos acabam emigrantes...
Esquecem-se os cavalheiros que cantam estas melodias enganadoras, usando o argumento da competitividade, que mais do que preparar os mais novos para competir, interessa ao país prepará-los para cooperar. A competir já andamos todos, cada uma para seu lado, a espernear e a tentar sobreviver nesta sociedade onde as palavras solidariedade e cooperação foram de há muito banidas do dicionário, sem acordo ortográfico nem piedade. Seria interessante experimentar a colaboração e a solidariedade entre todos para resolvermos os nossos problemas, porque assim, a competir, está provado que não vamos lá.
Estão, pois, todos chumbados. Pena termos de gramar os repetentes...
Já a reacção da oposição traz-me à mente os filmes do Borat. As situações criadas por este personagem são tão embaraçosas que nem sequer dão vontade de rir. Deixam-nos incomodados. De entre os argumentos que ouvi para contestar a proposta do fim dos chumbos destaco dois: acabar com eles é um ataque à meritocracia e não contribui para preparar as gerações futuras para o mercado de trabalho competitivo.
Ouve-se e pasma-se!
Esquecem os cavalheiros que cantam estas melodias enganadoras, usando o argumento do mérito, que não basta tê-lo, é preciso que seja reconhecido. Podem os alunos ser sujeitos a todos os exames e testes possíveis e imaginários, podem-se criar todas as escalas possíveis para aferir a sua resposta a estes testes e exames porque no final vai sempre faltar o reconhecimento, na prática, do mérito. De há muitos anos que o mérito está perfeitamente hierarquizado, que sabemos perfeitamente quem o tem e quem o não tem. Desprezamos os primeiros e promovemos os segundos. Até lhes damos lugares de topo no Estado! E sabemos mais! Sabemos que quanto mais mérito tivermos mais nos vão às canelas! Os meritosos acabam emigrantes...
Esquecem-se os cavalheiros que cantam estas melodias enganadoras, usando o argumento da competitividade, que mais do que preparar os mais novos para competir, interessa ao país prepará-los para cooperar. A competir já andamos todos, cada uma para seu lado, a espernear e a tentar sobreviver nesta sociedade onde as palavras solidariedade e cooperação foram de há muito banidas do dicionário, sem acordo ortográfico nem piedade. Seria interessante experimentar a colaboração e a solidariedade entre todos para resolvermos os nossos problemas, porque assim, a competir, está provado que não vamos lá.
Estão, pois, todos chumbados. Pena termos de gramar os repetentes...
2010/07/29
Uma vitória de Pirro (2)
Afinal, a "golden share", que era tão importante para os interesses nacionais, já não é importante e, como era previsto, o governo congratulou-se com negócio da PT na Vivo...O que, em linguagem futebolística, pode ser traduzido pela máxima "o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira".
Mas, alguém ainda acredita num primeiro-ministro, que um dia diz uma coisa e, no dia seguinte, o seu contrário?
Mas, alguém ainda acredita num primeiro-ministro, que um dia diz uma coisa e, no dia seguinte, o seu contrário?
2010/07/24
O cestinho
Portugal atravessa hoje uma crise que todos somos obrigados a reconhecer. Muitos atribuem a origem dessa crise, não a aspectos conjunturais resultantes de problemas financeiros originados por um qualquer desacerto de gestão, doméstico ou ocorrido alhures, mas a aspectos estruturais, a uma crise, sim, mas de identidade e de rumo do país. Têm razão.
O país está como aquelas criaturas que vemos por aí vivendo ao sabor das circunstâncias, sem desígnio, virando-se para onde "estiver a dar".
Todos nós conhecemos certamente muita gente com projecto de vida, muita gente determinada e lutadora, muita gente que vive vida própria, independente, mas o país, esta entidade colectiva, não tem direcção, nem independência.
Não é a crise do subprime ou o problema da dívida soberana que nos corrói. É, de facto, a total falta de rumo colectivo. Todos os outros problemas vêm daí.
Não é a crise do subprime ou o problema da dívida soberana que nos corrói. É, de facto, a total falta de rumo colectivo. Todos os outros problemas vêm daí.
Não me perguntem a mim o que fazer porque eu sou só compositor... Mas, perguntem aos imbecis que nos dirigem, aos que detêm o poder e aos que vigiam o exercício desse poder, o que raio andam eles a fazer!
Deixa-me verdadeiramente entristecido ver que face às imensas dificuldades, ao aprofundamento das desigualdades e à manifesta ausência de soluções competentes, as entidades oficiais e organizações civis se remetam a uma lógica de mão estendida.
A Igreja Católica não encontra melhor solução do que pedir o dízimo aos fiéis, neste caso, a solução ridícula do tal fundo para acudir aos "mais necessitados". É claro que a Igreja tem sempre esta solução fácil de fazer passar o cestinho para a malta lá deitar umas moedas. Não se interroga sobre a origem dessas moedas, nem dá na sua doutrina valor ao modo como foram ganhas. O dinheiro, para a Igreja Católica, cai literalmente do céu. Como, enquanto instituição, não cria riqueza, a solução que encontra para quando a massa começa a faltar é passar o cestinho.
Não me espanta, pois, (embora me choque...) o apelo do bispo Carlos Azevedo. Mas, espanta-me e choca-me o apelo do Ministro das Finanças às agências de rating para que tenham em conta os resultados dos stress tests à banca portuguesa nas suas avaliações futuras. Apelo compungido, sente-se-lhe mesmo a genuflexão. Para quê? Para podermos continuar a pedir dinheiro, mas este sair mais barato. A variante laica do cestinho dos católicos. Espanta-me que o ministro português faça apelos desta natureza depois de ter desacreditado por palavras a acção dessas agências e choca-me que não faça, enquanto responsável governamental, acompanhar este apelo de uma nota do género "eu digo isto, mas alerto os portugueses para a necessidade que temos de criar mais riqueza para não ter de andar a mendigar no estrangeiro." E envergonha-me não o ouvir anunciar medidas. Devemos gerar a nossa própria riqueza, devemos construir juntos um plano para superar os nossos problemas e encontrar os mecanismos para o concretizar. Mas, não ouvimos desde há muito, muito tempo uma palavra sequer sobre nada disto, nem uma ideia e muito menos uma medida para estimular a criação de riqueza.
Não é só a oposição, é o governo também que anda ao sabor dos ventos, sem um desígnio mobilizador. E não é problema de hoje, é coisa antiga, de décadas.
Em suma, nada, nem um projecto sequer. Limitamo-nos a passar o cestinho quando é preciso, que seguramos com uma mão enquanto com a outra seguramos as calças para não cairem.
Não é só a oposição, é o governo também que anda ao sabor dos ventos, sem um desígnio mobilizador. E não é problema de hoje, é coisa antiga, de décadas.
Em suma, nada, nem um projecto sequer. Limitamo-nos a passar o cestinho quando é preciso, que seguramos com uma mão enquanto com a outra seguramos as calças para não cairem.
Como é que alguém que tem uma qualquer forma de poder nas mãos consegue verdadeiramente sentir-se com a sua consciência limpa quando se limita a estender o cestinho ou a pedir que o passem?
2010/07/23
O exemplo alemão
A Alemanha é apontada geralmente como o país austero, das boas contas, da grande exigência e rigor. É também tido como o país do trabalho colectivo, preciso e organizado. Uma máquina, dizem! Os alemães pensam como um grande colectivo, remando aparentemente todos para o mesmo lado.
Instalada a crise internacional, a Alemanha apressa-se logo a marcar terreno impondo a si própria medidas de apertado controlo financeiro e tratando com sobranceria os países em dificuldade (o caso da Grécia, por exemplo), sugerindo medidas aos outros países, receitando sanções e castigos indizíveis diversos a quem não siga o seu exemplo de austeridade e persista na via financeira pecaminosa.
Não é que, vejam lá como as coisa são, a popularidade da senhora Merkl caiu entretanto para os níveis mais baixos de sempre?!
Se calhar, é abusivo ver aqui uma relação de causa-efeito. Se calhar, as medidas até serão consideradas insuficientes. Mas, também é legítimo imaginar que o povo terá ficado desconfiado destes, que agora reclamam tanta austeridade, por terem feito vista grossa ao facto de uma parte do buraco financeiro dos países em dificuldade ter sido comprada pelos austeros bancos alemães... Austeros bancos alemães estes que não quiseram contudo deixar de dar uma perninha no regabofe financeiro internacional, deixando a máquina alemã em pane e a precisar de manutenção. Vamos ver o que dizem os stress tests sobre os bancos alemães.
Instalada a crise internacional, a Alemanha apressa-se logo a marcar terreno impondo a si própria medidas de apertado controlo financeiro e tratando com sobranceria os países em dificuldade (o caso da Grécia, por exemplo), sugerindo medidas aos outros países, receitando sanções e castigos indizíveis diversos a quem não siga o seu exemplo de austeridade e persista na via financeira pecaminosa.
Não é que, vejam lá como as coisa são, a popularidade da senhora Merkl caiu entretanto para os níveis mais baixos de sempre?!
Se calhar, é abusivo ver aqui uma relação de causa-efeito. Se calhar, as medidas até serão consideradas insuficientes. Mas, também é legítimo imaginar que o povo terá ficado desconfiado destes, que agora reclamam tanta austeridade, por terem feito vista grossa ao facto de uma parte do buraco financeiro dos países em dificuldade ter sido comprada pelos austeros bancos alemães... Austeros bancos alemães estes que não quiseram contudo deixar de dar uma perninha no regabofe financeiro internacional, deixando a máquina alemã em pane e a precisar de manutenção. Vamos ver o que dizem os stress tests sobre os bancos alemães.
2010/07/22
Com este PSD assim vamos continuar a ter de gramar o PS...
Antes de mais nada há que perguntar por que raio vem toda esta histeria com a pretensa revisão constitucional?! É uma pergunta que deixo à imaginação dos leitores do Face. Ocorrem-me várias explicações, umas mais delirantes do que outras, mas deixemos por agora o assunto.
O que fica de tudo isto? O PSD quer liberalizar ainda mais os despedimentos. Ponto, parágrafo. É este o fim último da "estratégia" de revisão proposta. Como diz Carvalho da Silva "a Constituição é clara nesta matéria" e o que o PSD quer é, com cambalhotas de retórica capciosa, mas saloia, subverter simplesmente o princípio constitucional. Para quê, pergunta-se? Remeto para o primeiro parágrafo...
Sugerir, contudo, numa altura em que os trabalhadores e a população em geral vivem sobre as brasas da precariedade, numa altura em que diariamente fecham empresas e se anunciam constantemente novos despedimentos (ontem foi a Charles a anunciar o fecho das suas lojas e o despedimento de mais duzentos e tal trabalhadores), que seja possível despedir por "razões atendíveis", só pode ser equívoco, provocação ou piada de mau gosto...
Já é possível despedir por "razões atendíveis", como é fácil constantar pelos números do desemprego. O PSD acha que não e justifica a proposta... com o desemprego existente. Cuja causa atribui à dificuldade em despedir! É uma coisa absolutamente delirante, nunca se viu nada assim.
À falta de um desígnio para o país (o primeiro ministro não se cansa de repetir esta ideia e, neste capítulo, convenhamos, tem razão...) , o que o PSD vem propôr é a captação de investimento para pagar os desmandos da república à custa de um regabofe ainda maior em matéria de despedimentos. Pior do que o que se passa agora, estão a ver?
Transformar o mercado de trabalho português numa espécie de enorme Feira de Carcavelos do Laboral, onde qualquer mafioso possa, simplesmente, vir explorar a mão de obra para canhão que temos, oferecendo condições ainda mais precárias de trabalho, sem estratégia, sem horizonte, sem valor acrescentado. Eis o grande desígnio do PSD para o País. PSD que, certamente empolgado com estas habilidades, faz soar alto as trombetas todas e cerra fileiras como se estivesse prestes a investir contra o turco!
Deu contudo o PSD um valente tiro no pé. Conseguiu fazer o PS aparecer como um partido de esquerda, defensor dos valores do regime nascido em Abril de 74... Aparecer não como o partido culpado que é pelo estado a que chegámos, mas como defensor das vítimas que ele próprio fez. Dá vontade de rir ver o PS, a atacar com indignação as propostas do PSD. O mesmo PS que tem feito tudo para tudo mudar, sem precisar de rever a constituição e sempre com o acordo tácito do PSD. É patético!
A sofreguidão com que o PS aproveitou esta escorregadela brutal de Passos Coelho, reagindo às propostas do PSD com enorme rapidez e metendo os seus pesos pesados todos a atacar a proposta social-democrata nos telejornais, ao vivo e em simultâneo, diz bem como a agência de agitprop do PS funciona. O PS sabe que o tempo não joga a seu favor e agiu rápido. A fogosidade de Passos Coelho traiu-o e fê-lo dar um trambolhão. Dentro de algum tempo os que agora aplaudem estas propostas vão receber a factura desta operação desastrada e a guerra dentro do PSD vai voltar a estalar. Tanto que o jovem prometia... O PS e o PSD devem estar agora a perceber os supreendentes elogios do dr. Soares ao novel cunico-presidente.
No meio disto tudo, os partidos da esquerda parlamentar parecem, pela reacção pífia que tiveram em relação a tudo isto, ter ido já de férias e o CDS lá se vai safando, marcando pontos preciosos ao fazer o discurso desta esquerda em aparente vilegiatura. O dr. Passos Coelho devia aprender umas lições de estratégia com o dr. Portas.
O que fica de tudo isto? O PSD quer liberalizar ainda mais os despedimentos. Ponto, parágrafo. É este o fim último da "estratégia" de revisão proposta. Como diz Carvalho da Silva "a Constituição é clara nesta matéria" e o que o PSD quer é, com cambalhotas de retórica capciosa, mas saloia, subverter simplesmente o princípio constitucional. Para quê, pergunta-se? Remeto para o primeiro parágrafo...
Sugerir, contudo, numa altura em que os trabalhadores e a população em geral vivem sobre as brasas da precariedade, numa altura em que diariamente fecham empresas e se anunciam constantemente novos despedimentos (ontem foi a Charles a anunciar o fecho das suas lojas e o despedimento de mais duzentos e tal trabalhadores), que seja possível despedir por "razões atendíveis", só pode ser equívoco, provocação ou piada de mau gosto...
Já é possível despedir por "razões atendíveis", como é fácil constantar pelos números do desemprego. O PSD acha que não e justifica a proposta... com o desemprego existente. Cuja causa atribui à dificuldade em despedir! É uma coisa absolutamente delirante, nunca se viu nada assim.
À falta de um desígnio para o país (o primeiro ministro não se cansa de repetir esta ideia e, neste capítulo, convenhamos, tem razão...) , o que o PSD vem propôr é a captação de investimento para pagar os desmandos da república à custa de um regabofe ainda maior em matéria de despedimentos. Pior do que o que se passa agora, estão a ver?
Transformar o mercado de trabalho português numa espécie de enorme Feira de Carcavelos do Laboral, onde qualquer mafioso possa, simplesmente, vir explorar a mão de obra para canhão que temos, oferecendo condições ainda mais precárias de trabalho, sem estratégia, sem horizonte, sem valor acrescentado. Eis o grande desígnio do PSD para o País. PSD que, certamente empolgado com estas habilidades, faz soar alto as trombetas todas e cerra fileiras como se estivesse prestes a investir contra o turco!
Deu contudo o PSD um valente tiro no pé. Conseguiu fazer o PS aparecer como um partido de esquerda, defensor dos valores do regime nascido em Abril de 74... Aparecer não como o partido culpado que é pelo estado a que chegámos, mas como defensor das vítimas que ele próprio fez. Dá vontade de rir ver o PS, a atacar com indignação as propostas do PSD. O mesmo PS que tem feito tudo para tudo mudar, sem precisar de rever a constituição e sempre com o acordo tácito do PSD. É patético!
A sofreguidão com que o PS aproveitou esta escorregadela brutal de Passos Coelho, reagindo às propostas do PSD com enorme rapidez e metendo os seus pesos pesados todos a atacar a proposta social-democrata nos telejornais, ao vivo e em simultâneo, diz bem como a agência de agitprop do PS funciona. O PS sabe que o tempo não joga a seu favor e agiu rápido. A fogosidade de Passos Coelho traiu-o e fê-lo dar um trambolhão. Dentro de algum tempo os que agora aplaudem estas propostas vão receber a factura desta operação desastrada e a guerra dentro do PSD vai voltar a estalar. Tanto que o jovem prometia... O PS e o PSD devem estar agora a perceber os supreendentes elogios do dr. Soares ao novel cunico-presidente.
No meio disto tudo, os partidos da esquerda parlamentar parecem, pela reacção pífia que tiveram em relação a tudo isto, ter ido já de férias e o CDS lá se vai safando, marcando pontos preciosos ao fazer o discurso desta esquerda em aparente vilegiatura. O dr. Passos Coelho devia aprender umas lições de estratégia com o dr. Portas.
2010/07/15
A rua da ignorância
Na mesma semana em que a universidade do México prepara uma homenagem a Saramago, a Assembleia Municipal do Porto vetou o nome do escritor para uma rua da cidade. Certamente inspirado por Sousa Lara, o autarca Rui Rio vai ficar na história pela pior das razões: a ignorância.
2010/07/11
Parabéns ao polvo!
Pese a resistência holandesa, a vitória espanhola é indiscutível. Ganhou o melhor futebol. Até o polvo alemão já tinha percebido o óbvio.
2010/07/09
Uma vitória de Pirro
Com seria de prever, o Tribunal Europeu de Justiça declarou inconstitucional a utilização da "golden share" portuguesa na PT, que inviabilizava o negócio da compra da Vivo pela Telefonica. Voltámos, assim, ao princípio e não tardará muito que a multinacional espanhola venha a concretizar o negócio que há muito tempo desejava.
Valeu de alguma coisa o gesto nacionalista e patriótico de Sócrates? Aparentemente, não, ainda que, em termos financeiros, possa significar um maior encaixe do que aquele que seria previsível sem a utilização da "fatia dourada". Derrotado no campo jurídico, ao governo mais não restará de que argumentar que, desta forma, também defendeu os interesses dos accionistas. Isto porque a PT continua a ser considerada uma empresa estratégica no desenvolvimento económico de Portugal e, como tal, deve continuar "portuguesa". Aparentemente, o argumento faz sentido. Mas, se a PT é estratégica para a nossa economia, porque não nacionalizá-la? É esta contradição, aparentemente insanável, que o governo "socialista" de Sócrates não é capaz de resolver.
Valeu de alguma coisa o gesto nacionalista e patriótico de Sócrates? Aparentemente, não, ainda que, em termos financeiros, possa significar um maior encaixe do que aquele que seria previsível sem a utilização da "fatia dourada". Derrotado no campo jurídico, ao governo mais não restará de que argumentar que, desta forma, também defendeu os interesses dos accionistas. Isto porque a PT continua a ser considerada uma empresa estratégica no desenvolvimento económico de Portugal e, como tal, deve continuar "portuguesa". Aparentemente, o argumento faz sentido. Mas, se a PT é estratégica para a nossa economia, porque não nacionalizá-la? É esta contradição, aparentemente insanável, que o governo "socialista" de Sócrates não é capaz de resolver.
2010/07/03
"Tudo o resto é hermenêutica"
Alberto Manguel é um autor por quem tenho uma especial admiração. Numa excelente entrevista publicada ontem no Público, quando lhe perguntam se pensa que a leitura está a perder terreno, responde "O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor é preciso ser estúpido."
Não sei se a Ministra da Cultura percebe perfeitamente o que significa ocupar um cargo de Estado e se sabe do que fala quando usa a expressão hermenêutica no seu artigo "Cultura sem hermenêutica", também ontem vindo a lume no Público.
Mas, sei que esse artigo confirma a total justeza do comentário de Manguel.
Não sei se a Ministra da Cultura percebe perfeitamente o que significa ocupar um cargo de Estado e se sabe do que fala quando usa a expressão hermenêutica no seu artigo "Cultura sem hermenêutica", também ontem vindo a lume no Público.
Mas, sei que esse artigo confirma a total justeza do comentário de Manguel.
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