2009/07/12

Portugal de outra era (2)

Poucos dias depois de ter escrito o anterior post sobre a atenção dada ao problema do ruído pelos responsáveis, eis que surge um caso reportado nos jornais, como que a dizer-me "Afinal nem tudo está tão mau como parece!"
O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) condenou a vizinha barulhenta de um casal, que vivia com os dois filhos num apartamento em Lisboa, a 25 000 euros de indemnização por violação do direito ao descanso. O processo arrastava-se desde 2 002 e a decisão é considerada "pouco comum".
O caso tem todos os ingredientes típicos destas situações de conflito entre vizinhos por causa do ruído. Um morador de um prédio produz ruído que impede a vida normal dos outros vizinhos, estes queixam-se, as queixas motivam retaliações por parte do prevaricador, as acções, avaliações e reclamações sucedem-se, nada se resolve, e a vida torna-se num autêntico inferno.
Normalmente, nestes casos as vítimas recorrem aos organismos que lidam directamente com esta matéria: câmaras municipais, polícias, departamentos do estado ligados ao ambiente, etc., num calvário que resulta de uma continuada pulverização de competências que mata à nascença qualquer desejo de resolver este problema.
Apesar de a lei ser bastante detalhada, a resposta é, na grande maioria dos casos, ineficaz. Esta ineficácia do Estado, o desgaste mental, físico e até financeiro, prolongado de forma insuportável no tempo, que este tipo de situações provoca, o sentimento de impotência que assalta as vítimas e a impunidade de que gozam inexplicavelmente os agresssores, levam a que os conflitos provocados pelo ruído de vizinhança terminem sem sanção dos prevaricadores.
As vítimas, essas, acabam em psicólogos, totalmente destroçadas, e perante o enredo montado decidem muitas vezes ir em busca da vida ambientalmente equilibrada a que têm direito noutras paragens.
Como se fossem eles, no final, os agressores... Na prática, acabam eles por ser condenados.
Neste caso, as vítimas decidiram corajosamente recorrer logo aos tribunais. O processo percorreu todas as instâncias, tendo sido decidido a favor das vítimas em todas elas. As decisões foram sendo objecto de recurso por parte da agressora, até à sentença do Supremo.
Uma das causas principais para a ineficiência do Estado é a dependência absurda de critérios técnicos e "legalistas" para avaliar situações que são muitas vezes do senso comum. O fantasma do decibel paira sobre as reclamações de ruído, como se esta unidade fosse o princípio e o fim de qualquer ambiente sonoro desejavelmente equilibrado e sadio.
Ora, uma das novidades da sentença do STJ é a dispensa de medições. Entenderam os juizes (e bem!) que o descanso é um direito que não se compagina com os ditames do sonómetro.
A qualidade da sentença é inequívoca. A justiça foi reposta. A observação dos juizes de que casos como estes dispensam medições complicadas e muitas vezes infrutíferas é exemplar e devia fazer parte do manual de procedimentos de qualquer entidade com atribuições nestas matérias.
Devia também servir de matriz de actuação aos responsáveis que, como dizia no post anterior, se refugiam em análises de natureza técnica e científica de qualidade e eficácia duvidosas para ir disfarçando a sua completa ignorância sobre estes assuntos e a sua total incompetência para lidar com matéria desta natureza.
Expedientes, infelizmente comuns, como "mapas de ruído" do vereador Sá Fernandes, a que a vereadora Helena Roseta se referiu, são uma forma de ir encanando a perna à rã. Infelizmente, no melhor pano cai a nódoa...
Mas, afinal há gente viva na justiça portuguesa. Viva o STJ!

2009/07/09

Portugal de outra era

A vereadora Helena Roseta da CML criticou anteontem o facto de não haver um plano para combater o ruído na cidade. A crítica saúda-se e a preocupação pelo problema assinala-se.
Afinal ninguém liga nenhuma a este assunto. E, contudo, o problema do ruído continua a ser apontado como a disfunção ambiental número um (não só em Lisboa!). Helena Roseta revelou numa conferência de imprensa, onde apresentava os resultados de um estudo feito sobre o "repovoamento" da cidade com novos habitantes, que “há quem desista de morar na cidade por causa do excesso de barulho.” Roseta critica o vereador do pelouro porque anda a “apresentar o mapa do ruído da cidade há dois meses, mas não tem plano de acção.”
Repito: o alerta saúda-se e a preocupação assinala-se, mas tudo isto é escasso.
Quando, um dia, algum responsável político (seja a que nível for, local, regional ou central) for capaz de se debruçar sobre o problema do ruído, demonstrar sensibilidade e compreensão pelo que está em causa, apresentar um plano efectivo para tratar deste assunto e tiver capacidade para obter resultados, então sim, Portugal terá entrado numa nova era de modernidade, de verdadeira convivência democrática, será uma sociedade desenvolvida, onde prevalece o respeito pelos nossos valores comuns. Não a conversa bacoca dos ancestrais “heróis do mar”, mas algo de mais profundo, capaz de gerar os laços que podem fazer deste grupo de "galáticos" que é Portugal, uma equipa!
A solução do problema do ruído está nos antípodas de tudo o que é a prática política e social neste Portugal contemporâneo. Neste sentido, falar de "combate ao ruído excessivo" é alvejar um problema crucial,  paradigmático, que tem efeitos noutros aspectos da nossa vida colectiva. Tentar resolver o problema do ruído a sério, reflecte um novo olhar sobre o nosso mundo. Não parece, mas é...
O ruído não é um problema efémero. A solução das disfunções do ambiente sonoro não toleram improvisos de conjuntura, implica participação e um verdadeiro exercício democrático. Exige meios técnicos, jurídicos e financeiros, certamente, mas também sentido de responsabilidade, cultura do respeito, sensibilidade, visão abrangente, capacidade de criação de laços de solidariedade colectiva e, por tudo isto, autoridade para eliminar os mitos patetas que povoam a cabeça das pessoas sobre esta matéria. 
Actuar nesta área implica conhecer a fundo a natureza e a complexidade do problema. Implica saber do que se fala. Implica saber o que é ser humano. Não dá para improvisar e atamancar: mal a solução improvisada ou atamancada é implementada o problema volta de novo a surgir, ainda mais assanhado. As soluções levianas, concebidas para calar conjunturalmente as bocas das vítimas, custam caro a quem as tenta e são trágicas para quem lhes tem que sofrer as consequências.
Ao escrever o parágrafo acima parece que estou a descrever um manual da prática política contemporânea...
Ora, um ambiente sonoro desequilibrado é intolerável. E atinge todos. Não é um problema sectorial que só diz respeito a um grupo específico. É como a mosca do poema do António Aleixo. Todos necessitamos de um ambiente sonoro equilibrado. As pessoas sentem-no, sobretudo, quando deixam de o poder disfrutar. 
O reequilíbrio do ambiente sonoro não é matéria (só) do foro da engenharia e da medicina, (só) do foro cultural, (só) do foro afectivo, ou (só) do foro da comunicação. É mais do que isso e exige atributos que os responsáveis políticos não têm.
Será que estão mesmo dispostos a resolver o problema?
Uma plano para reduzir o "excesso de ruído" é muito mais do que meia dúzia de slogans para ganhar mais uns votos. Querem saber uma coisa? O ruído é mesmo um problema e a sua solução é mesmo um desafio. Mas implica uma atitude perante todo o nosso ambiente envolvente totalmente nova. Tão simples quanto isto...

2009/07/08

A Sanfoneira

Um dos meus instrumentos de "culto" sempre foi a sanfona, igualmente conhecida por "hurdy gurdy", "vielle à roue" ou realejo. Grandes "sanfoneiros" da actualidade são, por exemplo, os franceses Valentin Clastrier e Patrick Bouffard, ou Marie Yacoub (Bretanha) e Maurízio Martinotti (Itália), não esquecendo os portugueses Tentúgal (Vai de Roda) Fernando Meireles (Realejo) e Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa), todos instrumentistas que aprecio e cujas carreiras acompanho de há muitos anos a esta parte.
Neste firmamento de notáveis músicos surgiu, recentemente, uma nova estrela: Sónia, a "sanfoneira" de Alpiarça. Não que ela (que se saiba) tenha alguma vez tocado o referido instrumento; mas porque foi capaz de nos "dar música" horas a fio, sobre um assunto investigado até à exaustão durante meses e sobre o qual ninguém naquela Comissão Parlamentar de Inquérito parece ter dúvidas. À excepção da Sónia, encarregada da redacção do relatório final, que conseguiu a fantástica proeza de extrair uma conclusão diferente da opinião da maioria dos partidos representados na Comissão e isso, temos de concordar, é obra!
Acontece que, Sanfona, para além de deputada, é candidata à Câmara de Alpiarça nas próximas autárquicas. Caso não seja eleita, perde igualmente o lugar de deputada, do qual deve abdicar devido à incompatibilidade dos cargos. Uma contrariedade de monta. Logo agora que ela tinha feito um bom "serviço" ao Partido Socialista na tal Comissão de Inquérito. Uns mal-agradecidos, estes "socialistas". É caso para dizer, tanta "música" para nada...

2009/07/06

Memorial

No passado fim-de-semana, esteve entre nós uma delegação constituida por catorze catalães, membros da Asociacion LiberPress, com sede em Girona. O motivo da visita foi a atribuição do prémio anual com que esta associação "distingue a título póstumo uma personalidade que tenha lutado pela dignidade e os direitos humanos e cujo percurso de vida possa servir de exemplo à sociedade". A LiberPress foi criada em 1999 e o 1º Prémio Memorial, instituido em 2008, foi concedido à fotógrafa, de origem húngara, Gerda Taro (mulher de Frank Capra), falecida em 1937 num acidente perto de Madrid. O segundo Prémio Memorial foi, este ano, outorgado a José Afonso.
A delegação da LiberPress, chefiada pelo seu presidente Carles McCragh e o presidente da Deputation de Girona, Eric Vibert, visitou ainda a campa de José Afonso em Setúbal, onde procedeu à entrega simbólica da placa que assinala o Prémio. Estiveram presentes, para além de amigos do cantor, a filha Helena Afonso, Francisco Fanhais e Adelino Gomes, na qualidade de presidentes da Direcção e da Assembleia-Geral da AJA e Maria das Dores Meira, presidente da Câmara de Setúbal. A notícia detalhada e as fotos da homenagem podem ser vistas no sítio da associação.
Esta foi a primeira vez que visitei a última morada do Zeca, com quem tive o privilégio de conviver durante muitos e bons anos. Enquanto ali estivemos não pude deixar de pensar nas manifestações de pesar que amanhã, por todo o Mundo, acompanharão um grande ídolo da Pop, recentemente falecido e justamente homenageado no seu país. Como bem notou Adelino Gomes, no improviso que fez, nem só de barulho se fazem as homenagens. O silêncio do cemitério de Setúbal convida-nos à reflexão sobre a mais importante mensagem do Zeca. A mensagem da solidariedade. Também por isso, resolvi escrever este pequeno "post" que mais pretensão não tem do que lembrar os artistas portugueses que tão mal tratamos. Em Setúbal, no passado sábado, todos nós nos sentimos um pouco mais espanhóis.

2009/07/04

Sobre diques, ou a dimensão da mesquinhez

Há pouco tempo uma amiga minha regressou de um período de trabalho na maior universidade de uma cidade no Canadá onde ambos vivemos. Em ano sabático, aproveitou para prosseguir um trabalho em que está envolvida, aproveitando os vastos recursos dessa universidade. Quando voltou descrevia-me a "limpeza" com que resolveu os problemas administrativos e burocráticos que envolviam este seu compromisso. Numa ápice tinha um endereço electrónico, autorizações para aceder aos arquivos e bibliotecas, gabinete e respectiva chave e tudo o mais que precisava para o seu trabalho.
Comparámos esta "limpeza" com a burocracia, a morosidade e mesmo a inexistência de recursos semelhantes nos estabelecimentos portugueses que conhecemos. No caso dela a situação chega a ser mesmo caricata pois é professora numa universidade de base "tecnológica", onde até há pouco tempo ainda se comunicava, quase literalmente, por sinais de fumo. Uma instituição onde a simples requisição de uma elementar ligação remota entre dois computadores --que nunca funcionou, mas foi autorizada oficialmente para testar um programa encomendado pela própria universidade e pago a peso de ouro-- percorre um longo calvário de funcionários e chefes de funcionários, sequiosos de mostrar quem manda, e é matéria que exige previsão no futuro PIDDAC, autorização do TC e visto lavrado pelo punho dos ministros da tutela, eles mesmos, sem os quais nada poderá funcionar.
Tudo no seu tempo próprio, sem delongas, que a vida é curta...
Este foi e continua a ser o retrato do país, por mais análises ilumindas com que os 28, os 54 ou os 31 nos querem levar a fazer crer que estão verdadeiramente preocupados com o país. Empanca tudo no homem que abre e fecha os diques!

Vem isto a propósito (ainda) do caso de Maria João Pires (MJP). O assunto já foi por mim tratado recentemente aqui e aqui nas páginas do Face e não me mereceria mais atenção (parecia que já quase tudo tinha sido dito...), não fora ter lido hoje no PÚBLICO, no "Sobe e Desce", uma nota sobre MJP de autoria de JMF, que, presumo, seja o seu director.
Diz a nota, a justificar o “desce” de MJP, que ao trocar a nacionalidade ela “perdeu a razão, senão o respeito”. É uma boa pianista, mas podia ter continuado a lutar, diz JMF, como que a sugerir que, ele sim, está acima dos pianistas e está na luta...!
Infelizmente para nós, os casos de gente que desistiu de lutar por Portugal não se ficam pelos que renunciam à nacionaliade portuguesa. Muita boa gente cá dentro baixou os braços há muito. E os que daqui se foram e trocaram de nacionalidade e desistiram de continuar a lutar em Portugal, não têm conta. Há mesmo uma perturbante reincidência histórica neste processo. Diria mesmo que parece que quem se vai embora o faz porque não quer justamente desistir.
Não se percebe, pois, esta sanha contra MJP, em particular.
As razões da desistência são sempre as mesmas e estão por perceber na íntegra, mas nota-se desde logo uma enorme dose de reaccionarismo atávico e de auto-comprazimento em nivelar tudo pelo NBFC (Nível Básico de Funcionamento das Coisas) a condicionar tudo isto. Em vez de tentar perceber as razões que levam gente de grande valor para fora deste país, JMF prefere atirar-se à pianista.

A universidade canadiana onde a minha amiga se deslocou em missão, não funciona assim só para “guest VIPs”, ou para uma pseudo elite. Funciona assim para todos. Por isso é que depois há “guest VIPs” e elites que juntamente com todos os outros contribuem para a criação de um impressionante acervo de conhecimento que vale a esta universidade um lugar no topo no ranking das mais prestigiadas.
Também por lá há alguns que dão generosamente tudo o que têm e comprometem a sua vida para elevar ainda mais os padrões de uma sociedade que se distingue já neste domínio. Mas, a sua generosidade e valor (que não diferem da generosidade e valor de qualquer português) encontram condições excepcionias para chegarem ao seu desígnio final. As mentalidades e a qualidade das instituições dão-lhes sustentabilidade e a possibilidade de medrar. Em Portugal, MJP é olhada com suspeita. O seu poder de iniciativa, o seu inconformismo e a bitola que aplica nas suas acções chocam com a estreiteza dos comportamentos institucionais, com a leviandade dos grandes e dos pequenos desígnios e com uma manifesta incapacidade para ver para além do ponto de mira. Em Portugal o poder de iniciativa e inconformismo de MJP é razão para abate sumário.

Conheço uma mão cheia de gente de enorme gabarito que fez como MJP e foi para outras paragens para se salvar dos “malefícios” que Portugal lhes estava a causar, dos diques que teimam em não se abrir ou que se fecham conforme a conveniência. Há inúmeros exemplos, alguns até mais ou menos conhecidos do público. Não deixaram de ser portugueses. Só se queriam salvar como seres humanos. Alguns ainda mudaram, também como ela, de nacionalidade. Outros desistiram totalmente: adquiriram a nova nacionalidade e nem sequer se deram ao trabalho de abdicar da nacionalidade portuguesa...
O que está aqui em discussão vai, infelizmente, muito para além do problema de MJP ou do seu projecto de Belgais.

Segundo uma ideia de um personagem actualmente muito na berra, se Paulo Rangel comesse muita Maizena ainda poderia ter esperança de chegar aos calcanhares de Vital Moreira. Levando por diante esta ideia, o JMF nem com muita, muita Maizena chegaria jamais aos calcanhares de MJP. Era bom que se remetesse à sua dimensão.

2009/07/02

Arena Politica

Depois da "investida" do Ministro de Economia na Casa da Democracia, só mesmo um toureiro podia pôr fim a tal faena. Coube a Sócrates, a estocada final. Que mais nos reservarão estes governantes em fim da legislatura? Rabo e orelha?

2009/07/01

A nova ordem mundial


Tenho a certeza que nenhum escritor, daqueles que se dedica ao género do political thriller, chegaria tão longe com a sua imaginação. Não há ficção que chegue aos calcanhares desta realidade. Depois do golpe que o expulsou do país, o presidente Zelaya das Honduras discursou nas Nações Unidas e prepara-se agora para regressar. E é com enorme expectativa que se aguarda o desfecho deste anunciado episódio do regresso do presidente hondurenho, acompanhado dos presidentes da Argentina e do Equador, Cristina Kirchner e Rafael Correa.
Não sei o que vai acontecer --tudo isto é difícil de imaginar--, mas o que está em causa aqui ultrapassa seguramente as fronteiras das Honduras.

2009/06/27

O Auto dos Economistas

Vem Mestre Filipe y diz: "Ora será bom que tomeis cristel d'água de cevada com farelos misturada. E sabeis que comereis? Uma alface esparregada. Fazei o que vos digo, que essa febre é velhaca, procede da cardiaca: atentais no que vos digo? Até vermos se se apraca, faç'ele embora as urinas, e pela manhã eu virei..."
Y vem Mestre Fernando, o sorlogião, que fala: "Pera a febre jogamos a que tem lebre? Ora vos faço a saber que há-de comer cousa leve. Nem a lebre, nem coelho, nem porco, nem cação, congro, lampreia, tubarão, não coma de meu conselho inda qu'estivesse são."
Por fim, vem Mestre Henrique que diz: "Esta febre es sincopal, y la enfermedad tal, cúrase con mucho peso... Havéis mirado? —Qué es mortal! Que cuando la colora adusta... Havéis mirado? —s'enfría, buelvese malenconía... Havéis mirado? — y desgusta la salud de la sangría. Havéis mirado? Y ansí que havemos experiencia que non hay ninguna dolencia que yo quisiesse pera mí en cargo de mi concencia."
Diz o Moço, ay cuitado: "Pardeus, em grande embaraço vejo eu estes doutores!"
Y, por fim, Gil Vicente mandaria sobre los manifestos y contra-manifestos da economia este fino recado: "Quede ansí este misterio suspenso hasta el verano. Que otro de más flores para pascua tenho sembrado."
Laus Deo.

2009/06/26

Para quê uma Lei de Imprensa?

Não se percebe como é que este episódio da intenção da PT de comprar parte da Media Capital não provocou no país um enorme e veemente movimento de indignação. A operação em si era suspeita e levantava de facto legítimas dúvidas. O PR esteve bem ao assinalá-lo. Mas, o recuo e as justificações do governo sobre esta matéria parecem-me bem mais escandalosos. E sobre isso não vejo nenhum comentário...
Então a alteração da formação do capital de uma empresa de comunicação social é susceptível de poder ser intepretada como sinal de que isso pode provocar, sem mais nem menos, alterações na orientação editorial dessa empresa? Ah, é?!
Então a empresa em questão não tem um Estatuto Editorial? E as alterações a esse estatuto não têm de ser sujeitas a uma série de procedimentos legais, nomeadamente, ao parecer do conselho de redacção? Ou seja: podemos ser levados a suspeitar que a PT, por delegação de competências do governo, poderia entrar pela TVI dentro e desatar a escaqueirar tudo aquilo, ultrapassando a Lei como quisesse?
Então isso seria possível, pergunto eu ingenuamente...? Mas, não há uma Lei de Imprensa que regula tudo isto?! E o Primeiro Ministro nem sequer sublinha o facto de que esta matéria se encontra regulamentada pela dita Lei?!!
Será que na RTP, por exemplo, o Estatuto Editorial pode ser alterado, passando por cima das disposições legais em vigor...? E em qualquer outro orgão de comunicação isso também é possível? Porquê a excepção para a TVI? Para quê exigir então a observação de tantos procedimentos legais para a formação de um orgão de comunicação? Para que é que existe tanto rigor em relação à clareza da formação do capital social dessas empresas? Para quê a obrigatoriedade de um Estatuto Editorial? Por que razão se exige que este seja do conhecimento público obrigatório? Qual é afinal o papel e a responsabilidade do director de um orgão de comunicação?
Não era mais fácil que, em vez de leis e outros procedimentos chatos e fastidiosos, fosse tudo à molhada e fé em Deus? Resulta para uma data de coisas... Ou não seria mesmo preferível voltar a ter uns coronéis de lápis azul em punho, como havia antigamente? Ao menos sabia-se de antemão ao que vinham...
Com toda esta fantochada quase que me apetece defender o dr. Jardim da Madeira. Esse ao menos poupa-nos a exercícios de cinismo como este com que agora o governo central nos tenta adormecer.
Será que a proximidade do fim de semana retirou capacidade de discernimento aos portugueses?

2009/06/25

A auto-estrada rosa e a auto-estrada laranja

Num país normal há muito se saberia quais as datas das eleições legislativas e autárquicas. Em Portugal, não.
Para além de bizarra, esta situação é, no mínimo, caricata e releva do nosso atraso tradicional. Se a legislatura foi normal, tendo inclusive durado mais do que os quatro anos habituais, o que impede de serem conhecidas as datas eleitorais com a devida antecedência? E porque é que o Presidente da República não ouviu há mais tempo os partidos sobre esta questão?
Pior, questionado esta semana, Cavaco Silva lembrou o histórico de eleições anteriores (quantas?) onde teria havido eleições simultâneas e citou sondagens (quais?) onde os inquiridos teriam manifestado a sua preferência por realizar eleições diferentes no mesmo dia. Mas, então, o Presidente da República anda a reboque da opinião de um milhar de inquiridos em sondagens aleatórias? Há aqui qualquer coisa que me escapa. A menos que o PR tenha uma "agenda escondida" e queira beneficiar o PSD, o único partido que prefere eleições legislativas e autárquicas em simultâneo. Para as restantes forças partidárias com representação no hemiciclo (e são todas) as eleições devem ser em dias diferentes.
À excepção da abstenção, que pode ser ainda maior em caso de datas diferenciadas, não nos parece existirem outros argumentos importantes a favor da mesma data eleitoral. Mesmo o factor "custo", que a líder da oposição tem vindo a agitar como um "papão orçamental", não nos parece relevante. Como demonstram as contas, as despesas extra não ultrapassariam a "iluminação" da Avenida da Liberdade em épocas festivas. Cerca de 4 milhões de euros.
Por outro lado, ganhar-se-á em transparência democrática e em reforço da democracia, pois tanto os partidos como os votantes poderão escolher os seus representantes distintos em campanhas com características distintas. O dinheiro "a mais", gasto em eleições separadas, será sempre inferior ao preço de um qualquer quilómetro de auto-estrada, seja esta de côr rosa ou laranja. O Presidente da República devia saber isso.

2009/06/21

Une voix trés humaine

Para quem não conhece, digo-lhe que a nave do Igreja do Mosteiro de Alcobaça tem para cima de 100 m de comprimento, 20 m de largura e 50 m de altura. Não quero exagerar, mas o tempo de reverberação deve exceder bem os 15 segundos. Tudo parece grandioso neste espaço.
Imaginem agora o pequeno foco sonoro, colocado sensivelmente a meio desta longa nave.
Uma viola da gamba, esse instrumento delicado, dos espaços íntimos e das expressões sonoras subtis, a voix humaine que fez a delícia dos poderosos entre o século XVI e o século XVIII. A viola da gamba foi desaparecendo da paleta instrumental dos compositores à medida que os espaços de concerto foram crescendo, ou o sentido da audição dos junkies da música foi necessitando de estimulantes sonoros cada vez mais poderosos. Um instrumento que fugiu dos espaços nobres da música, mas que, graças a um movimento de revivalismo que começou no século passado, conhece hoje uma popularidade crescente e um interessse renovado pelas suas características únicas.
Imaginem, pois, por favor, esse instrumento subtil, que brilhava nos espaços íntimos dos salões dos poderosos, a soar hoje no espaço imenso da Igreja do Mosteiro de Alcobaça, tocada pelo mestre dos mestres, Jordi Savall. Num contexto destes, posso-vos dizer que a viola da gamba parecia um instrumento vindo do Céu. E posso-vos garantir também que esta viola da gamba celeste foi pretexto para revisitar a minha origem mais remota...
Imaginem agora mais de 700 pessoas a assistir, atentas, a grande maioria delas constituída certamente por forasteiros atraídos por este último e singular evento do Cister Música - Festival de Música de Alcobaça. Pensem no que poderá ter feito rumar a Alcobaça toda aquela gente, para ouvir um instrumento que não deixou qualquer rasto na história da música portuguesa.
Há-de ser amor verdadeiro pela música!
Vá-se lá então perceber porque é que, pelo menos, estas mais de 700 pessoas não andam atrás do ministro, a fazer-lhe esperas em parques de estacionamento e a exigir-lhe explicações sobre as malfeitorias (confessadas!) que este governo tem feito na área da cultura; porque é que não desfilam na Avenida da Liberdade, empunhando cartazes e tarjas pretas; porque é que não fazem vigílias à porta de S. Bento ou outra qualquer iniciativa de luta, daquelas que com belo efeito são frequentemente usadas por quem se sente e vê, de alguma forma, os seus interesses lesados por esta manhosa legislatura em que vivemos...? Deixemos as subtilezas para a viola da gamba...

2009/06/18

Belgais apresenta risco sistémico

Algumas reacções que o meu post de ontem suscitou fizeram-me pensar. Enquanto reflectia sobre a dificuldade em lhes dar resposta o senhor Primeiro Ministro veio em meu auxílio: "Querem saber um erro [da governação socialista]?" perguntava ele aos jornalistas ontem à saída do parlamento. "Se há um erro que é possível indentificar ao longo destes anos, é que talvez deveríamos ter investido mais na cultura."
Porque faria o Primeiro Ministro uma tal declaração?
Simples: porque sabe que a cultura é uma área onde admitir erros não "custa" votos e porque são os próprios agentes culturais que impedem muitas vezes que a cultura se torne o centro do debate, que passe a valer votos e que a ausência de uma política neste sector custe caro a qualquer executivo.
Nao quero estar a alimentar polémica esteril, mas insisto neste tema porque algumas das críticas que são feitas ao projecto Belgais me merecem atenção e alguns dos críticos me merecem respeito...
Mas, acho (é a minha opinião e o meu argumento de combate) que não devemos alimentar esta "polémica" dos pretensos pecados financeiros de Belgais. Aliás, nem sei se os há, admito que sim, embora ninguém os tenha denunciado claramente... No caso de Belgais nem há o limite do trânsito em julgado, porque Belgais já foi condenado sem remissão.
Belgais não passa de um pretexto. A verdade é que a cultura tem sido, é e vai continuar a ser vítima da indiferença ou do interesse parolo de todos os governos. De vez em quando, qual estrela cadente, há um brilho fugaz no céu, mas rapidamente o curso normal das coisas é retomado.
Para os vigaristas, os corruptos, os bandidos que poluem sectores vitais da nossa vida colectiva, total complacência, tolerância e compreensão. Para Maria João Pires e Belgais, a roda já! Que "activos" poderia Belgais ter?
A verdade é que este tratamento iníquo não menoriza, nem retira importância à cultura. Mas aceitar uma discussão nestes termos (e é o que muitos críticos de Belgais fazem) acaba por resultar nisso: menorização e secundarização desta área.
O que posso dizer, sem ter dúvidas, é isto: o que conheço e o que presenciei em Belgais revelaram-me um projecto que estava em contacto com o Céu. Estava solidamente alicerçado nos seus pressupostos e na sua filosofia de actuação. Como escrevi anteriormente, o futuro estava certo em Belgais.
Ora, para criticar Belgais, para retirar apoios a Belgais, para ser comissão liquidatária do futuro, o estado teria de ser melhor que Belgais! O estado teria de ser Belgais, de demonstar uma igual exuberância de actividade e profundidade de desígnios . Mas não foi nem é esse o caso. O estado limita-se a retirar o pipo e deixar que o frágil balão se esvazie, passageiro. Que nomeasse gestores para melhor lidarem com os dinheiros públicos, se foi esse o pecado de Belgais. Que lhes desse umas pensões chorudas para melhor os atrair, mesmo que essas pensões custassem outro Belgais... Que criasse um "mau Belgais" para absorver os produtos tóxicos gerados pelo projecto. Que "nacionalizasse" até Belgais, admite-o perfeitamente. Mas que preservasse, pelo menos, o essencial de tudo aquilo. Para poder criticar Belgais...
Não é o primeiro ministro, que agora confessa o pouco apetite socialista pela coisa cultural, que contra os problemas defende a acção firme e condena o conformismo? Pois, Belgais foi acção contra o problema da indiferença.
O que a gente retira de tudo isto é apenas o seguinte: Belgais não apresentava risco "sistémico"... Não há o menor perigo de os "clientes" defraudados ocuparem instalações ou fazerem esperas ao senhor ministro à porta de um qualquer parque de estacionamento.
Cabe-nos a nós demonstrar que houve, há e haverá mesmo risco sistémico para a vida do país se este tipo de comportamentos continuar a ser aceite.
E a discussão útil está na busca dos termos adequados para o provar.

2009/06/15

Pérolas a porcos

Em Julho de 2006 escrevi aqui, a propósito da partida de Maria João Pires para o Brasil e do fim da sua associação ao projecto de Belgais, que com ela afastada tudo aquilo iria acabar por definhar e morrer. Escrevi na altura que era um sentimento quase de luto que experimentava. Hoje Joana Pires, filha de Maria João fez saber que Belgais "vai fechar devido a um arresto de bens e à falta de apoios." Um fim bem pior do que eu próprio antecipava em 2006. 
Ainda alimentei a esperança de que o património criado por Belgais fosse aproveitado de alguma forma, reconvertido ou reutilizado, apesar de tudo. Nunca pensei que os responsáveis regionais e nacionais se dessem ao luxo de deitar, simplesmente, tudo aquilo para o lixo. Infelizmente, assim aconteceu.
Joana Pires revela agora que "após o encerramento da escola do primeiro ciclo da Mata e do Coro Infantil, não deve restar nada do projecto de Belgais iniciado pela minha mãe".
Em 2003 acompanhei na escola da Mata, perto de Belgais, a assinatura de um protocolo entre o ministro de educação de então (cujo nome não ficou para a história) e os responsáveis do Centro de Estudo das Artes de Belgais. O objectivo do protocolo era a criação de uma parceria entre essas duas estruturas com vista à integração, naquela escola, do ensino artístico com o programa do primeiro ciclo. A cerimónia decorreu com a devida pompa e circunstância. Para além do ministro, o cortejo oficial integrava um sem número de figuras que não queriam naquela altura ficar fora daquele retrato.
No final, numa singela cerimónia que decorreu já em Belgais, o Coro Infantil de Belgais presenteou todas aquelas luminárias com uma comovente intervenção musical. A enorme qualidade do coro, o total empenho e alto grau de responsabilidade daquelas crianças, constituia o fecho perfeito para aquela cerimónia: o Coro era a prova viva --para quem soubesse ou quisesse ler tudo aquilo-- de que os ideólogos de Belgais estavam certos. O futuro estava certo.
Foram pérolas deitadas a todos aqueles porcos.
Belgais acaba agora, com direito a arresto e tudo.
Fica-me a recordação da intervenção do Coro Infantil de Belgais no "Coimbra Vibra!" (cf. foto), um evento que ajudei a criar no âmbito do que foi Coimbra Capital da Cultura 2003...

2009/06/14

As cancelas da internet

Para os leitores do Face Oculta que não são utilizadores do Facebook (eu sou), conto rapidamente como funciona esta "rede social". Qualquer pessoa se pode inscrever. Depois de inscrito, cada um trata de ir construindo a sua "rede", dirigindo convites a pessoas das suas relações, que ainda não sejam utilizadores deste serviço, para se tornarem "friends", ou encontrando, através da pesquisa de nomes ou de endereços electrónicos, gente conhecida que já seja utilizadora do Facebook. Depois de inscrito e de ter a sua "rede" constituída, o novo utilizador do Facebook está pronto a tirar partido deste serviço publicando os seus pensamentos, trocando mensagens, partilhando músicas, fotos, textos ou outro material existente na internet.
Aqui há dias ocorreu uma pequena avalanche no Facebook por causa de um escrito anódino que foi "marcado" como censurável por alguém, que por via dos mecanismos do próprio Facebook tem de ser "friend" do autor do escrito. (*) Esta "marcação" é uma função do Facebook, criada, quero crer, com a melhor das intenções, para denunciar material que possa ser considerado de facto impróprio. Ao "marcar" uma mensagem, um video, ou outra qualquer coisa, é desencadeado um processo que permite aos gestores do Facebook exercer o seu poder discricionário (que ninguém pode contraditar) e "bloquear" o acesso do utilizador a estes serviços. No caso vertente, não só o utilizador, mas também os "friends" que comentaram o seu escrito e até poderiam estar em desacordo com ele, foram impedidos de aceder ao Facebook.
Este episódio, meio ridículo, meio preocupante, desencadeou um movimento enérgico em torno da defesa do direito à livre expressão do pensamento do utilizador do Facebook em causa e dos seus comentadores.
Até ao momento, segundo creio, o movimento não teve consequências e o acesso do utilizador não foi restaurado, mas a sua simples expressão é já sintoma de que algo vai acontecer.
Em última análise os utilizadores do Facebook prejudicados por esta medida mudam-se para outro serviço deste género --tão facilmente como entraram-- e denunciam publicamente este episódio, o que não será bom certamente para o negócio.
As tentativas de controlo da internet, de condicionamento dos seus utilizadores e de limitação dos seus conteúdos, são um atentado intolerável aos direitos individuais, uma absoluta negação do espírito que presidiu à criação e expansão da net e, em última análise, são tentativas condenadas ao fracasso porque podem sempre ser contornadas por um qualquer expediente informático. A proibição é uma palavra proibida na internet e ainda bem.
Por mim, sou contra qualquer tentativa de limitar o uso da internet.
Como diz Francisco Teixeira da Mota num artigo recente do Público "a internet é um direito fundamental". É-o, e é-o cada vez mais, à medida que o seu acesso se universaliza e se simplifica. O Conselho Constitucional francês tomou recentemente uma decisão que é uma prova prática disto mesmo que disse: não é possível, determinou este organismo, restringir por via administrativa o acesso à internet de alguém, mesmo que sobre esse alguém recaia uma qualquer razão específica, legítima, de queixa sobre o uso que faz da rede. Qualquer irregularidade cometida sobre um assunto específico tem que ser tratada no âmbito desse assunto específico. Desta forma --e foi esta questão que esteve na origem da decisão daquele Conselho--, o acesso à internet não pode ser cortado a uma pessoa que tenha feito downloads de música ilegais, por exemplo. Esta é matéria que terá de ser tratada de forma circunscrita.
De forma muito simplificada, é um pouco como se eu estivesse envolvido num acidente rodoviário e me fosse proibido o direito de me deslocar nas estradas. Ou se eu cortasse abusivamente o acesso à agua a um vizinho e fosse proibido de beber água.
Na China, assistimos neste momento a uma tentativa caricata de controlo da liberdade de circulação digital. O governo chinês prepara-se para fazer entrar em vigor a lei designada por "Cancela Verde" que obriga à instalação de software que restringe o acesso à internet. O objectivo, segundo os seus proponentes, é o de filtrar conteúdos pornográficos ou considerados "ordinários". Os chineses, dizem, tentam proteger as crianças.
Este software foi, aparentemente, implementado sem a audição dos fabricantes mas, a par dos seus propósitos mais ou menos virtuosos, parece permitir também bloquear blogs críticos do regime ou vigiar os dados dos computadores pessoais. É, de facto, estranho que a iniciativa e o seu controlo pertençam ao estado e que aos pais, a eles próprios pelo menos, não seja dada a chance de controlar o controlo.
No fundo, deixemo-nos de tretas, trata-se de uma tentativa, no mínimo, canhestra, de privar os cidadãos do uso da estrada, sob o pretexto de controlar acidentes.
A internet e as novas formas de socialização, de interacção e transmissão dos conhecimentos que proporcionam constituem uma nova fase do desenvolvimento humano. O mais empedernido adepto do luddismo concordará com esta observação hoje. Vindas de chineses ou de americanos as tentativas de controlo da internet estão votadas ao fracasso. Mas, há que estar vigilante. É que a viagem na internet não é à borla.
A Europa tem um exemplo forte a dar nesta matéria. A recente eleição de um membro do Partido Pirata da Suécia para o PE é sinal de que os europeus são sensívels a este tema e estão atentos, mais talvez do que se julga.




(*) O episódio está descrito aqui.

2009/06/13

Guerras e guerras...

Vamos discutir o Cristiano Ronaldo a sério? Querem...?

O Instituto de Pesquisa para a Paz de Estocolmo anunciou há dias que 2008 foi o ano em que se gastou mais dinheiro com armamento. Cada ser humano "gastou" cerca de 155 euros... Os E.U. vão à frente com 903 milhares de milhões de dólares. Segue-se a China, a França, o Reino Unido, a Rússia e até o "Brásiu" aparece na lista em lugar de destaque. Foi mais de um bilião de dólares gasto em armas, qualquer coisa como 2,4 por cento da riqueza mundial. E isto é o comércio "lícito", ou seja, comércio levado a cabo por empresas estatais ou "de defesa", como hipocritamente são chamadas. Não estão aqui contemplados os valores do comércio "ilícito", nem do comércio de pequenas armas. E tudo isto não passa de uma parte insignificante da estimativa dos gastos globais com a defesa que ultrapassam os mil biliões de dólares (*).

O desporto, principalmente o desporto praticado em equipe, sempre constituiu para mim uma metáfora da guerra. E sempre tive grande respeito por esta manifestação humana. Onde uns vêem um mero pontapé na bola, eu e muitos outros, vemos uma expressão superior do nosso humanismo. Porque somos seres humanos mesmo quando os maus instintos nos querem comandar e porque somos capazes de inventar formas de nos rirmos deles. O desporto é uma metáfora de guerra, não a guerra! Confesso que prefiro a metáfora ao facto real. Preferia mil vezes saber que o meu clube perdeu uma final no último minuto com um pontapé acrobático de fora da área do ponta de lança adversário, do que saber que o meu país bombardeou uma aldeia com napalm. Prefiro saber que não sei que avançado marcou um livre, com a bola a ser "disparada" a 120 km/h, do que saber que morreram mais não sei quantos soldados portugueses, de uma dessas forças que se encontram estacionadas no Afeganistão ou no Líbano, vítimas do fogo de armas que disparam balas reais, que matam realmente. Prefiro saber que o ponta de lança que marcou o tal golo no último minuto foi contratado por uns largas dezenas de milhar de euros, do que saber que o meu governo fechou um negócio para fornecimento de armas a não sei que país, cujos habitantes morrem à fome, mas cujos soldados estão armados dos pés à cabeça com o material mais mortífero e sofisticado.

Kimi Raikkonen, Michael Jordon, Phil Mickelson, Tiger Woods, Fernando Alonso, Roger Federer, Oscar De La Hoya, Shaquille O'Neal, Kobe Bryant, Alex Rodriguez, sabem quem são? São alguns dos atletas que figuram numa longa lista dos mais bem pagos do mundo, onde o C. Ronaldo nem sequer tem ainda direito a figurar. No caso do futebol, David Beckham, o único que figura nesta lista dos mais bem pagos, destaca-se, seguido, muito ao longe, por Lionel Messi e Ronaldinho Gaúcho. Cristiano Ronaldo lá vem a seguir, praticamente a par de outros nomes como Káká ou Tierry Henry. Ou seja: apesar dos flashes, o Cristiano Ronaldo ainda não passa de um artista mediano.

Chamem-me ingénuo, mas confesso que não percebo o coro que para aí se ouve e o que deu a alguns responsáveis políticos e comentadores da coisa pública quando vêm criticar os valores da transferência do Cristiano Ronaldo, fazendo comparações destes valores com os orçamentos para a construção de um novo hospital ou escola, e atribuindo ao montante da transferência o poder de "desvirtuar" a verdade desportiva... A "verdade desportiva"...?! Será também em nome da "verdade desportiva" que se bombardeiam escolas ou hospitais? Quando vir a mesma aplicação e o mesmo arrebatamento de toda esta gente a exigir a redução dos orçamentos de defesa dos países e a reclamar o fim do macabro comércio do armamento, então falamos.


(*) Confesso humildemente a minha dificuldade em grafar de forma correcta estes números com muitos zeros...

2009/06/11

As aventuras de Marcia no Irão

Nesta semana de eleições, as mais importantes realizam sexta-feira no Irão.
Ganhe a facção radical (de Armani Jihad) ou a moderada (?) de Moussavi, numa sociedade teocrática há que ter cuidado com os excessos. As mulheres que o digam.
Sempre em cima do acontecimento, os principais canais de televisão portuguesa já enviaram para Teerão as suas jornalistas de eleição. De todas, a que gosto mais é a Marcia Rodrigues. Passo a explicar:
Ao contrário de Fátima Ferreira ou Judite de Sousa, normalmente escolhidas para relatarem as cerimónias em Fátima e na Praça de S.Pedro, Marcia (como Cândida Pinto, aliás) é invariavelmente enviada para lugares "quentes": Afeganistão, Iraque, Irão. "Where the action is", em resumo.
Desconheço se há um critério por detrás das nomeações, tipo as católicas vão para Roma e as ateias para o Iraque, mas todas elas têm uma coisa em comum: o lenço, ou "chador" nos casos mais extremos.
No meio do povo, lá estava hoje a Marcia, de cabeça tapada, ou lado de uma iraniana de cabeça meia descoberta. A portuguesa, tipo viuvinha "chique", a iraniana versão mais "light" (porque verde) das camponesas do Sado.
Desde que vi a Marcia a entrevistar o embaixador do Iraque em Lisboa, vestida dos pés à cabeça e com luvas negras até aos cotovelos, fiquei rendido. Há ali uma mística, a lembrar a Catherine Deneuve da "Belle de Jour", que nem a Cândida do canal concorrente consegue bater. Não sei bem explicar. Penso que é da combinação dos tons: aqueles cabelos louros tapados pelo lenço Chanel, são fatais. Sensualidade e sofrimento, é o que é. Nem Mahomé resiste a uma mulher assim. Será por isso que elas andam todas tapadas?

2009/06/10

O Dia da (Desg)raça

Enquanto o PR, procurando fugir certamente discurso tecnocrático, faz citações pouco convincentes de Almeida Garrett e Ruy Belo na sua alocução do 10 de Junho, o Instituto Nacional de Estatística informa-nos que o PIB caíu 3.7% (valor comparado com período homólogo de 2008) e 2% face ao valor do trimestre anterior. Esta é a maior queda desde que há registos, segundo dizem. Outras economias revelam quebras mais ou menos significativas, mas o caso português merece uma reflexão mais séria.
Uma percentagem de 90% deste PIB que emagrece sem regime, já está hipotecada para cobrir o défice externo. Aqui há tempos as previsões referiam que o valor deste défice externo subirá para cerca de 100% do PIB já para o ano. Cem por cento...! A percentagem da dívida externa do PIB era de 7.4% em 96 e passou alegremente para 90% no ano passado. Para o ano já não conseguimos com a nossa produção cobrir o défice externo.
Ou seja, para o ano o país está falido !
É neste quadro que lá vamos para mais uma ponte.
Quanto à possível falência... "- Uma desgraça!", pensarão uns enquanto atestam os carros de gasolina importada, preparando-se para zarpar daqui para fora até domingo. "- Uma desgraça!", pensarão outros, que sabem o que devem fazer mas não conseguem, não querem ou não lhes convém fazê-lo. "- Pode ser que, por um acto qualquer de natureza divina, a desgraça caia em desgraça!", pensarão uns e outros...

2009/06/07

A derrota da arrogância

Contrariamente a todas as projecções, o PSD ganhou as eleições europeias. Se houve surpresa nos resultados, a derrota do PS foi a maior de todas. Esta derrota devia obrigar o governo, e o partido que o apoia, a parar para pensar. A avaliar pelas declarações de Sócrates, o governo não governa para eleições e vai continuar o rumo traçado. Em direcção ao abismo, diremos nós. O pior não é este governo perder a maioria absoluta nas legislativas. O pior é o PSD poder voltar a governar e, desta forma, poder manter a rotatividade dos partidos de sempre. Há, no entanto, outros cenários possíveis: uma coligação à direita (PSD/CDS), uma coligação à esquerda (PS/BE) e um governo minoritário do PS. Em qualquer dos casos, o ciclo governamental do primeiro-ministro parece estar a terminar. Isso, já por si, é uma boa notícia. O autismo e a arrogância pagam-se caros.

Enfermidades

Reagindo certamente à violência do texto de Saramago, os eleitores italianos deram ao partido dessa "coisa perigosamente parecida com um ser humano [que] manda num país chamado Itália" a maioria dos votos nas eleições de hoje naquele país...
O pior é que não parece ter sido só em Itália que os eleitores se mostraram indiferentes aos valores invocados pelo Nobel português. Como sublinhou Paulo Rangel, essa história da penalização dos partidos do governo é uma treta. Só nos países onde os partidos socialistas chefiam governos é que as eleições para o PE lhes foram desfavoráveis. Nos outros países, governados por partidos de direita, os partidos de governo foram premiados, obtendo vitórias, o que significa, na opinião de Rangel, uma rejeição generalizada das políticas "socialistas".
Será que os povos europeus acreditam mesmo que esta "crise" afinal é resultado de políticas de esquerda...? Ou serão os partidos socialistas que teimam em prosseguir as suas políticas andróginas e pagam depois por isso?
E estará Rangel --o declarado vencedor do grande concurso da "chuva de estrelas" da direita portuguesa-- convencido que os partidos à direita do PS já deixaram de precisar da "lebre" socialista para marcar o ritmo da sua própria corrida?

2009/06/05

Cidadania (4)

No próximo dia 7 de Junho não irei votar para as Eleições Europeias.
Após 13 anos sem exercer o direito de voto, e quando me preparava para gozar do direito a que o novo Cartão de Cidadão "obriga", foi-me dito que o recenseamento encerrou a 8 de Abril, o que impediu a actualização da morada em tempo útil. Castigo de Santo Sócrates que deve ter adivinhado que eu me preparava para votar contra o seu partido. Ficará para Setembro, só que aí o meu voto não contará por dois. É pena, mas quem esperou 13 anos pode esperar três meses...

2009/06/02

Give the fucking money back!

A televisão portuguesa está, desde esta manhã, a transmitir em directo a ocupação do BPP por um grupo de clientes, portugueses e estrangeiros, que se dizem lesados pela administração do banco. Devem ter razão. A avaliar pelas declarações de alguns dos intervenientes, advogado incluido, há mais de seis meses que esperam por uma resposta da administração e do Banco de Portugal sobre as poupanças que ainda não foram devolvidas. O BPP teria oferecido uma solução faseada (em quatro pagamentos) mas os depositantes querem o dinheiro já. Como bem expressou um emigrante português de chapéu à "cowboy": "I want my fucking money, back!". Nem mais. Eu, no lugar dele, diria o mesmo. Ainda não chegámos ao Texas!

2009/05/30

A verdadeira diferença entre o bestial e a besta está nos pequenos actos

Uma notícia de ontem dava conta que o executor (um dos...) de Victor Jara, um tal José Adolfo Marquez, tinha sido localizado e detido no Chile. O homem tem hoje 54 anos e teria à data 18. Obedecia, dizia ele, a ordens de Manuel Contreras, comandante da sua unidade e mais tarde fundador da DINA, a polícia política de Pinochet.

O que terá levado um rapaz de 18 anos, soldado --que confessou o crime, mas agora exige que peçam também contas aos altos comandos-- a disparar sobre o corpo de um cantor, indefeso, que nem sequer a sua guitarra podia tocar, um corpo coberto de sangue, uma massa de ossos partidos?

Num texto admirável sobre os ecos do golpe de Pinochet chamado "Between the Silence and the Screams" (*), Peter Read e Marivic Wyndham, descrevem os momentos finais de Jara. Foi levado da Universidade Tecnica del Estado, juntamente com centenas de outros que aí se reuniram enquanto decorria a tomada do Palácio de La Moneda, para o então chamado Stadium Chile. Juntaram-se-lhes depois os operários das chamadas "cinturas industriais" do Chile. No total estariam detidos no estádio uns 5 000 prisioneiros. Reconhecido por um dos tropas durante a detenção, uma criatura a quem chamavam "Príncipe" (um camarada de armas do Marquez, "alto, louro e simpático"), foi antes levado para um balneário do estádio, agora transformado em câmara de tortura. O "Príncipe" terá "reservado" Jara para si. Quando foi levado finalmente para o relvado do estádio, já mal se podia manter em pé, sangrava e tinha ossos partidos.

"Foi nessa altura", escrevem Read e Wyndham, "que Jara pediu aos seus amigos que lhe arranjassem uma caneta e papel e começou a escrever a sua última canção.

Há cinco mil de nós
Nesta pequena parte da cidade
Há cinco mil de nós
Quantos haverá no total?
Nas cidades e no resto do país...
Só aqui, há dez mil mãos que plantam sementes
E fazem trabalhar as fábricas


Ninguém sabe se ele terminou a canção, mas as suas últimas palavras foram:

O que eu vi, nunca tinha visto
O que senti e sinto
Dará origem ao momento..
.

Jara conseguiu passar o papel aos amigos antes que os guardas o viessem buscar para um último encontro com o "Príncipe" durante o qual foi de novo provocado e espancado. "Canta agora se conseguires filho da puta!" Uma provocação a que Jara respondeu, cantando um verso da canção Venceremos, o hino do Partido de Unidade Popular de Allende. O seu extraordinário acto de temeridade, ouvido por muitos no estádio, provocou ainda mais represálias de grande crueldade. Terá sido nessa altura que o "Príncipe" lhe fracturou os pulsos."

Foi também nessa altura que um oficial jogou roleta russa com Jara e que este Marquez e os outros crivaram o corpo do poeta e cantor com 44 balas. Foi já no relvado para onde foi arrastado, provavelmente antes do crepúsculo, no dia 16 de Setembro, que morreu.

A linha que divide a barbárie da civilização é ténue, mais ténue do que se pensa. A besta revela-se no "príncipe" mais encantado. Lembro-me de, na altura do golpe, ter sentido uma enorme revolta e de ter experimentado uma angustiante sensação de impotência. Hoje, pergunto-me como foi possível algo como o que se passou no Chile ter acontecido. Pergunto-me como é que, depois deste horror, a ocorrência, noutras partes do mundo, de actos bárbaros semelhantes a este tem sido de novo possível. Mas pergunto, acima de tudo, em que pequenos actos, feitos de cobardia, desleixo ou ignorância, deixamos medrar esses actos maiores. O Marquez pode estar em nós próprios...


(*) Hearing Places, Sound Place, Time, Culture - Ed. Ros Bandt, Michelle Duffy e Dolly MacKinnon; foto de Victor e Joan Jara do Freedom Archives.

2009/05/29

Obrigado ERC

A decisão da ERC relativa ao Jornal da Noite da TVI parece aquela história do "pato com laranja" de que alguns se lembrarão. É chocante (profundamente chocante!) a decisão, são chocantes as justificações e os processos da ERC e constituem um verdadeiro escândalo as cínicas declarações de Arons de Carvalho sobre este assunto. A imaginação corre à solta quando se pensa nesta figura a "regular" a pasta da comunicação em tempos anteriores...
Tudo isto cheira a mafia e a trampolinice, e revela claramente os tiques autoritários e fascitóides desta governação "socialista", para além de revelar o grau de "isenção" dessa "entidade reguladora da comunicação" (só o título causa logo um calafrio!).
Ninguém me ensina a ver um telejornal, ninguém me diz o que eu posso ou não posso ver, já tenho um pai que chegue! E digo-vos mesmo mais: nunca fui fã da Manuela Moura Guedes, mas vou passar a ver e ouvir o dito Jornal da Noite religiosamente todos os dias... Pode ser que aprenda com a informação da TVI aquilo que o "rigor" e a "independência" de outros serviços informativos me impedem de conhecer.
Obrigado ERC.

2009/05/26

Da problemática do Ego

Nesta longa e desconcertante saga em que se transformou o caso BPN e a respectiva comissão parlamentar de inquérito, o dia de hoje ficará certamente para a história como o momento "zen" desta investigação. Como não bastassem as amnésias de Dias Loureiro ou os desmentidos de António Marta, surge agora Oliveira e Costa a "pôr a boca no trombone" e a acusar tudo e todos: Victor Constâncio do Banco de Portugal, os "dez accionistas" do BPN, Dias Loureiro (um ego problemático) e, calcule-se, Miguel Cadilhe o qual, de acordo com as declarações do ex-director, ganharia "só" duas vezes e meia mais do que Costa em dez anos (!?). Tudo gente de egos desmedidos. Do dinheiro desaparecido, não se falou. Para onde foram os mais de mil milhões que, entretanto, voaram e levaram o BPN à maior falência fraudulenta da história bancária portuguesa? Essa devia ser, de facto, a questão central.
Tudo indica que as acusações pessoais não acabarão por aqui. Agora que a "caixa" de Pandora foi aberta, é dificil não imaginar uma reacção dos visados à mortal acusação de Costa. Temos de reconhecer: os banqueiros vivem dias dificeis. Com tantos "egos" em disputa, só mesmo uma cura de divã. Um bom negócio para psicanalistas.

2009/05/24

Desenrascanço

Mãos amigas (como sói dizer-se...) fizeram-me chegar a referência de um site cuja leitura atenta parece revelar mais do que a curiosidade, divertida e anódina, poderia indiciar.
Dez palavras, diz o site, que fazem falta na língua inglesa. Por ordem de importância. E a palavra que, segundo os autores do site, mais falta faz na língua inglesa é, imaginem, desenrascanço! Assim mesmo, em português.
Uma qualidade que, sem dúvida, os portugueses sobrevalorizam, mas também subvalorizam.
Foi com base no desenrascanço --mais do que na cartografia, tenho quase a certeza...-- que os portugueses foram levados a desbravar novos territórios. Outras nações, à época mais ricas, com mais gente, maiores recursos, nem sequer o tentaram. Mas, os portugueses, na altura já certamente mestres na arte do desenrascanço, lá foram por aí fora. Não foi a cultura do conhecimento, da reflexão filosófica, a capacidade invulgar de organização ou a queda para o planeamento rigoroso que nos levaram a partir por aí. Foi este desenrascanço que nos conduziu mais longe porque, face ao desconhecido e à ausência de receita para o enfrentar, a capacidade de improviso era certamente a única resposta possível, era mesmo a resposta adequada.
Os portugueses são desenrascados por natureza, vá-se lá saber porquê. Não serão certamente os únicos, mas foram e são aqueles que, em determinado momento, melhor souberam usar essa capacidade.
O desenrascanço terá sido o factor chave que nos fez partir e foi, sobretudo, o método de eleição usado na resolução dos nossos desafios expansionistas. O feito foi inequívoco, mas os resultados finais do esforço ficaram-se pelo medíocre. O desenrascanço serviu-nos para atingir a costa do Malabar e sugar ao infiel os recursos abundantes, enquanto era fácil fazê-lo e o resto da malta andava ainda distraída. Quando se perdeu o efeito surpresa e o empreendimento se tornou mais complexo, exigindo mais organização e planeamento, outros tomaram conta das operações.
O exemplo da cortiça é também eloquente. Não é por acaso que o maior produtor e exportador do mundo de cortiça não tem um único centro de investigação sobre o produto e que o assunto raramente merece as atenções dos académicos. Não é por acaso que os produtos de grande valor acrescentado baseados na cortiça são raros. O ataque dos vedantes sintéticos deixou a indústria corticeira portuguesa com as suas debilidades totalmente à mostra... Enquanto se trata de desenrascar a extracção da cortiça e de produzir umas simples rolhas a coisa ainda vai. Quando o grau de rigor aperta e exige mais organização e menos desenrascanço, a indústria baqueia completamente. Numa área sem concorrência significativa, esta indústria não conseguiu passar da fase do desenrascanço.
É que os portugueses, e sobretudo os seus dirigentes, demonstram ao longo da história gloriosa um horror patológico ao planeamento e à organização. E o desenrascanço é uma espécie de desporto nacional e solução única para todos os nossos problemas. Os portugueses teimam em recorrer a uma solução, o desenrascanço, que serve nalgumas ocasiões, mas parece uma qualidade inútil (ou mesmo contraproducente) noutras.
Neste sentido, esta qualidade é manifestamente sobreavaliada por nós.
Mas, por outro lado, paradoxalmente o "génio" português não parece levar este assunto suficientemente a sério. Não soube nunca tirar partido duradouro deste seu talento e não conseguiu criar um "produto" que incorpore esta qualidade e se distinga pela presença implícita desta qualidade.
O MacGyver devia ser português!
Outros povos sabem valorizar as qualidades que os distinguem. Os alemães são frios pensadores e sabem organizar-se como ninguém. Os suiços são rigorosos e precisos. Os italianos têm um sentido estético sublime. Os espanhóis distinguem-se pela sua bravura e destemor. Os japoneses são exímios na extracção da essência das coisas. Souberam todos transformar essas qualidades em mais valias para a sua vida, souberam exportá-las ou acrescentar esse valor aos produtos por eles criados. Souberam inventar produtos que incorporam essas suas características. Um automóvel alemão ou um relógio suiço não são só parafusos e porcas. Um sapato italiano não é simples couro cosido. Um walkman não é só chips de silício.
Os alemães não são os únicos pensadores, os italianos não são os únicos estetas e os espanhóis não são os únicos bravos. Mas, todos eles conseguem reflectir na sua economia as suas qualidades únicas, que são tão estimáveis como o nosso desenrascanço.
Os portugueses esgotam-se na efemeridade do improviso, e o produto do seu labor desfaz-se antes dessa, digamos, marca de água deixar o seu cunho nos bens tangíveis por si produzidos. Não deixam lastro. Têm uma qualidade única que se perde no seu próprio exercício. Tocam uma espécie de jazz sem escola...
Nesse sentido subavaliam o impacto deste desporto do desenrascanço que tão bem cultivam.
O desafio tem, pois, de ser outro! Estará na altura de apostar na institucionalização a sério do desenrascanço. Está na hora de criar mais valia e enriquecer o país com esta qualidade. Esqueçam as perfeitas patetices que são o Allgarve ou o Portugal: West Coast da Europa, ou a aposta nas "novas tecnologias" como panaceia para os nossos males.
O que precisamos é saber aplicar correctamente a capacidade de desenrascanço portuguesa, institucionalizá-la e transformá-la numa prática sustentada e erudita. Nem que para isso os portugueses tenham que chamar alguém mais organizado para teorizar sobre o desenrascanço e ajudar a estruturar e planear a exploração dessa qualidade sui generis... Saibamos criar uma economia em volta desta nossa qualidade inata, em vez de impôr a criação de qualidades de que não fomos dotados, para servir conceitos económicos lambidos à pressa entre passagens administrativas, como agora se tenta fazer.
Desenrasquemo-nos! Mas, a sério...
Que diabo, até a Cracked Entertainement, editora de publicações de humor e proprietária do site Cracked.com, sendo uma empresa que se leva a sério, reconhece e valoriza perante os seus leitores esta qualidade e lamenta a falta do conceito na língua inglesa... Isto vale ouro meus amigos!