2011/06/21

A incógnita



No céu surgiu hoje, subitamente, à hora da tomada de posse do governo, o X, a incógnita que a foto documenta.
O X da incógnita Cavaco Silva. Depois do discurso absolutamente desastroso e despropositado de hoje, não sabemos nós, nem Passos, o coelho que Cavaco vai tirar da cartola. Fiquei com a dúvida se Cavaco teria assinado na tomada de posse como presidente ou já como primeiro ministro. Uma lástima.
X representa também a incógnita Passos Coelho. A troika, já se sabe, viciou a equação e a margem de manobra é estreita, para não dizer nula. Não contente com isto, Cavaco decidiu dificultar tudo ainda mais com o seu discurso. Confesso que não espero grande coisa de Passos Coelho. Mas não é que o jovem tenor (ainda lhe falta muito para chegar a barítono...) conseguiu, pelo menos em palavras, dar uma resposta que, a mim, causou alguma surpresa. Surpresa logo ampliada com a escolha para a presidência da AR, um remendo mais que airoso para o desastre Nobre.
Cavaco não terá ficado muito agradado com o catarro do Coelho e a troika ficou certamente mais atenta.
Um X no céu de Lisboa...

2011/06/20

Passos perdido...

Quem tinha medo de ficar sem motivo de conversa, agora que Sócrates se prepara para experimentar a cicuta, pode ficar descansado. Passos Coelho sofreu uma clara derrota com este processo da candidatura Nobre a presidente da AR. Derrotada foi a sua ideia e toda a sua estratégia. Derrotada foi a sua argumentação centrada na coerência e na obediência a princípios. Derrotado foi o seu PSD no desenlace deste episódio triste. Uma derrota interna e uma clara derrota também no plano externo, num momento que devia ser de celebração de vitória.
Nada mau para a estreia. Se a condução do país for semelhante à condução deste processo, podemos estar descansados. Estamos bem entregues...
À velocidade a que as coisas correm no momento, em que a vida política vai frenética, mas não segura, e com esta malta em derrapagem ainda antes da posse, há uma coisa certa: não nos vão faltar momentos de excelente entretenimento.

2011/06/18

Um ano sem Saramago

"Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a núvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo...e, já agora, privatize-se a puta que os pariu a todos."

José Saramago in "Cadernos de Lanzarote", Diário III, Pág. 148

2011/06/17

A grande pepineira

A Avenida da Liberdade foi ocupada por uma cadeia de hipermercados com o apoio da municipalidade lisboeta, numa mega manifestação onde também haverá canções pelo ídolo das donas de casa, o incontornável Tony. O fim último deste mega evento, anunciado em "outdoors" espalhados por toda a cidade, é a promoção dos produtos agrícolas nacionais, sendo o remanescente doado a instituições de ajuda social. Os promotores - cadeia de hipermercados e município de Lisboa - anunciam este mega "pic-nic" como um evento de apoio à produção nacional que, em tempo de crise, deve merecer a nossa solidariedade.
Vamos lá ver se eu entendi: Belmiro de Azevedo, dono do "Continente" e apoiante do PSD, promove uma acção de publicidade conjuntamente com o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa do PS, para apoiar os agricultores. Mas, então, não foram estes partidos os responsáveis pelos acordos do PAC de 1992, que estão na origem na destruição da nossa agricultura, obrigando-nos a importar 60% daquilo que consumimos? Devem estar a brincar connosco...

2011/06/15

A Chapelada

José Lello, personagem por quem não nutro qualquer simpatia, pronunciou-se negativamente sobre a validação dos votos dos emigrantes recolhidos por um jornal do Rio de Janeiro. Os votos foram colectados por um jornal que fazia propaganda aberta pela candidatura do PSD e, posteriormente, enviados num contentor para Portugal a expensas do jornal em causa.
Na opinião do deputado do PS pela emigração, o Presidente da República devia impugnar a validação destes votos. Não posso estar mais de acordo. Para chapeladas já bastam as do antigo regime. Se estes votos forem validados, o descrédito de Cavaco só aumentará. Ele, que no dia das eleições, veio pronunciar-se sobre os eleitores fantasmas das listas eleitorais. Haja vergonha!

Liberdades

Enquanto na Grécia o fogo alastra (veja aqui, aqui, aqui e aqui) e em Espanha alastra o fogo —com os Indignados e agora com a "Plataforma de Afectados por la Hipoteca"— (veja aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), em Portugal sua Excelência o PR acaba de indigitar o dr. Passos Coelho para Primeiro Ministro da  República, enquanto Nuno Gomes termina contrato com o Benfica e anuncia, em comunicado, que é um jogador livre.

2011/06/07

Jorge Semprún (1923-2011)

"Este hacinamiento de cuerpos en el vagón, este punzante dolor en la rodilla derecha. Dias, noches. Hago un esfuerzo e intento contar los dias, contar las noches. Tal vez esto me ayude a ver claro. Cuatro dias, cinco noches. Pero habré contado mal, o es que hay dias que se han convertido en noches. Me sobran noches; noches de saldo. Una mañana, claro está, fue una mañana cuando comenzó este viaje"

El Largo Viaje (1963)

2011/06/06

O dia seguinte

Não constituiram propriamente uma surpresa os resultados das eleições. A direita, no seu conjunto, ganhou; a esquerda, no seu conjunto, perdeu. Nada que as sondagens não tivessem previsto. Também a abstenção foi, mais uma vez, alta. Mas, ao contrário dos números avançados (41%) a verdadeira abstenção deve ter sido bem mais baixa. É fácil fazer as contas: Portugal tem 10.6 milhões de habitantes e mais de 9 milhões eleitores inscritos. Ora cerca de 2.5 milhões têm menos de 18 anos (não votaram) e calcula-se que haverá 750.000 eleitores "fantasmas" nas listas, que também não podiam votar. Logo, o número real de votantes deve andar à volta dos 8 milhões, pelo que a verdadeira abstenção deve ter sido abaixo dos 30%, uma percentagem bastante aceitável em termos europeus. Ninguém fala nisto.
A vitória da direita é, antes demais, uma derrota da esquerda. Desde logo, porque o PS ao seguir uma política pragmática (desideologização do partido) se afastou dos seus ideais programáticos, coisa que Sócrates nunca teve; depois, porque o BE, com tantos zigue-zagues (apoio a Alegre, moção de censura fora de tempo e recusa em encontrar-se com a delegação do FMI) acabou por hipotecar a confiança que os eleitores lhe tinham dado em 2009. Resta saber para onde foram os votos da esquerda. Provavelmente, os votos do BE foram para o PS (voto útil) e os votos do PS foram para o PSD (contra Sócrates). Outra hipótese é os votantes do BE e do PS terem optado pela abstenção.
De qualquer das formas, foram os erros da esquerda que ditaram a vitória da direita. Será a direita a governar agora, mas (independentemente do governo que se segue) as políticas seguidas serão sempre as do Memorando da "troika". É este o verdadeiro programa de governo.

2011/06/04

Sobre a estupidez e os espasmos da máquina alemã

Dois artigos que se cruzaram, por acaso, na edição de hoje do Público. Afinal acabam a cumprimentar-se (1). Paulo Varela Gomes reflecte sobre a estupidez. Na ciência, opina, é preciso ser-se, ou fazer-se um bocado estúpido, e explica porquê. "É evidente que a estupidez científica", diz, " é útil para impedir que se tirem conclusões precipitadas ou se generalize abusivamente (...) Para o bem ou para o mal, sem estupidez não há ciência."
A "estupidez" de que fala, em tom crítico, mas certeiro, Paulo Varela Gomes é uma outra forma de colocar a velha questão da pergunta científica (2).
Fernando Mora Ramos, noutro ponto do Público fala dos pepinos. "Uma bactéria no interior de pepinos espanhóis lança a morte entre os alemães", mas, argumenta, "é antiga a facilidade com que se encontra um bode expiatório a sul."
A verdade é que os austeros alemães, trabalhadores organizados, sólidos, dedicados, precisos, enganaram-se.
Pode-se argumentar: esta generalização é, como todas, abusiva. Mas, pode-se também especular: será que os alemães não foram sequer suficientemente estúpidos? Pode-se argumentar: ter-se-ão mostrado incapazes de formular a pergunta? Estranho, quando se observa a sua tradição e o seu progresso científico.
Ou terão os alemães afinal sido suficientemente estúpidos, mas, como bem diz o Paulo Varela Gomes, com aquela "estupidez científica [que] vem servir de suporte à estupidez (ou conveniência) política e social de quem não deseja outro futuro que não o da imbecilidade colectiva?"
Doravante podemos perguntar: serão ou não os alemães suficientemente estúpidos para podermos neles confiar? A dúvida está instalada e a suspeita de que a máquina alemã não é tão fiável como nos querem fazer supor é perfeitamente legítima. Só um estúpido é que não vê.


(1) Não tenho links; quem quiser ler terá de comprar o periódico.
(2) Sobre isto aproveito para aconselhar a audição desta entrevista de António Coutinho no programa "Quinta Essência" de ontem na Antena 2. Vale mesmo a pena ouvir toda a entrevista, sobretudo no que se refere a esta questão da tal pergunta. A incapacidade colectiva de a formular, a falta de uma cultura de formulação da pergunta (a falta de uma certa cultura de estupidez, por assim dizer...)  é, quanto a mim, a causa de todos os nossos males.

Reflexão

O voto útil só é útil para quem o recebe. A reflexão não é minha, mas (diz-se) do catedrático jubilado Adriano Moreira. Esse mesmo, o ex-ministro do Ultramar de Salazar. Ele sabe do que fala. Estou de acordo. E mais não digo.

2011/06/02

Um coelho com chinelo, mas sem cartola

Estas eleições trouxeram uma novidade: assistimos ao lançamento do jovem tenor Coelho na ribalta política. Com aquela fogosidade e ingenuidade que têm os jovens tenores, Coelho vai repetindo que não irá mandar no Estado, não irá controlar a política, os políticos, os partidos, servir clientelas. Decerto... Barões e baronesas olham para ele, embevecidos, enquanto o ouvem. "Nem sabes quão verdade é tudo isso que dizes", pensarão, enquanto mostram o sorriso de circunstância e anuem suavemente com a cabeça.
O que vai então fazer Coelho? Se, com o PS, o país está debaixo da lógica da mãozinha, ao serviço das suas clientelas e dos seus (muitos) bonzos, com o PSD estará debaixo da lógica da setinha, das suas clientelas, dos seus (muitos) bonzos, mas também das suas contínuas cólicas. Concessa venia troikis, que eles não podem sair daqui sem o seu.
Passos Coelho trouxe para o PSD a mais valia de se prestar a fazer o papel de bostik, juntando,  temporariamente, os cacos de um partido que estava em risco real de total extinção. E lá vai ele colando, colando até que a voz lhe doa. Passos Coelho parece-me não passar de um testa de ferro de umas quantas figuras que devem ter feito um derradeiro e monumental esforço para que o PSD não fosse empurrado para o Parque Jurássico da política portuguesa, deixando com isso uma data de gente aflita e de malas aviadas para se mudar para o PS ou para o CDS.
A Passos Coelho não se lhe conhece uma ideia, um pensamento doutrinário, uma visão estratégica. Não se lhe adivinha dimensão escondida, sentido de orientação, arcaboiço intercostal. Apenas aquela disponibilidade naive e aquela atitude voluntariosa, tipo escuteiro, para levar, cantando e rindo, a tarefa de que os seus maiores o incumbiram adiante. Tintin em Massamá.

Uma dúvida que me tem assaltado nestes últimos tempos é esta: o que ganham os partidos do "arco" ao quererem ocupar o poder neste momento? Como se poderão rever no papel de comissão liquidatária, de amanuenses da troika? Bom, para além do facto, não despiciendo, de terem, como comissão liquidatária, um ordenado simpático neste país de desemprego, restam razões de natureza privada.
O PS, parece-me lógico, quer tapar o descalabro em que lançou o país e evitar com isso ser castigado e sofrer uma maldição semelhante à que Bella Gutman lançou sobre o clube da rodinha de bicicleta! Num país a sério o PS ia a tribunal de guerra.
O CDS, na sua lógica de partido de aluguer, quer ter sempre, pelo menos, uma nádega nas cadeiras do poder para não obrigar a clientela a ter de abrir mais casas de comida a peso na Avenida de Roma e imediações. Num país a sério o CDS teria um parlor no Intendente, não uma sede no Caldas.
E o PSD? O que raio quer o PSD? O que raio poderá querer o PSD? Quando está no poder desata sempre naquele exercício de auto-mutilação, tão patético e confrangedor que inevitavelmente reconduz o PS. Porquê então esta corrida, agora neste momento, politicamente tão desfavorável?
Só é possível perceber o PSD numa lógica de simples preservação da espécie, em real via de extinção. O comité de barões terá reunido e determinado que era agora ou nunca. Era preservar as tartarugas nas Galápagos ou os laranjas em S. Caetano. Optaram pelos laranjas, está feito. Na falta de um desígnio para o país, na falta de uma ideologia, de um simples projecto, este part-time de entrega das encomendas da troika serve para dar sentido ao PSD, para apontar o rumo que lhe faltava, para reunir as hostes desavindas. Há para aí muita encomenda para entregar, muito selo para colar, muito registo para fazer. E ainda nem chegámos ao Natal!
Metido num chinelo, Coelho, precário a recibo laranja, vai preparando a fardeta de paquete e dando na bostik. É isto que o PSD espera dele e quem somos nós para esperar mais?
A menos que Coelho se tire a si próprio da cartola, o que me parece uma contradição aparentemente insanável, logo, um truque altamente improvável.

Escolhas (a notícia boa e a notícia má)

A acreditar nos barómetros diários das diversas empresas de sondagens, o PSD já "descolou" do PS e só um cataclismo evitará a derrota dos socialistas. É certo que mais de 20% dos inquiridos continua "indeciso" e pode nem sequer votar. O que atiraria a percentagen dos votos nulos para uma fasquia de 40%. Mas, independentemente da contagem final, esta não deve afastar-se muito de um cenário em que a direita no seu conjunto (PSD+CDS) terá a maioria no parlamento. O que quer dizer que será um governo de direita a aplicar o programa da "troika".
Seria diferente se fosse o PS a ganhar as eleições? Não necessariamente. O PS não ganharia com maioria absoluta e nunca se aliaria aos partidos á sua esquerda. Na melhor das hipóteses, se o PS ganhasse as eleições, era obrigado a fazer uma coligação com a direita para poder governar.
Em qualquer dos cenários, o programa aplicado será sempre o do FMI. Resta saber se será a versão do Memorando 1 ou a do Memorando 2. Em caso de dúvida, a tradução portuguesa dos documentos é clara: o texto inglês é o oficial. Aquele que diz que a mudança de fundo é uma "major reduction".
Resumindo: nestas eleições há duas notícias, uma boa e uma má. A boa é que nos vemos livres de Sócrates. A má é que seremos governados por Passos Coelho. Logo, não é escolha votar em qualquer deles.

2011/05/31

O choque fiscal

Ontem foi dia de IRS. Um ritual de Maio, que tento resolver todos os anos, através da NET, sem sucesso. Após várias tentativas frustradas para aceder à página da Declaração, dou-me por vencido e rumo em direcção à Loja do Cidadão mais próxima. Ao tentar apanhar o comboio para o Rossio, percebo que havia uma greve da CP. Tento o táxi e o metro e, meia-hora mais tarde, estou nos Restauradores. Aí esperava-me a terceira surpresa do dia: o sistema estava com falhas técnicas e o tempo de espera podia chegar a duas horas. Há dias em que não devemos sair de casa...
Porque nestas coisas há que ser criativo, depois de tirar uma senha resolvi sair do edifício e ir à estação dos correios no outro lado da praça pôr uma encomenda. Mais uma senha e meia hora de espera. Num balcão de seis "guichets", apenas três funcionários trabalhavam.
Volto à Loja do Cidadão, onde aguardo mais uma hora. Aproveito para terminar "O complexo de Portnoy" de Philip Roth, um livro que recomendo em filas de espera.
Finalmente sou atendido. A funcionária preenche a declaração e entrega-me uma simulação da quantia que devo receber. De mal a menos...
Volto ao Rossio. Milhares de passageiros aguardam nas plataformas por um comboio que não vai chegar. O "segurança" de serviço repete em voz monótona a mesma notícia: não haverá comboios antes das 20.34h da noite. São 19h e opto por apanhar o metro e um táxi para voltar para casa. Perdi cinco horas para entregar uma declaração de impostos que leva 5 minutos a preencher.
Nas notícias desta manhã, ouço os funcionários da DGI pedir alargamento do prazo de entrega, única forma de processar o meio milhão de declarações de IRS e IRC em falta.
Os técnicos do FMI não sabem no que se meteram...

2011/05/30

O Lobo Mau - TSF

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2011/05/26

Os abortos

O país, já se sabe, está como está. Todos o sentimos e todos nos interrogamos como é possível tudo isto acontecer e todos nos angustiamos com isso. Os alertas sobre o que se está a passar são constantes, vêm de dentro e de fora. Os dados são arrasadores. Enquanto isso, fenómeno peculiar, a caravana eleitoral ladra.
Uma artigo de Manuel M. Carrilho faz o elenco dos temas ausentes desta "campanha". São muitos. Um outro artigo de Álvaro S. Pereira desenha as ilustrações da crise. Acompanha bem a leitura do artigo de Carrilho. Mas, vendo a campanha eleitoral, somos levados a concluir que não se passa nada. Os problemas verdadeiros do país estão totalmente ausentes. Há uma angústia generalizada, há um país real que sofre e se interroga, e há um outro, feito desta minoria de imbecis que gere a política do país, que passa ao lado de todo este sofrimento. As instituições políticas vivem de costas totalmente voltadas para o povo. Já nem sequer disfarçam, perderam a vergonha e o pudor. A política faz-se, perigosamente, muito já do lado de fora dessas instituições.
Quem esteja minimamente (minimamente!) atento não pode deixar de se sentir nauseado com tudo o que vê à sua volta.
Como se tudo isto não bastasse, do menu proposto para resolver os problemas em que estamos neste momento envolvidos, constam tão somente dois pratos: um de "peste" e outro de "cólera", para citar uma ideia do dito artigo do M. M. Carrilho. O Rui Tavares colocou o problema que enfrentamos neste momento de uma forma, quanto a mim, notável neste seu artigo de ontem do Público. Estamos de facto perante duas catástrofes.
E, neste clima de tornados e terramotos, vem o tsunami: Passos Coelho volta à carga com mais um daqueles temas de campanha de que só ele e a sua entourage se haviam de lembrar: a lei do aborto! Que, não-sei-quê, temos de rever a lei, que admite um novo referendo, que talvez tenhamos ido longe demais, rebéubéu-treco-lareco... Um tema que vai certamente mobilizar entusiasticamente os mais de 700 000 desempregados, os milhares de velhos que levaram mais uma dentada nas suas pensões já trincadas ou o exército de jovens que, em busca das suas portas do sol, anda a ver como há-de dar o salto daqui para fora. O salto de novo.
O aborto é um tema que mostra bem o que valem os problemas do país para o seu autor e as ideias que tem para os resolver. E é um tema que mostra também, pela resposta mais ou menos séria que mereceu das restantes forças políticas, o que toda esta gente pensa de nós e do papel que julgam caber-lhes na condução da política do país.
Mas, eu também tenho opinião sobre eles. Acho que a lei do aborto peca por defeito ao não prever a eliminação sem apelo nem agravo, gratuita e universal, de uns quantos abortos vivos e satisfeitos com esta sua condição, que por desgraça nos caíram no prato da sopa.

A personificação do mal

A acreditar nas notícias que correm em roda-pé nos principais noticiários televisivos, teria sido detido hoje o sérvio Ratko Mladic. Para quem esqueceu, Mladic foi o chefe do exército sérvio durante a guerra da Bósnia (1992-1995) e o principal responsável pelo massacre de Srebrenica, em Julho de 1995. Na altura, foram mortos cerca de 8000 bósnios muçulmanos, naquele que é considerado o maior genocídio na Europa desde a II Guerra Mundial. Desde os anos noventa que se especulava sobre o seu paradeiro.
Protegido pelo exército e populações sérvias, Mladic era de há muito procurado pela comunidade internacional, que exigia o seu julgamento no Tribunal Penal Internacional de Haia. Ainda recentemente, o programa "Toda a verdade" (BBC) recuperou este tema, num excelente documentário que seguia a pista de Mladic em território sérvio.
Com a prisão de Mladic, encerra-se assim o primeiro capítulo desta saga, que só terminará com o julgamento e condenação daquele que é apelidado do "carniceiro dos balcãs". O Mundo está mais seguro.

2011/05/25

O comboio fantasma

Com a campanha eleitoral na estrada começaram os "soundbites" do costume. De todos, os mais originais têm sido os do PSD.
Depois de Catroga ter comparado Sócrates a Hitler, tivemos Morais Sarmento, que o comparou a Sadam Hussein. Não contente com os exemplos, Arnaut comparou Sócrates a Drácula. Não é de admirar que Passos Coelho, na sua intervenção final, acabasse por alertar o eleitorado para o pesadelo que estavámos a viver...
A avaliar pelos epítetos escolhidos, a caravana "laranja" tornou-se um verdadeiro comboio-fantasma. Esta gente mete medo!

2011/05/24

Bob Dylan, 70 anos: The times they need a changin' ...

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.

E a Grécia aqui tão perto...

Como vem sendo relatado, de há um ano a esta parte, a intervenção financeira do FMI na Grécia não tem sido propriamente um sucesso. Os "pacotes" impostos (os PEC's gregos) e as "tranches" trimestrais (os empréstimos externos) não chegam para estancar a dívida grega e o consequente endividamento que não pára de crescer. À medida que a dívida cresce, mais empréstimos vão sendo necessários e, por consequência, maior é a dependência grega do exterior. Um ciclo infernal que não tem fim à vista e que levou ontem Papandreou a anunciar que, se a próxima "tranche" não chegar até Junho, o país entrará em bancarrota. Enquanto isso, a Fitch veio baixar o "rating" da Bélgica (que tem uma dívida externa superior à portuguesa) o que coloca o país no grupo das economias em risco, a par da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, os "pigs" de serviço.
Reagindo perante a hipótese da renegociação da dívida grega, o senhor Rompuy (aquele belga com cara de banda desenhada) já veio dizer que renegociar a dívida era pôr o Euro em perigo.
Resta citar Paul Krugman, o nobel de economia, que hoje mesmo reitera a sua opinião de "expert", para nos dizer que Portugal, como a Grécia ou a Irlanda, não tem capacidade de pagar a dívida e que esta deve ser renegociada enquanto é tempo.
Perante este cenário, alguém ainda acredita que vamos resolver os nossos problemas com o programa da "troika" em Portugal?

2011/05/18

Sem nova oportunidade

Este caso das "novas oportunidades" é bem o espelho do estado a que tudo isto chegou. O governo lembra-se de criar um sistema para valorizar academicamente as competências das pessoas, requalificá-las ou completar a sua formação de base. Em todo o mundo, onde a estas coisas é dada atenção devida, a formação continuada é fomentada e facilitada. E só em Portugal se não reconhece e valoriza a experiência de vida dando-lhe o devido enquadramento, sem preconceitos. Por outro lado, não combater o abandono escolar, não promover e valorizar a formação continuada, devia ser considerado crime. Só um asno pára de estudar por preguiça ou porque "terminou" a sua formação e pensa que já está "arrumado". E os responsáveis que pactuam com isto deviam ser exibidos, pendurados pelos pés de cabeça para baixo aos candeeiros de iluminação pública.
Não tenho conhecimentos que me permitam avaliar, com rigor científico, se esta coisa das "novas oportunidades" foi ou não uma iniciativa válida, de que o país no seu conjunto e cada um dos novos oportunistas possam verdadeiramente beneficiar. Confesso que quando ouvi falar dela me ocorreu que se estava a tratar de dar oportunidades a pessoas que tivessem obtido os seus cursos por meio de prestações de provas feitas ao domingo, por fax, e a validar diplomas obtidos em saldo, mas quem sou eu...? É verdade, esta é, seguramente, uma iniciativa tão confusa como o seu sítio na internet.
Mas, o seu mérito ou demérito têm de ser avaliados de forma rigorosa, em seu tempo e na sua sede própria, sem ser em tom de conversa de café, e, sobretudo, nunca no calor da refrega eleitoral (ou o que quer que seja que se está a passar em Portugal), porque o assunto é sério, a iniciativa bule com muita gente e diz respeito a matérias de inequívoco interesse nacional. Uma posição responsável exige, pois, cuidado.
O certo é que, segundo os dados divulgados, cerca de meio milhão de portugueses terá estado envolvido num qualquer nível desta iniciativa.
Pois o PSD vem agora levantar a questão do mérito deste programa. Agora?! Desta forma?
Diz um tipo qualquer das hostes social-democratas que o engenheiro Sócrates distribui diplomas para ganhar votos. E aqui está o problema. Será isto uma "crítica" fiável e responsável? E pensará este tipo que vai ganhar algum daqueles cerca de 500 000 votos ao levantar esta questão deste modo?! Qual é o mérito desta crítica feita então neste momento e desta forma? O porta voz da crítica até era deputado; o que terá ele andado verdadeiramente a fazer este tempo todo? É isto a "alternativa"? Ou a crítica de agora serve para mascarar ou apagar incúrias passadas?
O programa "Novas Oportunidades" foi criado pelo governo de Durão Barroso. Estará ele abrangido na "crítica" do PSD?
Ouço imensa gente que diz estar disposta a "engolir sapos" para apear o primeiro ministro. Parecia fácil. Deveria ser fácil. O país exigia que fosse fácil. Mas, ouço ainda mais gente confusa e indecisa sobre o sentido do seu voto, apavorada com as "alternativas". Não há dia nenhum em que o Coelho e a sua coelhada não exibam mais um traço negativo das suas qualidades. Sócrates conseguiu disfarçar os seus durante bastante tempo, mas este nem isso consegue fazer. Não admira que o Portas mantenha marcação apertada à coelhada. É claro que é um tipo tão cheio de si que está convencido de que a simples ideia de ser primeiro ministro não nos faz rebolar de riso. Mas isso é outra questão...

2011/05/16

O pentelo e o De

Era um Pentelho solitário e era uma vez. E veio o acordo ortográfico e não sabia por onde pegar quando deu com ele fora do rebanho, pois não é crime a solidão. Que fazer, ordenava o acordo um acto, obrigando a mudar o que estava, por obrigação. A ASAE das palavras hesitava entre pôr-lhe o I – no E de Pe - ou tirar-lhe o H - do LH. O inspector que estava diante de Pentelho era amigo do especulador Catroga mas nada dissera quando este desvalorizara o estatuto do Pentelho, mas ficara a remoer, assunto dele, melhor, seu pelouro, e ele, o Catroga remete-o para a insignificância do que é pequeno mas, além disso, irrelevante, tal como ser mais um qualquer grão de areia mesmo que de uma duna numa reserva natural, dunar.
E o Pentelho que muito queria ao E meteu cunha para que fosse o H a ir-se, pois com o L isolado, sem H contíguo, poderia enobrecer-se, não como com um DR., ao modo antigo, antes do nome – Dr. Pentelho - mas como Pentelo apenas, que soa a qualquer coisa que ascende, como se caindo o H isso reverberasse com qualquer coisa como poder vir a ser o Marquês de Pentelo – muito melhor que assessor político do Engenheiro, nobilitado muito mais do que de toga no nome pela via assessorante.
Ser marquês De Pentelo, a capital da Pentelheira – no século XIX Piolheira, no caso o nome da coisa designava o habitante da Pentelheira - cidade das pentelhas mais lindas do mundo globalizado das pentelheiras, tudo online claro, seria estar no Top social, alvo potencial das invejas sociais generalizadas de todos os que apanharam o ascensor social pela via do cargo, da sigla e das costas viradas à matriz – brenhas, vulgo - com o brasão do BCP ou do BPN ou do BPP, ou do PP ou do BPSD, ou do BPS na linha do horizonte.
Mas o Inspector da ASAE das palavras estava zangado com o modo como o Catroga tratara este vocábulo, descriminando-o, um vocábulo que apesar de tudo tem o seu charme e é de uma zona crítico/erótica, de crescimentos vários, e resolveu premiá-lo com uma excepção à regra: de ora em diante serás PenteLo com um De antes, tal como o A. Santos da Guarda cujo pai alfaiate nunca tivera um De antes do A., De A. Santos, coisa que o mesmo A. Santos, o filho do alfaiate da burguesia da Guarda, outra cidade da Pentelheira que está num ilustre alto, o mais alto dos altos, fez para ser do Estoril e ser cumprimentado pelo Duque De Cravinho na tasca dos jornais antes de ir à bica ou de suar na rotina do jogging socrático.
E o pentelho, agora De PenteLo, seguiu feliz para o seu rebanho. Isolara-se porque fora recusado pela Pentelha do lado que não o deixara encaracolar-se nela. Ela, no regresso dele, quando deu pelo De mais o L sem o H, enrolou-se nele, melhor ainda, enroscou-se nele e empentelharam-se os dois com alegria num nó cego de amor interminável, verdadeiras trepadeiras num abraço de uma reciprocidade lânguida e dinâmica, como faz falta à Crise. E é por isso que nalguns casos o acordo ortográfico aumenta as sílabas e não as diminui e foram felizes para sempre enquanto durou, protagonistas de um momento específico, caso raro de crescimento silabar, em plena Crise, justamente aquilo que dizem que só as exportações e os bens transaccionáveis podem viabilizar numa lógica globalmente alavancada.

2011/05/15

Pentelhos e Coelhos

Enquanto os Leites, Ferreiras e Nogueiras, peroram, o Jardim poncha, o Marcello recadeia, o Durão amolece lá ao longe, o Cavaco se prepara para gozar dos rendimentos, o Santana continua por aí, o Menezes manda recados lá do norte, o Relvas apara os golpes, o Rangel homilia, Macedos e Frasquilhos têm dias, a Teixeira da Cruz se mostra consoante muda e o Arnaut se revela vogal surda, sim, enquanto isso, o PS sobe nas sondagens e o Catroga acha, com toda a legitimidade, que andam todos a discutir pentelhos.  Na realidade deviam andar a discutir Coelhos, essa variedade capilar nunca devidamente glosada...

Inside job 2

A notícia da detenção do director do FMI, por alegada tentativa de violação de uma empregada num hotel novo-iorquino, não sendo um "unicum" no currículo de Strauss-Kahn (anteriormente condenado por assédio sexual de uma assistente) é demasiado grave para passar em claro. Desde logo pelas repercussões que este caso terá em França, onde Strauss era apontado como um potencial candidato à presidência francesa, mas também em relação à instituição que preside, da qual terá, obviamente, de se demitir.
Não deixa de ser irónico que o FMI, uma organização conhecida por reformas violadoras da soberania financeira dos países que supostamente "ajuda", tenha à sua frente um CEO "violador". É caso para dizer que o "trabalho sujo" começa a ser feito dentro de casa.