2011/01/27

A rua árabe

Três dias, mil prisioneiros e cinco mortos depois, a revolta no Egipto parece ter vindo para ficar. Não muito longe dali, no Iémen, a população local está na rua, após a convocação de uma manifestação anti-governamental, a decorrer na capital do país. Na Tunisia, há duas semanas em ebulição, as manifestações diárias continuam a exigir a renovação total do governo deposto. Do Magreb ao Médio-Oriente, as populações árabes parecem despertar do longo sono a que foram sujeitas pelos regimes déspotas e autocratas da região. Provavelmente, outros países da zona, seguirão estes exemplos. Ainda é cedo para avaliar do impacto das revoltas, aparentemente "genuínas" e "expontâneas", convocadas através de simples SMS ou das "redes sociais". Uma coisa é certa: uma vez na rua, dificilmente as populações voltarão a aceitar o "recolher obrigatório" a que os dirigentes políticos os querem obrigar. Mesmo se essa contestação implicar vítimas, como foi o caso de Tunis e do Cairo, o que diz bem da determinação que move os contestatários. Essa é, para já, a grande lição a extrair destes quinze dias que estão a abalar o Médio Oriente. Por alguma razão, vieram já a terreiro os habituais "apaziguadores" internacionais (Clinton à cabeça) a pedir mudanças democráticas na região. Eles sabem que a recusa de reformas poderá mergulhar estes países num caos ainda maior que, em última análise, contribuirá para uma maior radicalização das forças políticas regionais. Não está sequer afastada a hipótese da chegada ao poder do fundamentalismo islâmico (a irmandade muçulmana) que conta com cerca de 30% de apoio no Egipto. Esse seria o pior cenário para o Ocidente e não parece que os EUA ou a Europa o desejem. Para já, as notícias são animadoras e devemos congratular-nos por esta vaga emancipatória que ousou afrontar e acabar com um ciclo de ditaduras anacrónicas na região.

2011/01/26

Da relatividade das coisas

As notícias, ontem vindas a lume, que dão Carlos Silvino como mentiroso (agora ou na primeira versão) seriam importantes, se não fossem ridículas. Como bem frisou o juiz desembargador Eurico Reis, este processo deixou de ser "um circo mediático", para tornar-se um "reality show". Um "show" com muito pouca realidade. Este é o país real que temos. No domingo foi o colapso informático, ontem as criancinhas com caixões, hoje as mentiras do principal suspeito no maior processo de pedofilia em Portugal. "The show must go on".

2011/01/25

Aberrações

A manifestação de uma organização que dá pelo nome de SOS Educação, feita hoje à porta do ME, que misturou crianças com caixões e gente graúda vestida de preto, é das coisas mais aberrantes que se viram neste país tão dado a aberrações. Há certos sectores da nossa sociedade que, ou se calam perante as injustiças em que o país é pródigo, ou, quando decidem intervir e tomar uma atitude cidadã, é isto. Organizam-se e comportam-se como criminosos.
Gostava que os arautos dos bons costumes, das virtudes da vida e da família, designadamente a Igreja Católica, tão pressurosos a tomar posição sobre tudo e mais alguma coisa, nos dissessem o que pensam deste triste espectáculo que consistiu em fazer desfilar crianças com caixões e crucifixos, sob a batuta dos nados mortos dos pais.

2011/01/24

A vitória da mediocridade

Não constituiram propriamente uma surpresa os resultados de ontem. Há muito tempo que as sondagens indicavam Cavaco Silva como o mais provável vencedor destas eleições. O facto de se recandidatar a um lugar que ocupa há cinco anos, a popularidade decorrente da passagem por diversos lugares de estado nos últimos 30 anos e o apoio de toda a direita parlamentar, garantiam-lhe, à partida, uma vitória fácil. Se juntarmos a estes dados, o facto de não haver uma candidatura alternativa forte que pudesse congregar toda a oposição, melhor se percebem as razões da sua reeleição. E, no entanto... nem tudo foram rosas para o presidente.
Desde logo, o facto de lutar contra cinco candidatos que, desde o início, o elegeram como principal inimigo. Depois, as suas, nunca bem explicadas, ligações ao "clan" do BPN e o favorecimento daí resultante, na compra das acções pessoais, por um preço estabelecido pelo presidente do banco falido. Finalmente, a questão da troca da propriedade no Algarve, numa urbanização onde, mais uma vez, vivem alguns dos sinistros personagens do BPN, só veio adensar as suspeitas. Junte-se a isto, a sua reconhecida incapacidade de comunicar, refugiando-se em respostas evasivas, sempre que era posto perante perguntas incómodas, acabou com o mito. Ou seja, pela primeira vez, o presidente em exercício foi escrutinado de uma forma a que não estava habituado e não soube lidar com a pressão. É verdade que ganhou, ainda que com menos meio milhão de votos relativamente a 2006 e num cenário recorde de abstenção e votos em branco, factores que não devem ser desvalorizados. Numa situação de crise social e económica profunda e sem alternativas à esquerda, os eleitores apostaram na "continuidade", segundo a velha máxima, "para pior já basta assim".
Cavaco ganhou, é certo, mas a sua imagem de homem "impoluto" e "acima de qualquer suspeita" nunca mais será a mesma. Ele sabe isso e os seus discursos ressabiados na noite de ontem confirmaram-no. Dificilmente poderá falhar, agora que foram reveladas informações que o comprometem para o futuro.
Sobre os outros candidatos, pouco há a dizer. Alegre foi sempre um candidato sem crença e os apoios envergonhados do seu partido apenas confirmaram uma derrota previamente anunciada. Nobre, apesar do discurso populista que chegou a raiar o patético em algumas situações, acabou por beneficiar da desilusão alegrista e do sentimento anti-partidos existente na população, conseguindo o melhor resultado relativamente ás expectativas com que começou. Francisco Lopes foi igual a si mesmo e segurou o eleitorado comunista, único objectivo da sua candidatura, enquanto os restantes dois candidatos - José Manuel Coelho e Defensor de Moura - foram essencialmente representantes regionalistas que nunca conseguiram ultrapassar a sua condição de "outsiders".
Uma última palavra sobre o problema técnico-informativo verificado nas mesas de votos, demasiado grave para passar em claro. Em condições normais, num país normal, tal anomalia faria rolar cabeças. Que o principal responsável do CNE viesse alegremente declarar, perante as câmaras de televisão, que as informações estavam disponíveis na NET e que bastava enviar um SMS para aceder à informação, é de uma cretinice a toda a prova. A maioria da população portuguesa não dispõe de computador pessoal e muitos daqueles que possuem um telemóvel têm dificuldade em usar os SMS. Resta acrescentar que muitos dos votantes são pessoas idosas e desistiram de votar quando compreenderam que tinham de deslocar-se a Juntas de Freguesia localizadas em bairros diferentes. Aparentemente, a forma mais fácil teria sido enviar uma carta a todos os recenseados com as necessárias informações. A operação custaria cerca de 1 milhão de euros. Foi este argumento economicista e mesquinho que impossibilitou centenas de pessoas de votar. Com tal sobranceria, não é de admirar que os cidadãos não se revejam neste estado. Também, por esta razão, estas foram eleições medíocres.

Todos perderam, todos perdemos

"O povo português não se deixou enganar," disse ontem Cavaco Silva no discurso de "vitória". É verdade. Prova-o o facto mais importante desta eleição: para além dos boicotes, foram batidos todos os recordes de abstenção, de votos brancos e nulos numa eleição presidencial. É uma derrota para todos. O regime está neste momento pouco acima da linha de água...

2011/01/23

Cidadania

Não começou bem o dia eleitoral. Por razões que a razão desconhece, o meu número de eleitor foi alterado. O facto, já de si estranho, é duplamente incompreensível, pois nunca fui informado de tal mudança.
Dirigi-me à mesa de voto e, sem número de eleitor, fui reenviado para a Junta de Freguesia. Dezenas de pessoas, na mesma situação, aguardavam, irritadas, que lhes dessem um novo número. Porque, nestes casos, não adianta discutir, pedi o livro de reclamações ao presidente da junta que, sem me atender, saiu o mais depressa possível. Quando chegou a minha vez e depois de receber o número actual, solicitei o livro pela segunda vez. A funcionária, inquisitória, perguntou-me a razão porque desejava eu o livro. Seguiu-se um diálogo sem fim, pois ela recusava entregar-me o livro sem saber as razões do meu pedido e eu recusava dar-lhas. Finalmente, e porque não conseguiu demover-me, acedeu. Perguntei a razão da troca de número. Aparentemente, quem se tinha recenseado há mais de um ano e possuia o novo cartão de cidadão - o meu caso e de outras pessoas presentes - recebeu um novo número (!?). O facto de não informarem os interessados, não interessa a esta gente. Vá-se lá saber porquê. Voltei à mesa de voto e, finalmente, pude votar. O "simplex" tarda em chegar às portas de Lisboa. Portugal no seu melhor.

2011/01/21

Reflexão

"Passava da meia-noite quando o escrutínio terminou. Os votos válidos não chegavam a vinte e cinco por cento, distribuidos pelo partido da direita, treze por cento, pelo partido do meio, nove por cento, e pelo partido da esquerda, dois e meio por cento. Pouquíssimos os votos nulos, pouquíssimas as abstenções. Todos os outros, mais de oitenta por cento da totalidade, estavam em branco".

José Saramago

(em "Ensaio sobre a Lucidez")

2011/01/20

O dominó tunisino

A revolta que, por estes dias, grassa na Tunísia, tornou-se uma porta de esperança. Não só para a oprimida população tunisina, mas também para as populações árabes e magrebinas dos países vizinhos. Ao contrário das manifestações do ano passado na Argélia, onde jovens marginalizados pelo desemprego e pela miséria vieram para as ruas protestar contra os brutais aumentos de bens essenciais, a revolta tunisina radica num protesto social das classes médias, fartas de uma oligarquia que não trouxe democracia, nem desenvolvimento económico. É por isso que, depois da fuga do ditador Ben Ali para a Arábia Saudita, o governo interino (temporariamente chefiado por Mohamed Ghannouchi) não conseguiu acalmar a "rua" e os manifestantes que, diariamente, continuam a exigir a demissão de todos os governantes sem excepção. Argumentam estes que os ministros em função são cumplices da ditadura deposta. Aparentemente, conseguiram ontem mais uma vitória, pois quatro dos ministros, ainda em funções, já se demitiram. Resta saber se a "limpeza" iniciada com a fuga do ditador, continuará a este ritmo ou se o governo interino, com a ajuda do exército, tentará parar a contestação. Até agora e com o desmantelamento da polícia política, que era a maior força de repressão, o exército parece ter escolhido o "lado do povo" (as imagens que as televisões internacionais mostram, não mentem). É esta força das imagens e das "redes sociais" (mais uma vez foram as mensagens na NET que despoletaram a revolta) que parecem ter ateado o rastilho nos países límitrofes: Do Yémen ao Egipto, da Líbia à Mauritânia, da Argélia a Marrocos, sucedem-se os protestos e as "imolações", a exemplo de Mohamed Bouazizi, o herói tunisino cujo sacrifício pessoal detonou a revolta. Nas palavras de um anónimo nas ruas de Tunis: "ontem éramos os inquilinos, hoje somos os proprietários". Esta é a diferença. A Tunísia vive hoje o seu "25 de Abril". Esperemos que por muitos e bons anos.

2011/01/18

Usucapião

Tento definir o conceito de usucapião. Sou um leigo em matéria de leis, mas penso que se trata do direito à posse de um bem, material ou imaterial, resultante do seu uso ao longo de um certo tempo. Espero que os juristas que eventualmente leiam este escrito me concedam uma folgazita...

A "imagem pública" que as figuras com algum tipo de influência no nosso colectivo tentam construir não é um fenómeno que tenha surgido de repente. Alimentando mitos, gerindo silêncios, cuidando do penteado, tendo lições de voz, proferindo discursos, dando entrevistas escolhidas, decidindo a inclinação das riscas das gravatas, evitando perguntas incómodas ou "tablóidizando" as suas vidas, as "figuras públicas" tornam-se, assim, maiores do que a realidade, e usam a imagem para criar poder ou segurar e aumentar o poder que têm. Ao usar a imagem essas figuras acabam com o tempo por se apossar dela. Mas, há qualquer coisa de estranhamente artificial neste "título de propriedade".

A imagem é uma criação que raramente "cola" ao personagem. É que há uma diferença entre ter uma imagem de honestidade, de artista, de louco e ser de facto honesto, artista ou louco. Há uma diferença entre inspirar confiança, suscitar um sentimento de rigor ou causar repulsa e ser confiável, rigoroso ou repulsivo de facto. Há quem tenha imagem de honesto e não seja, há quem não tenha uma imagem repulsiva mas seja repulsivo, há quem tenha imagem de iconoclasta mas seja afinal profundamente conservador. A "imagem", como a pós-produção na fotografia e no cinema, trata de corrigir os defeitos, apagar borbulhas ou dar estatura a quem a não tem. Mas muitas figuras públicas beneficiam da imagem que lhes foi criada e acabam mesmo por ser consideradas honestas, confiáveis ou estarolas pela generalidade das pessoas.

Na próxima eleição presidencial os concorrentes têm todos uma imagem que foi criada para ou por eles. O facto de terem essa imagem não quer dizer que ela corresponda à realidade. Temos de avaliar, através da análise dos factos, se a imagem cola com o personagem ou não. Por mim, creio que todos os personagens que estão na arena da luta presidencial têm imagens com defeito, mas há um candidato, em particular, que tem uma imagem que não condiz, por mais que ele se esforce, com a realidade: Cavaco Silva. Depois do espectáculo que deu, ao não esclarecer a embrulhada das acções da SLN, também ele vai ter de nascer uma segunda vez para conseguir, depois disto, parecer mais honesto do que pretende ser.

Cavaco é, claramente, um destes casos de usucapião. Como desconfiamos da imagem também os factos, esta súbita preocupação com os alunos e pais e as suas escolas, com os funcionários públicos e com os desempregados, suscitam desconfiança. É preciso estar atento para que não venha, por usucapião, a beneficiar desta imagem de paladino dos desprotegidos que agora surge, surpreendentemente, nesta etapa final da campanha.

2011/01/12

Embandeirar em arco e em flecha

Não deixa de ser curioso observar as reacções dos candidatos à presidência ao leilão de obrigações de hoje. Alegre declara-se satisfeito, Cavaco diz que não devemos embandeirar em arco. De facto, pensava eu, se a estratégia de combate à "crise" correr bem e o governo levar a melhor nessa sua estratégia o que fica da argumentação do candidato Cavaco que justifique a sua recandidatura?
Não sei se já repararam, mas toda a estratégia deste homem assenta no falhanço do governo, no aprofundamento da crise e no afundanço final de Portugal. A tal "reserva" é isto: enquanto espera que tudo vá ao fundo ele "reserva-se" o direito de aparecer como o salvador da pátria. Onde é que já se ouviu isto?
Se falhar o tal afundanço não resta nada do "pensamento político" do candidato. Cavaco parece um verdadeiro abutre olhando a crise à espera de lhe chupar as carnes.
Aqui há uns anos, nos tempos em que Cavaco era primeiro ministro, alguém (se não me engano, o Miguel Urbano Rodrigues) distinguia nele traços de ditador. Na altura, para alguns, essa leitura foi classificada como apressada e exagerada. Creio que está hoje mais que provada a sua justeza. Cavaco embandeira em flecha.

2011/01/11

A quadratura do círculo

Vejo a televisão e sou confrontado com duas notícias, aparentemente, antagónicas:
Enquanto Sócrates, acompanhado do ministro de finanças, anuncia em directo a redução do "déficit" para 7,3% (cumprindo, assim, os objectivos do Orçamento para 2010), a mesma estação televisiva passa em roda-pé a notícia de que o Banco de Portugal prevê uma recessão da economia portuguesa em 2011, com recuo de 1,3% do PIB e um crescimento (negativo) de 0,6% em 2012.
Ou seja, apesar da relativa melhoria do "déficit" no ano transacto, a economia não crescerá o suficiente em 2011, nem em 2012. Isto quer dizer que haverá menos emprego, menor consumo e mais desemprego. Logo, maior recessão. Podemos, pois, antecipar maior "déficit" no ano corrente, a menos que sejam contraídos novos empréstimos no estrangeiro.
Ora, como sabemos, os empréstimos dependem, entre outras coisas, das notações das famigeradas "agências" que, em última análise, acabam por influenciar a taxa de juro a aplicar pelos credores internacionais. Os juros aplicados a Portugal rondam os 7,3% nos dias que correm.
Gostaria que alguém me explicasse como vai ser isto possível. Por outras palavras, como é que o governo português, com estes indicadores, poderá a prazo evitar a entrada do FEE e do FMI em Portugal, coisa que os nossos governantes teimam em negar?

2011/01/10

Orgulho

Cavaco Silva foi ministro das finanças em 1980, presidente do Conselho Nacional do Plano em 1981, primeiro ministro de 1985 até 1995 e é presidente da república desde 2005. É, segundo se diz, o político actual com mais anos de vida pública no activo.
José Mourinho não precisou de tantos anos para mostrar serviço na sua área. Falando na sua língua, declarou-se hoje singelamente um "orgulhoso português", perante uma plateia internacional que premiou com um significativo galardão os resultados excepcionais que obteve graças às suas capacidades técnicas, de estratégia e de liderança da sua equipa.
Ao dizer-se "orgulhosamente português" Mourinho tem consciência de que nos revemos (eu revejo-me!) nos seus êxitos e neles encontramos um elemento mobilizador.
Cavaco não tem, na sua área e ao seu nível de actuação, resultados de que se possa vangloriar ao fim de tantos anos de exercício dos mais altos cargos públicos, a sua estratégia continua a ser sair de Boliqueime e a sua equipa é o que se sabe. Ao fim de todo este tempo, isolado e acossado, Cavaco consola-se com o seu auto-proclamado título de "reserva da nação" quando, na verdade, pôs a nação na reserva.
Dir-me-ão, treinador de futebol é treinador de futebol e político é político. Mas, por maioria de razão, deixo-vos então a pergunta: depois de tantos anos de actuação, ao mais alto nível, o que fica da acção de Cavaco que nos faça sentir "orgulhosamente portugueses" e que elementos mobilizadores contém? O que diz tudo isto dele? E de nós?

Mourinho, o melhor

Nem todos os "rankings" dos portugueses são maus, como se viu hoje em Zurique.

2011/01/06

Vale a pena

Vale a pena ler este artigo "The credit rating agencies are leading an assault on nations and peoples" de Martin Kettle e divulgá-lo.
Vale a pena ler este artigo.
Vale a pena recordar o papel que estas agências de rating tiveram e têm na geração da "crise".
Vale a pena questionar seriamente a existência destes anjos exterminadores, desta nova peste, destes modernos carrascos dos povos.
Vale certamente a pena recordá-lo ao escutarmos os comentários do candidato Cavaco sobre este tema.
Vale a pena recordá-lo enquanto estivermos a pagar as "reformas" e a especulação que o expediente da invocação da palavra "crise" tem suscitado e perguntar porque é que, tendo rosto e tendo nós que a pagar, a "crise" continua impune.
Vale a pena saír deste torpor em que nos encontramos.
Vale a pena insurgirmo-nos contra o fait accompli.
Vale a pena condenar o perdão implícito e corresponsável que o torpor automaticamente concede aos poderosos e o libelo fácil e leviano que muitos proferem contra os que sofrem, contra aqueles que por estarem habituados a sofrer, por lhes ouvirmos poucas ou nenhumas queixas, por estarem mais debilitados ou por terem medo, deixamos condenar sumariamente em resultado deste torpor.
A culpa de tudo isto não é deles. A culpa da "crise" é dos poderosos!

2011/01/02

Isto já começa mal...

Agora que me preparava para escrever um "post" com as tradicionais saudações anuais, deparo-me com uma noticia que é, no mínimo, bizarra.
Leio que os EUA querem ter acesso aos dados biométricos e biográficos dos portugueses que constam do Arquivo de Investigação Criminal e Civil de Portugal. Trata-se de uma medida de "prevenção", no quadro do combate ao terrorismo, levada a cabo pelo governo americano, sendo que os referidos dados ficarão à guarda do FBI. Acrescenta a notícia, que o governo português já teria aceite o pedido, faltando apenas o acordo da Assembleia da República. Interessante.
Como estas coisas das relações internacionais entre estados implicam alguma reciprocidade, é de esperar que o governo português solicite igualmente os dados biométricos e biográficos dos cidadãos americanos que constem do Arquivo Criminal e Civil do FBI. Dessa forma, ficaríamos todos muito mais descansados.
Só falta saber a reacção dos criticos do WikiLeaks, os quais têm aqui uma excelente oportunidade de expressarem a sua indignação por mais esta devassa da privacidade alheia.

2010/12/30

With a little help from my friends

O candidato Cavaco Silva espalhou-se ao comprido no caso BPN. É um caso que causa um evidente estrago na sua imagem, por mais poeira que queira deitar-nos para os olhos. Tudo isto é agravado pelo facto de ele ainda não ter percebido que, mesmo que não existissem  reparos formais a fazer sobre os investimentos levados a cabo (há quem já tenha manifestado fundada opinião contrária), o candidato não se vai livrar nunca da carga política que estas suas ligações carregam.
É a questão política que interessa e é nesse domínio, do manifesto potencial político explosivo desta questão, que o candidato se tem espalhado.
Demonstrando a sua proverbial inabilidade políticia, deu mesmo uma ajudinha ao PS ao levar o governo minoritário a reagir já hoje, com veemência e com toda a legitimidade, à sua declaração relativa à actual administração do BPN. Nada mau hein?!

2010/12/29

As rãs

Uma rã é colocada num vaso de água fria. Naturalmente não tem reacção, está no seu meio. A água é então aquecida de modo suficientemente lento até ferver. Não se apercebendo do aumento da temperatura —demasiadamente lento para que seja detectada a elevação da temperatura— a rã não reage e morre cozida.
Os resultados desta conhecida experiência, produzida e reproduzida no século XIX, têm sido utilizados como metáfora para descrever a dificuldade que os humanos têm em reagir a certos fenómenos de evolução muito lenta, de cujos efeitos só se apercebem quando já é tarde.
Mais do que a experiência original e o pretenso desfecho fatal, interessam-me as experiências que apontam para a falsidade das conclusões a que chegaram os experimentadores do século XIX.
Em Portugal a metáfora da rã aplica-se na forma insidiosa como o estado da economia nos tem sido descrito. Lentamente temos sido levados a pensar que as coisas estão mal. E lentamente temos sido levados a pensar que somos nós os culpados. A situação descambou e agora somos levados a acreditar que estamos cozidos. mas, quem levantou o lume?
A manobra está clara nas justificações que são dadas para introduzir medidas brutais e pretensamente cegas e está clara em algumas das medidas tomadas. Lentamente tem-nos sido transmitida a ideia que os portugueses gastam demais. Dão-se gritos de alerta porque cada português deve 500 euros. Lentamente o caldo de cultura destas "verdades" vai aquecendo e as rãs portuguesas parecem mostrar sinais de que não se apercebem disso. Mas, repare-se como dos diversos escândalos financeiros, dos diversos casos de corrupção, do abuso legal que algumas das medidas impostas prenunciam, nada resulta. E como estes escândalos são cobertos. Repare-se como em clima de restrições pesadas, de aumento brutal dos preços, de dificuldades dos bancos em aceder ao mercado interbancário, de níveis inimagináveis de crédito malparado, vemos diversas campanhas de empresas financeiras ligadas à banca, na televisão e pelo telefone, que oferecem crédito... ao consumo!!
As perguntas impõem-se então: há ou não há crise? Quem a provocou? Quem a deve pagar?
Dizia eu atrás que cientistas contemporâneos concluíram, após reproduzirem as experiências originais do século XIX, que é falso que as rãs não reajam ao aquecimento da água. Ai não que não saltam cá para fora assim que ela atinge um determinado limite de temperatura! A menos que a fuga lhes seja barrada... Os experimentadores do século XIX estavam enganados, conduziram mal as suas experiências ou extraíram delas conclusões erradas.
Pois é esta a verdadeira metáfora. Em vez de pensarmos que os portugueses vão docilmente deixar-se cozer, devíamos talvez acreditar que vão reagir. Para surpresa de muitos, estou certo.
Bom ano novo!

2010/12/23

Assimetrias

No mesmo dia em que o governo, magnânimo, anuncia um "aumento" de 10 euros (!?) no ordenado mínimo nacional, que passará a 485 euros em Janeiro, ficámos a saber que os gestores portugueses ganham, em média, 14 vezes mais. Ou seja, 6.800 euros.
Nada que não se saiba, mas é sempre "reconfortante" ouvir os discursos dos responsáveis da nação quando pedem sacrifícios e, ao mesmo tempo, se preparam para meter mais 500 milhões de euros no "buraco" do BPN.
Ora, como sabemos, o dinheiro não "estica". Para dar para uns, não pode dar para todos, não é verdade?
É Natal, nada parece mal...

2010/12/22

O homem sem qualidades

Se dúvidas houvesse, a prestação de Cavaco Silva no debate televisivo de ontem, frente a um candidato do PCP sem qualquer "histórico" nestas andanças, mostrou a verdadeira estrutura do actual presidente. Um homem sem discurso, atabalhoado e frágil, nitidamente incomodado com as acusações relativas à fraude do BPN ou a submissão portuguesa face aos ataques dos "mercados" internacionais. Não fora a pronta e cirúrgica intervenção da moderadora a "salvá-lo" das questões mais incómodas e Cavaco teria passado por um debacle televisivo, naquela que foi atá agora a sua pior prestação nos debates em curso. Nada que nos espante, num personagem sem verbo e sem Mundo, que se refugia num discurso economês supostamente superior, mas incapaz de prever a crise com a qual nos debatemos há, pelo menos, cinco anos (tantos quantos leva de magistratura). Uma desgraça, este presidente-candidato, no qual não imagino alguém poder querer votar. O pior é que as alternativas são más de mais para acreditar nelas e, perante tal panorama, não são de esperar resultados muito diferentes das últimas eleições presidenciais. Uma escolha impossível.

Já nem vale a pena manter as aparências

As expressões "mercados" ou "agências de rating" não passavam até há pouco tempo de conceitos distantes e abstractos para a maior parte dos leigos. Seriam referidas como se terá pronunciado, imagino eu, a palavra Papa durante séculos. O Papa, lá de longe, decretava, excomungava, decidia sobre a veracidade da mentira e a aldrabice da verdade e a malta, respeitosamente, flectia o joelho e acatava, com temor reverencial, os seus ditames.
Infelizmente para o novo papado, a informação não circula com a lentidão de outrora e os símbolos deste novo poder estão muito mais sujeitos ao escrutínio imediato dos povos. Hoje só quem insiste em viver nas estrelas ignorará a verdadeira natureza deste novo pontificado.
O filme "Inside Job", referido pelo Rui Mota aqui, traça um retrato implacável dos "mercados". As agências de "rating" não passam, quanto a mim, de novos piratas. Os pontífices desta nova religião, diz quem sabe, deixariam os dissolutos Bórgias e Medicis corados de vergonha... ou roídos de inveja. Os processos, a crueldade e a discricionariedade destes novos pontífices fariam empalidecer Gregório IX.
E, contudo, as nações dobram-se hoje perante os papas desta nova religião e inquietam-se perante a possibilidade de serem excomungados por desrespeito a S. Mercado e S. Rating, os jovens santos, recentemente canonizados, mentores desta nova igreja. Teme-se a bula, tenta-se comprar as indulgências a juro favorável.
A submissão a este novo papado ilegítimo e imoral surpreende. Surpreende, por exemplo, a forma desavergonhada como um representante do Ministério das Finanças de Portugal, representante de um governo legitimado pelo veredicto do povo, declara, de forma submissa e reactiva, respondendo directamente a uma ameaça de um agente privado de um poder ilegítimo: "Reitera-se que tudo se fará no sentido de contrariar os riscos que estão na base do anúncio da análise por parte da agência Moody’s e isso reflectir-se-á, confiamos, na decisão resultante dessa análise durante o primeiro trimestre de 2011."
"Tudo se fará"... Prostrados "confiamos..." É, portanto, uma questão de fé. Pornocracia II.

2010/12/19

Os pobres que se cuidem...

Agora que os debates televisivos vão adiantados, começa a ser claro qual o alvo principal dos candidatos nestes tempos de penúria. Na época do ano onde, por tradição, a caridadezinha volta sempre com amor, os políticos presidenciáveis já encontraram o votante potencial perfeito: aqueles que - por desespero - mais crêem no Messias. Os pobres que se cuidem, pois a caça ao voto não olhará a meios...

2010/12/16

O holocausto

"Aumentar a competitividade da economia portuguesa" significa para o governo, para os patrões e para a UGT, sacrificar e tornar ainda mais precária a vida dos trabalhadores. Os gordos vão continuar gordos e sorridentes, o resto do pessoal que ande aos caixotes ou permaneça na rua, despedido, à frente das empresas,  encerradas à má fila e com impunidade, na esperança que tenha sobrado um vago sentimento de justiça na sociedade portuguesa. Poder despedir desta forma era certamente uma "deficiência" da legislação laboral actual que urgia corrigir...
A falta de vergonha é tanta que as medidas são adiantadas por uma criatura chamada António Saraiva que é presidente não sei de que agremiação privada, antes de serem formalmente anunciadas pelo governo. Ninguém o responsabiliza por esta óbvia quebra de protocolo. Tudo parece normal. Triunfante, Saraiva vai continuar a sorrir alvar, gordo e reluzente como um porco.
O que, no entanto, me causa maior angústia é o facto de não perceber o que querem fazer os portugueses perante todo este calvário. As imagens de trabalhadores à porta das empresas encerradas, da miséria crescente, do desespero dos desempregados passam nos ecrãs. Passam sem que se pareça esboçar sequer uma reacção. Cresce o número de gente que procura nos caixotes do lixo a sobrevivência, dizem-nos e vamos nós vendo por aí. Mas, a sociedade portuguesa arfa, coitada, de cansaço.
Um clássico da banda desenhada "Maus" de Art Spigelman conta a história dos judeus durante o holocausto, através de personagens animais. Uma espécie de mega-fábula, à La Fontaine, tingida de sangue e dor. Os judeus são ratos. Relembro uma conversa entre um rato-judeu, sobrevivente do holocausto, e um outro, seu filho, determinado em recuperar as recordações do calvário do pai. Este descreve ao rato-filho o modo como os judeus eram queimados perante a vista de todos. "A gordura que ia correndo dos corpos queimados, eles (os alemães) recuperavam-na e voltavam a deitá-la por cima desses corpos para que queimassem melhor."
"Isto ultrapassa-me", confessa o filho, "porque é que os judeus não tentaram pelo menos esboçar uma resistência". Responde o pai: "Não era tão fácil como possas imaginar. Estavam todos tão esfomeados, tinham tanto medo e estavam tão cansados. Até mesmo o que se desenrolava perante os seus próprios olhos, nem nisso eles acreditavam."

A grande cabala

Trata-se obviamente de uma grande "confusão" entre voos da CIA e voos de repatriamento de prisioneiros, como "explicou" hoje Luís Amado. Ninguém acredita que o governo português tenha dado autorização FORMAL para os voos da CIA através das Lajes. A autorização, a ser dada, só pode ter sido INFORMAL. Esta é a chave para interpretar as declarações "formais" de Luís Amado, que não podem ser refutadas, ainda que os telegramas disponibilizados pela Wikileaks provem que o governo português esteve disponível para autorizar os voos. Fecha-se assim mais um capítulo obscuro da política portuguesa, pródiga em explicações cabalísticas que tudo explicam e nada esclarecem.