2013/09/28
Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa (3)
Um dos percursos culturais mais interessantes na cidade é proporcionado anualmente no “Open Monumentendag” (Dia do Monumento Aberto), data em que dezenas de instituições, públicas e privadas, abrem gratuitamente as portas à população. Este ano, porque o dia dos monumentos (15 de Setembro), coincidiu com um domingo, a municipalidade alargou as visitas a todo o fim-de-semana. A melhor altura para fazer o percurso é de manhã, quando as filas são ainda pequenas, mas, quando chegámos ao prédio “De Granada”, uma mansão senhorial situada na Nieuwe Herengracht, o canal tradicionalmente habitado por judeus abastados, já a fila era já tão grande que optámos por outra alternativa, esta situada uns números mais à frente, a “Huize Avondrood”, igualmente propriedade de uma rica família judia. Infelizmente, o tempo de espera afigurou-se tão longo que decidimos passar a outra instituição na vizinhança, a “Uilenburgersjoel”, uma das três sinagogas da cidade, recuperada depois da pilhagem na segunda guerra e que hoje, para além de lugar de oração, é utilizada como escola e local de ensaios. Lá estivemos, a ouvir música de reportório “klezmer”, magnificamente tocada por um “ensemble” de jovens músicos de origem.
Tempo para passar ao monumento seguinte, “De Oude Kerk” (A Igreja Velha), considerado o edifício mais antigo da cidade. Pese a sua antiguidade, a igreja, de culto protestante, apresenta sinais de grande vitalidade depois da restauração a que foi sujeita em 2008 e que ainda não terminou. Para além das cerimónias litúrgicas tradicionais, é intenção da municipalidade criar no seu espaço (gigantesco) uma galeria de arte moderna. Foi lá que vimos uma exposição de fotografia, cujo tema central era a “mulher” em diversas sociedades e profissões. Fotos de grande nível, com destaque para uma série sobre “travestis” mexicanos, premiada com o 1º lugar em fotografia documental. Situada em pleno coração do “bairro vermelho” de Amsterdão, a “Oude Kerk” é um “must” do roteiro turístico da cidade.
Seguiu-se uma visita à “Gulden Trip” no mesmo bairro, uma pequena moradia com quintal, datada de 1565, construída sobre os alicerces de uma das mais antigas casas da cidade, cujas origens remontam a 1380. Durante a sua reconstrução, em finais do século XX, foram descobertos e restaurados os pavimentos e tectos originais, que podem ser admirados em todo o seu esplendor. A “Gulden Tulp” alberga, actualmente, a sede do “Fundo National de Instrumentos”, uma fundação que apoia a divulgação de instrumentos antigos e de um “ensemble” musical de cordas. Vale a visita.
Depois de um breve interregno, seguimos para a “Ambtswoning” (residência oficial do presidente da câmara) famosa pela sua decoração de inspiração francesa e pelas suas tapeçarias e lustres em Arte Deco. Também aí, as centenas de pessoas na fila fizeram-nos optar pelo “Stadsarchief Amsterdam” (O Arquivo Municipal), um edifício imponente que domina toda a Vijzelstraat, uma das principais artérias da cidade. Inaugurado em 1926, o edifício, também conhecido por “De Bazel”, nome do arquitecto responsável pela obra (J.J. Bazel, 1869-1923), foi originalmente construído para sede do Banco HandelsMaatschappij Nederland, que mudaria de local em finais do século passado. Depois de um período em que esteve encerrado, o edifício reabriu ao público em 2007, já nas funções actuais: as de arquivo da cidade desde a sua fundação, que inclui um departamento arqueológico, onde são registradas e catalogadas todas as descobertas posteriores. Trata-se de um edifício de 10 andares (dos quais 3 são subterrâneos), com mais de 40 kilómetros de documentação (muita dela totalmente digitalizada) com a história da cidade e a dos seus habitantes. Influenciado pelo estilo “De Stijl”, as linhas sóbrias e funcionais do edifício espantam pela sua solidez e bom gosto, onde todos os pormenores foram calculados. Dispõe ainda de um centro de documentação, sala de cinema e loja, para além de exposições permanentes e temporárias e a possibilidade de visitas guiadas ao arquivo, localizado na cave imensa com três pisos.
Dada a falta de tempo, deixámos para outra oportunidade a visita aos andares superiores (sala da direcção e de reuniões), tendo assistido à projecção do filme “Fotostudio Merkelbach”, uma selecção de “portraits” do realizador Kees Hin (que passou em 2012 por Lisboa, no Festival Cinema Bioscoop), dedicado à colecção Merkelbach, famoso fotógrafo de Amsterdão do século passado. Pelo seu estúdio, passaram nomes famosos da sociedade holandesa, como Mata Hari, Toon Hermans, Van Halst van Overtoom. entre outros. Todas fotos recuperadas, entre mais de 40 000 negativos salvos de uma cheia recente. Um espanto, o “De Bazel”, finalmente à disposição do grande público.
Chegados ao fim deste excitante dia, tempo para uma sandwiche de espadarte fumado com carpazzio e uma cerveja biológica “De blauwe Bijl”, fabricada artesanalmente numa “brouwerij” da zona Este de Amsterdão. A prova final que Deus existe...
2013/09/26
Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa (2)
De todas as obras recentemente levadas a cabo na cidade, duas sobressaem pelo seu arrojo arquitectónico e fins a que se destinam, respectivamente à música e ao cinema. Estamos a falar do “Muziekgebouw” (que inclui a mítica “Bimhuis”, verdadeira meca do jazz internacional) e do edifício futurista “Eye” (a cinemateca local, situada na margem norte da capital holandesa). Ambos têm uma programação de excelência, sendo visitados por milhares de melómanos e cinéfilos diariamente, o que atesta da sua programação e do poder de compra médio dos locais. Lá fomos, numa noite ventosa e com alguma chuva à mistura, assistir a uma sessão de free-jazz , uma das tradições da “Bimhuis” de velhas recordações. A alma de Chet Baker ainda deve andar por lá (o trompetista viveu e morreu em Amsterdão), pois o concerto a que assistimos tinha uma secção de sopros de primeira água. O programa tinha como título “Carte Blanche Oene van Geel”. Van Geel é um virtuoso violinista local que tinha como convidados The Nordians Extended (ensemble ad-hoc de Amsterdão-Norte), Theo Loevendie (uma velha lenda do clarinete e do sax) e a magnífica cantora Nora Fischer. De realçar, ainda, um convidado indiano nas “tablas” e um convidado escocês na flauta e na gaita de foles, que ofereceram duas horas de verdadeiro prazer, num mix de jazz e músicas do mundo, de grande qualidade musical. No final, tempo para percorrer a excelente loja da “Bim”, onde se podem encontrar exemplares únicos de “standards” do Jazz e da World Music, muitos deles em Vinyl. Até a Amália Rodrigues se podia lá comprar. A noite não terminaria sem provarmos algumas “Palm”, cerveja castanha, de beber e chorar por mais... Outra visita, que se tornou um “must”, desde a sua inauguração em 2012, foi à Cinemateca, situada na margem norte do IJ, o lago que divide a cidade em duas margens distintas. O nome “Eye”, assim se chama o novo edifício, é um trocadilho entre a palavra “olho”, em inglês, e a palavra IJ, que se pronuncia de igual modo. Para além das 4 salas de projecções em simultâneo (duas das quais dedicadas a estreias de filme de autor). a nova cinemateca dispõe de salas de exposições permanentes e de uma loja de “gadgets” cinematográficos, que são uma verdadeira tentação para qualquer cinéfilo. A exposição temporária era dedicada a Federico Fellini e estava anunciada por toda a cidade. Trata-se de um projecto original do “Eye”, aqui apresentado em premiére mundial, que ocupa toda a parte superior do edifício. Durante duas horas, passámos em revista a vida e os filmes do genial realizador italiano, apresentadas em painéis bi-lingues, estrategicamente colocados. Para além dos dados biográficos e das notas sobre os filmes, a colecção tinha a particularidade de mostrar os “storyboards” desenhados por Fellini, um ilustrador de reconhecidos méritos. Completavam a mostra, excertos de alguns dos seus principais filmes: “I Vitelloni”, “O Sheik Branco”, “La Dolce Vita”, “8 ½”, “Julieta dos Espíritos”, “I Clowns”, “Roma”, “Amarcord” e “Casanova”, projectados em écrans de grandes dimensões, como estivéssemos numa sala de cinema normal. Um verdadeiro “happening” cultural, que tivemos o privilégio de ver, num espaço que recomendamos a todos os futuros visitantes desta cidade cinematográfica.
2013/09/23
Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa

Forçado, pelas circunstâncias, a deslocar-me a Amsterdão, aproveitei para tirar alguns dias de férias e fugir do calor abrasador que se fazia sentir em Portugal.
Acontece que o Outono já começou na Holanda e as temperaturas médias nesta época do ano (15º), acompanhadas de alguma chuva e vento, não foram as mais propícias para quem queria andar a pé pela cidade. Valeu a pena pela oferta cultural, agora que a nova temporada artística teve início e a cidade está mais vibrante do que nunca.
Das visitas incontornáveis, aconselho o renovado Rijksmuseum, a sala de visitas da cidade, reaberto após mais de 10 anos de obras, devido à ampliação do espaço e renovação da sua colecção permanente. Um espanto, o novo “Rijks”, agora com um “hall” de recepção envidraçado, no lugar das antigas caves do edifício, onde se entra através de uma escadaria ladeada por amplos balcões de atendimento e informações de toda a ordem. É neste espaço aberto que estão situadas as duas lojas do museu e a cafetaria, onde os clientes têm de esperar em fila por uma mesa vaga, tal a afluência de visitantes nestes primeiros meses.
Depois, é escolher por onde começar. O Museu tem três pisos acima do nível da rua e um abaixo, também designado por piso 0. Foi aqui que começámos, para ver as colecções especiais, dedicadas às louças, moda, armas e modelos de barcos, agora numa nova disposição dentro do museu. Também neste piso, uma assinalável colecção de pinturas e arte sacra (1100 e 1600), designada como “arte primitiva” pelos locais. Depois de uma boa hora de deslumbramento, tempo para subir ao 2º piso, dedicado ao período 1600-1700. É aqui que estão as obras que fizeram a reputação do Museu: “A Ronda da Noite”, e a “A Noiva Judia” de Rembrandt, ou “A Pequena Rua” e a “Rapariga do Leite” de Vermeer, mas também pinturas de contemporâneos como Steen e Hals. Um deslumbramento absoluto, que só a afluência desmesurada de turistas e respectivos guias, perturbou. Razão para parar e descer à livraria, onde a informação é abundante e multi-lingue. À saída, e porque chovia, tempo para parar numa feira russa de gastronomia, instalada em plena praça dos museus, e provar um pão casqueiro de peru fumado e uma “pancake” coberta de mel, acompanhada de chá original, servidos por uma simpática siberiana vestida com trajos da região. Que mais desejar?
Voltaríamos ao Museu, alguns dias mais tarde, agora para visitar os pisos restantes que abrangem outros tantos períodos. O primeiro piso (1700-1800) dedicado ao romantismo, e ao impressionismo onde, entre outros, podem ser admirados trabalhos de Gabriel, Breitner, Van Gogh e Goya, para além de colecções representativas da escola de Amsterdão e de Haarlem e à época do iluminismo (William IV e V).
Finalmente, o último piso, dedicado ao século XX. Esta é uma colecção renovada, que está dividida por duas alas distintas: a ala Este (1900 a 1950) onde podem ser admirados magníficos exemplares das correntes “Art Nouveau” e “Stijl”, para além de obras de Rietveld, Mondriaan e um exemplar do primeiro avião fabricado pela Fokker. É nesta sala que é projectado o documentário “Philips Rádio” (1931) da autoria de Joris Ivens. E a ala Oeste (1950-2000) onde o sobressaem os trabalhos de Yves Saint-Laurent, Appel e Constandt, para além de obras dos mais famosos arquitectos e urbanistas holandeses. Também nesta sala, é projectado o documentário, “Deltaplan Phase 1” de Bert Haanstra, que Lisboa viu recentemente integrado no Festival Cinema Bioscoop.
Era já tarde, quando saímos do Museu, não sem antes termos dado uma volta pelo jardim circundante, onde estão expostas esculturas de Henry Moore.
Uma festa para os olhos e para os sentidos, a provar que a grande arte ajuda a lavar a alma.
2013/09/14
Quantos funcionários públicos, exactamente, temos a mais?
Quantos funcionários públicos há a mais em Portugal? 12, 129, 4327, 100 539? Digo-vos um segredo aqui ao ouvido: ninguém sabe. Em que estudos se baseiam aqueles que proclamam com ar, muitas vezes, convicto que "temos funcionários públicos a mais"? Adianto-vos, em primeira mão, um outro segredo: não há um único estudo fidedigno, sério, isento.
Por que razão volta então agora o assunto à baila?
Que a administração pública foi durante anos e anos uma forma que o país encontrou para "controlar" o problema do emprego e disfarçar a crónica ausência de programas sólidos de desenvolvimento da economia; que este expediente foi usado por todos os administradores públicos, de Salazar até Passos Coelho; que o Estado inventou funções sem qualquer espécie de justificação ou sustentabilidade para engrossar os quadros de funcionários públicos, disso não tenho a mínima dúvida. Que nenhum, nem um!, funcionário público entrou por uma repartição dentro, se sentou a uma secretária, começou a exercer funções por sua alta recreação e ingressou finalmente nos quadros, disso também não me resta qualquer dúvida.
Por outro lado, sei que cabe ao Estado exercer a Justiça em sentido lato. Cabe ao conjunto da sociedade e, portanto, ao Estado como seu delegado executivo, produzir um conjunto de tarefas que, só assim executadas, poderão garantir Justiça e assegurar equilíbrio social. Se temos funcionários a mais a executá-las ou não, não sei. Mas, sei que é ao Estado que cabe executar certas tarefas porque elas não poderão nunca ser transformadas em negócio, porque não podemos ficar cativos da "iniciativa privada" se as queremos ver executadas e porque, se for a tal iniciaitiva privada a executá-las, o desígnio do lucro vai transformar a sua natureza e cavar desequilíbrios sociais. A sociedade humana caminha no sentido de um cada vez maior equilíbrio social. Contrariar isto é voltar à barbárie.
Agora que, a propósito do ataque em marcha contra os funcionários públicos, volta a conversa do "temos funcionários a mais," vou cismando se esta direita revanchista -que actua, de facto, como um banal bando de ladrões de estrada sempre que toma conta do poder em Portugal- pretende, como diz, tornar mais ágil e eficiente a função pública ou voltar à barbárie, cavando (mais) uma divisão artificial entre portugueses, pondo trabalhadores do sector público e privado em confronto e camuflando, assim, um ataque final às conquistas dos trabalhadores portugueses e a uma aproximação cada vez maior desta Justiça de que falo.
Quando ouço alguém que vive da remuneração do seu trabalho repetir a "verdade" nunca provada de que temos funcionários públicos a mais (versão do dia do "gastámos acima das nossas possibilidades") lembro-me de Maiakovski e daquele seu poema "E Não Sobrou Ninguém," rescrito por Brecht, Niemöller e outros. E apetece-me fazer a minha própria versão.
Primeiro atacaram os pensionistas e aposentados, mas eu não liguei porque não sou nem uma coisa nem outra. Depois "requalificaram" os trabalhadores da função pública, mas eu não liguei porque trabalho na privada. Depois começaram a "requalificar" também trabalhadores do sector privado, mas como eu mantive o meu emprego não me coloquei, como devia, ao seu lado. Agora despediram-me a mim, mas já não sobra mais ninguém para me defender...
2013/09/08
Foi você quem pediu uma guerra?
Barack Obama, certamente o mais prematuro Nobel da história da Academia Sueca, prepara-se para um ataque punitivo e cirúrgico à Síria, como retaliação pelas vítimas das armas químicas, causadoras de milhares de mortos entre a população civil. Não sabemos se as armas, proibidas pelas convenções internacionais, terão sido usadas pelo regime de Assad ou pelos rebeldes que o combatem, uma vez que os peritos da ONU, enviados para o terreno, ainda não divulgaram as conclusões da investigação em curso.
Também não parece haver grande apoio da parte da população americana, que é maioritariamente contra e, muito menos da Europa, que continua dividida sobre esta questão. O governo inglês, tradicionalmente o maior aliado das aventuras americanas no Médio-Oriente, viu a sua proposta ser chumbada pelo parlamento daquele país e, na Alemanha, Merkel, certamente mais preocupada com as eleições, adiou a decisão para quando houver um mandato claro das Nações Unidas. Só Hollande parece, neste momento, apoiar inequivocamente Obama, mas também tem a população francesa contra.
Na recente cimeira do G20 em S. Petersburgo, o presidente americano tentou mais um “tour de force” junto de Putin, mas a Rússia, tradicional aliada da Síria, não lhe fez a vontade e pediu provas inequívocas sobre o uso das armas pelo governo de Assad, coisa que os EUA não têm...Vem agora a Sra. Ashford, uma espécie de ministra dos negócios-estrangeiros da UE, declarar que há um acordo de princípio assinado por 11 países europeus, no sentido de apoiar a decisão de Obama em bombardear a Síria.
Entretanto, em Washington, o Nobel da Paz não desiste da sua ideia pacificadora e reiterou a vontade de ir para a guerra, mesmo que de forma unilateral, agora apoiado numa decisão positiva (que carece de ser rectificada) do Congresso.
Ou seja: queira a ONU ou não, queiram os principais aliados dos EUA ou não, queiram a maioria dos países da UE ou não, queiram as próprias populações da região ou não, nada parece demover o governo americano de levar por diante esta ideia fixa: punir o governo sírio de forma exemplar. Não será uma guerra convencional, no sentido em que não haverá soldados americanos no terreno, mas haverá bombardeamentos cirúrgicos durante um tempo limitado, que pode ir de 2 a 3 meses. Acho sempre fantásticas estas previsões dos altos militares do Pentágono, que sabem como as guerras devem começar, mas nunca pensaram como estas podem acabar. Logo se verá, deve ser o espírito da coisa...
Pensava que os americanos tinham aprendido algo com as recentes fiascos no Iraque e no Afeganistão, mas, pelos vistos, “the smell of napalm in the morning” é mais forte do que a realidade. Como dizia alguém por estes dias, em Damasco, “o presidente Obama subiu a uma árvore e não sabe como descer dela”. É uma boa imagem.
De lamentar apenas que estas almas, sempre tão caridosas e pacíficas, não se tenham lembrado das armas químicas que foram usadas pelos mais diferentes regimes, a começar pelos americanos no Vietnam, por Sadam Hussein (então apoiado pelos EUA) na guerra contra o Irão ou, mais recentemente, na faixa de Gaza, por Israel, num ataque com bombas de fósforo. Onde estava o Nobel da Paz, nessas ocasiões?
2013/09/04
Cinema Bioscoop: 5 a 8 de Setembro em Lisboa
Decorre esta semana, em Lisboa, a 2ª edição do Festival Cinema Bioscoop, uma pequena Mostra do que melhor e mais actual se produz em matéria cinematográfica em países de língua neerlandesa.
Depois do sucesso da primeira edição, onde foram exibidos filmes da Holanda, Bélgica e Suriname, o Festival volta a animar as tardes e noites lisboetas, com sessões diárias no cinema S. Jorge e na Cinemateca de Lisboa.
Destaque para o ciclo da “água”, tema central do festival deste ano, com obras dos conceituados documentaristas Joris Ivens e Bert Haanstra, dos quais veremos alguns dos seus mais celebrados filmes.
Na secção de longas-metragens, serão exibidos entre outros, “De Hel van ‘63” de Steven de Jong, “Taartman” de Annemarie van de Mond e “Confituur” de Lieven DeBrauwer (presente em 2012 com “Pauline en Paulette”).
Confirmado, está igualmente o filme “ De tweeling” (As gémeas), de Ben Sonbogaert, baseado no romance do mesmo título, da autoria da escritora holandesa Tessa de Loo, que estará presente no debate após o filme.
O Festival terá início esta quinta-feira, dia 5, no cinema S. Jorge, com a exibição do filme “Iedereen Beroemd!” (Todos famosos!) do belga Dominique Deruddere.
Para mais informações sobre locais, horários e bilhetes das sessões, deve ser consultado o “site” do festival em: www.cinemabioscoop.com.
2013/08/30
Um país a ferro e fogo
| Foto DR |
O objecto de estudo (baldios e práticas comunitárias na região do Barroso) tinha sido definido em função da tradição enraizada entre as populações locais e que, à época, já se encontrava em vias de extinção: a utilização comunitária das terras de pastorícia, prática essencial para a manutenção dos rebanhos e para a economia de sobrevivência dos habitantes da região.
Foi uma experiência enriquecedora, tanto do ponto de vista humano, como do conhecimento geográfico da região e do Portugal profundo, numa altura em que o refluxo dos anos loucos do PREC ainda se fazia sentir e as “vendettas” eram prática comum nas zonas rurais do pais.
Lembro-me de ter sido apresentado ao responsável dos serviços florestais do distrito, um engenheiro agrónomo, cujo local de trabalho era numa ampla vivenda, onde também residia. Disse-lhe ao que vinha, mostrei-lhe a carta (escrita em inglês) onde o orientador de tese pedia apoio para a minha investigação e o homem, depois de a ler, logo ali pôs os arquivos do centro à minha disposição. Durante dias a fio, passei largas horas naquele arquivo, lendo relatórios e comparando dados sobre as terras incultas e o uso comum dos baldios e da floresta à guarda do estado, sobre os quais os últimos dados existentes eram do censo de 1970. Todas as semanas havia fumo no horizonte e eu sabia que algures, nas serras circundantes, a floresta estava a arder. Falávamos muito de fogos e, um dia, após ter recebido uma mensagem de alerta, virou-se para mim e perguntou-me: “Quer ver um fogo de perto? Venha comigo, pois vai assistir a um”.
Lá fomos no jipe da guarda florestal e após largos minutos por montes e vales chegámos a uma distância relativamente perto da ocorrência. Aguardava-nos um cenário dantesco: labaredas gigantes que ora avançavam, ora recuavam, mudando de direcção, fagulhas lançadas pelo vento que alimentavam a combustão, uma cortina de fumo negro que impedia a visão a uma dezena de metros e um calor abrasador que não nos permitia respirar. Fiquei, literalmente, siderado. Rapidamente, demos meia-volta, deixando para trás uma corporação de bombeiros que procuravam limitar os estragos. Perguntei-lhe se pensava que os fogos podiam ter uma origem criminosa... ”Nunca vi nenhum fogo espontâneo. Você já viu?”, foi a sua resposta.
Continuei o trabalho e, nas fichas consultadas, confirmei a opinião do técnico. Mais de metade das ocorrências estava marcada com a menção “fogo posto” ou “negligência”; enquanto os restantes casos apontavam como “origem desconhecida” a causa improvável dos incêndios.
Passados alguns dias, estava eu em Montalegre, ouviu-se uma explosão que fez estremecer toda a vila. Uma coluna de fumo negro elevava-se por cima da residência do técnico florestal. A notícia rapidamente se espalhou: uma bomba artesanal tinha deflagrado na casa do homem e este tinha morrido. No funeral, dizia-se à boca calada que ele tinha posto fim à vida. Várias versões sobre a sua morte, correram naquele Verão, entre as quais a de que ele teria dados comprometedores nos seus arquivos. O caso caiu no esquecimento e provavelmente nunca se saberá a verdadeira razão de tão estranho acidente. Nunca me esqueci deste episódio e lembro-me sempre dele quando chega o Verão e vejo Portugal a arder.
Passaram mais de 30 anos e, ciclicamente, todos os Verões, os fogos em Portugal regressam, se possível com maior violência e mais vítimas humanas a lamentar. Se durante a ditadura os fogos eram, normalmente, associados a agricultores ou pastores, a quem eram atribuídas as “queimadas” para limparem o mato circundante; depois de 1974, as razões invocadas tem sido as mais díspares: desde pirómanos, a motivos políticos, motivos pessoais (vendettas), lobby da celulose, interesses mobiliários, empresas de material de combate aos fogos, falta de limpeza das matas e, claro, a inevitável imprevidência. Todas razões plausíveis, mas que não podem servir de argumento para continuar esta situação insustentável.
Uma coisa é certa: nenhuma razão poderá ser invocada sem haver uma mudança radical de mentalidades (dos governantes, dos responsáveis e das populações interessadas), única forma de parar este verdadeiro flagelo nacional, contra o qual parece não haver antídoto.
É tempo de haver uma mobilização nacional à volta de uma riqueza tão importante como a floresta, para não falar das vidas humanas (de bombeiros e não só) que todos os anos são notícia nos telejornais. O diagnóstico, sobre as razões dos fogos, está feito e não são necessários mais programas “Prós e Contras” para um debate sobre o tema.
Mais do que os meios – que toda a gente diz serem suficientes – é necessário mais e melhor prevenção e não se percebe porque todos os anos falhamos. Haja vergonha!
2013/08/23
A Cinemateca não pode fechar!
No entanto, isso não impediu que a Cinemateca Portuguesa fosse uma instituição considerada e respeitada no estrangeiro, com um espólio onde já havia clássicos como “Potemkin”, “A Mãe”, “Outubro” (e tantos outros filmes vedados ao espectador comum), que podíamos ver nas suas salas. Após o 25 de Abril, a “casa” passou por várias remodelações e direcções, das quais, a mais longa e significativa, seria a de Bénard da Costa. Com todas as suas vicissitudes e constrangimentos (nomeadamente orçamentais) a Cinemateca sempre cumpriu os pressupostos de qualquer cinemateca: guardar e mostrar o espólio dos filmes à sua guarda.
Com a passagem da Cinemateca a Museu de Cinema, e implícita inclusão da instituição na rede dos museus nacionais tutelados pelo estado, maior se tornou a responsabilidade deste em relação à missão principal de um Museu.
Não se percebe, por exemplo, que as receitas da Cinemateca dependam de uma percentagem de 4% de publicidade nos cinemas (ver entrevista da directora no “Público” de quarta-feira), quando se sabe à partida que os cinemas tendem a fechar e as receitas a diminuir. Logo, o Estado, através do respectivo orçamento, deve providenciar no sentido de criar um subsídio estrutural que garanta o seu funcionamento. É assim em todos os países desenvolvidos e deve ser assim em Portugal.
Um pais que não cuida da sua memória (seja ela cinematográfica ou outra) não tem futuro.
2013/08/14
O meu querido mês de Agosto
Entre todas as tradições, as da “silly season” são especiais, ou não fossem sempre tão previsíveis e, por isso, aguardadas com emoção o ano inteiro.
Comecemos pelos “fogos”, esse ritual pagão que anualmente é celebrado de norte a sul do pais, com milhares de fogueiras a arder, numa celebração digna do solstício escandinavo. E não só os “fogos” que, mal apagados numa serra, logo reacendem noutra. Também as estações televisivas, representadas nos locais de acção por jornalistas “todo-o-terreno” que, vestidas a rigor e desgrenhadas que baste, vão repetindo as perguntas que outro efeito não têm do que responder ao desejo mórbido das redacções, insistindo na receita do “choque e pavor”, sem a qual parece não haver notícias para dar. Sim, é verdade, o vento mudou, o que deu origem à morte de mais um bombeiro, mas, se as pessoas limpassem as matas, nada disto acontecia, porque meios há suficientes...
Depois, as praias. Sempre notáveis, as acções pedagógicas sazonais da protecção solar e do perigo da derrocada das falésias, que ninguém respeita, como ninguém respeita a cor das bandeiras, razão pela qual o número de mortes, dentro e fora de água nas praias portuguesas, atinje níveis impensáveis em qualquer outro pais europeu. Para que nem tudo seja previsível, as praias algarvias introduziram, este ano, algumas novidades: uma praga de mosquitos que dura há mais de um mês em Armação de Pêra (recorde de duração absoluto!) e uma descarga de esgotos “à maneira”, na praia de Quarteira, que impediu os veraneantes de irem ao banho durante dias. Entrevistado por mais uma repórter de cabelos ao vento e pés desnudos (que a maré estava a subir), um babado avô, com a neta ao colo, respondia: “eu não queria ir à água, mas sabe como são as crianças”...
Há ainda os festivais do marisco. e da sardinha. São tantos como as localidades costeiras e estão sempre cheios, porque isto da crise é para todos, mas dias não são dias e sobra sempre dinheiro para a santola...
Finalmente, a chegada dos emigrantes e das suas festas e idas a Fátima. Uma fila deles. devotos e de joelhos no chão, para pagar a promessa, como manda a tradição. Isto, durante o dia. À noite, haverá bailarico ao som do Tony Carreira da vila e mais umas bojecas, que a vida são dois dias e daqui a duas semanas têm de regressar a Paris.
A temporada futebolística ainda não começou, mas os programas televisivos são diários e duram horas. Porque não há jogos a sério para comentar, comentam-se os jogos a feijões e as contratações para a nova época. Este ano é que é: com “plantéis” que custam milhões só podemos ganhar. Alguém deve ganhar alguma coisa, porque isto não dá para todos.
Espertos, mas igualmente previsíveis, são os nossos governantes. Conhecedores das fraquezas dos portugueses, aproveitam a “silly season” para anunciar as medidas mais tontas. Esta, por exemplo: todas as reformas acima dos 600 euros vão ser penalizadas em 10%, menos as dos deputados, políticos aposentados e funcionários da Caixa Geral de Depósitos. É ou não genial?
Considero-me rendido: a tradição ainda é o que era...
2013/08/09
Pergunta de fim de semana...
Deixo a pergunta no ar: qual é a linha que une os swaps, o Rossio, a Rua da Betesga, o OE 2014, o BPN, Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas, Gaspares, Albuquercas, Jorges e as minhocas?
2013/08/03
A crise é uma oportunidade...
Qual será exactamente a função do ex-ministro? Agente do Linguado? Embaixador Linguareiro? Facilitador de Línguas? Director do Linguajar? Língua estufada? Capo Linguista, Emérito & Jubilado? Destorcedor de línguas bífidas?
E o novo organismo, em construção? Irá chamar-se Relvas, Promoção da Língua Portuguesa, Unipessoal? Relvas Rent-a-Línguas? Relvas, Indústrias Criativas?
A palavra ao senhor Primeiro Ministro.
2013/07/29
2013/07/24
O Monge
O novo ministro dos negócios estranhogeiros diz que as críticas que lhe foram dirigidas reflectem "a podridão dos hábitos políticos".
O hábito faz o monge, diz-se. E quem não quer ser monge não lhe veste o hábito.
2013/07/23
Kama-Sutra
De acordo com as declarações do primeiro-ministro, Paulo Portas será vice-primeiro no novo governo, mas não ficará acima da ministra das finanças. Será que fica por baixo?
2013/07/21
E agora, Cavaco?
Enquanto o Presidente da República prepara mais uma comunicação ao país, vale a pena relembrar as alternativas existentes, para sair do impasse politico em que nos encontramos desde que Gaspar bateu com a porta e deixou o governo a braços com a maior crise dos últimos anos.
Desde logo, as descartáveis:
1) Não haverá eleições, porque o presidente não as quer e a direita receia perder o poder.
2) Não haverá governo de iniciativa presidencial, porque a constituição não o permite desde 1982.
Depois, as mais prováveis:
3) Poderá haver a recondução da actual coligação, mas não se percebe muito bem com que ministros e ministérios.
4) Poderá haver a recondução da actual coligação, de acordo com a proposta de Passos Coelho (na qual Paulo Portas passará a supervisionar os ministérios mais importantes do governo, entre os quais o das Finanças).
Estas são as alternativas e nenhuma é boa, como já se percebeu. Nem Cavaco parece muito inclinado a aceitar a proposta de Passos, nem acredita nesta coligação a dois e, por isso, sugeriu um entendimento entre os três maiores partidos, que falhou esta semana.
Voltámos pois à “estaca zero” e, a menos que o governo se demita (por iniciativa própria ou por sugestão do Presidente) não vislumbramos nenhuma solução fora deste quadro.
É pouco e não augura nada de bom.
Quanto mais tempo esta situação durar, maiores serão as pressões internas e externas, pelo que não será de descartar uma solução grega à “la Papademos” ou à italiana à “la Monti”, ambas impostas de fora, pela Comissão Europeia, com a conivência da Alemanha e, claro está, dos seus homens de mão nos respectivos países.
É difícil acreditar que Cavaco tenha alguma solução milagrosa na manga. Preparemo-nos para o pior. Ou seja, mais do mesmo...
2013/07/11
Coulrofobia
Dificilmente alguém pode admitir que a solução proposta ontem pelo presidente de república seja fruto de alguém que se tem por tão reflexivo, tão atento, tão dialogante, tão experiente, como ele pretende ser lido pelos portugueses. Por mais tolerância que possa ainda encontrar escondida no meu alforge político, por mais que tente encontrar explicações para o novelo em que Cavaco nos colocou só me sobra uma enorme fobia por este personagem de ópera bufa.
Cavaco gasta mais tempo e recursos a polir a imagem do que a exercer, de facto, o seu cargo. Se trabalhasse mais, se interviesse a tempo, se exercesse com rigor humilde a função clara que os seus compatriotas o incumbiram de executar, teria sido outro o desfecho deste triste espectáculo a que assistimos nestes tempos mais recentes. Assim, o arauto da estabilidade aumenta a instabilidade, o defensor da Constituição desrespeita-a, o paladino do bom senso propõe soluções inexequíveis, o defensor dos mercados provoca-lhes reviravoltas incómodas.
Ninguém sai ileso desta fogueira para onde Cavaco Silva nos lançou. Nem ele.
Que ele vá para o inferno da política portuguesa quando morrer é coisa que não pode deixar de ser considerada positiva e que não poderei nunca deixar de saudar. Que nos arraste a todos, na sua insanidade política, para esse inferno é algo que nunca lhe poderei, nunca lhe poderemos, perdoar. Como primeiro responsável por tudo isto, não lhe podemos perdoar.
2013/07/10
Cavaco não vê televisão
De acordo com as notícias que vão correndo nos principais canais televisivos, o Presidente da República anunciará hoje ao país a sua decisão sobre a actual crise politica. Após três dias preenchidos com audiências em Belém, onde recebeu os representantes das chamadas forças sociais, desde partidos a sindicatos, passando pelas confederações de patrões, banqueiros e “tuti quanti”, Cavaco parece ter encerrado esta fase de auscultações sobre tão importante decisão.
Compreende-se. Depois de o terem deixado com a “criança nos braços”, após o inacreditável episódio da tomada de posse de uma ministra sem governantes e na eminência da queda do governo (o que afastaria a direita do poder por muitos e bons anos), Cavaco tinha de encontrar uma saída airosa para a crise.
Perante os cenários possíveis (manutenção do actual governo, um governo de inspiração presidencial ou convocação de eleições) o Presidente, que sempre vendeu a “mantra” da estabilidade e nunca escondeu a sua aversão a eleições, viu-se na necessidade de ensaiar uma farsa democrática, pedindo a todas as forças vivas da nação que passassem pelo palácio, a fim de escutar uma segunda opinião.
Entretanto, o governo, feito em cacos, fazia de conta que existia e (noblesse oblige) enviava a recém-empossada ministra das finanças a Bruxelas, para dar ar de que tudo corria de acordo com a normalidade. E não é que a presença de Maria Luís Albuquerque, na reunião do Ecofin, foi saudada por todos os colegas europeus presentes, como a solução acertada para um problema sem conserto?
Tivesse Cavaco perdido menos tempo a ouvir os parceiros sociais portugueses e ligado a televisão na segunda-feira de manhã e teria ouvido o ministro Schauble a declarar em Bruxelas que a Europa (leia-se Alemanha) aprovava a continuação do actual governo e a escolha de Albuquerque para continuar a aplicação do programa da Troika em Portugal.
Moral da história: se o presidente ouvisse as notícias, teria poupado tempo e dinheiro à nação, pois muito antes da decisão que irá anunciar ao país, já os Alemães sabiam que não ia haver eleições em Portugal e que o actual governo era para continuar.
ETIQUETAS: Alemanha, Cavaco, Europa, Farsa, Governo, RM
2013/07/07
O dia em que Paulo Portas chegou a 1º ministro
Caso o Presidente da República aceite a solução de governo proposta por Passos Coelho – e tudo indica que o faça – teremos esta semana a continuação da coligação governamental actual, com uma pequena, mas importante alteração: Paulo Portas, o ministro cuja demissão era irrevogável há dias atrás, tornar-se-á, de facto, o governante com mais poder no actual governo. De acordo com o organigrama ontem apresentado por Passos, Portas acumulará o actual pasta dos Negócios Estrangeiros, com a coordenação da Economia, do QREN, das Finanças e das relações com a TROIKA, tendo ainda conseguido o almejado ministério da Economia, que será entregue a Pires de Lima, do seu partido. Ou seja, o CDS, um partido com 12% de votos, terá 4 ministros no novo governo, entre os quais um super-ministro que acumula os dossiers mais importantes da governação. É obra!
Como é isto possível? Bom, de Portas já não nos admiramos de nada e acreditamos que seja capaz de vender a sua própria mãe (de resto, a única pessoa que ainda deve acreditar nele). Do Presidente, há muito que deixámos de acreditar e ficaríamos espantados se, depois de tudo o que se passou, tivesse a coragem (coisa que não lhe conhecemos) para demitir esta cambada de vira-casacas e vende pátrias que nos governam. Finalmente, Passos, um líder fraco e sem ideias, que tendo chegado ao poder em condições excepcionais, só sobreviveu à custa de muletas (Relvas, primeiro e Gaspar, depois) os verdadeiros ideólogos nestes dois anos que já leva a coligação. Restava, pois, Portas, um politico desleal, mas suficientemente hábil para levar o programa de austeridade a bom porto, mesmo que este programa tenha falhado redondamente como a própria carta de Gaspar o denunciava.
“Last but not least”, perante a eventualidade de eleições antecipadas (a única saída verdadeiramente democrática para este drama shakespeariano) os mercados deram sinal de nervosismo (aumento de juros a médio e longo prazo) e a Troika logo avisou que novas eleições dariam origem a um segundo “resgate” e um regresso mais tardio aos mercados. Chantagem pura, pois.
Resta a oposição, ou o que dela resta: Do PS, e para além dos formais discursos de discordância, nada podemos esperar o que faz algum sentido, pois não é de admitir que Seguro queira ir para o governo já, agora que a crise está no seu auge. Provavelmente, a sua estratégia será a de aguardar até 2015, altura em que, espera ele, o governo estará tão desgastado que o poder lhe cairá nas mãos. Do PCP, Bloco e Verdes, a exigência de eleições antecipadas, ainda que correcta, é insuficiente para mudar a situação criada.
Estamos nisto e isto é mau demais para acreditar. O que faltará ainda acontecer?
Como é isto possível? Bom, de Portas já não nos admiramos de nada e acreditamos que seja capaz de vender a sua própria mãe (de resto, a única pessoa que ainda deve acreditar nele). Do Presidente, há muito que deixámos de acreditar e ficaríamos espantados se, depois de tudo o que se passou, tivesse a coragem (coisa que não lhe conhecemos) para demitir esta cambada de vira-casacas e vende pátrias que nos governam. Finalmente, Passos, um líder fraco e sem ideias, que tendo chegado ao poder em condições excepcionais, só sobreviveu à custa de muletas (Relvas, primeiro e Gaspar, depois) os verdadeiros ideólogos nestes dois anos que já leva a coligação. Restava, pois, Portas, um politico desleal, mas suficientemente hábil para levar o programa de austeridade a bom porto, mesmo que este programa tenha falhado redondamente como a própria carta de Gaspar o denunciava.
“Last but not least”, perante a eventualidade de eleições antecipadas (a única saída verdadeiramente democrática para este drama shakespeariano) os mercados deram sinal de nervosismo (aumento de juros a médio e longo prazo) e a Troika logo avisou que novas eleições dariam origem a um segundo “resgate” e um regresso mais tardio aos mercados. Chantagem pura, pois.
Resta a oposição, ou o que dela resta: Do PS, e para além dos formais discursos de discordância, nada podemos esperar o que faz algum sentido, pois não é de admitir que Seguro queira ir para o governo já, agora que a crise está no seu auge. Provavelmente, a sua estratégia será a de aguardar até 2015, altura em que, espera ele, o governo estará tão desgastado que o poder lhe cairá nas mãos. Do PCP, Bloco e Verdes, a exigência de eleições antecipadas, ainda que correcta, é insuficiente para mudar a situação criada.
Estamos nisto e isto é mau demais para acreditar. O que faltará ainda acontecer?
2013/07/04
Tintim no país dos sovietes
Edward Snowden, até há pouco tempo um anónimo analista informático da Agência de Informação Americana, saltou para as primeiras páginas da imprensa internacional quando resolveu “pôr a boca no trombone” e denunciar aquilo que muita boa gente desconfiava, mas que poucos ousavam revelar. E que revelou Snowden?
Que a NSA (Agência Nacional de Segurança) controlava milhões de telefones e endereços electrónicos de cidadãos americanos e do Mundo, através de um programa (PRISM) numa clara violação da privacidade, sem que existisse qualquer autorização oficial para tal. A revelação caiu como uma bomba e pôs em causa, não só o direito inalienável à privacidade em qualquer estado de direito, como abalou a confiança dos cidadãos de todo o Mundo no governo americano e em empresas como a Google e a Microsoft, que já vieram confirmar terem cedido informações de mais de 20.000 contas dos seus clientes à NSA. Logo, não só era verdade, como é muito grave.
Snowden fez esta declaração em finais de Maio, a partir de um quarto de hotel em Hong-Kong, onde se tinha refugiado, em trânsito para um pais que lhe concedesse asilo politico. Desde então, os acontecimentos precipitaram-se e, como era previsível, os EUA lançaram a maior operação de caça ao homem desde Assange, o fundador da agência de informação WikiLeaks, igualmente acusado da divulgação de documentos classificados e que, por essa razão, se encontra refugiado há mais de um ano numa embaixada em Londres.
O que se tem passado nestas últimas semanas, relativamente a Snowden e ao seu paradeiro, é conhecido e tem sido abertura diária nos telejornais, sempre mais interessados na “fuga” do espião, do que na notícia que este revelou e que nos devia preocupar a todos. Mais: já em Moscovo, onde se encontra algures na zona do aeroporto para passageiros em trânsito, aguardando a concessão de um eventual asilo politico, Snowden continua a revelar segredos escaldantes, entre os quais a escuta em embaixadas de países aliados dos EUA, como a França, a Itália ou a Alemanha.
É aqui que Putin, nitidamente incomodado com a presença do americano no seu pais, decide jogar a sua cartada: oferecer asilo politico a Snowden (provocando dessa forma o governo dos EUA), com a condição deste se calar (para não ferir as relações bilaterais que lhe interessa manter). Uma jogada inteligente, que Snowden recusa, forçando o seu papel de mártir, agora cada vez mais isolado.
Nesta história, digna de Le Carré, não podia faltar o elemento de “suspense”, bem representado no caricato episódio do avião presidencial de Morales, retido em Viena sob o pretenso argumento de falta de condições técnicas para sobrevoar o espaço aéreo europeu. Diligente como sempre, o demissionário ministro Portas não resistiu a prestar vassalagem ao “amigo americano” e deu, provavelmente, a sua última ordem como MNE, proibindo a aterragem do avião boliviano em Lisboa. Como era previsível, Snowden não se encontrava a bordo do jacto de Morales. Onde está o americano?
Enquanto esperamos pelos próximos capítulos desta história inacreditável, lemos algures que uma famosa ex-espia russa teria oferecido casamento a Snowden, como forma de legalizá-lo no pais. Esta é, verdadeiramente, digna de Hergé.
Vira casacas, traidor, oportunista ou "all of the above"? E os seus apoiantes?
A luta vai obviamente agudizar-se, é uma questão de tempo.
Há contudo uma questão que me parece pertinente e que diz respeito à acção das oposições.
O que é que pensarão disto os que votaram nesta coligação, se sentiram defraudados, exultaram com o pedido de demissão do Portas e agora vêem tudo andar para trás? Será que se juntam a nós para derrubar estes canalhas ou vão-se afundar mais uma vez...? O que vão fazer os partidos da oposição para os cativar para a inevitável luta? O que é preciso fazer?
Somos agora mais ou os mesmos?
2013/07/03
(Muitas) dúvidas
Os acontecimentos das últimas horas trouxeram-nos um coro de pequenos cantores –moralistas de ocasião, uns, apoiantes e promotores até das políticas do láparo, outros, amnésicos, outros ainda– a gritar contra o "mal" que a coligação está agora a fazer ao país. É um coro já com os naipes todos de vozes preenchidos. Exibem um ar compungido como se não tivessem nada a ver com isto.
A pergunta que tenho inevitavelmente de fazer é a seguinte: que credibilidade tinha afinal a política que estes animais, que não hesitam em provocar nesta altura este triste espectáculo, decidiram seguir, da forma obstinada, traiçoeira, fria, incompetente, canhestra, criminosa até, que todos pudemos e podemos sentir? Será que quem é capaz de lançar o caos que agora presenciamos, será que quem é capaz de suscitar a angústia que muitos hoje sentem ao verem as "inevitabilidades" do Coelho transformarem-se nisto, poderia jamais ter um programa credível para o País? Em suma: é possível aceitar que quem tem este comportamento pudesse alguma vez ter ideias virtuosas para o País?
Será que, por outro lado, quem faz isto agora poderia, logo à partida, estar à altura das responsabilidades que se propôs assumir?
E, já agora, permitam-me deixá-los com mais duas perguntas e outras tantas dúvidas. O que vai acontecer às reformas necessárias a partir deste momento? E quem estará disposto a fazê-las? Quem terá o talento para as fazer e limpar, ao mesmo tempo, os estragos entretanto provocados, depois dos resultados vergonhosos que o governo de Passos Coelho, com o beneplácito do presidente Cavaco Silva, obteve?
Não terá a prestação vergonhosa de Passos Coelho, com o beneplácito de Cavaco Silva, comprometido definitivamente quaisquer alterações necessárias no futuro? Como pedir-lhes contas?
A pergunta que tenho inevitavelmente de fazer é a seguinte: que credibilidade tinha afinal a política que estes animais, que não hesitam em provocar nesta altura este triste espectáculo, decidiram seguir, da forma obstinada, traiçoeira, fria, incompetente, canhestra, criminosa até, que todos pudemos e podemos sentir? Será que quem é capaz de lançar o caos que agora presenciamos, será que quem é capaz de suscitar a angústia que muitos hoje sentem ao verem as "inevitabilidades" do Coelho transformarem-se nisto, poderia jamais ter um programa credível para o País? Em suma: é possível aceitar que quem tem este comportamento pudesse alguma vez ter ideias virtuosas para o País?
Será que, por outro lado, quem faz isto agora poderia, logo à partida, estar à altura das responsabilidades que se propôs assumir?
E, já agora, permitam-me deixá-los com mais duas perguntas e outras tantas dúvidas. O que vai acontecer às reformas necessárias a partir deste momento? E quem estará disposto a fazê-las? Quem terá o talento para as fazer e limpar, ao mesmo tempo, os estragos entretanto provocados, depois dos resultados vergonhosos que o governo de Passos Coelho, com o beneplácito do presidente Cavaco Silva, obteve?
Não terá a prestação vergonhosa de Passos Coelho, com o beneplácito de Cavaco Silva, comprometido definitivamente quaisquer alterações necessárias no futuro? Como pedir-lhes contas?
Obviamente, eleições!
Enquanto Passos Coelho voa para Berlim, tentando ganhar tempo para enfrentar um “imbróglio” do qual ele é um dos principais culpados (o outro é, obviamente, o Presidente da República), o país real comenta estupefacto a sucessão de acontecimentos das últimas 48 horas.
Parece cada vez mais claro que Gaspar, não só há muito desejava sair do governo (leia-se a sua carta de demissão), como já chegara à conclusão que a receita de austeridade imposta pela troika e que ele “alegremente” ia pondo em prática, não estava a dar resultados. Ou seja, apesar de todos os sacrifícios impostos aos portugueses e das promessas de um futuro melhor, esse futuro apresentava-se cada vez mais longínquo, qual “linha do horizonte” que se afasta à medida que dela nos aproximamos. Um problema insolúvel, como toda a gente - da esquerda à direita - previa e que ele, teimosamente, procurava contrariar com os seus modelos explicados em “powerpoint”. Perante uma situação de impasse, agravada pela recente “greve dos professores”, que o impediu de conseguir um corte nas despesas de 4.500 milhões de euros, imposto pela Troika, só lhe restava mesmo deitar a “toalha ao chão”.
Outro caso, completamente diferente, é o de Paulo Portas, o escorpião da fábula que, depois de ter sido levado para o governo, picou a rã (Passos Coelho) que lhe deu a mão. Contrariamente ao que algumas manchetes dos jornais escrevem, não foi Passos que amarrou Portas ao recusar a sua demissão, mas Portas quem tirou o tapete a Passos, tornando-o refém da sua estratégia de aranha. Um verdadeiro Maquiavel, o Paulinho, que nunca enganou ninguém, pois, como dizia o escorpião da fábula, a traição faz parte da sua natureza. Ele é mesmo assim e percebeu (a jogada é arriscada) que saindo agora, poderá tirar dividendos de uma provável vitória do PS em futuras eleições.
Uma coisa parece certa: o pais, os portugueses, não podem suportar mais esta gente calculista e impreparada que nos governa e devem exigir uma clarificação desta crise aos órgãos de soberania que os representam. Haja alguém que explique a Passos Coelho e a Cavaco Silva que este governo está morto e acabado, Acabou ontem e deve demitir-se ou ser demitido, para poderem ser convocadas novas eleições.
Parece cada vez mais claro que Gaspar, não só há muito desejava sair do governo (leia-se a sua carta de demissão), como já chegara à conclusão que a receita de austeridade imposta pela troika e que ele “alegremente” ia pondo em prática, não estava a dar resultados. Ou seja, apesar de todos os sacrifícios impostos aos portugueses e das promessas de um futuro melhor, esse futuro apresentava-se cada vez mais longínquo, qual “linha do horizonte” que se afasta à medida que dela nos aproximamos. Um problema insolúvel, como toda a gente - da esquerda à direita - previa e que ele, teimosamente, procurava contrariar com os seus modelos explicados em “powerpoint”. Perante uma situação de impasse, agravada pela recente “greve dos professores”, que o impediu de conseguir um corte nas despesas de 4.500 milhões de euros, imposto pela Troika, só lhe restava mesmo deitar a “toalha ao chão”.
Outro caso, completamente diferente, é o de Paulo Portas, o escorpião da fábula que, depois de ter sido levado para o governo, picou a rã (Passos Coelho) que lhe deu a mão. Contrariamente ao que algumas manchetes dos jornais escrevem, não foi Passos que amarrou Portas ao recusar a sua demissão, mas Portas quem tirou o tapete a Passos, tornando-o refém da sua estratégia de aranha. Um verdadeiro Maquiavel, o Paulinho, que nunca enganou ninguém, pois, como dizia o escorpião da fábula, a traição faz parte da sua natureza. Ele é mesmo assim e percebeu (a jogada é arriscada) que saindo agora, poderá tirar dividendos de uma provável vitória do PS em futuras eleições.
Uma coisa parece certa: o pais, os portugueses, não podem suportar mais esta gente calculista e impreparada que nos governa e devem exigir uma clarificação desta crise aos órgãos de soberania que os representam. Haja alguém que explique a Passos Coelho e a Cavaco Silva que este governo está morto e acabado, Acabou ontem e deve demitir-se ou ser demitido, para poderem ser convocadas novas eleições.
2013/07/02
Eis o responsável!
Se amanhã formos penalizados pelos "mercados" por causa da instabilidade política, se esta ditar um agravamento das condições de vida de todos nós, se tudo isto resultar da sua incapacidade para resolver o problema deste governo e se daí advier um agravamento da crise, quem é o responsável? A AR?!
Até quando?
Ontem o Daniel Oliveira fez aqui uma das mais lúcidas análises que tenho lido sobre a situação da esquerda portuguesa desde há muito tempo.
Não vejo, infelizmente, maneira de ultrapassar os problemas que o D.O. aponta neste artigo.
Hoje o PR avisa que só a AR determina se há ou não há crises políticas, votando ou não moções de censura. Sorridente (de que sorri ele?) e consciente da total impunidade de que goza, goza connosco e sacode a água do capote.
Até quando vamos continuar a ter estes trastes a dominar o país? Até quando vamos estar neste impasse? Até onde vamos deixar chegar isto?!
Quanto tempo mais vai ser preciso para a esquerda compreender que está a dar um tiro fatal no pé e que vai pagar duramente o impasse em que fez colocar a actual situação política portuguesa?
PS- Acabo de saber que Paulo Portas apresentou a demissão. Os acontecimentos correm mais de forma mais veloz que o baudrate da minha ligação à internet... Afinal o PR não pode continuar a sorrir. A esquerda ultrapassada pela direita. O meu post durou pouco mais tempo do que vai durar o mandato da nova ministra das finanças!
Não vejo, infelizmente, maneira de ultrapassar os problemas que o D.O. aponta neste artigo.
Hoje o PR avisa que só a AR determina se há ou não há crises políticas, votando ou não moções de censura. Sorridente (de que sorri ele?) e consciente da total impunidade de que goza, goza connosco e sacode a água do capote.
Até quando vamos continuar a ter estes trastes a dominar o país? Até quando vamos estar neste impasse? Até onde vamos deixar chegar isto?!
Quanto tempo mais vai ser preciso para a esquerda compreender que está a dar um tiro fatal no pé e que vai pagar duramente o impasse em que fez colocar a actual situação política portuguesa?
PS- Acabo de saber que Paulo Portas apresentou a demissão. Os acontecimentos correm mais de forma mais veloz que o baudrate da minha ligação à internet... Afinal o PR não pode continuar a sorrir. A esquerda ultrapassada pela direita. O meu post durou pouco mais tempo do que vai durar o mandato da nova ministra das finanças!
2013/07/01
Foi-se embora o mau polícia, ficou a boa polícia
Desenganem-se aqueles que pensam que, com a saída de Victor Gaspar do governo, a austeridade e os ataques ao estado social em Portugal vão diminuir.
Ainda que a saída de Gaspar não tenha sido propriamente uma surpresa, pois já era falada desde Outubro de 2012, a verdade é que daí para cá o ex-ministro nunca se coibiu de aplicar sistematicamente a estratégia previamente delineada com a Troika, de quem ele era o representante oficioso em Portugal.
Nunca, como nos últimos dois anos, a população portuguesa foi submetida a tal provação e, se houve um rosto que personalizava a politica fundamentalista dos neoliberais que governam Portugal, esse rosto era o de Gaspar, ele mesmo um quadro do Banco Central Europeu em comissão de serviço.
A sua substituição pela Secretária do Estado do Tesouro que o acompanhava na teoria e na prática desta politica, ainda que lógica na forma (afinal ela conhece bem os “dossiers” e é conhecida dos seus pares em Bruxelas), encerra em si vários perigos: para o governo o facto de Maria Albuquerque estar comprometida com a mal explicada trapalhada dos “swaps”, que podem custar ao erário público a módica quantia de 1000 milhões de euros: para os portugueses, a ilusão de que esta ministra (que goza de um estatuto de rigor e conseguiu alguns êxitos, como a privatização da ANA) possa inverter a marcha dos acontecimentos e deixe alguma folga nesta austeridade sem resultados.
Nada de essencial vai mudar e, com ou sem Gaspar, a politica da Troika continuará a ser aplicada em Portugal, pois essa é a receita delineada em Bruxelas, Washington e Berlim, as verdadeiras capitais de Portugal.
Saiu o mau policia, para dar lugar a uma policia só aparentemente melhor, segundo a velha máxima de Lampedusa: “é preciso que algo mude, para que tudo fique na mesma”.
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