2025/05/19

Resultados Eleitorais: E agora?

Como era expectável, a direita foi de novo a grande vencedora destas eleições, agora de forma ainda mais significativa. 

Terminou um ciclo governativo, dominado pelo PS durante oito anos, que os socialistas (por erros próprios e por intervenções externas) acabariam por perder. 

Mas não foi só o PS que perdeu (ainda que aumentando a sua votação). Toda a esquerda, à excepção do LIVRE, perdeu e, desta vez, de forma significativa. Uma catástrofe.  

Já à direita, apesar da vitória da AD, o grande vencedor da noite seria o CHEGA, que capitalizou a insatisfação de largos extratos da população, nomeadamente dos jovens, estes mais deslumbrados com a linguagem populista do candidato. Quanto à IL, manteve-se dentro das percentagens previstas, dessa forma contribuindo para o reforço do bloco de direita, que continua maioritário na AR.

Perante os resultados de ontem, começaram a "rolar cabeças" à esquerda, a primeira das quais foi a do secretário-geral do PS, o grande derrotado de noite. Seguir-se-ão outras (Mariana Mortágua?) agora que o BE ficou reduzido à sua expressão mais ínfima (1 deputado) e onde se percebe que são necessárias caras e soluções novas. 

Resta a contagem de votos da emigração (4 deputados) que poderá não alterar significativamente a composição governamental, mas poderá alterar a composição da Assembleia de República, onde 2/3 dos votos são suficientes para alterar a própria constituição. 

Entretanto, hoje, o PR iniciará as habituais audições com os partidos, com vista à nomeação do próximo governo, uma tarefa que não se afigura fácil.  Desde logo, porque a AD não tem uma maioria para governar e, depois, porque uma aliança à direita (CHEGA) não parece viável a acreditar no "não é não" de Montenegro. Com a IL, essa aliança poderia acontecer, mas Rui Rocha recusou liminarmente ir para um governo minoritário. 

Restam, aparentemente, duas soluções para governar: o prolongamento de um governo da AD minoritário, sujeito a moções de rejeição que, a médio termo, conduziria ao derrube do governo e novas eleições, que ninguém deseja; um governo da AD (apoiado tacticamente pelo PS), de forma a assegurar uma legislatura completa e uma maior estabilidade. No entanto e para que esta segunda hipótese se concretize, é necessário o PS eleger um novo secretário-geral mais reformista (José Luís Carneiro?)  que possa fazer a "ponte" com a AD.  Já o Chega, não entrando nesta equação, poderá ser a "chave" do futuro governo, na medida em que o número de deputados (58), é suficiente para apoiar ou derrubar o governo. Conhecendo Ventura, um "cata-vento" sem princípios, é de esperar tudo e o seu contrário. 

Uma última palavra sobre a abstenção (36%) que parece não ter afectado a votação na direita, como era esperado. Já na emigração, o caos seria total, seja por impossibilidade de votar nos consulados, seja por entrega tardia dos boletins de voto por correspondência (Londres). Mais de 60 000 portugueses foram impedidos de votar na capital inglesa! Como é possível tal "bagunça"? Dolo ou incompetência? 

Finalmente: falou-se pouco ou nada da política externa de Portugal durante a campanha. Um silêncio ensurdecedor. Não será por isso que os problemas desaparecerão. O crescimento económico já diminuiu no primeiro trimestre, a inflação continua acima dos 2%, a dívida pública aumentou e vêm aí mais despesas. A maior despesa será no sector da defesa, com um aumento previsto de 2% para 5%, caso a proposta de Mark Rutte seja aprovada na próxima cimeira da NATO em Junho. A confirmar-se tal percentagem, isso representará para Portugal algo como 15 000 milhões de euros/ano para despesas militares. Porque o dinheiro não nasce das árvores, esta verba terá de sair de algum lado: ou de um empréstimo europeu (que terá sempre de ser pago) ou do dinheiro dos contribuintes (através de impostos). Em qualquer dos casos, não é preciso ser vidente para saber onde serão feitos os próximos "cortes" orçamentais: obviamente no "estado social" (saúde, educação, habitação), que tenderão a ser privatizados, como desejam todos os neoliberais da nossa praça. 

Prognóstico (necessariamente pessimista): a vida para a maior parte dos portugueses vai piorar, mas as escolhas foram dos votantes. Agora, é tarde para mudar. 

2025/05/17

Reflexões Necessárias



Pedem-nos para reflectir, antes de depositar o voto na urna.

É assim, de todas as vezes que há eleições em Portugal, ainda que nem todos os países observem este ritual. Penso, aliás, que a esmagadora maioria dos eleitores portugueses sabe perfeitamente em quem não votará. 

Confesso que nunca necessitei de um dia de intervalo para saber em quem não voto. Já nos partidos em quem poderei votar, é cada vez mais difícil. Dito de outro modo - posso não saber em quem vou votar desta vez, mas, uma coisa eu sei: em que não votarei.

Dizem-nos as últimas sondagens que o nível de abstenção andará pelos 15%. É possível. Sendo assim, qualquer dos grandes partidos (AD ou PS) poderá, teoricamente, ganhar as eleições, uma vez que a diferença estimada, entre ambos, é de 8 pontos percentuais.

Porque um deles, voltará a ganhar amanhã, será esse o indigitado pelo presidente da república a formar governo. A grande questão é saber se teremos de novo um governo minoritário ou uma maioria parlamentar, constituída por mais de um partido, pois disso dependerá a duração da legislatura.   

Caso vença de novo a AD, como a maioria das sondagens prevê, dificilmente terá maioria absoluta. Nesse caso, necessitará sempre do apoio de um partido à direita (IL) ou à esquerda (PS), para poder governar por mais quatro anos. 

Fora desta equação parece estar o CHEGA que (a acreditar no primeiro-ministro em funções) será alvo de um "cerco sanitário", por razões ideológicas. Isto não significa que o partido fascista não tenha influência na governação, uma vez que poderá apoiar uma maioria parlamentar para chumbar o orçamento.

Todas estas contas estão a ser feitas pelos partidos e pelo presidente da república, que veio apelar ao "bom senso" (ele que ajudou a derrubar dois governos!) e avisar para a impossibilidade de convocar eleições nos próximos três meses, a partir dos quais a constituição impede o presidente em exercício de convocar um novo acto eleitoral. 

Felizmente, que estive ausente durante a chamada "campanha de rua" (vulgo arruadas), que pouco ou nada acrescentaram ao panorama conhecido, salvo os habituais "banhos de multidão", que os "caudillos" nacionais tanto apreciam. Um modelo ultrapassado, onde a repetição das promessas e dos  "clichés" apregoados pelos  mesmos actores de há um ano, poderá revelar-se fatal. Deste cansaço eleitoral (3 eleições legislativas em 4 anos) se falou e continuará a falar nos próximos tempos, mas nada parece afastar os decisores políticos da única coisa que parecem saber fazer: promessas que raramente cumprem.

Pior do que o modelo, foi a falta de ideias para o país já que ninguém parece ter uma estratégia para 10 ou 15 anos. Como resolver o problema da saúde, que se arrasta há décadas? Como resolver o problema da habitação, para o qual ninguém parece ter um plano? Como resolver os problemas da educação, que os aumentos salariais dos professores apenas adiaram? Como resolver o problema da imigração, que veio para ficar e foi um tema central nos debates? Onde ir buscar o dinheiro, pedido pela UE e pela NATO, para reforçar a defesa e a indústria de armamento? Porque é que um tema como o de Gaza e a política de genocídio levada a cabo por Israel, esteve sistematicamente ausente nos comícios, entretanto realizados? Como nos posicionamos em temas internacionais fundamentais, como a política tarifária dos EUA, a dependência de fontes de energia ou as alterações climáticas? 

Nada disto foi aprofundado na campanha que, na prática, durou três meses (desde que o governo caiu devido à moção de confiança) e onde os principais temas foram o caso "Spinumviva" de Montenegro e os "refluxos gástricos" de Ventura. Junte-se a estes "items", a luta pelo título do campeonato nacional de futebol e temos, "grosso modo", uma ideia do que realmente preocupa a generalidade dos portugueses. 

Sendo assim, pouco ou nada há a esperar de muito diferente na noite de domingo. Ganhe quem ganhar estas eleições, as políticas de fundo continuarão adiadas e, por conseguinte, os problemas manter-se-ão. Com a ilusão de que alguma coisa está a acontecer. Depois, não se queixem...     

2025/05/04

Taxi Driver (40)

Então, é para onde? 

- Para a Buraca, sff.

Vamos lá ver se conseguimos. Isto, hoje, está um caos. Não se pode passar em lado nenhum. Na Avenida da Liberdade estava tudo impedido. Não percebo esta gente: andam sempre a queixar-se que não têm dinheiro e vêm de carro para a cidade...

-  Se calhar é bom sinal...

Sei lá...Não querem é fazer nada! Esta gente nova, só pensa em duas coisas: no carro e no computador. Passam o dia sentados e não têm outros interesses. Não sabem fazer nada. 

- Também pode ter a ver com os pais. Foram educados no conforto e não sabem fazer outra coisa...

Eu dizia-lhes...pois olhe, eu já trabalho desde os 13 anos. Sempre trabalhei...

- Sim, mas há 50 anos atrás, a maioria das pessoas também começava a trabalhar mais cedo. O meu pai começou aos 14 anos. 

Parvo fui eu. Hoje estou bem, mas podia estar muito melhor. Quando fiz 13 anos, disse à minha mãe que não queria estudar mais. Nem me respondeu, pegou em mim e foi pedir trabalho a um restaurante, onde eu comecei a lavar pratos. Depois, ao fim de uns tempos, passei a ajudar na copa e, mais tarde, comecei a servir à mesa. Estive lá uns anos, sempre a aprender e os patrões pagaram-me os estudos. De empregado de mesa, passei a subchefe de sala e, finalmente, a chefe de sala. Nessa altura, já percebia umas coisas do assunto e convidaram-me para ir dirigir o restaurante "O jardim do marisco", ali ao pé de Santa Apolónia, onde hoje existe o Terminal dos Cruzeiros, lembra-se? 

- Vagamente, pelo menos de nome...

Pois, hoje, já não existe. Foi desmantelado, para construirem o Terminal. Estive lá 22 anos. Um dia, o patrão veio falar connosco e disse-nos que podíamos escolher: ou procurar um emprego, ou receber uma indemnização, porque ele também tinha recebido uma e ninguém ficaria "descalço". Eu já tinha mais de 50 anos e percebi logo que tinha poucas hipóteses de arranjar emprego no "ramo". Pedi a indemnização, que foi o que me safou a mim e à minha mulher que, entretanto, contraiu um cancro e teve de ser operada três vezes. O meu filho terminou o secundário e continuava a viver lá em casa. Eu falei com ele, pois já se estava a habituar e disse-lhe que ele já tinha idade para trabalhar ou estudar, que eu fazia o sacrifício. Ele resolveu emigrar e esteve na Bélgica uns anos. 

- Bom, pelo menos, saiu de casa. E o que é que ele foi fazer?

Fez de tudo. O senhor já sabe como é. Na emigração, a gente faz o que aparece...

- Por acaso, até sei. Também estive emigrado muitos anos.

O meu filho, agora, está cá outra vez. Juntou-se com um amigo e montaram uma empresa de barcos turísticos. Reparam barcos e levam os turistas a passear. Parece que se safam. Comprou uma casa que já pagou (eu fui fiador) e não me deve nada.

- Ora vê, um empreendedor, o seu filho!

O gajo é esperto. Sai ao pai. Se ele quiser continuar os estudos, estou disposto a pagar. O problema é a habitação. Estive a fazer as contas e, no mínimo, necessito de 700 euros só para as propinas. Se ele for para fora de Lisboa, ainda falta a casa e a alimentação. Não posso pagar tudo. Já pensei, vou matriculá-lo em Lisboa. Vem dormir e comer a casa, sempre sai mais barato. 

- Parece-me uma boa solução. O problema da habitação é que não há casas para ninguém. Nem para os estudantes, nem para as famílias, que não podem alugar casas a estes preços. Comprar, então...

Não há casas para ninguém, não! Se tirarem os ciganos e os mafiosos do rendimento mínimo, das casas onde não pagam renda, sobram muitas casas vazias. 

- Mas, as casas de que está a falar, são casas em bairros sociais, para pessoas sem rendimentos. A verdade é que não há casas suficientes, mesmo para quem quer pagar. Um problema nacional.

Sem rendimentos, o tanas! Recebem mais do que eu. Veja aqui (mostra-me o telemóvel com uma notícia sobre a morte do Manu em Braga). Sabe quanto é que este "manfio", um brasileiro do PCC condenado por homícidio, recebia? 950euros da Segurança Social! Qual era a profissão dele? O crime!  E sabe porque é que os empreiteiros não querem construir casas baratas? Porque não ganham dinheiro com as casas sociais, porque ninguém paga a renda! A culpa é dessas "manas" do Bloco, que andam a dizer às pessoas para ocupar casas. Ali na Ajuda, perto da minha casa, até a antiga Pousada da Juventude foi ocupada pelos ciganos. Não pagam nada e não saem de lá. 

- Se não saem de lá, é porque as autoridades não querem. O estado não consegue resolver este problema, por isso "fecha os olhos" e deixa-os lá ficar. Tem tudo a ver com a falta de dinheiro e falta de organização. 

Mas, então diga lá? Acha bem ocupar as casas e não pagar renda? 

- Não acho bem, mas as pessoas têm de viver nalgum lado. Se as casas estão vazias, porque é que não as alugam? Provavelmente, querem especular com elas. Há cerca de um milhão de casas vazias, em Portugal...

Mas, isto qualquer dia acaba. Em Barcelona, já existe uma organização para expulsar as pessoas das casas. Não saem a bem, saem a mal. Qualquer dia vêm para cá...

- Bem, parece que já chegámos. Pode parar por aqui. Boa tarde.

Boa tarde e desculpe lá a conversa...

2025/05/03

Debates, Deportações, Eleições...

Terminaram os debates e vão começar as campanhas partidárias, vulgo "circo eleitoral". Uma "festa"!

Deste vez, não houve "25 de Abril" em São Bento, mas um "arraial em família", na residência do primeiro-ministro. Para abrilhantar o evento, agendado para o 1º de Maio (!?), convidaram o Tony dos plágios, personagem incontornável do "pimba" nacional. Dois em um, portanto.

Passam, este ano, 50 aniversários sobre o "25 de Novembro" e o poder já está em "ensaios gerais" para comemorar a efeméride. Para já, um "arraial", depois se verá... Talvez um desfile militar na Avenida da Liberdade, para lembrar que esta (a Liberdade) está "vigiada". Nas ditaduras, seria assim. Como nós somos um povo de brandos costumes, "embrulhamos" o 25 de Abril no 1º de Maio (há que poupar nas despesas...) e, com esse dinheiro, pagamos um "cachet" substancial ao "pimba".

Sobre os debates, propriamente ditos, pouco há a acrescentar. Vimos alguns e continuamos a duvidar da sua eficácia. A maioria dos votantes já decidiu o seu voto e dificilmente mudará de opinião. Restam cerca de 15% sem opinião formada (que não sabem ou decidiram em quem votar). Pode residir, neste grupo, a decisão final. A acreditar nas sondagens, realizadas nas vésperas do debate Luís Montenegro versus Pedro Nuno Santos, a AD estaria a afastar-se do PS, cerca de 7%... Resta saber se essa vantagem se mantém ou é suficiente para uma maioria absoluta. A confirmar-se esta tendência, só com os votos da IL (possibilidade avançada pela maioria dos analistas) isso seria possível, ainda que improvável. 

Continua a falar-se muito do Spinumiva e duas ou três questões (salários, saúde, habitação...), mas não se fala de outras, tão ou mais importantes, como a educação, a cultura, a imigração ou a mobilidade. A nível internacional, então, os debates foram de uma pobreza absoluta. Nem mesmo no principal debate, entre os líderes dos maiores partidos, ouvimos qualquer menção à guerra na Ucrânia, ao genocídio em Gaza, ao aumento orçamental proposto pela NATO, à guerra das tarifas de Trump ou às implicações de todas estas coisas, para Portugal! Como é possível? Continuamos provincianos e a viver numa "bolha" completamente desfasada da realidade. 

Acabados os debates e o "arraial", recomeçaram as acções de propaganda. A primeira, hoje noticiada, tem a ver com as inaugurações do governo demissionário: 24 no total! Ainda agora a "procissão vai no adro". Daqui até dia 18, outras se seguirão. O que não faltam são rotundas e jardins para descerrar lápides...

Finalmente, o ministro António Leitão Amaro veio à televisão mostrar o trabalho da AIMA (Agência para a Integração Migrações e Asilo). Disse o ministro (com um ar circunspecto) que, dos 400 000 processos pendentes há um ano, falta analisar 120 000. Dos analisados, foram invalidados 18 000 (por não cumprirem os requisitos). A AIMA está a notificar estes imigrantes, para informá-los que terão de abandonar o país no prazo de 20 dias. Deportados, portanto. Resta saber o que lhes sucederá, caso não cumpram a ordem. Ficam ilegais no país, vão para um país vizinho, ficam no espaço Schengen? Não sabemos. 

É extraordinário como esta gente que nos governa não tem a mais pequena ideia de como funciona a imigração. Limitam-se a seguir a "cartilha" de Trump e, dessa forma, tentar agradar à extrema-direita (que deseja a expulsão de imigrantes). Não se lhes ocorre, que vão necessitar dessa mão-de-obra mais à frente, pois, sem imigrantes, a economia colapsa. Só a Confederação dos Patrões, pediu ao governo celeridade nos processos, para contratar 120 000 trabalhadores para o sector da construção civil! Não falaram sequer do turismo, da agricultura ou dos serviços hospitalares e domésticos. Nesses sectores, a falta de mão-de--obra é tão ou mais premente. Uma tristeza, estes governantes criados nas "jotas", que andam em carros pretos de vidros fumados, conduzidos por "chauffeurs" do estado, sem a mais pequena ideia da realidade. Da realidade da imigração e não só. 

Continuamos a caminhar para um abismo e a orquestra a tocar. Como somos pobres (de espírito), nem sequer dinheiro para a orquestra temos. Contentamos-nos com um plagiador. Sempre é mais barato. 

2025/04/24

Os "zelotas" de serviço (51 anos depois)

 Maria Helena Vieira da Silva, Liberdade, 1984 

Faz hoje 50 anos viajei de Amsterdão para Lisboa, para poder presenciar "in loco" as primeiras eleições livres em Portugal. Vivia, então, na Holanda, onde (ironia do destino) já podia votar como estrangeiro nas eleições autárquicas locais. 

Lembro-me perfeitamente desse dia. Ao entrar no avião, a hospedeira da KLM (uma amiga minha), perguntou-me se eu ia votar em Portugal (?). Que não, eu não podia votar, apesar da revolução de Abril ter sido um ano antes. A razão prendia-se com o novo regime, o que implicava criar partidos, programas e uma nova constituição. Aos residentes no estrangeiro, estava vedado esse direito, que só seria adquirido nas eleições legislativas de 1976. 

Durante a viagem, sentou-se ao meu lado e continuámos a falar sobre o processo democrático português que, à época, fazia capas diárias na imprensa. A opinião pública, na Holanda, seguia com atenção o desenrolar do chamado "processo revolucionário em curso" (vulgo PREC) e Portugal estava na "moda". Porque a situação era difícil de acompanhar, tentei explicar-lhe as vicissitudes de uma jovem democracia, após quase meio-século de ditadura. Não era fácil, nem para ela, nem para mim, perceber o que se passava a mais de 2000km de distância. Havia, no entanto, uma história comum: eu tinha vivido 20 anos sob um regime fascista e o pai dela tinha participado na resistência holandesa contra a ocupação nazi. Para mim, a democracia em Portugal era uma novidade. Para ela, a democracia neerlandesa era um dado adquirido. Despedimo-nos à chegada a Lisboa, com os votos de boas eleições. Foram as mais participadas de sempre (92% de votantes!). Um recorde absoluto. 

Recordo a emoção da data. Acordei cedo e, quando me preparava para assistir às primeiras votações em liberdade, já os meus pais estavam de volta. Tinham-se levantado de madrugada (tal era a excitação) e às 8h. da manhã foram votar! "Não custou nada", disse a minha mãe, quando perguntei como tinha corrido. Já o meu pai, sorridente, comentava que "estava tudo muito bem organizado"...

De volta à Holanda, ainda teria de esperar meses até o consulado de Roterdão abrir as inscrições para quem desejasse recensear-se. Dessa forma, poderia votar nas eleições legislativas, as únicas nas quais os portugueses residentes no estrangeiro participavam. Posteriormente, esse direito foi alargado às eleições presidenciais, durante anos impeditivas para os emigrantes portugueses. Vá lá saber-se porquê...

Passaram 51 anos e, amanhã, lá iremos descer a Avenida da Liberdade. A única manifestação verdadeiramente popular. Também no parlamento há, tradicionalmente, uma cerimónia oficial. A primeira, é da parte da tarde; a segunda, é da parte da manhã. Uma é uma festa, com centenas de milhares de participantes; a outra, é um ritual, ao qual assistem convidados oficiais, representantes dos partidos políticos e altos magistrados da nação. Nada contra. Ambas são representativas e sublinham o dia da Liberdade por definição. É bom que assim seja, pois significa que - de cravos vermelhos ao peito (a esquerda) ou de cravos brancos na mão (a direita) - o 25 de Abril não tem donos.  

Onde está a novidade, então? 

Acontece que, pela primeira vez na história, as festividades no palácio de São Bento não terão lugar no dia 25 de Abril. A razão invocada é o "luto oficial" decretado por morte do Papa (!?). Ou seja: o estado (laico) português, decretou 3 dias de luto, o que impossibilita "São Bento" de organizar quaisquer cerimónias ou festividades no local. Pior: no dia do funeral do Papa, as três principais figuras da nação - o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e o Presidente da Assembleia - estarão todos em Roma. Pior ainda: na ausência destas três figuras, a representação do estado português caberá ao vice-presidente da Assembleia da Republica, o deputado e ideólogo do "Chega" (Diogo Pacheco de Amorim), ex-membro do grupo terrorista MDLP, responsável por inúmeros atentados entre 1975 e 1977, conforme amplamente documentado e provado em tribunal. Nestes dias, o país estará representado por um facho.

Moral desta história triste: há muito que a direita mais reacionária e revanchista desejava "vingar-se" do "25 de Abril" (quando perdeu o poder). Durante 50 anos, não o conseguiram. A democracia sempre foi mais forte. Ainda é, de resto. No entanto, nos últimos anos, a composição do parlamento alterou-se e a maioria sociológica passou a ser de direita. É a partir daqui, que os "saudosistas" do 24 de Abril, viram surgir a sua oportunidade: primeiro, com a chegada ao hemiciclo do partido fascista "Chega"; depois, com a celebração do golpe de "25 de Novembro" (que, este ano, terá lugar pela primeira vez); agora, com a justificação dos 3 dias de luto que (atente-se), são iniciados ainda antes das exéquias terem lugar. O estado do Vaticano só decretará o luto, após o funeral do Papa! É caso para dizer: neste aspecto, o governo português "foi mais papista que o Papa!". 

Nota final: dadas as críticas de todos os quadrantes, por este cancelamento - totalmente despropositado num estado laico - o governo lá veio justificar-se com a desculpa esfarrapada que as festividades não tinham sido canceladas, mas apenas adiadas para data posterior, a saber, para o dia 1 de Maio próximo.

Já desconfiávamos, mas agora comprovámos: os portugueses saíram do Fascismo, mas o Fascismo não saiu da cabeça de (muitos) portugueses. Nada a fazer. 

Contra isto, amanhã e no futuro, voltaremos para reafirmar o óbvio: "25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!". 

2025/04/12

Debates Eleitorais

Frank Kunert - Live Broadcast (Live Übertragung), Small Worlds Project

Uma perda de tempo, a maior parte dos debates de 30 minutos, onde se fala de dois ou três "items", sem que nenhum deles seja aprofundado. 

Por exemplo: nunca se fala de política internacional e, quando se fala, é sempre na perspectiva de nós (os "bons") contra os outros (os "maus"). Todos, moderadores e líderes partidários, formatados na cultura norte-americana dos "westerns", onde a civilização era "branca" e os selvagens eram "peles-vermelhas". Raramente se fala da guerra europeia e, muito menos, do genocídio em Gaza, ainda que as vítimas sejam civis em qualquer delas. 

Uns tristes, estes políticos medíocres, que preferem refugiar-se em eufemismos e "engolir sapos", a perfilarem-se de acordo com as suas convicções, com medo de perder votos.

O mesmo relativamente aos entrevistadores, que repetem à exaustão lugares comuns sobre os assuntos em discussão, para não falar dos comentadores em estúdio que, à posteriori, classificam os debatentes de 0 a 10. A parcimónia com que fazem os comentários (há excepções), é bem ilustrativa do receio em serem dispensados pelos canais de televisão onde auferem chorudas avenças. 

O panorama geral é, francamente, desmotivador, pelo que as opiniões tornam-se cada vez mais previsíveis.  Os resultados de 18 de Maio, irão comprovar isso mesmo o que, em última análise, confirmará a eficácia do "brainwash" (lavagem cerebral) a que os eleitores foram submetidos neste mês pré-eleitoral. 

Se os resultados, como é previsível, não forem significativamente diferentes do ano transacto, não será de admirar. Depois, não se queixem...

2025/04/10

Trump ou a Máfia no poder


Se dúvidas houvesse, as recentes medidas do narciso psicopata (que governa os EUA) mostram até que ponto a insanidade do "homem" é perigosa para a Humanidade.

Diz e desdiz-se diariamente, conforme os ventos são de feição para as suas práticas mafiosas, que mais não pretendem do que controlar a economia (leia-se, dívida) com vista a salvaguardar o défice norte-americano que atingiu triliões de dólares na última década. 

No fundo, a mensagem subliminar, implícita neste "bullying" permanente, resume-se à icónica frase de Corleone: "I'll make you an offer you can´t refuse". Por outras palavras: "ou aceitam as minhas condições ou não vos garanto protecção". 

Um fdp da pior espécie que, no médio prazo, espera obter algumas vantagens (desvalorização do dólar e diminuição da dívida externa), mas que, no médio-prazo, irá perder. Por alguma razão, suspendeu as medidas (tarifas) anunciadas, por 90 dias, na esperança de (re)negociar os valores, entretanto perdidos em bolsa. A China foi o primeiro aviso, mas outros países e espaços económicos (UE) se seguirão. 

A questão central é saber até que ponto a reacção interna dos consumidores norte-americanos vai contribuir para a sua queda. Elon Musk (que não é propriamente um democrata) parece ter percebido o desastre e prepara-se para ser o primeiro rato a abandonar o navio. 

Tudo isto, porém, poderá demorar demasiado tempo e o tempo corre contra os democratas e os mercados (internos e externos) que se opõem a este regime (tecno)fascista. 

Os tempos mudaram e, a partir daqui, nada será como dantes. Esta é, para já, a única certeza. 

2025/04/03

As sondagens valem o que valem...

A sete semanas das eleições legislativas, antecipadas para 18 de Maio devido à moção de confiança do governo, rejeitada pela oposição, começaram a surgir as primeiras sondagens dos mais variados quadrantes. Há para todos os gostos e nem todas são uniformes, mas as tendências começam a definir-se, o que não será de estranhar, conhecendo os pormenores que antecederam a dissolução do parlamento. 

Porque umas são mais fiáveis que outras (há um histórico que valida os resultados publicados ao longo dos anos), vale a pena realçar a mais recente, da responsabilidade da CESOP- Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e Público, feita entre os dias 17 e 26 de Março último. 

"O universo-alvo é composto por eleitores residentes em Portugal, sendo que os inquiridos foram seleccionados aleatoriamente, a partir de uma lista de números de telemóvel, também ela gerada aleatoriamente. Foram obtidos 1206 inquéritos válidos, sendo 43% dos inquiridos mulheres. A taxa de resposta foi de 29%. A margem de erro máximo associada a uma amostra aleatória de 1206 inquiridos é de 2,8%, com um nível de confiança de 95%" (da ficha técnica).

E o que nos diz a sondagem da CESOP?

Que o PSD/CDS (AD) e PS estão em empate técnico, em relação à ultima sondagem da CESOP (Outubro 2024). Que o CHEGA, mantém a terceira posição, com uma ligeira quebra. Que todos os restantes, (IL, BE, Livre, CDU, PAN) sobem ligeiramente ou igualam as intenções de voto de há seis meses atrás. Os indecisos/não votantes, totalizam 23%.

Extrapolando (incluindo os indecisos) temos: 

AD-29%, PS-27%, Chega-17%, IL-8%, BE-5%, Livre-5%, CDU-3%, PAN-2%, Brancos/Nulos-4%

Ou seja, descem os três maiores partidos e sobem/igualam os restantes. A confirmarem-se estes resultados, não haverá maioria absoluta de nenhum partido. Isso pressupõe um governo minoritário (da AD ou do PS) já que coligações à esquerda e à direita não parecem muito prováveis. Uma coligação à esquerda, se bem que desejada pelas forças partidárias, dificilmente obterá os 42% ou 43% necessários para formar governo; enquanto à direita (que detém uma maioria confortável), o "cordão sanitário", imposto ao Chega, elimina a possibilidade de um governo de coligação. A menos que...

A menos que os dois principais partidos se entendam e, independentemente de quem vencer, o maior partido da oposição se comprometa a viabilizar os orçamentos e principais decisões do partido que governar. Uma espécie de "bloco central", que toda a gente diz não querer, mas que na prática pode funcionar. 

Caso não haja acordos, o mais provável será entrarmos num novo mini-ciclo, que pode terminar seis meses após a eleição do novo presidente da república que, em Julho de 2026, já poderá dissolver o parlamento e convocar novas eleições. Será isto que queremos?    

2025/03/29

Taxi Driver (39)



Para onde vamos? 

- Para a Buraca, sff. 

Buraca? A Buraca é muito grande...

- Nem por isso. Em rigor, já nem devia chamar-se Buraca. Há anos que faz parte da freguesia das Águas Livres, que inclui também Alfragide. As duas localidades formam a freguesia de Águas Livres. 

Não sabia...

- Pois, mas já é assim há uns bons anos. Eu estou recenseado na freguesia de Águas Livres e é lá que voto.

Olhe, quem não vota sou eu. Nunca mais voto! 

- Faz muito bem. Ou melhor, penso que faz mal, mas as pessoas são livres de votar (ou não). 

Eu não voto. São todos uns aldrabões, os políticos...

- É uma opinião. Também penso que há muitos aldrabões na política, mas nem todos são maus...

Eu não conheço nenhum bom. Há 50 anos que ando a votar e nada muda...

- Podia estar melhor, é verdade. Mas, nós somos uma democracia jovem e só há 48 anos é que podemos votar...

Só 48 anos? Não são cinquenta?

-  Temos democracia há cinquenta, mas só começámos a votar em 1975 para a Constituição e só votamos em partidos desde 1976...

Pode ser, mas já ninguém acredita nisto. A abstenção é cada vez maior...

- Infelizmente, é verdade. As últimas sondagens dizem-nos que a abstenção pode chegar aos 40%. Quase metade dos eleitores não votam ou não sabem em quem vão votar. Depois, não se queixem...

Fartei-me de votar e não mudou nada.

- Eu também votei sempre, mas os partidos em que votei nunca chegaram ao poder e, por isso, nunca governaram. Não me posso queixar. São sempre os mesmos partidos que ganham: o PS e o PSD. Portugal é governado por dois partidos há 48 anos...assim, é difícil haver grandes mudanças...

Olhe, o meu pai, que já cá não anda, quando via um político, dizia-me sempre: vai ali um político. Se fosse bom, caía-lhe um braço... 

- Essa, não conhecia. Mas, sim, a maioria dos políticos actuais não se recomenda...

Não têm palavra, senhor...isto é tudo uma cambada de vigaristas. Nunca cumprem o que prometem. Até o primeiro-ministro mente...

- Pois, a palavra de honra (como se dizia antigamente) não existe. A verdade é que hoje podemos saber mais coisas e mais depressa do que na ditadura. Eu vivi em ditadura 20 anos e não tenho saudades. Prefiro a democracia, com todos os seus defeitos. 

Sim, eu também vivi em ditadura. Tenho 75 anos. Lá em casa ninguém falava de política. Lembro-me que uma vez ouvi falar de comunismo na escola e perguntei ao meu pai, o que era isso de comunismo? Ele respondeu: cá em casa ninguém fala disso. A palavra comunismo era proibida. O meu pai não era político e não percebia nada de política.

- Está a ver? Está a dar-me razão, sempre é preferível vivermos em democracia. Podemos escolher. O senhor pode votar (ou não). Uma grande diferença. Para a próxima, vote noutro partido. Pode ser que mude...

Não, a mim não me apanham mais. Já chega. 

- Pronto, parece que chegámos. Quanto lhe devo? 

São seis euros certos. Nem de propósito.  

- Boa tarde e saúde, já agora.      

2025/03/12

(Des)Confiança

Terminou, sem glória, mais uma legislatura governamental, inaugurada há precisamente um ano e um dia. Como era de esperar, a Moção de Confiança, apresentada pelo primeiro-ministro, foi chumbada pela maioria do Parlamento e, de acordo com a Constituição, o governo caiu. 

Não foi bonita de ver, a sessão parlamentar de ontem, uma das mais longas dos últimos anos, que alguns comentadores já apelidaram de histórica. Cinco horas de debate, nem sempre transparente.

Como chegámos aqui, é provavelmente a pergunta que muito boa gente estará a fazer neste momento, ainda que os sinais da crise fossem por demais evidentes nas últimas semanas. 

Enredado numa situação de incompatibilidades entre o cargo político que desempenhava e os negócios privados de que beneficiava, o primeiro-ministro demorou a reconhecer o óbvio e, quando o fez, foi de tal modo evasivo, que pouco mais restava do que a demissão. 

Escolheu não fazê-lo, argumentando nada ter a esconder, enquanto apresentava provas que foram sendo progressivamente desmontadas por diversos orgãos de comunicação social (Correio da Manhã e Expresso), afinal os detonadores desta crise. Quando os argumentos começaram a escassear, surgiram as as primeiras moções de censura (Chega e PCP) que não obtiveram o consenso da Assembleia da República. 

É neste contexto, de desconfiança geral, que o PS avança com um requerimento para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que permitiria ao governo continuar em funções até ao apuramento dos factos. No fundo, uma forma hábil de manter o governo, enquanto o primeiro-ministro seria "cozido em lume brando" e dando tempo à oposição para se reorganizar.

Percebendo o perigo, Montenegro tentou uma última cartada, ao propor uma Moção de Confiança, que atiraria o ónus da prova para a oposição. Em si, uma forma hábil de culpar o PS, pelo eventual derrube do governo, o que viria a confirmar-se.

Resta saber quem tirará mais dividendos desta crise institucional,  que obrigará o país a ir a eleições pela terceira vez em três anos (uma solução que a maioria da população não vê com bons olhos), mas que acabou por tornar-se inevitável.

E agora? 

Segue-se o ritual previsto em situações similares: o Presidente da República auscultará os partidos com representação parlamentar, seguir-se-á o Conselho de Estado e, finalmente, a marcação de uma data definitiva para as Eleições Legislativas, que não devem acontecer antes de 11 de Maio. 

Conclusões provisórias: ainda que seja cedo para avaliar os "estragos" causados por uma crise que ninguém pediu, a verdade é que tudo pode ficar na mesma e esse será, certamente, um mau resultado. A acreditar nas sondagens (publicadas antes da crise), não haveria grandes alterações de voto nas principais formações políticas (AD, PS e Chega) que manteriam, sensivelmente, as percentagens do ano passado. Já o lugar dos principais líderes partidários (respectivamente, Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos) estará em perigo, pois não é provável que o derrotado se mantenha no cargo. Quem perder, sai. Esta é a lógica implacável dos partidos democráticos. Apenas o Chega, partido autocrático de um homem só, não terá esse problema. Também nestas eleições, a escolha será entre democracia e autoritarismo. 

Venham as eleições!

2025/03/06

Abanar a cauda...


Ainda nem uma semana passou sobre o polémico episódio da Sala Oval (em que Trump e Vance, "humilharam" Zelensky) e já as peças do dominó estratégico ocidental começaram a cair. As coisas nem sempre são o que parecem e, aparentemente, a realidade começa a impôr-se no continente europeu. 

Entretanto, Zelensky (que acaba de entregar o ouro ao bandido) está a prazo, mas toda a gente diz querer defendê-lo, mesmo quando a Ucrânia já perdeu a guerra. 

Percebe-se: é cada vez mais difícil à "troika" europeia (Van der Leyen, Costa e Kallas) defender o indefensável, depois de três anos de juras de fidelidade à "causa ocidental", sem que tenham conseguido progressos na frente de combate. Tudo isto era expectável, a partir do momento em que Biden anunciou, logo nos primeiros dias do conflito, que os EUA não queriam uma guerra com a Rússia, mas "apenas enfraquecê-la". Ou seja, sem um envolvimento dos "aliados" no terreno, a Ucrânia teria poucas possibilidades de suster a ofensiva russa. Está à vista.

E agora? Sem exército, com a economia dos seus principais membros (Alemanha, França e Itália) em crise e sem possibilidades de reconverter o modelo económico actual numa economia de guerra a curto prazo, os líderes da UE vieram pedir 800 mil milhões de euros aos cidadãos para comprar armas aos americanos! Grande negócio. 

Ou seja: Trump impôs a sua vontade a Zelensky e à Europa (que não conta para nada, a não ser para fazer negócios) enquanto assegura a exploração dos minerais ucranianos. Do outro lado, Putin ficará com o Donbass e com a Crimeia, ganhando o território ocupado. 

E a Europa? À Europa, resta obedecer e abanar a cauda...

2025/02/24

Taxi Driver (38)


Então, vamos para onde? 

- Para a Buraca. Pela Avenida do Uruguai, s.f.f.

O senhor é que manda...

- Era bom, era...Posso abrir a janela? 

Abra, abra. Já está calor...

- Nem por isso, mas sempre é melhor com a janela aberta.

Está muito calor para Fevereiro. Falta chuva, para os campos. 

-  Sim, é preciso mais água, mas só estão 17º. É normal para a época do ano...

Aqui no táxi, marca 20º. Isto anda tudo trocado. Com o Trump vai ser pior. Ele não quer saber do clima para nada...

- O Trump só quer saber dos negócios dele. Se derem dinheiro... 

E, agora, também quer ficar com as terras da Ucrânia. Logo, as terras mais ricas em minerais. Já viu isto? 

- Claro. Os americanos fazem sempre isso. Dão ajuda em troca de reconstrução das zonas destruídas pelas guerras. Esta guerra não é diferente. Podia ter sido parada há 3 anos atrás, quando houve propostas nesse sentido, primeiro em Minsk e, depois, em Istambul. Claro que o Zelensky deve estar nas conversações. Sem a Ucrânia, não podem negociar.

Mas, olhe que a maior parte da população quer continuar a combater. Os ucranianos não querem parar.

- É natural, é o país deles. O pior são as perdas humanas e materiais. São centenas de milhares de mortos.

Já morreram centenas de milhares de ucranianos...

- É bem possível, sim. Fora os feridos e os mortos do lado russo, que também devem ser outros tantos.

Já andam nisto há 3 anos. Não vai terminar tão cedo.

- Depende, se interessar aos americanos e aos russos, talvez termine rapidamente. Até agora, os únicos a ganhar com a guerra, foram os americanos. Venderam armamento à Ucrânia e cereais e energia à Europa, sem terem soldados a combater no terreno. Um negócio leonino. Ainda por cima, uma parte da ajuda à Ucrânia foi em armamento que os ucranianos tiveram de comprar aos Estados Unidos. Ou seja, o dinheiro não chegou, sequer, a sair da América...

Pois, os europeus deram mais dinheiro. As armas são mais americanas.

- O pior é que, esta guerra, ainda vai "sobrar" para nós, pois as despesas militares vão aumentar e o dinheiro não chega para tudo. Já falam em aumentar a contribuição para a Nato em 3% e mais por cento.

Ah, pois não chega, não! Agora é que os subsídios e os rendimentos mínimos vão diminuir...

- Não só. Os ordenados e as pensões, também serão afectados. No fundo, quem desconta mais, pagará mais. É sempre assim. Não se pode tirar dinheiro a quem não tem. Seria o fim do chamado "estado social"...

A Europa está a dormir. Não se percebe porque é que aceitam tudo o que o Trump quer.

- Pode ser que a Europa "acorde". Ainda vamos a tempo, mas com os actuais políticos europeus, não tenho grande esperança.                               

Pronto, já chegámos. São sete euros. Veja se tem trocado, que eu não tenho mais moedas. 

- Não há problema. Pode ficar com o troco. Adeus e até à próxima. 

 

2025/02/15

O "Chega" é um partido fascista (qual a dúvida?)

Agora que "caiu o Carmo e a Trindade" no parlamento (e fora dele), devido às ofensas dos deputados do "Chega" a uma deputada invisual (algo inédito na sua virulência verbal e discriminatória, contra um deputado no exercício das suas funções) ouvem-se as vozes da indignação. Ainda bem que é assim.

Nada que nos deva surpreender, já que a estratégia de Ventura e seus pares foi, desde o início, mimetizar as práticas de partidos homólogos por esse Mundo fora: de Trump a Bolsonaro, de Milei a Meloni, de Le Pen a Abascal, todos eles se regem pelo mesmo comportamento-padrão: idolatram um líder, atacam o "sistema", discriminam minorias (ciganos, imigrantes, refugiados, negros, mulheres, LGTB, invisuais...) e instigam ao ódio e à violência, sempre contra os mais fracos da sociedade, a quem culpam pelos males de que eles (fascistas) dizem padecer...Não se lhes conhece um programa de governação (para além de um nacionalismo bacoco e da prisão ou expulsão de imigrantes) e, muito menos, uma crítica aos interesses instalados que governam os respectivos países. No fundo, "são fortes com os fracos e fracos com os fortes". Uns tristes.

Ao partido e ao seu líder, muitos já chamaram "populistas", "infantis" e mesmo "arruaceiros" ou "criminosos". Poucos os apelidam de fascistas, ainda que haja excepções (Raquel Varela, Fernando Rosa, Rui Bebiano...). Por alguma razão, são os historiadores a detectarem o óbvio. 

Independentemente das "infantilidades" de Ventura e seus sequazes, há uma estratégia por detrás deste comportamento de "bullying" permanente, dentro e fora do Parlamento. Começou na periferia (quem não se lembra da discriminação contra os ciganos em Loures?), passou para os imigrantes de origem asiática e já vai nos imigrantes ilegais, que o "Chega" associa à criminalidade (!?). 

Acontece que (o partido) foi tolerado quando não devia (depois da primeira tentativa de legalização do "Basta!", que se transformaria em "Chega!" após os primeiros estatutos terem sido chumbados pelo Tribunal Constitucional) ainda que continuem as mesmas práticas depois da reformulação estatutária. O que na gíria se apelida de "um lobo com pele de cordeiro". 

Se (o partido) já era criticável com 1 deputado "infantil", com 50 "arruaceiros" ganhou maior peso e visibilidade, tornando-se incontornável e insuportável. Mas, piorou, a menos que os democratas na AR, que formam a maioria, obriguem o (frouxo) presidente da Assembleia a tomar uma posição inequívoca, uma vez que é ele quem dirige os trabalhos e, portanto, é o responsável último pela ordem e disciplina no hemiciclo.  

Já toda a gente percebeu que este comportamento nada tem a ver com o debate político, mas com ataques soezes e "ad hominem", que mais não pretendem de que instigar o ódio e a divisão entre os pares. Estas práticas são conhecidas do passado (Mussolini, Hitler, etc) e voltaram a estar activas no presente (Trump, Bolsonaro, Milei, Wilders...). Chama-se Fascismo ou (novo)fascismo. Um fascismo de tipo novo. Não perceber estas coisas simples, pode ser fatal.

Umberto Eco, num ensaio clássico ("Como reconhecer o fascismo", Ed. Relógio de Água, 2017), referindo-se ao "Ur Fascismo" (o "fascismo eterno"), definia 14 características existentes na ideologia e prática fascistas. Escreveu Eco: "Não é necessário possuí-las todas, mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma "nebulosa fascista" (ibidem). Na prática do "Chega", são manifestas algumas dessas características: idolatração do líder, a procura de "um "bode expiatório" (judeus no passado, imigrantes no presente), discriminação de minorias, racismo, xenofobia, instigação ao ódio, violência verbal e física, etc...

No fundo, é como o "teste do pato": se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, muito provavelmente, é um pato. 

 

 

2025/02/12

Índice de Transparência: a pior classificação de sempre



Foi ontem divulgado o ranking da "Transparência Internacional" (TI), sobre corrupção a nível mundial.  Um índice, criado em 1995 pela TI, que classifica anualmente 180 países membros daquela ONG, de acordo com a (percepção de) corrupção existente em cada um dos países analisados. Trata-se de uma percepção da corrupção e não da corrupção em si.

Sem surpresa, a classificação de Portugal no ranking 2024, quedou-se pela 43a posição, uma queda de nove lugares relativamente a 2023. Esta é a pior classificação de sempre, desde que uma nova metodologia foi introduzida em 2012. Portugal somou 57 pontos (numa escala de 0 a 100) em que países onde existe mais transparência somam mais pontos e países com menos transparência, somam menos pontos. 

De acordo com este critério, os dez países considerados "mais transparentes" (menos corruptos), são: 

Dinamarca (90 pontos), Finlândia (88), Singapura (84), Nova-Zelândia (83), Luxemburgo (81), Noruega (81), Suíça (81),  Suécia (80), Países-Baixos (78), Austrália (77). No fim da lista, estão os três piores países: Venezuela (10 pontos), Somália (9) e Sudão do Sul (8). 

Ainda que Portugal esteja à frente de países como a Espanha e a França, a reputação do nosso país está ao nível do Ruanda e do Botswana e abaixo da média da Europa Ocidental e da União Europeia (64 pontos). Não se pode dizer que seja um bom indicador e muito menos um bom "cartão de visita"...

Há várias explicações para a queda de Portugal no ranking. Duas das justificações, avançadas pela TI, são a "percepção de abuso de cargos públicos para benefícios privados" e "as fragilidades nos mecanismos de integridade pública para evitar abusos". Lendo as conclusões da relatório, não custa pensar em casos mediáticos como a "Operação influencer" (que levaria à demissão de António Costa e posterior queda do governo), o caso "Tutti Frutti" (com 60 implicados, dos dois maiores partidos, a nível nacional), para além da crise na Madeira (onde o presidente da região autónoma está acusado de crimes de corrupção e peculato), entre outros casos menos mediáticos. 

Posto isto, fácil é concluir que é nos países mais desenvolvidos da Europa do Norte - onde os regimes democráticos têm maior tradição e as sociedades são mais inclusivas ("open societies") - que os índices de corrupção são menores; ou seja, onde o "estado social" está mais desenvolvido, há menos desigualdade, maior distribuição da riqueza e, por conseguinte, menos corrupção. Contrariamente, é nos países onde o estado é mais fraco e onde existe mais pobreza e desigualdade, que os índices de corrupção são maiores. Já as ditaduras, por não fornecerem dados fiáveis, estão por definição excluídas deste ranking, o que explica a sua não-classificação. 

Perante estas conclusões, logo se apressaram alguns notáveis (Presidente da República, Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas, Partidos da Governação...) a desvalorizar os dados apresentados: que Portugal, apesar de ter descido no ranking, não era um país de corruptos (!?), ainda que a classificação não fosse boa para a nossa "imagem", nomeadamente entre potenciais investidores estrangeiros, que pensariam duas vezes antes de pôr cá o seu capital. Trata-se, portanto (e mais uma vez) da "imagem". Ou seja, não interessa se há corrupção ou não, mas da "percepção" da coisa. O que pensam os "outros" de nós, é a filosofia subjacente.       

Para quem não sabe, uma última nota relacionada com a corrupção e possíveis interpretações do acto em si. Fala-se de corrupção, "quando uma pessoa que ocupa uma posição dominante, aceite receber uma vantagem indevida em troca de prestações ou serviços". Ou seja, qualquer acto de corrupção, exige sempre dois actores, o corruptor e o corrompido, tanto no sector público, como no privado. Da mesma forma que, para além das compensações meramente pecuniárias, podemos distinguir diversos níveis de corrupção. Basta lembrar os "favores" de reciprocidade, como sejam as famosas "portas giratórias", prática em que Portugal se tornou exímio nas últimas décadas, ou não fossemos um país onde o "compadrio" e o "patrocinato", são inerentes à cultura mediterrânica. No fundo, tudo se resume à frase que celebrizou Don Corleone na famosa saga: "I'll make you an offer that you can't refuse" (faço-te uma oferta que não podes recusar). É assim tão difícil de perceber? 

 

2025/02/09

Taxi Driver (37)



Boa tarde, para onde vamos?

- Para perto, hoje é para Benfica. 

Já estou aqui na praça, há mais de uma hora. Estava a ver que não aparecia ninguém... 

- Esta praça não é muito frequentada. À noite, então, é impossível apanhar táxis.

Pois não, os meus colegas têm medo de estacionar aqui. Mas eu vivo no bairro e conheço bem a zona. Já ando nisto há 54 anos...

- 54 anos? Isso é muito tempo. Já podia reformar-se, ou não?

Poder, podia, mas vivia de quê? Tenho 80 anos e uma reforma pequena. Há dias, que nem 10 euros faço. E a família, comia o quê? A minha reforma é miserável e tenho de trabalhar para levar algum para casa. Na noite passada, deitei-me às 6h da manhã e já estou aqui outra vez...

- Porque é que trabalha de noite? De dia, não é melhor?

Sim, mas o táxi não é meu e de noite ganha-se mais. As tarifas são mais altas. Como eu ganho à percentagem, quanto mais serviços fizer, mais ganho. Olhe, o mês passado até tive de empenhar a alianças (mostra-me a mão, sem anéis...). 

- E não tem outro ordenado?

A reforma de taxista, que são à volta de 500 euros, mais uma reforma de combatente. São 120 euros por ano. 

 - Por ano? Mas isso não dá para nada. Onde é combateu? Nas colónias em África?

Sim, era comando. Fui comando durante 4 anos. Estive em Angola e em Moçambique.

- Imagino. Quatro anos de guerra é muito tempo. Um horror.

A quem o diz. Um dos meus melhores amigos, aqui da Amadora, foi meu camarada nos comandos e morreu-me nas mãos. Estava a carregar um lançador de granadas, deitou a granada sem cavilha para dentro do tubo e aquilo rebentou-lhe na cara! Uma desgraça. Ficou todo queimado. Limpei-lhe as feridas como pude, mas não consegui salva-lo. Quando morreu, era deste tamanho (faz um gesto curto com as mãos). Embrulhei o cadáver numa manta, meti-o numa caixa de madeira e despachei-o para a metrópole. 

- As guerras são sempre uma desgraça. Para além dos traumas que deixam...

O meu amigo, já estava meio "apanhado". Saía de noite do acampamento e ia para o meio do mato apregoar jornais: "Olha o Diário Popular! Olha o Notícias!", aos gritos... Tínhamos de ir buscá-lo, pois ainda apanhava um tiro. Conheço mais como ele...

- Sim, há muitas histórias dessas. Eu tive três primos que passaram por África e nenhum deles falava sobre a guerra onde estiveram. Nunca me contaram nada. 

Pois, não. Nunca falam. Isso, não me espanta. A guerra atinge a todos.  

- Bom, parece que estamos a chegar. Pode ficar por aqui. Quanto é que lhe devo?

São €7,80. Se tiver trocado, melhor. Hoje, ainda não fiz nenhum serviço. O senhor é o primeiro cliente...

2025/01/25

Imigrantes: os "bodes-expiatórios" de más políticas

Emigrantes portugueses já a bordo de navio, dirigindo-se para o Brasil... |  Download Scientific Diagram

Os recentes acontecimentos no Martim Moniz relançaram o debate sobre a imigração. Não há cara nem careto, que não se pronuncie sobre o tema, ainda que as opiniões expressas pouco ajudem à clarificação do problema, que data de longe e continua sem ser solucionado.  

Que a direita conservadora e tradicional faça suas as bandeiras da extrema-direita, já é grave e acontece um pouco por toda a Europa. Que os sociais-democratas (vulgo socialistas) entrem neste jogo perigoso, é deplorável. O relativismo começa a tomar conta destas mentes paternalistas, de tal forma que, às tantas, já nem se percebe bem o que defendem. Afinal, a Lei existe, para quê?   

Obviamente que os partidos do poder (PS, PSD, CDS) sempre ignoraram um problema latente há décadas e que nunca foi resolvido: o acolhimento de imigrantes e a sua integração na sociedade portuguesa. Esta situação é (parcialmente) explicável pelo facto de sermos tradicionalmente um país de emigrantes e só há pouco tempo sermos (também) um país de imigrantes. Ou seja, não há um histórico recente de acolhimento e integração de imigrantes pobres, pela simples razão de Portugal ser um país pobre e pouca gente querer imigrar para cá. As pessoas pobres emigram para países ricos.

De resto, muitos destes recentes imigrantes são asiáticos (oriundos de ex-colónias britânicas) e, até há pouco tempo, utilizavam Portugal como "escala" para o Reino Unido. Isto quando os britânicos faziam parte da União Europeia. Com o Brexit, esse estatuto privilegiado terminou e muitos deles ficaram por aqui. 

É verdade que existe um "boom" de imigração, o que dificulta a sua integração, mas pouco foi feito para minorar o problema. Na origem, está a crónica má organização dos portugueses (somos bons a criar, péssimos a gerir) e nesta, como em outras áreas, o caos é gritante (veja-se a saúde, a educação ou a habitação, para citar três exemplos). Dito de outro modo: se os governos (todos, sem excepção) não conseguem resolver os principais problemas nacionais, como esperar que resolvam os problemas dos imigrantes pobres? Neste campo, e após oito anos de governação, o PS não tem desculpa, pelo que a auto-crítica de Pedro Nuno Santos (relativa aos anos de Costa), faz algum sentido. Algum, porque PNS esteve lá todo aquele tempo e é, no mínimo, cúmplice da "bagunça" instalada no SEF.  

Mas, não chega, claro. Há que demarcar-se da direita-extrema. Nesse sentido, a sua entrevista ao "Expresso", não ajuda a clarificar as ideias. Já chega de tantas cautelas. Assuma-se, pois não vai ter muito tempo para isso. O tempo urge e os imigrantes não podem (nem devem) ser moeda de troca.

foto - Emigrantes portugueses já a bordo de navio, dirigindo-se para o Brasil (início do século XX). Carla Mary S. Oliveira

2025/01/21

Trump ou o regresso do Fascismo

Agora que Trump foi empossado e disse ao que vinha, anda meio-Mundo a vociferar contra o programa (i)liberal, que alguns comentadores, "bem-comportados", teimam em apelidar de "populista". Na realidade, não há nada de novo aqui, dadas as intenções manifestadas pelo mesmo presidente americano, na campanha de 2016. 

Ou seja, liberalizar ao máximo a economia, na esperança de que o "mercado" regularize a lei da oferta e da procura (para que todos possam ganhar com isso...), diminuir os impostos, aumentar as taxas de importação e regressar a um modelo de industrialização, abandonado no século XX, que permitiu à China tornar-se a segunda potência económica mundial e o principal competidor comercial dos EUA. De preferência "sem guerras", já que Trump, um homem de negócios, prefere o lucro ao sangue, bastando vender armas às ditaduras mais abjectas do planeta, para que a América seja grande de novo (!?).  Dado que não tem escrúpulos, nunca se interrogará sobre a natureza dos regimes com quem faz negócios, segundo o conhecido provérbio "olha para o que digo, não olhes para o que faço". Um biltre.

Uma vez que o poder imperial americano assenta na força económica e militar, pensa que bastará ameaçar o Canadá, o Panamá ou a Groenlândia, para que estes países se curvem e aceitem as propostas ridículas que fez, pois sabe que, numa negociação, pode sempre obter vantagens. Resta acrescentar, que tais declarações, não só foram completamente recusadas pelos países visados, como ainda existem leis e tribunais  internacionais, onde estas questões são, normalmente, derimidas. Mas, que importância tem isto, para um narcisista patológico, cujo ego é maior que o país que dirige?

Ao mesmo tempo, arranjam-se bodes expiatórios internamente, para sossegar os apoiantes em caso de fracasso, como os imigrantes ilegais, as mulheres, os muçulmanos ou os asiáticos que, ao que consta, "comem cães e gatos, em Springfield". Um tarado, não diria melhor. É esta egocêntrica figura, vencedor das eleições norte-americanas, que irá governar metade do Mundo nos próximos quatro anos. Mas, não está sozinho desta vez. Com ele, os oligarcas mais poderosos do país que, de tão ricos, já têm direito a um lugar na Casa Branca. Lá estavam também alguns (poucos) convidados europeus, como a reciclada fascista Meloni e o envergonhado Ventura. De fora, ficou o palhaço Bolsonaro, a quem confiscaram o passaporte. Pior, era impossível. 

Estamos, pois, a assistir ao regresso do fascismo, agora apoiado por corporações e oligarcas das novas tecnologias (Bezos, Musk, Zuckerberg), já que as "botas cardadas" caíram em desuso. No fundo, o fascismo não é mais do que uma das faces do capitalismo. Quando o lucro do capital não chega (nunca chega!) começa-se por destruir as conquistas sociais dos trabalhadores ou emprega-se a força (a violência é uma das componentes do fascismo) para obter dividendos. 

Ditadores, sempre existiram. O que parece não existir é uma "esquerda" digna desse nome que, de há décadas a esta parte, se demitiu do seu papel transformador, para passar a gerir o chamado "capitalismo de rosto humano" (a chamada "3ª via" de Blair, Schoder, Hollande, Zapatero, Kok, Sócrates...), com os resultados conhecidos. Quando o neoliberalismo actual (iniciado com Reagan e Thatcher) deixou de precisar destes "socialistas de salão", descartou-os ou, na melhor das hipóteses, comprou-os com sinecuras que garantem uma reforma dourada. Veja-se a triste figura que Costa anda a fazer na Europa, ao lado da prussiana que dirige a UE.

Sim, Musk fez ontem a saudação nazi, reproduzida em todas as pantalhas do planeta. Como já tinha elogiado Hitler, interferido na política alemã (ao apoiar o partido neo-nazi do AfD) e criticado a política actual do governo britânico. O mesmo fez Steve Bannon, que fez a saudação nazi ao receber o filho de Bolsonaro e que também faz, frequentemente, Ventura, ainda que de modo mais "envergonhado"... São todos populistas. Mas, também são fascistas e já sabemos como estas coisas acabam: primeiro levam os imigrantes, depois os sindicalistas, mais tarde os comunistas e, quando já não há quem nos defenda...


2025/01/09

Taxi Driver (36)

Edifício J: O Novo Campus de Justiça da Cidade, Descubra o emocionante  universo de site de apostas jogos futebol - vitis.sk

Boa tarde, para onde vamos? 

- Para o Campus da Justiça, sabe onde é? 

No Parque Expo, certo?

- Sim, é para renovar o passaporte.

Ah, já sei. Foi lá que renovei a minha carta de condução. Penso que é no edifício J. 

- Isso mesmo, é uma Loja do Cidadão. Podia ir à Loja das Laranjeiras, que é mais perto, mas está sempre cheia e funciona por senhas. Na Campus da Justiça, já tenho marcação para hoje. 

Não se meta nas Laranjeiras. Aquilo está sempre cheio de "monhés", carregados com papéis, a tratar de licenças de estadia e contratos de casas. Depois, quando têm os papéis, vão viver aos 10 e aos 20, para uma casa, onde pagam 100 euros por uma cama, mas eles não se importam porque estão habituados a viver à "molhada". Muitos nem trabalham...

- Vivem ao "monte", porque ninguém lhes aluga casa e as rendas são caríssimas. Nem os portugueses conseguem arrendar casa em Lisboa, quanto mais os imigrantes pobres! Que culpa têm os imigrantes, que o estado português, que necessita deles, seja mal organizado e mande vir estrangeiros sem lhes dar apoios mínimos? Eu também fui emigrado na Holanda e ninguém vivia debaixo de pontes e tendas nos parques. Porque é que os responsáveis políticos e a polícia, permitem isto? Alguém ganha com este negócio. São as máfias dos empregadores e dos senhorios, para não falar dos advogados, que traficam tudo, a troco de dinheiro.  Os governos sabem e "fecham os olhos"...

Pois, é. Neste país, não se pode viver. Até a minha filha teve de emigrar.

- Tem uma filha emigrada? 

Tenho. É enfermeira. Cá, não se governava, foi-se embora. Agora estamos separados, mas ela está melhor. Aqui ganhava 1200 euros e lá pagam-lhe 4000 libras. Trabalha num hospital ao Norte de Londres, alojamento incluído. Tem um apartamento de 60 m2, com um quarto e uma cozinha aberta. Para uma pessoa, dá. Fui lá visitá-la. Está bem e vai a pé para o trabalho. Os preços no Lidl, do bairro onde mora, são os mesmos de cá. O senhor acredita? 

- Acredito. Falta organização aos portugueses. Não se conseguem organizar cá dentro, quanto mais os que vêm de fora. Já é assim há muito tempo. Com o aumento do turismo e o crescimento da economia, são necessárias pessoas para trabalhar em sectores onde os portugueses não querem trabalhar. 

Se pagarem melhor aos portugueses, eles ficam cá e não precisam de contratar imigrantes.

- Sempre houve migrantes em todo o Mundo. É um fenómeno mundial. O facto de virem pessoas para cá trabalhar é sinal de que a economia portuguesa está a crescer e necessita deles. Em si não é mau.

Pois não. Saiu um estudo há pouco tempo, onde dizem que 60% dos portugueses concordam com a imigração. Não podem é ser tantos e muitos não são de confiar. Eu não concordo com o Ventura, mas ele diz umas verdades. 

- O Ventura? É um fascista. Discrimina as minorias e diz que os ciganos não trabalham e vivem à custa do RSI. Toda a gente diz verdades. Até eu digo. É como os relógios parados. Duas vezes por dia, estão certos. O que é que isso prova?

Eu não voto no Ventura. Eu voto no PSD,  sempre votei. Não sou da extrema-direita. Mas, o que o Ventura diz dos ciganos é verdade. Vou-lhe contar uma história que se passou comigo: quando a minha filha foi para Inglaterra, disse-me para vender o carro dela, pois já era antigo e ela não ia usá-lo. Pus o carro à venda, até que um dia apareceu um cigano todo bem vestido e bem falante, interessado no carro. Mostrei-lhe o carro, ele deu umas voltas, voltou e disse-me que queria comprá-lo. Pedi 1500 euros e ele pagou em dinheiro. Dei baixa do carro, trocámos de documentos e ele foi-se embora. Passadas duas semanas, telefonou-me (com pronúncia de cigano) a dizer que o carro não estava em condições e que queria o dinheiro de volta. Eu recusei e ele ameaçou-me. Se não devolvesse o dinheiro, eu arranjava problemas. Durante uns dias, andei assustado, pois não sabia o que podia acontecer. Passado uns dias, telefonou outro cigano, amigo dele, a ameaçar-me de novo. Ou eu devolvia o dinheiro ou ia arrepender-me. Nessa altura, resolvi contactar um advogado conhecido e contei-lhe o caso. Ele aconselhou-me a tirar uma fotografia do seu escritório e mostrá-la ao cigano. Se ele me tornasse a ameaçar, ia para a prisão. Nunca mais me telefonou!

- Acredito, mas isso não prova que todos os ciganos sejam assim. O mesmo podia passar-se com outra etnia qualquer. Os criminosos não têm nacionalidade. É a mesma coisa que dizer, como o Ventura, que os ciganos vivem todos do Rendimento Mínimo. É mentira. 

É mentira? Têm filhos às carradas e vivem dos abonos de família, sem fazer nada. Muitos não pagam renda e até Mercedes à porta, têm. Do que é que vivem?        

- Isso é um mito, no qual as pessoas acreditam. Sabe quantos ciganos vivem em Portugal? Cerca de 40.000, segundo os dados de 2023. Representam 0,35% da população portuguesa! Sabe quantos recebem RSI? Cerca de 2000 ciganos, ou seja 3,7% da população cigana. Uma treta, que o Ventura conta aos portugueses e na qual só os ignorantes acreditam. Por isso, teve os votos que teve. Ninguém sabe nada. 

Não acredito, que sejam só 40.000. Eles fazem tantos filhos e a população está a diminuir? Esses números são falsificados. Não é permitido indicar a raça nos estudos que fazem, como é que o senhor sabe que são só 40.000? É como os indianos e os paquistaneses, que andam aí nos "ubers". Quantos são? Já ninguém sabe. Nem as autoridades sabem. Muitos nem sequer carta de condução têm.

- Isso é fácil de controlar. As licenças para conduzir um "uber" ou um táxi, devem ser iguais. A carta é um requisito. É como pagar renda de casa. Se têm casas sociais e não pagam renda, os serviços da câmara, podem expulsá-los. Eu, se não pagar renda durante dois meses, também tenho de abandonar a casa. Voltamos sempre ao mesmo. Os estrangeiros são convidados a vir para cá trabalhar e eles é que têm a culpa de que o estado português funcione mal? Sabe donde vêm os ciganos? 

Sei, vêm da Índia. Foram expulsos, por andarem lá a roubar. Ninguém gosta deles. Até os indianos da "uber", correm com eles, quando vêem algum na praça do aeroporto. Não admira, eles conhecem-nos bem...

- Nunca ouvi falar disso, mas pode ser verdade. Dou-me com alguns asiáticos e tenho a melhor impressão deles. Faço as minhas compras em estabelecimentos de bengalis e paquistaneses. Sempre amáveis e simpáticos.

Não se fie. Isso é porque o senhor é homem. Não respeitam as mulheres e abusam delas quando as transportam nos carros. As queixas são diárias. 

- Já ouvi falar disso, também. Não há evidência estatística de que isso é verdade. Quantos casos, quantas queixas? Penso que sabe que a maioria dos criminosos em Portugal são portugueses de origem. O número de criminosos estrangeiros presos é minoritário, por comparação com os nacionais. 

Isso é porque escondem a nacionalidade dos presos. Para a justiça, os ciganos são todos portugueses...

- Pois são. Chegaram a Portugal no século XV e ficaram por cá. Até os expulsaram em 1562, durante a Inquisição, mas acabaram por ficar. Como os judeus, os africanos e outras etnias. Somos um povo com muitas origens. 

Olhe, estamos a chegar. Se quiser levo-o lá dentro, mas pode atravessar aqui, que é mais perto. O edifício J, é o último à direita. São 13,20 euros. Treze euros está bem, que eu não tenho troco. 

Muito bem. Boa tarde e bom trabalho. 

2025/01/03

Ano Novo, Vida Velha

Começou o ano. Como habitual, previsões não faltam. Um ritual, a que nenhum profissional do comentário se furta. Se as previsões não baterem certo, nunca será um problema. Afinal, os prognósticos mais acertados, sempre foram aqueles do fim do jogo.

Pior que as previsões, são as promessas. Poucas são cumpridas e, no caso de promessas políticas, menos ainda. Uma constante de todos os países em diferentes latitudes. "É o que temos", dirão os mais conformistas. Neste campo, Portugal, é paradigmático. Não passa um ano sem balanços do que (não) foi feito, apesar de sabermos de antemão o que falta (sempre) fazer. Dito de outro modo: os diagnósticos são conhecidos, só falta a obra! 

Se perguntarem a um português médio que problemas mais gostaria de ver resolvidos, a maior parte enunciará os habituais: saúde, educação, habitação e salários. Haverá outros (justiça, transportes, mobilidade, corrupção, imigração...), mas, as queixas, são semelhantes. A razão é simples: estes são os problemas básicos de qualquer sociedade e Portugal não é excepção. A diferença está na execução das medidas propostas que teimam em concretizar-se. Porque será?

Quando, há 50 anos, a democracia foi fundada, o programa do MFA assentava em três pressupostos claros e simples, os chamados "3 Ds": Democracia, Descolonização e Desenvolvimento.  Só os dois primeiros se concretizaram. O terceiro "D" continua por realizar, ainda que nalgumas áreas fossem obtidos sucessos inquestionáveis. Podemos dizer que o país está hoje melhor, mas também podemos afirmar que podia estar muito melhor, dados os meios postos à nossa disposição, nomeadamente através dos programas de coesão europeus, verdadeira cornucópia de subsídios dos mais variados tipos para diversas áreas, para não falar no turismo, uma industria que representa hoje mais de 10% do PIB. 

Veja-se o caso da saúde, certamente a maior preocupação dos portugueses. Apesar da criação do elogiado SNS, como explicar as lacunas existentes e a crónica falta de meios humanos e materiais, assinalados por tanta gente, dos utentes aos profissionais da saúde? Nunca, como nos últimos dez anos, se investiu tanto nesta área e, no entanto, as queixas são diárias. Como explicar que uma simples consulta possa demorar meses, quando não anos? Ou as inúmeras filas e horas de espera, nas urgências hospitalares? Para não falar da crónica falta de pessoal médico e dos serviços encerrados? Mais de 1,7 milhões de portugueses sem médico de família? Todos parecem saber as causas, mas os problemas persistem. Falta de dinheiro, falta de pessoal, salários baixos, má gestão?

Ou, o caso da educação. Cada vez que um governo toma posse, é grande a tentação de inovar. Desde  programas e métodos, aos livros utilizados, tudo tem de ser alterado. No entanto, não faltam alunos sem professores e professores desmotivados e em fim da carreira. Os resultados escolares ressentem-se desta caótica gestão e os índices internacionais (Pisa), não mentem. Continuamos mal em níveis de literacia e o abandono escolar é dos maiores da Europa. Uma questão salarial? Também, mas não explicará tudo.

Que dizer da habitação, provavelmente a questão mais premente nos dias que correm? Faltam casas e não se constrói o suficiente para as necessidades. O mercado de arrendamento é praticamente inexistente e o mercado de venda atingiu valores impagáveis. Um ciclo vicioso, agravado pela gentrificação dos centros históricos, convertidos em hotéis e alojamentos locais, o que torna a oferta ainda mais reduzida. Todos os governos sabem disto, todos prometem melhorar a situação, mas não se vê soluções. Há décadas.

A montante destas necessidades básicas, continuam os salários baixos, afinal uma das causas do nosso (sub)desenvolvimento. Durante anos, o patronato apostou num modelo competitivo de baixos salários, que há muito deixou de funcionar. Há duas décadas, que o crescimento económico não ultrapassa os 2%. Sem crescimento, não há distribuição. O país produz pouco valor acrescentado e os melhores quadros emigram para países onde lhes pagam de acordo com as competências obtidas. Emigram os mais qualificados e contratam-se imigrantes para fazer trabalhos que os portugueses não fazem, entre outras razões devido aos baixos salários praticados. 

Também nos investimentos, continuamos aquém das necessidades e dos projectos prometidos e ciclicamente adiados: novo aeroporto, linha TGV, ligações a Espanha, modernização da ferrovia, a lista é extensa. Obras intermináveis que começaram e foram interrompidas, ou que nunca se iniciaram. Qual a razão de tamanha incompetência?       

Enquanto a solução, para todos estes problemas, continua adiada, amontam-se os "estudos" e "pareceres" produzidos por comissões de notáveis, criadas pelos gestores da coisa pública, com o fim de agilizar processos e decisões que nunca mais chegam...

Foi assim no passado e, tudo leva a crer, continuará assim em 2025. Para o ano, cá estaremos, para  avaliar o que, entretanto, foi feito. Resta-nos a esperança, coisa que (dizem) nunca morre. Cinquenta anos depois, o 25 de Abril que nos prometeram, continua por concretizar. Provavelmente, tem tudo a ver com uma questão existencial. Aquela coisa que José Gil tão bem retratou no seu livro: "Portugal, hoje: o medo de existir". Será isso? 

2024/12/20

Percepções (o "novo" fascismo)

New research puts names and faces to victims of February 1941 razzias -  DutchNews.nl

Agora que Portugal passou a ser um país de imigrantes, não faltam estudos e sondagens sobre a matéria.  

Esta semana, a Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou os resultados de um inquérito sobre imigração. Há quem lhe chame "percepção". Uma percepção da realidade.

Dados significativos da amostragem feita pela Fundação:

67% dos entrevistados pensam que há mais criminalidade devido aos imigrantes. Não é verdade. É precisamente o contrário: os imigrantes são vítimas da criminalidade.

52% dos entrevistados pensam que os imigrantes recebem mais benefícios do que a riqueza gerada. Não é verdade. Os imigrantes contribuem com 2.200 milhões de euros/ano para o equilíbrio da Segurança Social. Num país envelhecido, como Portugal, os imigrantes são importantes para o equilíbrio demográfico.

43% dos entrevistados pensam que há muitos imigrantes em Portugal e que a sua percentagem é 20%. Não é verdade. A percentagem de imigrantes em Portugal é 10% (a média europeia é 15%).

68% dos entrevistados pensam que os imigrantes podem ajudar a economia, em sectores como o turismo, a agricultura, a construção civil e serviços (hospitais, lares, limpezas, transportes, etc.). Sem imigrantes, a economia colapsava.

77% dos entrevistados pensam que os imigrantes têm direito à reunificação familiar.

De acordo com Bruno Pereira, presidente do sindicato nacional da polícia (portanto, insuspeito na matéria) os resultados da amostragem, são contraditórios e mostram uma falsa percepção da realidade. De facto, não houve um aumento significativo da criminalidade em Portugal, considerado o 7° país mais seguro do Mundo. A percentagem de reclusos, de origem estrangeira, também é inferior à dos nacionais presos. Um dos mais famosos presos, é português e trabalhava para o PCC (Primeiro Comando da Capital), um cartel de droga brasileiro.

Mais dados: com uma baixa taxa de desemprego (6%), o país vê-se obrigado a contratar mão-de-obra estrangeira. De acordo com o Turismo de Portugal, o sector precisa de 100.000 imigrantes/ano para responder à procura actual. O próprio governo reconhece o problema e já anunciou a abertura de cursos para imigrantes, nas áreas da restauração e do alojamento, que incluem ordenado fixo e um mês de estágio após o curso. Se dúvidas houvesse...

Outra "percepção" muito popular, é haver estrangeiros (ilegais) que se aproveitam das facilidades do SNS para serem tratados em Portugal. Qualquer cidadão em Portugal pode ser tratado no SNS, desde que legal, utilize um cartão europeu de saúde ou esteja abrangido por protocolos especiais (ex: cidadãos dos PALOP, Brasil, etc...). A percentagem de imigrantes ilegais, tratados em estabelecimentos de saúde portugueses, é inferior a 2%. Outra inverdade, portanto.

Apesar destes factos indesmentíveis, o governo - para agradar à extrema-direita - desencadeou uma série de operações policiais, com o argumento de criar um "clima de segurança" entre as populações. Depois dos atribulados incidentes em Outubro, que resultaram na morte de um cabo-verdiano, na Cova da Moura, as forças da ordem não têm tido mãos a medir. Todos os meses, os portugueses podem assistir em directo a operações (vulgo "razias") em zonas consideradas problemáticas. Uma das preferidas é a zona do Martim Moniz, centro multicultural por excelência onde, há décadas, coexistem diversas nacionalidades e estabelecimentos africanos, asiáticos e europeus. Não sabemos se aquela zona é mais violenta do que outras, mas segundo a "percepção" dos residentes, a criminalidade está a aumentar. Por isso, "a percepção de insegurança é maior" (Moedas dixit). Mas, então, não havia criminalidade em Lisboa, antes da chegada de imigrantes? E entre os portugueses, nascidos e criados no país, não existem criminosos? As prisões estão cheias. 

Ontem, a cena repetiu-se. Um cordão policial, armado até aos dentes, isolou a Rua do Benformoso, artéria central da Mouraria, onde existe uma grande concentração de estabelecimentos estrangeiros. Durante mais de duas horas, a polícia deteve e revistou os transeuntes, obrigando-os a permanecer de mãos levantadas e com a cara virada para a parede. Pequeno detalhe: só foram detidos estrangeiros, a maior parte deles asiáticos. Uma cena digna do ghetto de Varsóvia! Não é a primeira vez e, de acordo com o primeiro-ministro, outras "razias" se seguirão. Segundo ele, estas operações são importantes para devolver o sentimento de segurança aos residentes da zona. Balanço desta "espectacular" operação policial: duas pessoas detidas, uma arma branca e artigos de contrafação no valor de quatro mil euros (!?).

Lembramos que, há um mês, na mesma zona, foram detidas mais de cem pessoas, numa operação destinada a detectar imigrantes ilegais. Resultado: foi encontrado um ilegal! Perante resultados tão pífios, resta saber se a "percepção", sobre a criminalidade em Portugal, é real ou fabricada. Para a extrema-direita, racista e xenófoba, para quem os imigrantes são o principal "bode expiatório" de todos os males da sociedade, nada como uma boa "razia" para assustar e habituar a população a um estado policial. Que o Chega apoie um estado autoritário, não nos deve surpreender. Que o governo faça suas as bandeiras da extrema-direita, é mais preocupante. Desta forma, o partido de Ventura, não necessita de governar para que os seus métodos vinguem. O PSD toma conta da "ordem". 

Estamos avisados. Resta-nos a esperança que os portugueses, vacinados por 48 anos de ditadura, não se deixem intimidar. A minha "percepção" é que estamos a caminho de um (novo) fascismo. 

2024/12/05

Tempos Sombrios


O Mundo é um lugar perigoso. Sabe-se há muito. Que os conflitos, nos tempos que correm, parecem mais eminentes que nunca, só pode ser coincidência. E, no entanto, eles existem e não devem ser menosprezados. 

Uma pequena listagem, feita ao correr da pena, a partir de notícias diárias: 

Ucrânia - Continua a guerra, iniciada pela Rússia em 22 de Fevereiro de 2022, já lá vão quase três anos. Anunciada como "uma manobra militar, destinada a combater o nazismo e a desmilitarizar a Ucrânia", o conflito internacionalizou-se: primeiro com o apoio da UE, dos EUA e da NATO, à Ucrânia; depois, com o apoio à Rússia, por parte do Irão, da Coreia e da China. Dois blocos antagónicos, que disputam o mesmo território, numa guerra por procuração (proxy war) que está longe de terminar. O que, pensava-se, iria durar uns dias (dada a desproporção de forças em presença) revelou-se uma catástrofe humana e material não-quantificável que, todos nós, estamos a pagar, desde então. As sanções impostas à Rússia, não resultaram e tudo indica que as partes em conflito terão de chegar a um compromisso. Uma trégua imposta pelos mesmos que, durante três anos, continuam a dizer que devemos apoiar a Ucrânia sem limites. Ainda esta semana, numa entrevista à televisão americana, o inefável Blinken (esse arauto da paz!), dizia que a Ucrânia tinha falta de homens para combater e que os jovens entre os 16 e 25 anos também deviam ser incorporados (!?). Ouve-se e não se acredita! Acresce que a Europa continua dividida nesta questão, pois não quer perder o petróleo e o gás russo e, provavelmente, será o "amigo americano" (leia-se, Trump) a ter de "desempatar" a contenda. Um fiasco total para a União Europeia, a braços com uma nova crise financeira e sem meios económicos e militares para financiar uma guerra de longa duração.

Palestina - Iniciada por Israel, como resposta aos ataques do Hamas de 7 de Outubro de 2023, a actual guerra entre israelitas e palestinianos está para durar, pesem as declarações vitoriosas de Netanyahu que, ao fim  de 14 meses, não conseguiu atingir os dois objectivos principais: recuperar os reféns israelitas e derrotar o Hamas. É difícil entender, como é que um dos "melhores" exércitos do Mundo, ainda não conseguiu eliminar um grupo de "terroristas", acantonados num território de 360km2, sem qualquer possibilidade de fuga. Por explicar, há ainda a "inoperância" da Mossad (portanto, um dos serviços de informação mais sofisticados do Mundo) ao permitir o ataque do Hamas de 7 de Outubro (!?). Catorze meses e 45.000 vítimas depois (a maior parte, civis), a comunidade internacional tem já poucas dúvidas. O Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), a Amnistia Internacional, a Cruz Vermelha e a ACNUR, vieram confirmar o óbvio: o que as tropas israelitas fazem em Gaza, indicia crimes de guerra e um genocídio étnico contra a população palestiniana, executado com mesma frieza e sanha de vingança nazi, que perseguiu os judeus na segunda guerra mundial. No seguimento das acusações feitas em Haia, o TIJ já decretou um mandato de captura contra os responsáveis palestinianos e israelitas (entre os quais, Netanyahu) pelos crimes cometidos. Será desta que o "carniceiro de Telaviv" é detido e julgado?

Moçambique - A contestação popular tomou conta das ruas de Maputo, após ser conhecido o resultado provisório das eleições nacionais de 9 de Outubro, que indicam Daniel Chapo (Frelimo) como provável vencedor. A oposição, liderada por Venâncio Mondlane (Podemos) já contestou os resultados e apelou à insurreição geral, acusando o partido governamental de manipular as eleições. Uma segunda guerra civil em embrião, que já causou centenas de mortos e pode vir a alterar a ordem vigente no país, governado pelo mesmo partido, desde a independência, já lá vão mais de 40 anos. Mais ao norte, em Cabo Delgado, o exército, apoiado pelas forças da Tanzânia, luta contra o movimento Daesh, infiltrado no país.

Síria - Após anos de relativa acalmia, estalou no país uma nova guerra contra o regime de Assad, agora liderada pelos islamitas radicais do Hayat Tahrir al Sham (HTS), que anunciaram um estado islâmico na região. Em semanas, o movimento conquistou Aleppo e Hama, duas das principais cidades do país e continua a avançar em direcção a Homs e Damasco. Entretanto, a Rússia, secundada pelo Irão, entrou nos confrontos ao lado de Assad, enquanto a Turquia aproveitou a guerra para combater os curdos, os seus principais inimigos internos e externos. Um conflito "adormecido" desde 2016, que pode incendiar o Médio-Oriente, já confrontado com as guerras de Gaza e do Líbano.

Geórgia - Há sete dias consecutivos que milhares de manifestantes protestam nas ruas da capital (Tbilisi), contra o primeiro-ministro, por este ter suspendido as negociações de adesão à União Europeia. Entretanto, o líder do principal partido da oposição foi preso, enquanto a repressão já causou dezenas de vítimas. Curiosa é a posição da presidente do país, que diz apoiar os manifestantes e recusa abandonar o cargo.     

Coreia do Sul - Um golpe de estado improvável, parece ter sido a "lei marcial" proclamada pelo presidente do país, Yoon Suk-Yeol, alegando distúrbios e ameaças comunistas no país. Após seis horas do "estado de sítio", durante as quais o Parlamento foi cercado por uma multidão que protestava contra a medida, o presidente da Assembleia Nacional convocou uma reunião onde garantiu a maioria de deputados (188) que aprovaram uma moção que bloqueou a decisão do governo. Aguarda-se um inquérito e a destituição do presidente do país, agora que os ânimos parecem ter acalmado. Resta saber, até quando.

Alemanha e França - Se, noutras latitudes, a situação não é brilhante, na Europa não parece melhor. Na Alemanha e em França, os principais motores económicos europeus, duas crises governamentais distintas conduziram à queda dos respectivos governos. Na Alemanha, após a demissão do ministro das finanças, provocada pela crise financeira que assola o país, Scholz anunciou eleições antecipadas para Fevereiro; em França, caiu o governo do primeiro-ministro Barnier, depois de este ter aprovado uma lei de Segurança Nacional (sem votação) com base no artigo 49.3 da Constituição. Os principais partidos da oposição ("União Nacional", de extrema-direita e "Nova Frente Popular", de esquerda) opuseram-se à decisão e uniram-se na votação parlamentar que derrubou o governo. O presidente Macron, já aceitou o pedido de demissão do primeiro-ministro e recusa-se a abandonar o governo, ainda que tudo indique poder haver eleições antecipadas que, de acordo com a constituição, não deverão acontecer antes de Maio do próximo ano. Resta saber quais serão as consequências políticas e económicas para ambos os países, confrontados com o avanço da extrema-direita internamente e, no caso de França, com uma dívida pública de 112% e um défice de 6% do PIB (por comparação, Portugal tem uma dívida pública de 97,4% e um défice de 0,4% do PIB). Para os restantes países da União Europeia, as expectativas não são melhores, pois, como sabemos, "quando a economia alemã espirra, a Europa fica constipada"...  

Muitos outros conflitos em África (Líbia, Sudão, Mali...) haveria a assinalar. Falta contabilizar o "efeito Trump", ainda que o governo norte-americano só tome posse em Janeiro. A avaliar pela nomeação dos ministros, teme-se o pior. Na realidade, o pior mesmo é o Mundo continuar "suspenso", enquanto espera por Trump... 

Há quem pense que estas coisas são uma consequência do "ar dos tempos". Os tempos sombrios. 

2024/12/04

Costa Desgosta

Na abertura do Circo da UE, em Kiev, Costa faz um flic flac à rectaguarda, com mortal encarpado à direita. Bravo!...
Ver aqui a reacção do público.

Costa fala em dia “duplamente simbólico” com instituições europeias juntas  em Kiev