2019/08/26

Pela boca morre o peixe...


A seis semanas das eleições - e a menos que algo de muito imprevisível aconteça - os dados parecem estar lançados. Vitória folgada do PS, perda significativa de votos à direita (PSD, CDS) e crescimento do BE e do PAN. A CDU deve manter-se nos níveis habituais, enquanto os pequenos partidos (Livre, Aliança, Basta e PDR), devido à dispersão de votos, dificilmente conseguirão eleger deputados.
Depois de quatro anos de "geringonça", o balanço é positivo e os (3) partidos, que apoiaram este modelo de governação, serão recompensados por isso: melhoria económica dos grupos mais desfavorecidos  (salários, reformas e pensões, passes sociais, etc.); crescimento acima da média europeia (1,8%); redução da dívida pública (122% do PIB); redução do déficit (0,2%); redução do desemprego (6,5%); aumento de exportações e turismo (22 milhões visitantes/ano) e "contas certas" em Bruxelas, um argumento de peso na nomeação de Centeno para a presidência do Eurogrupo.
Nem tudo são "rosas socialistas", no entanto: Portugal continua a ser um dos países mais desiguais da União Europeia, com 25% da população (2 milhões!) a viver no limiar da pobreza (482 €/mês); o Serviço Nacional de Saúde, exemplar nos seus propósitos, continua com lacunas imperdoáveis, ao nível de um país subdesenvolvido; a educação, continua com os problemas estruturais herdados do passado (colocação de professores, pessoal auxiliar...); a habitação nas grandes cidades (devido ao "boom" turístico e a especulação imobiliária) tornou-se proibitiva para quem queira alugar ou comprar casa; os transportes, nomeadamente ferroviários, são antiquados e deixaram de ser operacionais em muitas zonas do pais, etc...
Ou seja, podemos olhar para os quatro anos da "geringonça", do ponto de vista do "copo cheio" (discurso do governo) ou do "copo vazio" (discurso do cidadão).
A avaliar pelas sondagens da opinião pública, a maioria dos inquiridos (que não a maioria da população), parece ter gostado desta experiência partilhada (PS, apoiado pelo BE e pelo PCP), ainda que o programa governamental fosse o do Partido Socialista.
Mas essa não parece ser a opinião no interior dos principais partidos do leque governativo (vulgo bloco central) em relação ao futuro. No PS, confortável numa vitória, que lhe permitirá negociar com a esquerda e com a direita, pede-se maioria absoluta, para ficar de "mãos livres" nos acordos difíceis de cumprir. Na direita, conformada com uma derrota anunciada, os principais partidos e confederações patronais preferem um PS de maioria absoluta, que limitaria a influência do BE e do PCP, nas exigências laborais e nas lutas sindicais. Percebe-se. Basta seguir com atenção as opiniões de grupos como a "Tertúlia" (20 personalidades do mundo político e financeiro português), "Compromisso Portugal" (António Carrapatoso) "Movimento 5.7" (Miguel Morgado), "Observador" ou a Confederação dos Patrões (CIP), para confirmar que afinam todos pelo mesmo diapasão: tudo menos o BE e o PCP no governo.
E é aqui que entram as recentes declarações de António Costa, ao jornal "Expresso", que tanta celeuma têm provocado. Na sua (indisfarçável) arrogância de vencedor antecipado, Costa cometeu um erro que lhe pode ser fatal. Não em relação à vitória em si, mas em relação a um dos parceiros (neste caso o BE) que lhe permitiu obter os resultados positivos que ele hoje pode apresentar. Dito de outra forma, sem o apoio dos partidos à sua esquerda (BE e PCP), o PS nunca teria conseguido aprovar quatro orçamentos e, muito menos, governar. Mais, muito provavelmente, nem o próprio Costa teria sido primeiro-ministro, uma vez que não ganhou as últimas eleições, como todos sabemos. Mais, na melhor das hipóteses teria sido remetido para líder da oposição e, quem sabe, hoje já nem secretário-geral do seu partido seria...
Resta saber porque é que Costa (um político experiente) fez tais declarações e logo numa longa entrevista ao Expresso e à SIC, baluartes do império de comunicação Balsemão e referências jornalísticas de uma certa classe média portuguesa?
Há, nas declarações de Costa (não por acaso, puxadas para o título da entrevista) duas mensagens subliminares: não conta com o BE para formar governo (não haverá "geringonça 2"); tenta sossegar a direita, ao abrir a hipótese de governar em maioria relativa (o que lhe permitirá fazer acordos com o PSD, por exemplo).
Ou seja, procura "recentrar-se", pensando desta forma conquistar alguns votos mais, que lhe permitam alcançar a mítica maioria absoluta.
Acontece que, como no xadrez, o "salto de cavalo", pode revelar-se extemporâneo. O que, inicialmente, parecia um jogada de mestre, revela-se um movimento em falso. Ou, mais prosaicamente, um "tiro no pé".
Costa e os seus "spindoctors", ainda não perceberam que o (relativo) sucesso e popularidade deste governo, se devem às medidas de esquerda que tomaram. Tímidas e insuficientes, é certo, mas fundamentais para a reconquista da confiança perdida, após quatro anos de Troika. Ou seja, só quando o PS fez uma politica de esquerda, conseguiu o apoio dos portugueses. Mas a montante estava o apoio dos partidos que permitiram este governo.
Ignorar estas coisas simples, é não perceber a razão que levou ao colapso dos partido sociais-democratas da chamada 3ª via. A "pasokização" dos PS europeus está aí, para comprová-lo.
A arrogância, sempre foi uma característica do poder. Quando ele é absoluto pode corromper absolutamente. Mas da mesma forma que quanto mais alto se sobe, maior é a queda, também os peixes (mesmo os graúdos) morrem pela boca.

2019/08/23

Brasil, um país à deriva

A núvem de fumo, que cobriu esta semana a cidade de S. Paulo, provocada pelos incêndios da floresta amazónica a 3000km de distância, é a metáfora perfeita para um país mergulhado na escuridão. De acordo com os dados disponibilizados pelo Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Nacionais), que monotoriza o fenómeno , os fogos deste ano correspondem ao maior flagelo registrado nos últimos cinco anos.
Os números não mentem: o fumo do incêndio da Amazónia pode ver-se do espaço. Entre os estados atingidos, Mato Grosso é o campeão, com 13682 focos de incêndio, num total de 72843 no país inteiro, entre Janeiro e Agosto, um aumento de 87% face ao mesmo período do ano passado, segundo o Inep.  Em segundo lugar, está o Pará com 7975. A situação tornou-se tão grave que o estado do Amazonas, com mais de sete mil focos de incêndio, decretou situação de emergência na região Sul e na região metropolitana de Manaus. O governo de Acre decretou crise ambiental.
Perante o alarme, o presidente Bolsonaro, tentou arranjar um bode expiatório (as ONGS, que trabalham no terreno, descontentes por terem perdido apoios governamentais), o que não convenceu ninguém, conhecendo o trabalho que estas organizações fazem no terreno, onde são das mais activas na defesa e preservação do ambiente, como é do conhecimento geral. Mais tarde, admitiria que os causadores dos fogos poderiam ser os fazendeiros, que anualmente procedem a queimadas para desmatar a floresta e preparar os terrenos para o cultivo e agro-pecuária.
Contudo, o número e a velocidade com que surgiram, sugerem actos criminosos - as queimadas foram feitas para fazer desaparecer o que sobra do desmatamento.
De acordo com Vinícius Silgueiro, coordenador de geotecnologia do Instituto Centro Vida, sediado em Mato Grosso, já se detectaram em Colniza (um município de Mato Grosso) 1049 focos de incêndio. "Associamos sempre a queimada nesta época com o desmatamento e neste ano aumentou bastante. É bom para a especulação fundiária" (in "Público" d.d. 23/8/19).
De acordo com os dados fornecidos pelo Instituto, 60% das áreas do fogo ficam em áreas privadas cadastradas. 18% em áreas privadas sem cadastro, 16% em terras indígenas e 1% em área da conservação da natureza (ibidem).
Os números são assustadores: a destruição do Amazonas arrasta-se de ano para ano, muitas vezes de forma irreparável - o desmatamento aumentou 88% em Junho e 278% em Julho, segundo o Inep. Só nas última semanas, teria ardido uma superfície equivalente à da Alemanha. Se pensarmos que a área da Amazónia corresponde à superfície da Europa, podemos ter uma ideia do que um desastre ambiental naquela zona pode significar para todo o planeta.
As causas para esta tragédia brasileira (e planetária) são conhecidas e não podem ser ignoradas.
Elas radicam no governo de Bolsonaro, que tem apostado numa estratégia de desregulamentação e desprotecção do Amazonas, incentivando à exploração económica, seja mineira ou agrícola. Apoiados pelas palavras do presidente, que declarou querer transformar a Amazónia na "alma económica do Brasil", vários fazendeiros reuniram-se para declararem o "dia do fogo" a 10 de Agosto, quando iriam atear incêndios diversos. Sem controlo, atearam fogos em massa.
Só nesse dia, o Inep, registou um aumento de 300% de focos de incêndio, em Novo Progresso, no Pará, num total de 124 casos e, no dia seguinte, ainda mais: 203 casos. Em Altamira, no mesmo estado, foi ainda maior: 743%, um total de 194 focos no sábado e 237 no domingo.
Os causadores destes fogos agem impunemente, pois sabem estar protegidos pelo governo federal e actuam em território não controlado. Só em 2018, 23 ambientalistas foram assassinados no Brasil, transformando-o no quarto país mais perigoso do Mundo para estes activistas. Se recuarmos a 2002, já foram assassinados 653 ambientalistas no país (dados da Global Witness).
No entanto, nada disto nos devia surpreender. Ainda antes de ser eleito, e quando poucas pessoas acreditavam nas suas capacidades (o que se veio a confirmar) Bolsonaro disse logo ao que vinha. Negou as alterações climáticas, defendeu a transformação da Amazónia, cortou nos orçamentos das instituições ambientais  - 38,4% das verbas para prevenção e controlo de incêndios florestais - e contestou os dados oficiais que falavam no aumento da deflorestação de 278% em Julho, exonerando de seguida o presidente do Inep, Ricardo Galvão.            
Quando chegou ao governo, a maioria dos analistas vaticinou-lhe uma curta vida política. Havia três vias possíveis: pôr em prática as suas ideias (fascistas), o que poderia isolar o Brasil na cena internacional; navegar "à bolina", governando de acordo com os problemas que fossem surgindo; ou apoiar-se nas bancadas ruralistas, evangelistas e nos militares que o apoiaram. Todos este grupos estão, hoje, representados no governo, constituido por 1/3 de militares.
A chamada "bancada ruralista" (a do agro-negócio) é um dos sustentáculos da presidência do Congresso e o Presidente tem retribuido o apoio. Mas, há perigos. Diversas organizações do sector, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e agrónomos diversos, avisam que, se a destruição da Amazónia continuar a este ritmo, o agro-negócio definhará com ela.  O desmatamento alterará a duração das épocas de chuva e o tempo brando e seco que se lhe segue prejudicará as colheitas. Em caso de desmatamento prolongado, os terrenos deixarão de ser húmidos e a regeneração da floresta pode nunca mais se verificar.    
Nem tudo é mau, no entanto: a Alemanha e a Noruega, congelaram o apoio (70 milhões de euros a fundo perdido) dado ao Brasil para a conservação da Amazónia; a Finlândia apelou ao boicote activo em toda a UE da carne brasileira; o presidente Macron conseguiu agendar a Amazónia, para a próxima reunião do G7, a realizar este fim-de-semana; publicações de referência (The Economist, The Guardian, The New York Times, The Independent, Le Monde...) dedicam esta semana as suas capas e extensos artigos aos fogos da Amazónia e as redes sociais nunca estiveram tão activas e mobilizadas por uma causa. Amanhã, haverão manifestações nas principais cidades europeias, em defesa da Amazónia e, no Brasil, a mobilização não é menor.
No fundo, se a questão da Amazónia, tiver o condão de condenar e correr com Bolsonaro e o seu governo de corruptos fascistas, nem tudo se perderá e o Mundo ficará, certamente, menos poluído. Também porque não há planeta B.

2019/08/16

Matérias Perigosas

A greve dos motoristas, que dura há cinco dias, parece ter entrado numa fase crítica.
Depois de um período alarmista, ampliado pela Comunicação Social, o governo aumentou os níveis esta semana, exigindo "serviços mínimos" e ameaçando com "requisição civil", todos os motoristas que se recusassem cumpri-los. Aparentemente, saíu-se bem.  A distribuição da gasolina foi-se efectuando sem grandes problemas, ainda que com apoio de militares e da GNR.  No primeiro dia da greve, 12 de Agosto, percorri a A23 entre Vilar Formoso e Torres Novas e a A1, entre Torres e Lisboa (mais de 400 km) e, no Fundão, onde meti gasolina, não havia qualquer carro em fila de espera na estação de combustíveis. Máximo permitido: 15 litros. So far so good.
Não consta que qualquer hospital, serviços de protecção civil, bombeiros ou aeroportos, tivessem falta de gasolina. À excepção do Algarve, onde a distribuição ainda é deficiente (também devido à população flutuante que, nesta altura do ano, aumenta exponencialmente), o nível de incumprimento situava-se nos 30%. No balanço provisório, diariamente feito pelo ministro do ambiente, este disse (ao 5º dia) que tudo estava a decorrer normalmente.
Entretanto, na comunicação social, nos fora e nas redes sociais, as opiniões, umas mais incendiárias que outras, surgiram em catadupa. De um modo geral todos - governo, oposição, patrões, motoristas, partidos políticos, sindicatos, jornalistas, comentadores - começam as suas intervenções por declarar que "a greve é um direito constitucional que assiste aos trabalhadores" para, depois, com maiores ou menores "nuances", acrescentarem: "mas, esta greve, é diferente e prejudica a população em geral". Os mais elaborados, chegam a afirmar que esta greve é de extrema-direita e serve interesses obscuros, quiça orquestrada por Steve Bannon (!?), o alter-ego de Trump que, a partir de Itália, se prepara para pôr a Europa a ferro e fogo. Quem sabe... Não devemos descartar nenhuma hipótese e, nos tempos que correm, uma greve, para mais de camionistas (lembram-se do Chile...) pode fazer cair um governo. Em véspera de eleições, este seria o momento ideal para destabilizar o PS, que vai à frente nas intenções de voto, pensam os arquitectos da conspiração. Logo, há que "parar o país", forma clássica de causar confusão e culpar o governo por tudo o que correr mal.
Acontece que o governo, que esteve bem até agora, não conseguiu parar a greve. O sindicato dos motoristas de matérias perigosas recusa-se suspendê-la e a organização patronal, a Antram, recusa-se negociar com o sindicato, enquanto este mantiver a greve. São cerca de 800 motoristas mobilizados, que fazem parte de um pequeno sindicato, criado em 2018. Das suas exigências, constam o aumento progressivo do ordenado-base (actualmente fixado em 630 euros), que passaria a integrar alguns dos subsídios pagos por fora (que não contam para o IRS) assim como a diminuição de horas-extra que, de acordo com o actual contrato colectivo de trabalho, podem chegar às 60 horas semanais. Ou seja, os motoristas de matérias perigosas exigem um ordenado líquido tributável de 900euros, ao longo dos próximos três anos, e menos horas de trabalho efectivo, o que faria disparar o ordenado ilíquido para cerca de 1500euros, exigências recusadas pela Antram.
Posto isto e porque as partes não negoceiam, a greve pode prolongar-se e, nesse caso, a rutura de "stocks" acontecerá mais cedo ou mais tarde, o que pode inverter a situação, actualmente favorável ao governo, cuja actuação tem sido elogiada pela maioria da população. É aqui que estamos e por isso esta fase é crítica.
Entretanto, os motoristas continuam a trabalhar oito horas por dia, o que lhes garante um vencimento-base, ainda que as horas cumpridas (serviços mínimos) não cheguem para assegurar as necessidades de distribuição. Ou seja, só cumprindo 11 ou 12 horas diárias, o conseguiriam fazer, com todos os riscos inerentes.
Dito de outra forma: o patronato paga parte do ordenado por "debaixo da mesa" aos motoristas, fugindo dessa forma à Segurança Social e ao Fisco e a Autoridade Tributária (que conhece a situação) nada faz para recuperar impostos que ascendem a 300 milhões de euros, de acordo com os cálculos publicados por estes dias. Grande negócio, que o governo (Finanças) ignora olimpicamente. 
Independentemente do que possamos pensar sobre as "intenções" desta greve (que alguns lamentam pelos inconvenientes provocados), a verdade é que não são conhecidas greves sem efeitos secundários, ou que não perturbem a produção. Esse é o seu fim último. Sempre foi assim e esta greve não é excepção. O que está mal, mas muito boa gente parece não querer ver, são as condições de trabalho e salário existentes que, de há muito tempo a esta parte, são praticados no sector. O governo é cumplice desta situação e a sua posição neste conflito, claramente ao lado da Antram, só confirma o lado que escolheu.

2019/08/14

A "salto" por terras beirãs


Vieram do país e do estrangeiro, ainda que todos tenham estado exilados por recusarem o fascismo e a guerra colonial. Eram cerca de setenta, entre homens e mulheres, irmanados na mesma causa: a evocação da passagem a "salto", pela fronteira mais emblemática de Portugal, nos anos em que a península ibérica era governada por ditaduras.
O encontro, denominado "Jornadas sócio-culturais da AEP61-74", decorreu nos dias 10 e 11 de Agosto em Vilar Formoso, foi organizado pela Associação de (ex)Exilados Políticos e teve o apoio da Câmara Municipal de Almeida, da Junta de Freguesia de Vilar Formoso e do Ayuntamento de Fuentes de Oñoro.
Do programa, no primeiro dia, destaque para uma entrevista colectiva à Rádio Fronteira, que dedicou parte substancial da sua emissão ao evento; o filme "O Trilho do Poço Velho", de Luís Godinho, sobre a experiência de exilados que passaram a "salto" por esta fronteira; um debate, que contou com a presença dos historiadores Irene Pimentel e José Pacheco Pereira e da ex-deputada europeia Ana Gomes, que abordaram a problemática dos refugiados de então, quando comparada com a actual situação na Europa; os cantores Manuel Freire e Tino Flores, que preencheram a parte lúdica do evento com poemas e canções; e uma visita ao Museu da Paz/Aristides de Sousa Mendes, sobre os refugiados judeus da 2ª guerra mundial, instalado na antiga estação de combóios da vila.
O segundo dia, seria dedicado a percorrer parte do antigo "trilho", que atravessava a fronteira luso-espanhola e ao descerrar de uma placa evocativa da passagem a "salto", efectuada por milhares de jovens portugueses, que recusaram a guerra, optando pelo exílio.
Uma justa, ainda que tardia homenagem, a todos aqueles que, de alguma forma, contribuiram para a denúncia e recusa de uma ditadura ignóbil, que governou Portugal durante 48 anos. Para que a memória, não se apague.

2019/08/01

José Afonso: nos 90 anos do seu nascimento


Se fosse vivo, José Afonso faria hoje 90 anos.
Se outra razão não houvesse, a efeméride serviria para lembrar o genial compositor, cujo legado constitui, de há muito, uma obra incontornável do património artístico e cultural português.
Assim o entendem os milhares de subscritores da petição, hoje entregue ao governo, para que este reconheça e classifique, a obra do cantor, Património Cultural de Portugal. Uma iniciativa da Associação José Afonso (AJA) sediada em Setúbal que, em menos de um mês, reuniu 11500 assinaturas para este fim. Um passo mais, no reconhecimento do homem e da sua obra, agora que a figura parece ter conseguido um consenso que nunca obteve em vida. São assim, os clássicos. A qualidade sobrevive ao passar do tempo. A sua intemporalidade será sempre o melhor critério para avaliá-la.
Também por isso, torna-se urgente a reedição da obra discográfica de José Afonso, hoje dispersa por diversas editoras e cujas edições continuam (parcialmente) esgotadas. Uma lacuna difícil de explicar, não fora vivermos em Portugal, um país que não prima pelo reconhecimento dos seus melhores e onde a mentalidade reinante complica o óbvio.
A falta de albuns originais, contudo, não tem impedido admiradores e intérpretes, de recriarem uma obra que, de tão prolífera, continua a gerar versões onde a genialidade das composições é uma constante. Escolhemos um exemplo, ao acaso, porventura menos conhecido do grande público, a canção "Benditos ", que fala por si. Afinal, esta é a melhor forma de evocar José Afonso. Enquanto a sua a obra for divulgada, podemos estar seguros de que não desaparecerá.     
Muito continua a acontecer, portanto. Desde logo, este fim-semana, um pouco por todo o país, onde estão programadas sessões evocativas da efeméride, organizadas pelos núcleos da AJA de Setúbal, Grândola, Almada, Porto, Aveiro e Tavira, que contarão com a participação de dezenas de intérpretes que desta forma se associam à data.
Em Lisboa, a sessão constará do lançamento do livro-disco "José Afonso (ao vivo)", constituida por um livro,  um LP e dois CDs, com gravações inéditas de dois concertos realizados em Coimbra (1968) e Carreço (1980), recentemente recuperadas e editadas pela Tradisom. A sessão contará com a presença de Adelino Gomes, autor do texto e José Moças, responsável pela edição. A parte musical será assegurada pelas cantoras Filipa Pais e Maria Anadon e pelo cantor Zeca Medeiros, que serão acompanhados por David Zaccaria (guitarra).
A sessão de Lisboa, tem lugar no próximo dia 3 de Agosto, pelas 16h. na sede da AJA, situada na Rua de São Bento, 170.
Lá estaremos.

2019/07/31

Criadores e Criaturas

Maus de Art Spiegelman
Que o Mundo pode ser um lugar perigoso, já sabíamos há muito tempo.
Provavelmente, desde que o homem é "sapiens" e iniciou a luta pelo seu território.
Com altos e baixos, a História foi-se fazendo, sempre de maneira diferente, mas nem por isso menos surpreendente, uma vez que a História (em princípio) não se repete. Ou melhor, como dizia o filósofo, repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa.
Tudo isto, a propósito da recente "onda" de ditadorzecos, uns exercendo o poder de facto e outros aspirando a tal, que têm surgido um pouco por todo o lado. O processo vem de trás, mas o "Brexit", a eleição de Trump e a ascensão dos populismos na Europa, são sinais inequívocos desta tendência regressiva. Juntem-se, a estes exemplos, a China de Xi Jinping, onde o poder é exercido com mão de ferro; a autocracia mal disfarçada de Putin; a democracia musculada de Erdogan; a demência de Duterte; ou o regime proto-fascista de Bolsonaro, para termos uma ideia do que pensam e fazem tais persongens.
Ainda que tenham características comuns, a verdade é que o poder de uns (Trump, Xi, Putin...) é incomensuravelmente maior do que outros, os quais representam um perigo regional, que não deve ser subestimado. Estão neste caso, Erdogan, Duterte, Maduro ou Bolsonaro.  
Como chegámos aqui?, é uma pergunta recorrente, feita pelos mais diversos analistas. As causas são várias, pois nem todos os países foram confrontados com o mesmo tipo de problemas que poderão estar na origem de tal fenómeno: dos efeitos da recente crise económico-financeira, ao terrorismo internacional, passando pela crise dos refugiados e emigrantes (ligada à islamofobia e ao racismo crescente), são múltiplas as explicações para o recrudescimento do autoritarismo, da xenofobia e da "supremacia branca", que existe em todos os regimes populistas mencionados.
Em artigo recente, Nuno Severiano Teixeira ensaia uma explicação para o ataque a que as democracias estão, actualmente, sujeitas: "Mas, sejam quais forem as razões, uma coisa é certa: a liberdade e a democracia estão sob assalto e globalmente em retrocesso. Mais: se olharmos para esse retrocesso, uma coisa parece evidente: a queda das democracias já não é o que era. Dantes, caíam de um só golpe, súbita e estrondosamente, à força de armas. Era o tempo dos golpes de Estado. Hoje, caem lenta e silenciosamente. Na verdade, não caem, vão caindo, à medida que os incumbentes usam os mecanismos democráticos para subverter a própria democracia - isto é, as democracias já não caem pelo método violento do derrube, mas sim pelo método incremental da erosão" (in "Público", d.d. 31.7.19).
Se dúvidas houvesse, bastava olhar para o que se passa nos Estados Unidos - portanto, uma democracia consolidada - onde o populista Trump faz diariamente discursos racistas e apelos à expulsão de congressistas de origem estrangeira (ele, cuja família é de origem escocesa!) entre ataques descabelados ao reverendo Al Shappton, por este ousar criticá-lo; ou, mais a Sul, o que se passa no Brasil - uma democracia desde 1985 - onde o mentecapo Bolsonaro protege garimpeiros que querem destruir o Amazonas e as comunidades índigenas, enquanto continua a negar a existência da ditadura militar, que governou o país durante 21 anos!
Porque as democracias não são todas iguais, diria que Trump (sendo mais perigoso) é mais controlável, devido ao sistema de "checks and balances" existente na democracia americana; Já Bolsonaro (um ex-militar ignaro e fascistóide) é suportado por uma bancada de evangélicos, ruralistas e militares, que detém a maioria num congresso, onde as leis são aprovadas através da compra de votos.  
Uma coisa é certa: todos estes personagens - criadores e criaturas - sairão de cena, mais cedo ou mais tarde. Quanto mais não seja, pela inevitabilidade da morte. Também, porque, aos períodos de autoritarismo, sempre sucedem períodos de democracia. Ninguém, em consciência (a menos que seja masoquista) deseja viver em ditadura. O apelo da liberdade, será sempre mais forte.  

2019/07/28

A "Época dos Fogos"


Como é da "tradição", voltaram os fogos de Verão. O fenómeno é de tal ordem, que alguém o baptizou de "época de fogos". Se já tínhamos a "quadra natalícia" e a "época balnear", porque não a "época dos fogos"? Desta forma, podemos sempre criar mais um "ritual de passagem" e anunciar lá fora: "Venha a Portugal no Verão: sol, praia e fogos, garantidos!". 
Os números não mentem. De acordo com o relatório "O Mediterrâneo Arde", apresentado este mês pela World Wildlife Fund" (WWF), as perspectivas para os países do Mediterrâneo Norte (Portugal incluído), são preocupantes. Já em finais de 2018, outro estudo, liderado por Marco Turco (universidade de Barcelona), apresentava projecções catastróficas: no melhor cenário, aquele em que a temperatura média do planeta aumentará 1,5ºC (limite estabelecido pelo Acordo de Paris sobre alterações climáticas) , o Mediterrâneo verá a sua área ardida aumentar em 40% até ao fim do século, sendo a Península Ibérica uma das zonas mais penalizadas. Caso o aquecimento chegue aos 3ºC, a destruição poderá atingir os 100%.
O relatório do WWF,  que incide sobre Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Turquia, alerta ainda para o facto de termos entrado numa época de megaincêndios (de sexta geração), imprevisíveis, violentos, incontroláveis e letais. Fazem parte desta categoria, os grandes fogos de 2017 (Pedrogão e 15 de Outubro) e 2018 (Grécia). Este ano, devido às irregularidades climatéricas e um Verão relativamente fraco, os grandes fogos começaram mais tarde. No entanto, bastaram dois dias de incêndios violentos (Vila de Rei e Mação), para que os números disparassem. Num só fim-de-semana, arderam 8000 ha, metade da área ardida em todo o ano! Se esta é a realidade de Julho, o que podemos esperar dos dois meses que faltam, para terminar a "época dos fogos"?...
É verdade que não houve vítimas, como há dois anos (112 mortos), o que mostra algum avanço na forma de combater o fogo. A estratégia passou a ser "salvar vidas", em detrimento de casas e bens. Mas, conforme todos os especialistas apontam, muito há ainda por fazer nesta área, a começar pela prevenção, que leva tempo a implementar e sem a qual o combate ao fogo será sempre inglório.
O diagnóstico está feito e passa por acções conjuntas, a começar pelo ordenamento do território e respectivo cadastro, sem o qual é impossível gerir a floresta existente nos terrenos privados (90% do território). Estes, encontram-se ao abandono, seja por falta de meios humanos, seja por falta de meios materiais.
Há duas variáveis que Portugal (os respectivos governos) dificilmente poderão controlar: o aquecimento global e a desertificação do interior. Relativamente ao primeiro "item", só através de acções conjuntas a nível internacional (o Acordo de Paris é um bom exemplo) poderão ser tomadas medidas que defendam o planeta do anunciado aquecimento. No segundo caso, os incêndios não poderão ser evitados (haverá sempre fogos, durante todo o ano), mas poderão ser minorados, desde que a prevenção tenha um papel determinante. Uma das formas, será criando incentivos que ajudem os proprietários a limpar os terrenos e a entregar a madeira e mato recolhidos, em troca de benefícios que justifiquem a recolha sistemática da carga "combustível" existente, para que, dessa forma, esta possa ser transformado em biomassa. Se não houver contrapartidas, dificilmente os donos dos terrenos, investirão numa industria, da qual não colhem proveitos. Na melhor das hipóteses, plantam árvores (eucaliptos e pinheiros) de crescimento rápido, para obter algum rendimento, uma das razões que estarão na origem de muitos dos fogos das últimas décadas. Uns por negligência, outros por interesses obscuros, já que sabemos que só uma ínfima parte dos fogos são originados por causas naturais (trovoadas, etc...).
Desde a década de sessenta do século passado, que a migração para o litoral (e para o estrangeiro) é uma constante. Mais de 75% da população portuguesa vive hoje numa faixa litoral, compreendida entre Braga e Setúbal. Reverter este processo, tornou-se utópico, admitindo que algum governo o queira tentar. Resta, pois, uma gestão equilibrada e sustentável do território, que passa por uma estratégia de longo termo, se ainda queremos salvar algo. Olhando para os gestores da coisa pública actuais, tememos o pior. Não se vislumbram grandes metas e as soluções (temporais) encontradas, acabam por ser mais do mesmo...Voltamos sempre ao princípio, ancorados numa velha certeza: o da tradição, imutável, como convém. Assim, não vamos lá...

2019/07/21

Do Racismo Lusitano


Passaram duas semanas sobre o polémico artigo de M. Fátima Bonifácio (MFB), mas as ondas de choque provocadas continuam a fazer sentir-se diariamente nos jornais e nas redes sociais. Há textos de todas as matizes e para todos os gostos e, como alguém escreveu, a quantidade é tal que daria para uma tese de mestrado.
Ora, isso é bom, pois nada como uma salutar polémica, estejamos ou não de acordo com os argumentos apresentados pelos cronistas de serviço. Globalmente, podemos dividir as opiniões publicadas em dois grandes grupos: os que criticam abertamente as posições defendidas por MFB e os que, começando por criticar, acabam a defender a historiadora, alegando que o texto, pesem as suas incongruências, merece reflexão. No primeiro grupo, encontramos gente normalmente identificada com a esquerda política; no segundo, gente da chamada direita liberal. Nada de estranho, aqui também. O texto é fracturante e só podia desencadear reacções opostas.
Mas, afinal, o que escreveu a historiadora MFB, no seu texto "Podemos? Não, não podemos" (in "Público" d.d. 6 de Julho último)?
A propósito de uma notícia, publicada no mesmo jornal a 29 de Junho, com o título "O PS quer discriminação positiva para as minorias étnico-raciais", a cronista escreve: "Em causa estão sobretudo africanos e ciganos, independentemente de terem nascido em Portugal ou não. Estas minorias, excluídas da cidade e a sua suposta ou real marginalização constituem a prova de que Portugal "continua a ter um problema de racismo e xenofobia", independentemente do efeito - que de resto não sofremos - do drama dos refugiados, com o seu pico mais trágico em 2015".
Bonifácio, que é contra um sistema de "quotas", defendido pelo sociólogo e secretário-nacional do PS, Rui Pena Pires - que "lamenta a falta de diversidade no espaço público e vê com bons olhos uma iniciativa que ajude a resolver o problema da visibilidade dos africanos e dos ciganos nas instituições, a exemplo do que aconteceu com as mulheres" - pergunta retoricamente "se as quotas tinham impulsionado a emancipação e igualização dos direitos das mulheres, se lhes haviam aberto o espaço público, porque não aplicar a mesma receita às minorias étnicas?" Para logo prosseguir com estas "pérolas": "A comparação com a igualdade ou paridade de género é inteiramente falaciosa. As mulheres que, sem dúvida, têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma identidade civilizacional cultural e milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem ciganos" (!?). Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem, decretados pela grande Revolução Francesa de 1789 (!?). Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprias" (!?). E à frente: "Os ciganos, sobretudo, são inassimiláveis: organizados em famílias, clãs e tribos, conservam os mesmo hábitos de vida e os mesmo valores de quando eram nómadas. E mais, eles recusam terminantemente, a integração" (!?). Africanos e afro-descendentes também se auto-excluem, possivelmente de modo menos agressivo, da comunidade nacional. Odeiam ciganos. Constituem etnias inconciliáveis e, desta mútua aversão, já nasceram em bairros periféricos e em guetos que metem medo, batalhas campais só refreadas pela intervenção policial" (!?).        
O artigo prossegue no mesmo tom e seria fastidioso citá-lo todo. Para exemplo, deve bastar.
Perante as críticas que choveram dos mais diversos quadrantes, os "adeptos" da historiadora (a maioria agrupados no "Observador", "think tank" da "alt-right" lusitana) vieram a terreno tentar limitar os estragos.
José Manuel Fernandes, paladino liberal dos bons costumes, até começa bem: "as generalizações feitas por Bonifácio, são abusivas, caricatas, mesmo ofensivas", para refrear as críticas logo a seguir e escrever: "mas, há verdades no texto que não podemos ignorar"...
Rui Ramos, igualmente historiador, tenta pôr água na fervura: "(Bonifácio) não evitou alguns equívocos", mas nada do que ela escreveu faz da autora (se ele percebeu bem) uma racista e muito menos do seu artigo um manifesto racista. Isto porque, segundo Ramos, se retirarmos do texto de Bonifácio tudo o que é racista, abusivo, caricato e ofensivo, o texto não é racista...
Helena Matos, nem sequer perde tempo a distanciar-se do texto. Limita-se a reproduzir o que dizem nas periferias de Lisboa e Setúbal (as mesmas "fontes" que Bonifácio cita no seu artigo) e condena o "fatwa" contra Bonifácio. É bom recordar, que Helena Matos já se tinha indignado com o "fatwa" contra Mário Machado, o "skinhead" condenado a dez anos de prisão por, entre outros crimes, ter participado no assassinato do cabo-verdeano A. Monteiro, num 10 de Junho, em Lisboa.
No "Público", Vasco Pulido Valente, começa por explicar, num único argumento, porque é que MFB não é racista: "conheço a Fátima há quase 50 anos. Nunca dei porque ela fosse xenófoba ou racista". Logo, se VPV não deu por nada, é porque não existe...
João Miguel Tavares, cronista no mesmo jornal onde escreve a historiadora, começa por justificar a sua crítica, declarando que admira Bonifácio, mas não pode ignorar os termos do artigo. Diz ele: "Infelizmente, não gosto nem um bocadinho do artigo "Podemos? Não, não podemos", não reconheço nele a mulher que admiro, nem percebo como pode ser intelectualmente sustentado com tantas generalizações de cair o queixo - e que, sim (custa-me muito dizer isto), entram mesmo no campo do racismo (...) Pular da crítica a uma determinada cultura, para a crítica de todos os indivíduos que a integram, é um salto inaceitável" (in "Público" d.d. 9 de Julho).
Ou seja, apesar do tom racista do artigo (que defende explicitamente a exclusão das minorias africanas e ciganas, condenando-as a viver em guetos onde reproduzem o ciclo de pobreza e discriminação de que são alvo) os admiradores de Bonifácio não se detêm um momento para analisar as causas desta exclusão e, ainda menos, propõem uma solução para tentar integrar estes grupos minoritários. À excepção de epifenómenos, como o de Alfragide (onde jovens africanos foram espancados numa esquadra pelos polícias de turno) e do bairro Jamaica (que esteve na origem da manifestação de desagravo em Lisboa), o racismo continua a ser um tema "tabu" na sociedade portuguesa. Fomos colonialistas durante 500 anos e fizemos uma guerra colonial durante outros 13, mas continuamos embuídos do auto-justificativo pensamento "luso-tropicalista", como se o nosso racismo fosse diferente dos demais. É mentira, como este artigo de uma académica, que defende a ideologia da "supremacia branca", prova.
O tema entrou definitivamente na agenda política e é bom que assim seja, pois é a única forma de exercitar "fantasmas". Para já, deu alento a outros racistas envergonhados, que não esperaram para demonstrar aquilo que sempre os moveu: o ódio ao outro, o único ponto da sua pobre agenda política. Vão aparecer mais, não tenhamos ilusões. Afinal, Portugal não é uma "ilha" na Europa.

2019/07/20

Taxi Driver (19)


Para a Buraca, se faz favor...
- Para a Buraca?
Sim, para a Buraca.
- Qual o caminho que quer tomar?
Costumo ir pela Avenida do Uruguay, Gomes Pereira, Estação de Benfica, Rua da Venezuela e depois, lá em cima, no Círculo de Leitores, à esquerda...
- Tem mesmo a certeza que quer ir por aí?
Tenho.
- Não sei se podemos passar na Gomes Pereira. Está tudo em obras. Mas pode ser que já tenham terminado.
Pois, também não sei. Não passo lá há mais de 15 dias. Mas, vamos tentar e logo se vê...
- É que, depois, temos de dar uma grande volta...
Logo se vê, há muitas alternativas.
- Andamos às voltas e o táxi a contar...
Não se preocupe, eu sei o caminho.
- Assim, andamos às voltas e não apanhamos fregueses...
Qual o problema? O senhor está a facturar e eu a pagar, certo?
- Há colegas meus que andam às voltas, só para ganhar mais uns tostões...
Eu sei, mas não se preocupe. Também há motoristas sérios.
- Mas, é que depois andamos para aqui às voltas...
Ó homem, se a Gomes Pereira estiver fechada, vamos por outra rua...
- O senhor é que sabe...mas, vamos dar uma volta muito grande.
Não faz mal. Não tenho pressa.
- Está a ver? (pára o carro, ao ver o trânsito cortado na Gomes Pereira, em obras).
Não há problema, vira à esquerda para a estrada de Benfica, passa em frente ao Fonte Nova e vamos pela 2ª circular. É sempre a direito e não há semáforos...
- Se quer assim, mas é uma grande volta...
Não esteja preocupado. Vamos lá chegar. Todos os caminhos vão dar a Roma...
- Os táxis fizeram-se para andar e apanhar fregueses, não para andar às voltas...
Mas, o senhor está a andar, o taximetro está a contar e eu a pagar. Qual o problema?
- Esta coisa de andar ás voltas...eu conheço taxistas que andam às voltas só para enganar os turistas...
Claro, mas nem todos os taxistas são aldrabões. O senhor, por exemplo, é uma pessoa séria.
- Sim, mas a verdade é que indo por aqui damos uma volta maior.
Sim, são mais 500 metros, se tanto. Não é importante.
- E agora? (pára em frente à estação de Benfica, na faixa errada).
Agora, tem de passar para a faixa da esquerda, senão é obrigado a voltar para trás e isso, sim, é uma volta desnecessária.
- Aqui não posso mudar de faixa. Tem traço contínuo. Se a polícia me vê...
Penso que, se fizer sinal, o carro de trás espera. Estamos num semáforo.
- Nunca fiando (sai do carro e analisa a situação).
Então?
- Não quero arriscar. Imagine que a polícia me vê! Era logo multado.
Bom, nesse caso terá de dar a volta. Agora, é que começamos a andar às voltas...
- Não esteja preocupado. Desligo já o táximetro. Não paga mais nada.
Acho bem
- Vejo que o senhor sabe. É uma pessoa séria.
O senhor também. Eu já lhe tinha dito isso. Assim, ninguém fica prejudicado. Está a ver?
- Bem, a verdade é que demos uma volta muito maior e os táxis fizeram-se para apanhar fregueses.
Sim, o que seria dos taxistas sem clientes. Mas, nestas coisa, nada como a transparência, sabe. A honestidade, paga sempre. Eu só volto às lojas que me tratam bem.
- E agora?
Agora, é sempre em frente, até ao sinal de trãnsito. Pode parar aí.
- Obrigado. Desculpe a maçada, mas eu não queria que desse uma volta maior...
Está desculpado.


 

2019/07/08

Viva o futebol!


O futebol (quem diria...?!) e, sobretudo, uma mulher deram uma lição política cujas proporções serão certamente ainda difíceis de contabilizar. Mas que tudo isto vai fazer estragos, vai!!! Dificilmente passaria pela cabeça de alguém que o futebel (quem diria...?!), muito menos o futebol feminino e, ainda por cima, a Megan Rapinoe iriam ter este papel.
Aguardo expectante pelos próximos tweets do Trump...

2019/07/04

O Cinema e a Memória

Em tempos de populismo iliberal, um eufemismo para o autoritarismo que alastra na Europa, assistimos à crescente influência de líderes que não disfarçam a sua aversão à democracia parlamentar que governa a UE. É o caso dos governos da Hungria, da Polónia, da República Checa ou da Eslováquia, mas também da Itália de Salvini, onde o respeito pelas instituições democráticas (justiça, imprensa, direitos humanos e laborais) é diariamente ignorado, em total contradição com a própria Constituição Europeia, que é suposto respeitarem. Aparentemente, o fenómeno, que não é novo, radica na insatisfação de largos sectores da sociedade, alarmados com o desenrolar de uma História, na qual deixaram de ser protagonistas. Não por acaso, estes movimentos populistas (de direita), medram em regimes democráticos, onde são tolerados e contra os quais podem protestar, acusando as elites (às quais pertencem) de serem os principais responsáveis por todos os seus infortúnios. Porque os argumentos racionais fogem ao seu controlo, refugiam-se na "razão" da emoção, uma arma poderosa na mão de demagogos, ou em explicações simplistas para problemas complexos, dos quais não lhe interessa saber. Junte-se a esta (falta de) ideologia, a negação da realidade e podemos perceber melhor uma receita que anima esta crença sem teoria. Um dos problemas maiores desta negação, é o apagamento da memória histórica, elemento essencial para entender um processo que nunca estará concluido, mas ao qual sempre recorremos quando a interpretação e a explicação dos factos, assim o exigem.
Como bem assinala o historiador Rui Bebiano, "vivemos uma inquietante vaga de rasura da memória projectada, a partir do apagamento da reescrita e da trivialização de episódios da História" que, segundo ele, urge reverter.  A propósito de um inquérito feito em diversos países, junto das gerações mais novas, sobre factos marcantes do século XX, acrescenta: "O "dever da memória", intervém aqui como instrumento da necessidade de olhar o passado traumático, estudado e transmitido pela História, enquanto algo sobre a qual, face ao sofrimento das vítimas, aos crimes dos seus algozes e às circunstâncias que os determinaram, a interpretação exclui a indiferença moral. Responsabilizando Estados, grupos e indivíduos, para episódios passados e trabalhando, como sugeriu Primo Levi, para que não se repitam no futuro".
Entre os meios usados na perpetuação deste "dever da memória", o cinema, na sua versão documental, ocupa, por isso, um lugar central. Na linha dos grandes documentaristas da memória histórica - Claude Lanzmann (Shoah) sobre o holocausto; Leslie Woodhead (A Cry from the Grave) sobre o genocídio na Bósnia; Rithy Panh (S-21: The Khmer Rouge Killing Machine) sobre o regime de Pol-Pot; Patrício Guzmán (Nostalgia da Luz) sobre as vítimas de Pinochet; Joshua Oppenheimer (O Acto de Matar) sobre as milícias de Suharto, etc. - surgem, agora os realizadores Almudena Carracero e Robert Bahar (El Silencio de Otros), com um filme sobre as vítimas do franquismo.
O filme, estreado em Portugal, por ocasião do último "DOCs" e, posteriormente, agraciado com o prémio Goya para o melhor documentário espanhol 2018, ganharia outros prémios internacionais, entre os quais o do melhor documentário europeu, tendo ainda sido nomeado para os óscares de Holywood 2019. Documento impressionante, que relata o papel da "Associação de Recuperação da Memória Histórica" (ARMH), constituida em 2000 para recuperar os corpos das vítimas do franquismo, enterradas em valas comuns (114.000 desaparecidos),"O Silêncio dos Outros", mais do que a denúncia da barbárie fascista, permanece como um dos grandes filmes de memória de sempre.
No âmbito das sessões sobre temas da actualidade, a "Associação José Afonso" (núcleo de Lisboa) organiza uma sessão especial, com a projecção do filme "O Silêncio dos Outros", que contará com presença de Diana Andringa, jornalista e documentarista.
"O Silêncio dos Outros", será exibido no dia 5 de Julho, pelas 18.30h, na sede da AJA, Rua de São Bento 170, Lisboa.

           
              
    

2019/06/21

E a Andaluzia aqui tão perto...

Centro Andaluz del Flamenco
Na nossa mais recente visita a Andaluzia, tivemos tempo para conhecer alguns dos lugares míticos da história do país vizinho e escutar novas vozes do Flamenco. Em ambos os casos, um prazer renovado, como já vem sendo habitual.
Comecemos pelo fim, o Flamenco, ex-libris por excelência da comunidade andaluza.
Quando, há cerca de um ano, tentámos visitar o "Centro Andaluz del Flamenco", em Jerez de La Frontera, uma das cidades-cadinho do "cante" onde, em 1958, foi criada a 1ª "Catedra de Flamencologia" de Espanha, não foi possível fazê-lo. Era sábado e o palácio, que alberga o Centro, estava encerrado. Prometemos voltar e, desta feita, com resultado positivo.
Desde que foi criada, a "Catedra de Flamencologia" já conheceu diferentes localizações: primeiro, no imponente Alcazár da cidade, depois, num dos edifícios da bodega "Tio Pepe", outro dos "ex-libris" citadinos e, actualmente, no "Centro", da qual é parte integrante. De acordo com as informações recolhidas, virá a fazer parte da futura "cidade de Flamenco", idealizada e construída pelo Turismo local e regional, em parceria com o Ministério de Cultura espanhol. Coisa para dois anos, disse-nos, em tom de confidência, a secretária de serviço...
O palácio de Pemartin, que teria tido como última proprietária D. Antonia de Villavicencia (1770-1780), é uma sólida construção do século XVIII, onde se combinam vários estilos. De realçar o pátio interior, em estilo barroco-rocócó, de forma rectângular, ladeado por arcos, por cima dos quais, há uma galeria, que corre ao longo de toda a superfície. O tecto, envidraçado, permite a entrada da luz natural, realçando a beleza e equilíbrio do edifício, uma jóia arquitectónica. No primeiro andar, dispõe de um pequeno auditório, com balcão, onde são projectados, em sessões contínuas, dois documentários sobre a história (10') e sobre os principais "palos" flamencos (25'). Elucidativos e pedagógicos que bastem, para iniciados, mas não só. Cá fora, no "hall" de entrada e em todos os corredores, fotografias e pinturas alusivas ao Flamenco, assim como adereços próprios da "arte" (trajes, leques, castanholas, sapatos, pentes...). Finalmente, o "prato forte" da visita, o Centro de Documentação, dividido por várias salas, às quais é possível aceder sem qualquer protocolo especial. Nelas, pudemos admirar a extensa colecção de publicações, constituida por mais de 5.500 volumes, para além dos postos de escuta, onde é possível visionar mais de 15.000 gravações discográficas, vídeos, arquivo gráfico e publicações digitalizadas, de que dispõe o Centro. Existem, ainda, 1200 arquivos de música impresa. Um verdadeiro "templo", para os aficcionados. Prometemos voltar, com mais tempo e, nessa altura, com um objectivo concreto em vista. Argumentos, não faltarão.
Após a teoria, restava a prática: O flamenco ao vivo. Em Sevilha, anunciavam-se dois concertos imperdíveis.. O primeiro, de Rocío Marquez e o segundo, de El Niño de Elche. Lá fomos, esperançados em conseguir entradas, coisa sempre difícil quando se trata de nomes consagrados.
O primeiro recital (gratuito) era organizado pela Tertulia Flamenca de Enseñantes "Calixto Sánchez Marín", um grupo de aficcionados militantes da "arte", que reune, regularmente, para ouvir e falar de Flamenco. O encontro teve lugar no auditório do Instituto Martínez Montañés, uma escola técnica superior sevilhana. Sala à cunha, para ouvir Rocío Marquez (voz) acompanhada por Manuel Herrera (toque), um virtuoso professor do Conservatório.
Ainda que jovem, Rocío (1985), tem já uma longa carreira e diversos albuns publicados. Originária de Huelva,  cedo se impôs nos concursos locais e nacionais, tendo vindo a afirmar-se como uma das mais seguras e rigorosas intérpretes da nova geração do "cante". Dona de uma técnica vocal irreprensível e de um conhecimento profundo dos diversos estilos (palos) flamencos, é nos fandangos e nas bulerias, as suas imagens de marca, que tem ganho maior reconhecimento. Ao contrário da maior parte das "cantaoras", a sua voz não é grave e "arranhada", como as de origem cigana. Pelo contrário, é límpida e tem uma dicção perfeita, com predomínio das notas agudas. Da mesma forma  que a célebre bebida, "primeiro estranha-se, depois entranha-se". Uma revelação, pelo menos para mim, que nunca a tinha escutado ao vivo. De recital, destaque para o reportório do seu último album, intitulado "Visto En El Jueves" (2019), considerado, pela crítica do país vizinho, o seu melhor trabalho à data. Depois de Tavira, onde actuou no passado Verão, Rocío Marquez volta a Portugal, para actuar a 21 e 22 de Junho, em Albergaria-a-Velha e Sever do Vouga, respectivamente, integrada no "Festim" (Festival de Músicas do Mundo). Uma oportunidade a não perder.
Resta falar de El Niño de Elche (1985), que conhecíamos de actuações anteriores, a primeira da última Bienal de Flamenco e, a segunda, no mítico teatro Lope de Vega, ambas em Sevilha.
Sobre El Niño, que passou no Teatro da Trindade em Lisboa, na passada semana, já quase tudo foi dito. Do pior e do melhor. Um iconoclasta, destruidor de mitos e desconstrutor de géneros, os quais manuseia com a maior das facilidades: do flamenco, puro e duro às canções de ida-e-volta; do bolero às "cumbias" colombianas; da "bomba" porto-riquenha ao hard-rock; do batuque afro à batida "tecno", sempre acompanhado por um naipe de excelentes músicos, El Niño, ama-se ou odeia-se. Os puristas detestam-no e os seguidores não perdem uma actuação. Lá estavam todos (talvez mil, talvez um pouco mais), na apresentação do seu último trabalho, intitulado "Colombiana", este ano editado e já à venda em Espanha. Um turbilhão, que começou com a alocução "É bom estar aqui, porque aqui está a assistência mais inteligente de Sevilha". A provocação estava lançada e os fans adoraram. Seguiram-se duas horas de concerto, onde o cantor passou em revista os temas de "Colombiana", uma inflexão de 180 graus em relação ao seu último e polémico disco "Antologia del Cante Flameco Heterodoxo" (2017) que deixou os puristas de "orelhas a arder". Desta vez, a provocação, saíu do território sagrado do Flamenco andaluz, para centrar-se nas influências e ritmos do Caribe, uma das explicações (nas palavras do autor) para compreender o género. Para mim, que sou suspeito, "um disco e peras". Ver e ouvir El Niño de Elche, tornou-se, agora, uma obrigação.      
       
 

2019/06/05

Taxi Driver (18)


Para onde?
- Para a Buraca, sff.
Quer ir pelo Monsanto, ou pela Radial Norte-Sul?
- Tanto faz, a esta hora já há pouco trânsito...
Eu pergunto sempre, pois há clientes mais esquisitos, uns querem ir por aqui, outros por ali...
- Acho muito bem. Não tenho preferência, deixo ao seu critério.
Então, vamos aqui pelo túnel do Marquês, está de acordo?
- De acordo.
Já vi que foi à Feira do Livro, não é verdade?
- É verdade, há que aproveitar depois das 21h., quando algumas editoras praticam 50% de desconto sobre o preço de venda dos editores...
Ah, sim? Não sabia...
- Pois, temos é que vir aqui à noite, o que nem sempre dá muito jeito...
E consegue ler tudo o que compra?
- Nunca se consegue ler tudo o que compramos, mas o "vício" é maior que a perna...
Eu já me deixei disso. É tudo uma falsificação...
- Uma falsificação? Não estou a perceber...
Sim, uma falsificação. Já não há livros e traduções como antigamente.
- Mas, está-se a referir a quê? À literatura, aos ensaios, aos autores estrangeiros?
Sabe, eu ando aqui na praça, mas já passei por isso tudo. O meu pai era livreiro e, quando era miúdo, passava os dias a ajudá-lo. Nessa altura, lia muito e conhecia aquela "maltinha" toda...
- Muito me conta...
Pois, li os clássicos todos: o "Principezinho" (o Principezinho!), o Mark Twain, o Charles Dickens, o Victor Hugo, o Émile Zola, o Kafka, o Camus, o Steinbeck, o Hemingway...não falhava um!
- Óptimo. Mas, porque é que diz que isto agora é tudo uma falsificação?
Porque já não há traduções como antigamente. Quando leio traduções novas dos livros antigos, vejo muitos termos adulterados, que não estavam nas traduções da Ulisseia e dos Livros do Brasil, por exemplo...as novas editoras reeditam os livros, mas não traduzem dos originais. Traduzem e adaptam de outras versões.
- Não me diga...
É como lhe digo. E isto não é só a minha opinião. Muitos escritores, que frequentavam a livraria do meu pai, também o diziam. Havia lá uma tertúlia, onde iam o Luiz Pacheco, o Herberto Hélder, o José Santos, o "Cabeça de Vaca", boa gente, que sabia da poda...Nunca ouviu falar do "Solar dos Galegos"?
- Sim, conheci muito bem. Cheguei a lá ir nos anos setenta e oitenta e até conheci o Luiz Pacheco, na Cervejaria Trindade, que era ali ao lado.
Pois, o grande Pacheco. Nunca o compreenderam, mas ele era genial, sabe?...
- Tenho livros dele. Confirmo, tinha coisas geniais, pena ser tão destrambulhado...Cheguei a comprar-lhe aqueles livrinhos, cosidos com linha, que ele vendia na Trindade...     
Sim, para a cerveja, não era?...
- Era. Pedia-nos 20 "paus" e dáva-nos um livro em troca...
Eu sei muito bem a história dele. Eu sou o "miúdo" das histórias dele...o Milú...tá a ver?
- Não me diga!
Até lhe digo mais, ele era assim, porque herdou aquele carácter do pai. O pai era rico e, a dada altura, amantizou-se com a empregada lá de casa que, dizia, era "uma brasa"!
- Essa não sabia...
Pois, o pai fez um filho à criada e deserdou o Pacheco, que ficou na miséria. Mais tarde, para se vingar, ele fez o mesmo que o pai lhe tinha feito: Fez um filho à empregada (o Pedro, que mora em Setúbal) e, para sobreviver, começou a escrever. Primeiro, comprou uma máquina Remington, daquelas com o teclado Acert (está a ver?) e, depois, folhas de papel fininho e de papel químico e, assim, começou a fazer traduções e escrever cartas para pessoas analfabetas. Nessa altura, o analfabetismo era imenso, como sabe...
- Sim, para aí uns 30% da população, ou mais...
Exacto. Ou mais! Ora, foi dessa forma que o Pacheco ganhava a vida. Mas ele escrevia de tudo. Prosa, poesia, traduções, cartas, até documentos para as Finanças e para os Tribunais.
- Sim, sim, li a biografia e isso é conhecido.
Até lhe digo mais, naquele grupo da Tertúlia, eram todos bons, mas nem todos eram famosos. Famoso era o Herberto Hélder, mas algumas das suas histórias, não foram escritas por ele...ouvia-as do Pacheco e, depois, escrevi-as ele. Eu sei, que estava lá a ouvi-los...
- Muito me conta. Bons tempos, que não voltam mais...
Sim, anos setenta, oitenta, era eu um "puto". Por isso, é que não me entusiasmam estas literatices, está a perceber?
- Estou a ver. Mas, alguma coisa ficou. Graças aos livros, não é verdade?
É verdade, sim senhor. Bem, chegámos. Obrigado pela conversa e tenha uma boa noite.
- Igualmente.
 



 

2019/05/29

Atenção: há tensão no ar!

Acerca das eleições europeias já se disse muita coisa, certamente mais importante do que aquilo que tenho para dizer. Queria apenas aproveitar para deixar aqui um ou dois cêntimos de ideias.
Aristóteles terá dito que a Natureza tem horror ao vácuo e a democracia parece ter horror à abstenção. Perante o público, os políticos, sobretudo os mais sabidões e desavergonhados, simulam horror à abstenção. Mas a verdade é que a abstenção facilita, em muito, a vida política institucional nas democracias do tipo da que temos. Ao contrário do que os abstencionistas ingenuamente crêem, para os políticos com carteira profissional, o melhor mesmo seria votarem neles próprios, sem intervenções terceiras, para garantir a manutenção ou alargamento das suas benesses. Quanto menos confusão, melhor. Durante 48 anos Portugal viveu, justamente, daquilo que podemos designar por abstenção funcional. Sob o ponto de vista prático, não estamos longe disso.
A abstenção foi a grande vencedora da eleição para a Europa, e isso foi claro em Portugal. Ignoro nesta altura se houve valores mais elevados da abstenção noutros países. Mas aqui a abstenção tem um significado que parece estar a ser mal lido.
Vamos ao que interessa. Aqui no território luso, alguns comentários que li e ouvi merecem atenção. Uma faixa de eleitores que eu situaria entre os 20 e os 40 anos, votando ou abstendo-se, não deixou de se manifestar contra esta eleição. Sentem-se descontentes, marginalizados, desprotegidos, desesperançados, impotentes. Não votaram, mas fizeram-no de forma totalmnte consciente. Esta é a geração que vai preceder a geração que vai ter de gramar com a crise ambiental sem retrocesso e a quem vai faltar tudo para continuar a apostar no crescimento sem limite. 
Os sinais da reacção destes eleitores são claros. O seu afastamento da democracia é profundamente preocupante.  Esta eleição dirá pouco a este grupo de eleitores, mas tudo indica que o afastamento se alastrará às outras.
Os mais velhos, a geração do poder, os que montaram ou sustentam todo este gigantesco esquema de Ponzi em que vivemos e de que alguns, em exercício da mais pura e criminosa hipocrisia, se queixam, são exactamente aqueles a quem a abstenção dá imenso jeito, que não querem mudar as coisas, que não se querem mudar a si próprios e teimam em continuar a agir de forma criminosa nos diversos sectores da nossa vida colectiva, como se o mundo tivesse parado há 40 anos e assim fosse ficar. 
Na minha opinião, os donos da actual democracia vão levar com toda esta gente em cima não tarda nada. São 70%, lembre-se, terão esse peso a seu favor. Tendo em conta a forma pouco articulada como exprimem muitas vezes as suas posições e a notória falta de organização, os tempos não serão fáceis para eles, mas que vamos caminhar para um momento de ruptura real e para um contronto, isso parece-me inequívoco. Não é um proble a fácil de resolver: recusar dar aval ao arremedo de democracia ou participar para não a fragilizar ai da mais.
Em qualquer caso, esta eleições europeias, estas singelas, desvalorizadas, quase desapercebidas, eleições europeias, são uma lição. Uma lição escondida da qual ninguém parece querer extrair as devidas conclusões.

2019/05/27

Resultados das Eleições Europeias, confirmam sondagens


O resultado das eleições europeias confirmou, "grosso modo", as projecções avançadas pela maioria dos analistas:
Vitória do PS (Partido Socialista), BE (Bloco de Esquerda) e PAN (Partido dos Animais e da Natureza).
Derrota do PSD (Partido Social-Democrata), CDS (Centro Democrata-Cristão) e CDU (Partido Comunista+Verdes).
Fora do Parlamento Europeu, ficam os novos partidos "Aliança" (liberal de direita) e "Basta!" (extrema-direita xenófoba) que, há um mês atrás, chegaram a ser referidos como potenciais ganhadores.
Contas feitas, o PS conseguiu 33,4% dos votos (9 deputados), o PSD 21,9% (6 deputados), o BE 9,8% (2 deputados), o CDU 6,9 (1 deputado), o CDS 6,2 (1 deputado) e o PAN 5,8 (1 deputado). À hora de escrevermos este texto, faltava atribuir 1 lugar de deputado, que poderá ser do PS ou do CDU.
Com este resultado, os socialistas vêem reforçada a sua liderança, já que tiveram mais votos do que a direita em conjunto (PSD e CDS), a maior derrotada da noite. Não por acaso, no seu discurso de vitória, António Costa referiu a confiança dos eleitores na actual solução governativa, o que pode indiciar uma nova "geringonça", após as eleições legislativas de Outubro. Resta saber, a quem Costa  se aliará, caso obtenha uma vitória sem maioria absoluta. Dada a quebra de votos na CDU, resta o BE e, eventualmente, o PAN, para formar nova coligação.
Sem surpresa, mas lamentável, foi o nível de abstenção (68%6), a maior de sempre desde a adesão de Portugal à UE. Como sublinhou o presidente da república, "os portugueses abstencionistas escolheram não escolher". Números dramáticos que devem fazer pensar os políticos (aqui e na Europa) sobre a forma como fazem e transmitem as suas (ideias) políticas quando governam. 
Já na Europa houve resultados para todos os gostos:
Crescimento da extrema-direita nacionalista, xenófoba e anti-imigração em França, Itália, Hungria, Polónia e Bélgica; crescimento dos euro-cépticos no Reino-Unido e entrada do VOX (Espanha) e do FvD (Holanda), pela primeira vez no PE. E, bons resultados, que permitem uma contenção do crescimento dos movimentos populistas, obtidos na Holanda, na Alemanha e em Espanha, com vitórias respectivas do PvDA, da CDU, dos Verdes e do PSOE, que obrigarão a um novo (re)arranjo das bancadas parlamentares no PE, onde a maior fracção (PPE) deixou de ter a maioria. Entretanto, na Grécia, Tsipras anunciou eleições antecipadas para Julho, na tentativa de manter o governo do Syriza, ameaçado pela Nova Democracia (liberais de direita), os vencedores das eleições de ontem.
Resumindo: crescimento dos partidos de extrema-direita, ainda que abaixo das previsões (têm agora 10% dos deputados do hemiciclo europeu); menor crescimento dos partidos euro-cépticos (provavelmente "assustados", com as complicações do "Brexit"); vitórias claras dos partidos sociais-democratas, em Portugal, em Espanha e na Holanda; vitórias relativas dos liberais, conservadores e  "verdes", em países como a Irlanda, a Áustria e a Alemanha.
Neste quadro, Portugal é uma excepção, sendo um dos poucos países onde os movimentos populistas e de extrema-direita são residuais. Nada mau. 


 
    

2019/05/25

Eleições Europeias (eles "andem" aí...)


Terminaram as campanhas eleitorais e hoje, como é da tradição em Portugal, é "dia de reflexão".
Nada a opôr, ainda que nalguns países se faça campanha até à vespéra das eleições (caso da Grã-Bretanha ou da Holanda), da mesma forma que, em muitos países, as eleições sejam em dias de semana (Holanda e Grã-Bretanha votaram na quinta-feira e Irlanda, Eslováquia, Letónia e República Checa, votaram na sexta); já em Portugal, vota-se ao domingo. Também não se percebe muito bem porque é que, na era digital, ainda continuamos a votar em papel (que desperdício!) quando as novas tecnologias já permitem o voto electrónico muito mais prático e seguro. É verdade que, este ano, foi autorizado o voto antecipado em Lisboa e, amanhã,  haverá um teste de voto electrónico em Évora. Algo é algo.
Outra coisa que não se percebe, é como foi possível (em plena campanha eleitoral) 30.000 cidadãos poderem votar antecipadamente em Lisboa, quando 6 milhões de votantes estão, hoje, impedidos de terem qualquer actividade partidária no espaço público, só porque devem "reflectir" um dia, sobre a sua escolha política...
Isto, para não falar de milhares de portugueses (e outros estrangeiros) a viver no Reino Unido que, depois de terem votado nas últimas eleições distritais daquele país, não puderam votar nas eleições europeias, por não terem recebido o boletim de voto em tempo (!?).
Pese o número de "indecisos", sempre existente em todas as eleições, não parece que a percentagem seja suficiente para alterar a tendência observada nas sondagens publicadas ao longo do último mês. Já a taxa de abstenção (normalmente maior, em eleições europeias), será da ordem dos 60% (66% em 2014), o que é deveras preocupante. A questão da abstenção é, de resto, um problema em muitos países, pois a média europeia ronda os 55% nas eleições para o Parlamento Europeu. A abstenção, levanta ainda outro tipo de problemas, como seja a percentagem em termos populacionais, havendo exemplos em que o presidente da república de um país (Portugal, por exemplo) representar apenas 25% da população...
De acordo com diversas sondagens publicadas por estes dias, o resultado das eleições de amanhã não deve ser muito diferente das projecções publicadas pelo "Público", já que este matutino congregou as 4 sondagens principais e extraíu uma média aritmética, considerada a forma mais correcta (ainda que falível) de obter resultados aproximados. Teremos assim, uma vitória expressiva do partido do governo (PS), que obterá 33% dos votos; seguido do PSD com 23%; do Bloco de Esquerda com 9%; do PCP e do CDS, com 8% cada e a provável estreia, no Parlamento Europeu, dos partidos PAN e ALIANÇA, com 3% cada.
A confirmarem-se estas projecções, o Partido Socialista aumentará a sua representação no Parlamento de Estrasburgo, passando de 8 para 9 deputados; o PSD diminuirá a sua representação de 7 para 6 deputados; o BE aumentará a sua representação de 1 para 2 deputados; enquanto, os restantes partidos (PCP, CDS, PAN e ALIANÇA) poderão eleger 1 a 2 deputados, cada.  Portugal têm, actualmente, 21 deputados no PE.
Já nos países europeus, que entretanto foram a votos (Holanda e Grã-Bretanha), as sondagens à boca das urnas (exit-polls), deram uma clara e surpreendente vitória ao PvDA (Partido Trabalhista) na Holanda e ao novo partido populista de Neil Farage (Brexit Party), respectivamente. 
Difíceis de vaticinar, são as eleições em França, onde o partido de Macron (em perda acelerada de popularidade) e a União Nacional, de Marine Le Pen (com o seu discurso nacionalista e anti-imigração) se mantém num "empate técnico" imprevisível. Ao contrário, em países como a Itália, a Hungria e a Polónia (ainda que por razões diferentes) onde imperam os discursos xenófobos e nacionalistas, os partidos de extrema-direita devem ser os mais votados. Essa é, de resto, a esperança de Putin, interessado como está, no enfraquecimento da UE; assim como Bannon, ex-conselheiro de Trump e ideológo do Alt-Right americano, que aposta numa grande representação do bloco populista de extrema direita a nível europeu.
Como nos lembra Severiano Teixeira, esta semana: "Acontece que o populismo, não é uma ideologia como as outras. Ao contrário do liberalismo, do fascismo ou do comunismo, não tem uma visão global do Mundo, nem uma agenda política completa. É uma ideologia estreita, não é auto-suficiente e, por isso, surge associada a outras ideologias de esquerda e de direita (...) Em qualquer dos casos, afirmam-se sempre pela negativa. São sempre contra qualquer coisa. São, essencialmente, "anti-austeridade, anti-imigração, anticorrupção, anti-Europa". Se a estas questões juntarmos o "regionalismo", temos a agenda completa" (in "Público", 22 de Maio).     
Nalguns casos (Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Vox em Espanha ou Forum voor Democratie na Holanda) vão ainda mais longe e são contra o que chamam "ideologia de género", criticando a emancipação feminina, quando advogam o regresso da mulher ao lar ou penalizando o aborto. Um verdadeiro retrocesso civilizacional, como se o regresso aos anos '50 do século passado, seja algo realizável e desejado pelas mulheres actuais. 
Aparentemente, Portugal parece estar imune ao fenómeno dos populistas de extrema-direita. Resta saber, até quando. Porque a idiotice não conhece fronteiras, não vão desaparecer de um dia para o outro. Pelo contrário: vão andar por aí e há que continuar a combater, firmemente, as suas ideias. Até que desapareçam no caixote de lixo da História. 

2019/05/17

Taxi Driver (17)


Então, para onde vamos hoje?
 - Para o Rossio, para variar...
Muito bem, importa-se que tenha o rádio ligado? (no rádio, notícias sobre as condecorações de Berardo)
-  Desde que o som não esteja muito alto...
O que interessa, tirar-lhe as condecorações? O que interessa é que ele pague as dívidas...
- Claro. As medalhas são simbólicas. Entretanto, os bancos recuperam os créditos mal-parados, através de taxas impostas aos clientes. Alguém há-de pagar...
Isto é uma vergonha e nós é que temos a culpa, pois somos um povo de parvos. Anda toda a gente preocupada com o pagamento de 800 milhões de euros a 100.000 professores e há um gajo que deve 1000 milhões e ninguém se preocupa!...
- É isso mesmo. O que interessa é o futebol e as notícias-sensação. Ninguém parece preocupado com o assalto aos dinheiros públicos, mas estão preocupados com um grupo profissional que reivindica os seus direitos.
Veja lá, o senhor. Eu, por exemplo, trabalho numa cooperativa de taxis. No fim-do-ano, uma pequena percentagem dos lucros, é depositada num fundo para a nossa reforma. É pouco, mas ajuda. Toda a gente concorda, mas alguns dos meus colegas dizem que o governo não deve pagar os anos "congelados" dos professores. Eu já lhes disse que, na próxima assembleia geral, ia fazer uma proposta: como o mercado está mau, a partir de agora devíamos também "congelar" os nossos salários, durante 10 anos, para ver se gostam...  
- Imagino, que ninguém concordou...
Claro que não. Tenho colegas, aqui na "praça", que atingiram a idade de reforma e agora não podem deixar de trabalhar, pois o que recebem não dá para viver. No entanto, trabalharam 40 e mais anos! Como é isto possível? Claro que ninguém pode viver com uma reforma de 600 euros!
- Ordenados baixos e poucos descontos, imagino...
Isto é tudo uma farsa. Veja o exemplo dos motoristas de materiais perigosos: metade do ordenado é pago por "debaixo da mesa". Os patrões dizem que eles ganham 1200 euros, mas na folha de pagamento, só estão declarados 640 euros...
- Sim, muitas empresas utilizam essa forma para fugir aos impostos. Pagam uma parte do salário em "ajudas de custo".
Uma aldrabice pegada, mas esta gentinha não percebe isto e depois fica muito surpreendida por ter reformas baixas! Não percebem que a reforma é calculada sobre o dinheiro declarado pelo patrão e não sobre o que receberam durante os anos que trabalharam. É evidente que se o IRC for calculado sobre 640 euros, os descontos para a reforma são mais baixos do que se forem calculados sobre 1200 euros...
- É mais uma forma de economia paralela. Calcula-se que possa atingir 30% do PIB nacional...
É evidente. Não falta dinheiro, falta é controlo das contas e justiça.
- São vários os problemas, a começar pela impunidade. Os aldrabões, com dinheiro, sabem que podem pagar a advogados que prolongam os processos por décadas, que muitas das vezes acabam em nada.
Quer uma água das "pedras"? (abre uma garrafa de água). Eu vou lá trás, buscar outra...
- Não obrigado, agora vou almoçar...
Pode beber antes de almoço, que não faz mal. Eu chego a beber 4 ao dia! Não há nada melhor...
- Cuidado, que demasiada água mineral pode ser contraproducente. São águas sulforosas e prejudicam os rins. Mas, estou de acordo que as nossas águas são muito boas...
É das poucas coisas boas que temos, pode crer...
- É verdade. Temos muitas e boas. Podíamos exportá-las ou trocá-las por petróleo. Devíamos fazer uma proposta aos árabes: trocávamos água (que eles não têm) por petróleo, que têm em demasia.
Bem pensado. Porque é que não escreve a fazer essa proposta?
- Alguém já deve ter pensado nisso, imagino...
Olhe que não. Porque é que não escreve? Sei lá...ao Marcelo, ou assim...ele vai lá e vende a sua ideia...
- Capaz disso era ele. Vende tudo e o seu contrário...
Por exemplo, 1000 garrafas de água por um barril de "crude". Claro que, depois, era preciso um intermediário, a meio do percurso, para distribuir a água...
- "Intermediários", é o que não falta em Portugal. Talvez o Berardo, sei lá...
Esse, é um "génio". Era capaz de transformar a água em acções e quem tinha de pagar a água, éramos nós...




    

2019/05/11

Joe "babe" boy


Na semana em que os directores executivos dos quatro maiores bancos portugueses, anunciavam ser inevitável ter de cobrar taxas pelo uso do Multibanco, um dos personagens que mais tem lucrado com a banca era ouvido numa Comissão Parlamentar, para explicar a dívida de quase 1000 milhões a esses mesmos bancos, um dos quais, a CGD, o banco do estado.
Que o homem é um "gangster" já toda a gente sabia. Bastava ler a sua biografia e o modo como enriqueceu. Um "chico-esperto", na gíria local. Acontece, que os "chico-espertos" só chegam a determinadas posições, ajudados por outros, normalmente mais influentes ainda. Chama-se a isto patrocinato e consiste na troca de favores destinados a manter o poder recíproco, segundo a velha fórmula "faço-te uma oferta que não podes recusar" (D. Corleone). A partir daí, é sempre a subir...
Até que um dia se descobre a "tramóia" e é o cabo dos trabalhos. Foi o que aconteceu agora. Dadas as imparidades existentes na maioria dos bancos portugueses (quatro dos quais foram à falência, provocando um "rombo" de 20.000 milhões na economia portuguesa!), alguém se lembrou de publicar a lista de devedores da Caixa Geral de Depósitos, da qual fazia parte, em lugar de destaque,  o "comendador" Joe Berardo. Como tudo isto aconteceu, é fácil de perceber: o homem (Joe para os amigos) pedia dinheiro emprestado aos bancos, com o qual comprava acções dos mesmo bancos, as quais serviam de caução para novos empréstimos, e assim por diante. Ou seja, o dinheiro nunca faltava, as dívidas aumentavam e o "comendador", levava uma vida de "lord". Mais, devido ao respeito que lhe tinham, agraciaram-no com uma "comenda" (porquê?) e até lhe cederam um espaço (museu Berardo) no CCB, onde está exposta a sua colecção de arte (avaliada em 800 milhões de euros) em regime de "comodato". Para além disso, o estado português comprometeu-se a doar 500 milhões de euros/ano, durante dez anos, à Fundação Berardo, para que esta pudesse renovar a sua colecção. É o que se chama um negócio leonino.
Agora que o homem foi confrontado com o arresto dos seus bens por dívidas aos bancos, viemos a saber (pelo próprio) que ele - pessoalmente - não deve nada a ninguém (!?). Isto, porque quem deve é a Fundação Berardo e outros organismos que, entretanto, foram sendo criados, em nome dos quais ele comprava as acções e pedia os empréstimos. O estado pode processar a Fundação e fazer um arresto dos bens desta, menos os quadros, que não podem ser considerados bens da Fundação, dado estarem emprestados ao estado...
E agora? Mesmo que Joe seja preso (o que duvido), temos de perceber que a sua ascensão e aceitação pelo "jet set" nacional, só foi possível dadas as relações de subserviência e bajulação que os "pares" lhe prestaram. Políticos e banqueiros. Os mesmos que, depois de terem "acreditado" no "comendador", exigem agora o seu dinheiro de volta. Se não o recuperarem, ninguém irá preso por má gestão. Pelo contrário, continuarão alegremente a prevaricar e a enriquecer, agora através de uma taxa, cobrada aos depositantes, pelo uso do Multibanco. A máfia lusitana, em todo o seu esplendor.

2019/05/02

Espanha: Recuperar a memória


Dia 27 de Abril, 12 horas da tarde. Uma vintena de homens e mulheres, concentram-se junto à entrada principal do cemitério de S. Fernando, em Sevilha. Transportam cartazes e fotos de familiares, que dispõem ao longo do gradeamento, enquanto um dos presentes coloca, a seu lado, uma bandeira republicana. Motivo: assembleia mensal do núcleo local da Associação de Recuperação da Memória Histórica (ARMH) que, excepcionalmente, reúne naquele lugar, devido à proibição de manifestações públicas em véspera de eleições, "dia de reflexão". Têm mais de cinquenta anos em média e partilham histórias, relacionadas com amigos e familiares desaparecidos, a maior parte deles executados e enterrados em valas comuns, durante a ditadura franquista. Muitas dessas vítimas estão neste cemitério, em 8 dessas valas, duas das quais já foram prospectadas. A reunião tem lugar em frente à vala 7, onde se encontram "dissidentes e judeus". Um verdadeiro "buraco negro", silenciado pela repressão fascista que, mais de 40 anos depois, permanece um dos temas malditos da democracia espanhola. A razão deste "silêncio", conhecido pelo "pacto del olvido", reside na Lei de Amnistia, aprovada por todos os partidos parlamentares em 1977, segundo a qual "todos os funcionários e agentes implicados nas violações de direitos humanos durante o regime franquista, são amnistiados". O "ponto de retorno" nesta situação, dá-se a 5 de Março de 2000, quando, durante uma investigação para escrever um livro sobre a história do seu avô, Emilio Silva encontrou um homem que sabia onde o tinham enterrrado. O avô, republicano, fora assassinado por falangistas em 1936. Com outros 12 presos, que tiveram a mesma sorte, foi enterrado numa vala comum, em Priaranza del Bierzo, Léon. Conseguiu exumá-lo em Outubro desse ano, sem ajuda do Estado e com pouco eco mediático. Mas, o primeiro passo estava dado e a exumação dos que ficaram conhecidos pelos "Os 13 de Priaranza", abriu o debate na sociedade espanhola.
"Quando abrimos a vala, não estávamos conscientes do que ia acontecer, mas aquilo despertou o interesse da sociedade pela memória histórica, sem medos e com argumentos legítimos", conta Francisco Etxeberria, médico forense e professor da Universidade do País Basco, responsável pela exumação. "Que em Espanha existissem valas comuns, no monte, com pessoas assassinadas, cujo destino nunca fora investigado, despertou uma ideia de injustiça", explica.         
A partir daí, Etxeberria começou a receber telefonemas de pessoas que procuravam os corpos dos familiares, vítimas da guerra civil ou da ditadura e que faziam parte dos 115.000 desaparecidos do conflito. "A Espanha tinha milhares de valas comuns e ninguém falava disso. Eu próprio ignorava que houvesse gente enterrada fora dos cemitérios. Foi um choque", recorda.
Desse choque, nasceu um movimento civil que deu origem à ARMH, liderada por Emilio Silva e que se dedica à localização e exumação de valas comuns e a pressionar para conseguir o que estipula o direito internacional para as vítimas: verdade, justiça e reparação.
Em 2007, o governo de Rodriguez Zapatero aprova a Lei de Memória Histórica que, pela primeira vez, condena o franquismo de forma explícita. Entre outras coisas, estipulava uma "reparação moral das vítimas"; declarava a "ilegitimidade dos tribunais civis da guerra civil e das condenações por motivos políticos, ideológicos ou religiosos"; autorizava "a localização e a identificação de valas comuns"; determinava "a retirada dos símbolos de exaltação franquista"; definia que o Vale dos Caídos "não poderia exaltar a guerra civil ou a ditadura"; e garantia "o acesso a todos os arquivos públicos".
A Lei, seria contestada à direita (PP), que receava pelo julgamento de todos os responsáveis dos crimes franquistas e pela esquerda (PSOE) mais crítico, apesar da Lei nunca pôr em causa o "status quo" de uma elite franquista que continuava a existir. A Lei, seria igualmente criticada por não se adequar ao direito internacional, não satisfazer o direito da verdade e a reparação e justiça das vítimas.
Foi precisamente para tentar satisfazer esse direito à justiça que, em 2008, o juíz Baltasar Garzón abriu um inquérito e declarou que os abusos cometidos se enquadram no contexto dos crimes contra a humanidade. O Juíz atribuiu a Franco e a outros 34 dirigentes do regime, um plano de repressão e extermínio dos opositores, que terminou com mais de 100.000 desaparecidos (115.000 segundo a ONU) e se enquadra nos crimes contra a humanidade.  A Espanha é o 2º país do Mundo, depois do Cambodja, com o maior número de desaparecidos.  
O Ministério Público recorreu e pediu a anulação do caso, por considerar que os crimes prescreveram ao abrigo da Lei de Amnistia, de 1977. Fechava-se, assim, a porta ao julgamento.
Para Garzón, "a Lei da Amnistia, foi usada por sectores políticos e judiciais para evitar a investigação sobre os crimes do franquismo. É uma interpretação errónea, porque os crimes de lesa-humanidade não prescrevem". Afastado dos tribunais, após ter instaurado um processo ao PP por corrupção (caso Gurtel), o juíz Garzón ficou impedido de exercer a magistratura até 2012, quando foi absolvido. Entretanto, em 2010, dá entrada, num Tribunal em Buenos Aires, uma denúncia, que acusa o Estado espanhol de crimes de genocídio e contra a humanidade, com base no caso de Dario Rivas (um galego exilado na Argentina, cujo pai fora assassinado em 1936 e cujas ossadas foram recuperadas em 2005, juntamente com mais 318). As diligências do colectivo argentino de juízes (dirigido por Maria Servini), para julgarem os responsáveis espanhóis na Argentina, através de um processo de extradição, esbarraram sempre na recusa por parte do governo de Rajoy. Até hoje, nenhum dos imputados foi detido ou extraditado, apesar das pressões por parte de organismos como a ONU. O argumento era sempre a Lei de Amnistia de 1977. Foi este caso, denominado como a "Querella Argentina", que esteve na origem do celebrado documentário "El Silencio de Otros" de Almudena Carracedo e Roberto Bahar (2018). O filme, nomeado para diversos prémios, entre os quais o prestigiado Goya e o Óscar, para o melhor documentário estrangeiro, pode ser visto, actualmente, em diversas salas portuguesas.
Dezanove anos após a sua criação, a ARMH dispõe hoje de delegações em todo o território espanhol, conta com mais de 5000 voluntários (entre arqueólogos, antropólogos, médicos forenses e estudantes), tendo contribuido para a localização de 400 valas comuns e exumado mais de 150, num total de 1400 vítimas do franquismo. Uma tarefa ciclópica, muito longe de terminada e sobre a qual pesam dificuldades de todo o tipo, desde as orçamentais às políticas, os principais obstáculos à recuperação e preservação de uma memória que muitos pretendem esquecer.