2018/09/20

Taxi Driver (15)


2º dia de greve dos taxistas de Lisboa.
São 10h da manhã. Passo pela praça de táxis do bairro, deserta àquela hora.
Pára um táxi. O motorista abre o vidro e pergunta:
- Para onde vai?
Para Sete-Rios, respondo.
- Está bem, pode entrar...
Então, não está em greve?
- Estou e não estou...se fosse para a Baixa não ia, está para lá uma confusão dos diabos...
Pois deve estar e vai continuar, ao que percebi.
- Sim, são capazes de lá ficar o dia inteiro, mas isto não vai dar em nada...
Não? Então?
- Não vai dar em nada, porque há muitos interesses à mistura e há governantes metidos nisto.
Não me admirava nada...
- Olhe, o dono da Uber é o marido da Cristas, a filha do ministro do ambiente tem uma frota de 20 carros na Uber e até há donos de empresas de táxis que têm carros na Uber...Como é que isto pode dar resultado? Não viu o tempo que levaram a aprovar esta lei? Há dois anos que andam a discuti-la e só em Novembro é que vai ser promulgada. Claro que isto deve interessar a alguém...
Sim, há sempre interesses e "lobbies" pelo meio, já sabemos...
- Claro que há. E agora já não é só a Uber, entretanto apareceram mais duas empresas, a Cabify e uma francesa. Isto não pára...
Mas também existem noutros países...
- Pois existem, mas foram proibidas noutros. Ouça, os motoristas de táxi não são contra a Uber, apenas querem ser tratados de forma igual: mesmos direitos e obrigações. Eles podem circular desde que observem as mesmas regras: têm de pagar impostos, estacionar nas mesmas praças e fazerem cursos como nós fazemos. E devem ser estabelecidos máximos no número de viaturas...
As pessoas pensam que pagam menos indo com a Uber, mas não é verdade. Ainda esta semana apanhei uma senhora que me disse que foi a Cascais num carro da Uber, em tarifa dinâmica, e só pagou 40 euros. E eu disse-lhe que se tivesse ido de táxi, pagava 30! Porque no táxi só pagava o que o táximetro marcasse e indo com a tarifa dinâmica na Uber, esta cobra pela prioridade no serviço. Quanto mais serviços têm, mais os preços sobem... 
Estou de acordo, a legislação tem de ser mais apertada. Já há cidades que impuseram regras, como Barcelona, Copenhague e Berlim. A Uber não aceitou as condições e foi-se embora...
- Está a ver? É isso que os nossos governantes têm medo de fazer...está tudo "armadilhado"...
E quanto tempo é que pensa que este "braço de ferro" vai durar?
- Nunca se sabe, pode durar dias ou acabar já hoje, mas há carros a trabalhar...o problema é da legislação. Se houver regras é mais fácil para toda a gente. Já viu os "tuc-tucs"?
Os "tuc-tucs"?
- Sim, os "tuc-tucs". Não havia legislação e começaram a aparecer por todo o lado. Eram 200 e já são quase 600! A ideia inicial era haver 20 ou 30, que iam aos sítios onde os táxis não podem ir, como os castelos, miradouros e tal, mas agora andam por todo o lado. Até ao Cristo-Rei já vão!
Ao Cristo-Rei? Mas, podem passar na ponte?
- Podem, porque são motores com mais de 125cc.
Essa nunca tinha ouvido...
- Vale tudo. Com os protestos, a Câmara ainda fez uma lei para acabar com os motores a gasolina, por causa da poluição. Agora só com motores eléctricos. Mas, continuam a empatar o trânsito, a não pagarem impostos, não têm táximetros, fazem o preço que querem e exploram os turistas que nunca sabem quanto pagam no fim a corrida. A maior parte deles, nem as ruas de Lisboa conhecem...
Pois não, já não falando das informações erradas que dão, pois não têm formação.
- Qual formação, qual quê! Eu bem os vejo em Sintra. Vim de lá agora. Os táxis deixaram de ir ao Palácio, pois só ganham 5euros e eles vão lá cima por 5 euros por passageiro. Levam 6, são 30 euros. Trazem 6 para baixo, são mais 30 euros. Ao fim do dia, imagine quanto dinheiro é que ganham.
Imagino, imagino...
- É como lhe digo, não há lei nem roque nesta cidade...mas, isto não vai dar nada...
Bom, ficamos por aqui. Tenho de ir comprar bilhetes de comboio. E amanhã, já há táxis? Tenho de ir para o estrangeiro...
- Há, desde que não seja para o centro da cidade. Para o aeroporto já está tudo a funcionar.
Estou a ver. Continuação de boa luta!




2018/09/18

Sevilha: Bienal de Flamenco


Está de volta a Bienal de Flamenco, a mais importante celebração musical do género, com lugar marcado na cidade de Sevilha, em anos pares, desde 1980.
Na sua 20ª edição, a decorrer entre 6 e 30 deste mês, lugar para as diversas formas da "arte" (cante, toque e baile) que inclui o flamenco mais clássico (cante "jondo"), o flamenco menos tradicional (cante "chico") e o flamenco moderno, nas suas diversas formas de fusão.
Não fora a distância e o preço dos espectáculos pagos (pormenor não despiciente) e estaríamos lá todos os dias. Acresce que, para além do programa oficial, a autarquia oferece diariamente pequenas actuações de canto e dança, nos lugares menos previsíveis, como praças, jardins, pátios, clubes e peñas flamencas. Uma oportunidade para assistir à abertura, este ano junto à ponte de Triana, com um "flashmob" ensaiado por dezenas de aficionados, que dançaram ao som de uma "buleria" transmitida pela aparelhagem sonora do evento. Seguiu-se o "pregón" (pregão), um encadeado de pregões tradicionais, um "palo" em si mesmo nas palavras de Tomás de Perrate, cantados à capella por este histórico do "cante", que contribuiu para o primeiro momento de magia da noite. O ponto alto da abertura, viria a seguir, com o desfile "no sin mi bata", uma coreografia da "bailaora" La Choni, que, depois da atravessar a ponte de Triana, terminaria no bairro do mesmo nome, com uma "buleria" contagiante. Um fartote, que envolveu grande parte dos locais e de turistas, que se deslocam expressamente de outros pontos de Espanha e do estrangeiro, para assistirem a este momento único de celebração.

Com tanta coisa boa para ver, a escolha era difícil e nem sempre possível dado que alguns dos espectáculos esgotam com meses de antecedência. Foi o caso de Carmen Linares, a maior voz feminina do flamenco actual, que apresentava, em estreia, o concerto "Romances: entre Oriente y Occidente", um projecto em colaboração com Ghadis Benali Y Ensemble, onde se misturam influências musicais do Al Andalus.
Porque as alternativas eram muitas, o critério seguido foi o de ver nomes conhecidos, que nunca tivéssemos presenciado ao vivo. Neste lote, estava o bailarino e coreógrafo Israel Galván, hoje um dos nomes maiores da dança flamenca, presente na Bienal com dois espectáculos, dos quais o mais importante (Arena) teve lugar na histórica praça de touros "La Maestranza". Trata-se de uma adaptação do espectáculo com o mesmo nome, estreado em 2004, que contava com a participação de Enrique Morente. A nova versão, adaptada ao recinto e encomendada pela Bienal, segue o roteiro original (6 quadros, correspondentes a outras tantas "lides") em que Galván incarna o touro e o toureiro alternadamente, num espectáculo de rara beleza plástica, no qual, o dramatismo expresso na arena, é magnificamente sublinhado pelo canto de Kiki Morente (filho de Enrique) e pelos restantes intérpretes: desde logo, Galván, um génio, que não desdenha inovar  com a ousadia que só os criadores de excepção podem permitir-se, mas também os restantes "bailaores" e a "brassband", sempre presente na arena, para além de El Niño de Elche, um transgressor do flamenco que, para além de cantar, recita poemas clássicos espanhóis, adaptados aos dias de hoje. Brutal, El Niño! Uma última palavra, para o som e luz, de recorte magnífico, em condições verdadeiramente adversas (uma praça de touros descomunal) em que nunca nos sentimos deslocados, pese a nossa aversão a touradas.
O terceiro espectáculo, desta primeira série, teve lugar no Hotel Triana, um "corral de vecinos" em forma de "U", onde decorrem vários espectáculos da Bienal, que podem ser presenciados pelos moradores a partir das suas próprias casas. Ambiente efervescente e praticamente esgotado, com direito a serviço de bar, numa organização impecável. Pormenor curioso: a exemplo da sessão na "Maestranza", a sessão iniciou-se com as habituais recomendações sobre o uso e proibição de gravação e fotografias em espanhol, inglês e...japonês! A razão é simples: o Flamenco é uma "rage" no Japão e anualmente milhares de potenciais "bailaoras", passam meses em Sevilha, para aprenderem os segredos da dança. Lá estavam elas, todas vestidas a rigor, de trajes "lunares" e mantilhas locais.

O programa, intitulado "Lebrija, Luna Nueva", era promissor e não defraudou as expectativas: Inês Bacán (uma histórica do "cante") acompanhada do irmão Juan Bacán e respectivas famílias ciganas, na melhor tradição de Lebrija, lugar-cadinho do Flamenco, a meio caminho entre Utrera e Jerez. Onze pessoas em palco (três "tocadores", quatro "cantaores", dois "bailaores" e dois "palmeros") que incendiaram o recinto, na curta hora e meia que durou a actuação. Entre "soléas", "seguirias", "bulerias" e duetos, cantados por Miguel Hijo Fino (um timbre contagiante) e Javier Heredia (cantaor e bailaor de fino recorte) o concerto teve momentos mágicos, que repassaram para a assistência, em verdadeiro êxtase. O "duende" esteve, mais uma, vez presente em Triana, o bairro onde sempre voltamos com saudades de regressar.
Para a semana há mais. Seguem-se, Tomatito, com dois convidados de luxo (Duquende e Arcángel) e El Niño de Elche, com o concerto "Antología del cante heterodoxo", baseado no álbum com o mesmo nome. Se houver bilhetes, ainda haverá tempo para Rosalía, a nova sensação do cante feminino flamenco. Lá estaremos.     
    
    
      

2018/09/14

O eterno retorno do fascismo (3)



A última semana foi pródiga em acontecimentos relacionados com o aumento (e rejeição), de movimentos associados à extrema-direita (vulgo fascismo), a nível internacional.
Veja-se o Brasil, um país onde o futuro teima em não chegar, apesar dos desejos expressos por gerações de brasileiros, confiantes em que, desta vez, "vai dar certo". Não sabemos o que o futuro nos trará, mas as expectativas nunca foram tão baixas.
Começou com o atentado contra Jair Bolsonaro, o candidato da extrema-direita mais retrógada do planeta, que - pasme-se! - lidera as intenções de voto para a presidência daquele país (22%), ainda que, de todos os candidatos, seja também aquele com maior percentagem de rejeição entre os votantes (44%). Um fenómeno, aparentemente inexplicável, ainda que os recentes acontecimentos no Brasil - relacionados com os sucessivos escândalos de corrupção e acusações que atingiram toda a classe política sem excepção - ajudem a compreender a trajectória deste populista de direita que, ao longo dos últimos anos, vem apelando ao golpe militar e ao regresso da ditadura, num discurso onde o racismo, a homofobia e a misoginia, fazem parte do léxico habitual.
Foi este homem, sem escrúpulos e desprovido de qualquer ideologia identificável, à excepção do ódio propagado, que foi apunhalado num comício eleitoral e que - como era expectável - subiu na cotação das sondagens pré-eleitorais. Se era preciso um mártir, ele está criado.
Ainda que a maioria dos analistas não acredite que Bolsonaro tenha hipóteses numa segunda volta, onde poderá defrontar Ciro Gomes (candidato do PDT) e mesmo Fernando Haddad (candidato do PT) a verdade é que, a confirmarem-se as projecções, o ex-militar irá à segunda-volta e só a congregação de votos democratas, poderá evitar a sua eleição. Resta saber se a direita conservadora, que andou a bater panelas contra Dilma, prefere o tresloucado capitão, ou se, num rebate de consciência, optará por um candidato com maior experiência política (Gomes), ou por um académico com provas dadas (Haddad), o qual, após o afastamento compulsivo de Lula, poderá dar um novo fôlego a um PT demasiado marcado pelo escândalo "Lava Jato".
Já na Europa, o centro das atenções esteve na Suécia, onde decorreram as eleições legislativas e no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, onde se votava a condenação da Hungria, por práticas anti-democráticas.
No primeiro caso, o resultado das eleições suecas (que resultou num empate técnico entre os principais facções no Parlamento, a de "esquerda" com 144 lugares e a de "direita", com 143 lugares), não permite uma solução maioritária (qualquer coligação necessita de, pelo menos, 175 lugares para governar) e não impediu o crescimento exponencial do partido de extrema-direita, racista e anti-imigração (KD) que tem agora 62 lugares, e que coloca os partidos de direita perante um dilema: ou apoiar o KD e deixar que os fascistas cheguem ao governo (como na Áustria); ou apoiar um governo democrático, criando um "cordão sanitário" (como na Holanda) para impedir que os fascistas governem. Na Suécia, o país com a maior percentagem de estrangeiros de toda a União Europeia, a questão da imigração tornou-se central em todos os debates, normalmente associada ao terrorismo, medos que a extrema-direita explora, a exemplo de movimentos nacionalistas congéneres.
Finalmente, a votação no Parlamento Europeu, pedida após um relatório da deputada holandesa Judith Sargentini (Verdes), exigindo a aplicação de sanções contra a Hungria, com base no Artigo 7º do Tratado de Lisboa e que se saldou por uma importante vitória das forças democráticas: com 448 votos a favor, 197 contra e 48 abstenções, o governo de Orbán, foi formalmente acusado de violação reiterada do estado de direito, o que de resto já tinha sido amplamente demonstrado por um relatório anterior, coordenado pelo (então) deputado português, Rui Tavares. Um "unicum" na história da UE. Segue-se um processo para aplicação das medidas penalizadoras, que terão de ser apoiadas por unanimidade, e que podem ir até ao impedimento da Hungria nas votações parlamentares e em "dossiers" tão importantes como o orçamento europeu, entre outras. Ainda que não seja de esperar uma condenação unânime por parte dos países membros (a Polónia, igualmente sujeita a uma penalização, deve votar contra), esta vitória, ainda para mais apoiada por parte da facção conservadora do Parlamento (PPE), da qual o partido de Orbán faz parte, é um passo importante na condenação de regimes autoritários dentro da UE. De registar ainda, pelo ridículo, o voto contra do Partido Comunista Português que, fiel aos seus princípios de "não-ingerência" na política interna dos países, criticou a União Europeia pela condenação da Hungria. Resta saber se, para os nostálgicos do PCP, a Hungria ainda fará parte do antigo bloco soviético. Há vícios que levam tempo a passar.
     
 

2018/08/30

O eterno retorno do fascismo (2)


Dois acontecimentos, sem ligação aparente, marcaram a agenda política europeia desta semana: as violentas manifestações de grupos neo-nazis na cidade alemã de Chemnitz e o encontro entre os líderes dos governos de Itália (Salvini) e da Hungria (Orbán), na cidade italiana de Milão.
O primeiro caso, seguiu-se a um incidente em que um alemão foi esfaqueado e morreu no hospital na sequência de ferimentos, num episódio que ainda está por esclarecer. A polícia prendeu dois suspeitos, um iraquiano de 21 anos e um sírio de 22 anos. À morte do cidadão, seguiu-se um "rastilho" de rumores nas redes sociais (de que a vítima teria tentado defender mulheres de assédio dos estrangeiros) e uma manifestação de nacionalistas, que acabou com perseguições a "pessoas que tivessem uma aparência não-alemã". As imagens desta acção persecutória foram registadas nas redes sociais e mobilizaram as forças de esquerda da cidade, que convocaram uma contra-manifestação "em defesa do bom nome e cosmopolitismo de Chemnitz, por oposição à xenofobia dos grupos nacionalistas". O que se seguiu, foi uma batalha campal, que se prolongou por dois dias, com um balanço final de 20 feridos, entre os quais dois polícias, e a prisão de 10 manifestantes acusados de fazerem a saudação nazi, ilegal na Alemanha. O caso, que continua a ser discutido nos media, veio alertar para o crescimento dos movimentos nacionalistas e xenófobos naquele país, que têm maior expressão nos territórios da antiga Alemanha de Leste. A polícia alemã também não escapou a críticas, por ter permitido a escalada de violência. Na opinião do jornalista Hans Pfeifer (Deutsche Welle) esta atitude "pode ser interpretada como falta de empatia pelas vítimas, uma vez que parte dos políticos e funcionários públicos não são o primeiro alvo da extrema-direita". Ainda de acordo com o citado jornalista, "o que aconteceu não é um atentado contra estrangeiros ou contra a extrema-esquerda, mas contra a própria democracia". O mesmo parece ter entendido o governo de Merkel, ao declarar que "não serão toleradas reuniões ilegais, nem perseguição de pessoas que pareçam diferentes, nem tentativas de espalhar o ódio pelas ruas".
O segundo caso, prende-se com uma cimeira entre dois políticos conhecidos pelas suas posições populistas e xenófobas, cujos governos têm vindo a endurecer posições relativamente a refugiados e imigrantes, que procuram entrar nos países europeus. No caso de Salvini, a recusa em salvar náufragos à deriva no Mediterrâneo, foi condenada nas mais diversas instâncias e atenta contra o direito internacional e o código marítimo, que obrigam ao salvamentos de náufragos em mar-alto. No caso de Orbán, os atropelos às leis europeias são já incontáveis, desde as sucessivas alterações à constituição, que lhe permitem controlar a justiça e a imprensa, às políticas de racismo interno (ciganos) e à imigração. Orbán declarou recentemente que "a Hungria não quer receber gente, porque não deseja que os povos se misturem". O mesmo governo que, ainda esta semana, foi acusado de ter recusado comida e abrigo a estrangeiros (considerados) ilegais, enquanto esperam passagem, dado não poderem permanecer na Hungria. Órban está, neste momento, a violar a Convenção de Genebra para Protecção dos Refugiados, a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, a Carta dos Direitos Fundamentais da UE, e os próprios tratados da UE, após o Tratado de Lisboa.
Dois biltres, que apoiados pelos países da chamado "bloco soberanista" (checos, polacos, húngaros, eslovacos e italianos) desejam regressar ao passado nacionalista, que esteve na origem de guerras que devastaram o continente europeu.
É contra esta gente, que continua impunemente a passear-se pelos corredores de Bruxelas, enquanto desrespeita as regras mínimas da democracia e ameaça com boicotes ao orçamento da União, que os partidos democráticos do Parlamento Europeu devem unir-se, exigindo o cumprimento da lei em vigor na UE, condição primeira para serem membros de direito. Isto, ou a perda de apoios europeus, única linguagem que os ditadores percebem. Esta é a melhor forma de defendermos a democracia.
Como bem lembra Rui Tavares, num recente artigo de opinião ("Público" de 13.08.18): "Não é por acaso que a Constituição alemã proíbe a existência de partidos nazis ou que a Constituição da República Portuguesa contenha também uma proibição - ainda que pouco usada - contra a possibilidade de existência legal de organizações fascistas. É para não nos esquecermos de onde viemos. As nossas democracias nasceram contra o fascismo e essa história faz parte da sua razão de ser. Se nos esquecermos ou cansarmos desta história, estaremos já a caminho da regressão".    
Antes que seja tarde.
      

2018/08/28

Via Única

 foto Matt Dunham/AP
Sempre viajei e gostei de andar de comboio.
Porque é mais rápido, mais cómodo e menos poluente.
Nas viagens de médio-curso, porque compensa, em preço e tempo, o avião.
Nas viagens de longo-curso, porque é possível trabalhar, ir ao bar ou comer uma refeição.
Em muitos percursos, porque é ainda possível dormir num beliche-cama, com toda a comodidade.
Finalmente, foi nos comboios que estabeleci o maior número de contactos e amizades em viagens.
Ou seja, todas as vantagens e poucas desvantagens, em relação a outros meios de transporte.
De há uns anos a esta parte, graças à condição de aposentado, passei a usufruir de um desconto de 50% em todas as viagens internas e, caso possua um cartão nacional, de regalias similares noutros países europeus. É o caso da vizinha Espanha, mas há outros, com tarifas vantajosas.
Por razões que não vêm à colação, tenho viajado com relativa frequência na linha do Norte (Lisboa-Porto-Braga) e na linha do Sul (Lisboa-Faro). Mais regularmente no Intercidades e, com alguma frequência, no Alfa-Pendular.
E o que tenho observado, de há uns anos a esta parte, leva-me a concluir que as condições da ferrovia, desde o material circulante às estruturas, passando pelo pessoal disponível e atendimento, são hoje bastante piores do que há uma década atrás.
Agora, que toda a gente parece ter descoberto o estado calamitoso em que se encontra a maior parte das vias férreas (o jornal "Público" publicou, por estes dias, uma série dedicada ao caos existente nas linhas mais necessitadas de intervenção), sucedem-se as acusações ao governo actual (em função desde 2015) ou, da parte deste, ao governo anterior (2011-2015). No essencial, as críticas da oposição, atribuem a situação actual da ferroviária à política de "cativações" do Ministério das Finanças (que impedem o investimento do estado neste sector); enquanto o governo, justifica o mau estado da ferrovia, com a herança encontrada no sector, após os anos de austeridade a que o país esteve sujeito. Ou seja, por um lado o estado não investe, porque cativa o excedente-primário, para manter os compromissos com Bruxelas; por outro, sem investimento, a situação diária e os serviços vão continuar a degradar-se, pois deixaram de poder ser garantidos. 
Neste momento, parte das composições não são sequer utilizadas por falta de manutenção. Não existe manutenção suficiente, por falta de pessoal qualificado que, entretanto, foi passando à reforma e que não pode ser substituído sem haver concursos públicos e a necessária formação. Tudo isto leva tempo (anos) e, sem composições operacionais, a única forma de assegurar os serviços é reduzir a oferta, por uma questão de segurança. Entretanto, o governo anunciou a compra de novos comboios (para substituir composições com 50 e mais anos), o que obriga a concursos públicos internacionais, dado que Portugal, após o encerramento da Sorefame, deixou de construir material ferroviário. Por enquanto, a solução parece ser o aluguer de comboios a Espanha (Renfe), como aconteceu no passado. Acontece, que a Renfe já veio declarar que não dispõe de comboios suficientes para o próprio mercado, pelo que não se vislumbram soluções a curto prazo. Um ciclo vicioso.
Tudo isto podia ter sido previsto e evitado, caso Portugal tivesse optado - a exemplo da maior parte dos países europeus desenvolvidos - pela ferrovia em vez da rodovia, onde foram feitos os maiores investimentos, desde a adesão do país, à então CEE. Só no consulado de Cavaco (1985-1995), foram encerrados 1000km de ferrovia, tendência que continuou nos governos de Guterres (1995-2001) e Sócrates (2005-2011). Ao mesmo tempo foram construídos mais de 2000km de auto-estradas! Todos estes governos, sem excepção, encheram o país de auto-estradas (muitas delas, hoje, sub-aproveitadas) onde se transita pagando taxas obscenas, enquanto deixaram de investir na ferrovia, um transporte com futuro. Obviamente, estamos aqui em presença de um modelo de desenvolvimento errado, iniciado nos idos anos oitenta e cuja herança continuamos, hoje, a pagar. Resta saber se por incompetência, se por dolo. Provavelmente, por ambas as coisas.  

2018/08/23

"Silly Season" na SPA


Com o calor a apertar e o território nacional em "alerta vermelho", todos os cuidados são poucos. Os corpos ressentem-se e os neurónios não são excepção. Quando, ao calor, se juntam fenómenos paranormais, a coisa pode tornar-se perigosa. Sabemos que a "silly season" é, por definição, a época do ano mais propícia ao disparate e às notícias absurdas, mas esta é verídica e foi avançada por pessoas respeitáveis. A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) propôs, esta semana, a transladação do corpo de José Afonso para o Panteão Nacional. A razão, invocam, é o contributo desta figura maior da cultura portuguesa na história recente de Portugal e a homenagem que o país lhe deve prestar, colocando-o ao lado das "figuras prestigiadas" da nação, naquele que é o "sarcófago institucional" por definição.  Independentemente do que pode (ou não) significar o Panteão Nacional nos dias que correm, só a ideia faria o Zeca sorrir...
De facto, só quem não o conheceu poderia fazer tal proposta, mas — e isso é o mais estranho — o presidente actual da SPA (José Jorge Letria) conviveu com o cantor e conheceu-o bem melhor do que a maior parte dos seus contemporâneos. Certamente, animado pelas "melhores intenções" (agora que se fala em transladar Mário Soares e Sá Carneiro para o Panteão), o comunicado da SPA adiantava que caberia à família de José Afonso a última palavra e assim foi. Entrevistada pela TSF, Zélia Afonso (viúva do Zeca), limitou-se a declarar o óbvio: que seria a família a decidir em conformidade. Como era expectável, a família emitiu um comunicado onde rejeitava a proposta, "dado que José Afonso nunca quis receber qualquer homenagem em vida e tinha deixado bem expresso onde queria ser sepultado (campa rasa no cemitério de Setúbal), pelo que seria cumprida a sua vontade."
Assunto encerrado?
Aparentemente, não.
Instado a comentar, José Jorge Letria, declarou que a opinião da família de José Afonso não era determinante para a proposta da SPA. Como?
Mas, esta história bizarra parece não ter terminado aqui. Hoje mesmo, algumas das reacções críticas à proposta da SPA, foram simplesmente "apagadas" das páginas do FB, com a alegação que os "posts" publicados não se enquadravam na política da textos seguida pela rede "online" (!?).
Ora, como não acreditamos em bruxas, mas continuamos a pensar que elas existem, só há uma explicação "lógica" para este desatino: alguém (quem?) denunciou os autores das publicações e o "algoritmo" censurou os textos. Outra hipótese, que não deve ser descartada, é a própria SPA ter sido a instigadora da censura. Não queremos acreditar, mas que é estranho, é.
Pelos vistos, José Afonso, apesar de morto, ainda incomoda muita gente. E isso é bom.

2018/08/15

Le Pen, some-te!


A história, conta-se em poucas palavras.
Na última sexta-feira, começou a circular nas redes sociais, uma notícia sobre a eventual presença de Marine Le Pen (dirigente da extrema-direita francesa) na WebSummit, a maior feira mundial de empreendedores de plataformas tecnológicas que, pelo terceiro ano consecutivo, se realiza em Lisboa. O convite, teria sido feito pela organização irlandesa (sediada em Dublin), ao arrepio dos patrocinadores, a CML, o Turismo de Portugal e o ICEP, que acolhem e apoiam o evento com uma quantia estimada em mais de 3 milhões de euros.
Perante tal notícia, seguiu-se a natural estupefacção e reacções de repúdio, para além do silêncio dos organizadores e das instituições em questão.
No fim-de-semana, sem qualquer explicação, o nome de Le Pen, desapareceu da programação e, quando pensávamos tratar-se de mais uma "fake news" (destinada a dar publicidade ao evento), eis que surge o nome da francesa de novo, agora anunciada como oradora no painel principal de convidados.
Novos protestos, agora noticiados pela Comunicação Social. Da parte do governo e da autarquia, seguiu-se o silêncio total.
Perante o avolumar da indignação (como assim, convidar uma fascista para discursar num evento pago pelos portugueses?), o director da WebSummit, o irlandês Paddy Cosgrave, emitiu ontem um comunicado onde, de forma sonsa e chantagista, dizia que "caso o governo português se opusesse à presença de Le Pen, ele estaria disposto a aceitar a decisão, em respeito à vontade do povo português" (!?). Ou seja, remetia a responsabilidade para o governo do país que o convidou e pagou para ele organizar o evento em Lisboa!
Obviamente, que o PM português não pode exprimir-se explicitamente sobre um evento privado, ainda que a CML, o Turismo de Portugal e o ICEP - em tanto que patrocinadores do evento - possam e devam, ter uma opinião sobre este convite.
De novo, nada se ouviu.
Ontem, os baixo-assinados contra a presença de Le Pen, começaram a circular e um partido político (BE) chegou mesmo a pronunciar-se sobre o caso, denunciando o carácter fascista e racista da oradora, cujas mensagens de ódio são inclusive proibidas pela Constituição portuguesa.
Hoje, finalmente, o Paddy lá reconsiderou e anunciou o cancelamento do convite, dada a comoção gerada na sociedade portuguesa, que ele não deseja alimentar...É sempre comovedor ver empreendedores, que defendem a livre iniciativa e são contra a intromissão do estado, servirem-se do estado quando não querem assumir a responsabilidade dos seus actos.
De facto, para além da presença indesejável da criatura, não se percebe muito bem o que viria ela cá fazer, pois não consta do seu currículo ser uma "expert" em Web ou quaisquer outras plataformas tecnológicas. Já a sua ligação a redes neo-fascistas internacionais é por demasiado conhecida, pelo que dispensa apresentações. Fez bem o Paddy, pois ainda há quem tenha memória do Fascismo por estes lados...
Em conclusão: Le Pen, some-te!     

2018/08/12

Prova de Fogo


2 de Agosto de 2018. São duas da tarde, na estação de serviço de Loulé, a primeira para quem vem de Lisboa e segue, via A22, em direcção a Vila Real de St. António. Enquanto espero pela refeição, olho o televisor que transmite as notícias do dia. O meteorologista de serviço alerta para as temperaturas esperadas no fim-de-semana, que podem atingir mais de 40º na maior parte do território (alerta vermelho). O mapa indica as regiões mais afectadas pelo calor. A zona de Monchique está a roxo. São feitas as habituais recomendações: fazer poucos esforços, procurar a sombra e beber muita água. Tento cumprir os mínimos: já estou sentado, à sombra e peço uma limonada. Lá fora, a caminho do carro, levanta-se um vento estranho e quente, a lembrar o Magreb. Os antigos chamavam-lhe "vento Soão". Por alguma razão devia ser...
Três horas mais tarde, chego a Sevilha. São 18h e os termómetros, no bairro da Macarena, marcam 42º. Relembro a primeira passagem pela cidade, corria o Verão de 1977 e a jura que fiz nesse mesmo dia: nunca mais voltar no mês Agosto. Preparo-me para o pior...
O dia seguinte, não dá sinais de abrandamento. Surgem as primeiras notícias de fogos: desde logo na serra de Aracena (perto de Huelva) e no Algarve (serra de Monchique). Um pouco por toda a Europa, da Suécia à Alemanha, as temperaturas atingem valores impensáveis. Porque Deus é magnânimo, a Califórnia também teve direito ao seu incêndio anual. Lá é sempre tudo maior (America, great again). Só o imbecil do Trump não percebe.
Refugio-me em casa, onde há ar condicionado e bebo sumo de limão. Para distrair, leio os jornais trazidos de Lisboa, que já previam o aumento de temperatura excepcional para aquele fim-de-semana. Sábado, seria o pior dia, afirmavam os jornais de referência.
Tento sair à noite e o mais longe que consigo ir é Salteras, uma vila-dormitório de Sevilha, onde supostamente a temperatura estaria mais baixa, dada a altitude do local. São 23h e estão 34 graus, menos 2º, do que na capital andaluza. É fim-de-semana e não se vê vivalma na rua. Os habitantes da cidade, ou saíram para o litoral, ou estão em casa, com o ar condicionado ligado.  Sevilha é, agora, uma cidade fantasma. O relógio em La Macarena, marca 46º.
Sábado à noite, amigos espanhóis, perguntam-me pelo fogo em Monchique. Que sei eu? Falam-me em feridos e milhares de hectares ardidos (!?). Temo o pior: será castigo de Deus, ou somos mesmo incompetentes? Entre o apreensivo e o envergonhado, pelo meu país ser falado pelas piores razões, tento uma explicação lógica para esta calamidade. Procuro, nas notícias televisivas e nos jornais "online", outras explicações para o fenómeno. O aquecimento global e a sua influência na região mediterrânica, desertificada e sujeita aos ventos quentes de África são, com certeza, uma causa que não deve ser menosprezada. A combinação de altas temperaturas, humidade relativa e ventos ciclónicos, parecem-me uma explicação razoável para a propagação e violência das chamas. Esta é a parte que não podemos controlar (quanto muito, ajudando em tanto que país, na aplicação dos Acordos de Paris). Só Trump, o imbecil, se recusa a assinar, interessado em voltar às energias fósseis, como se o Mundo pudesse andar para trás...
Quando regressei a Portugal, no dia 9 de Agosto, o fogo de Monchique ainda lavrava. Sete dias, sem parar. Nas televisões e jornais, debatem-se acaloradamente as causas e meios usados para combater o flagelo. Os "experts" são mais que muitos e parte da comunicação social não esconde um certo desalento, por não ter havido vítimas. Sim, uns mortos, vinham mesmo a calhar, pois podia ser que um ministro caísse e lá ia o governo atrás. O Marcelo já avisou: se houvesse outra catástrofe, como a do ano passado, ele seria o primeiro a demitir-se...
Estamos a 12 de Agosto e o fogo de Monchique está debelado. Balanço final: 7 dias de incêndio, 27.000 hectares ardidos (o maior fogo europeu), 41 feridos (um deles, grave), 50 casas destruídas (total ou parcialmente), 509 pessoas retiradas das suas casa, 700 pessoas afectadas que receberam apoio das equipas de segurança social. Na operação, foram utilizados 1137 operacionais, 13 aeronaves, 396 viaturas de combate, tendo ainda sido criadas 9 zonas de concentração e apoio às populações. É obra.
Este fim-de-semana, foi um rodopio. Do presidente da república, ao primeiro-ministro, do ministro da administração interna ao ministro do ambiente, do ministro da agricultura aos partidos de oposição, estiveram lá todos. Enquanto os representantes do governo exultavam, por não ter havido vítimas (não é essa a principal missão da protecção civil?), alguns populares, obrigados a sair de casa pela GNR, protestavam por terem perdido as suas casas e haveres (!?). Marcelo, o presidente dos afectos, beijava-os a todos e ouvia com atenção, prometendo uma avaliação de toda a operação, para quando terminasse o Verão. Afinal, ainda falta um mês e meio para terminar a "época dos fogos" e nunca se sabe...
Estou contente por não ter havido vítimas. A protecção civil aprendeu a lição do ano passado e esteve bem desta vez. Não se compreende as críticas daqueles que recusavam sair das casas, pondo as suas vidas em perigo. Entre salvar bens materiais e vidas humanas, não pode haver hesitação.
Obviamente, que perder casas, animais e plantações agrícolas, é sempre doloroso. Muitas daquelas pessoas já não voltarão à agricultura. Mas, uma casa pode reconstruir-se sempre e haverá apoios para recomeçar uma nova vida. Não perceber isto e criticar esta intervenção do governo, é ajudar à onda de populismo que a oposição, à falta de alternativas, tenta cavalgar a todo o custo.
Outra coisa, não menos importante, é a prevenção que continua a falhar, pese embora os esforços feitos no último ano. Coisas básicas como o cadastro do território, o ordenamento da floresta, o combate à desertificação e os incentivos económicos, de que toda a gente fala (mas que só uns poucos usufruem), devem estar no topo da agenda política de qualquer governo. A floresta portuguesa (que já foi a maior a nível europeu, em termos proporcionais de território), é ainda a nossa segunda maior riqueza natural (a primeira é o mar). As causas dos fogos estão estudadas e os diagnósticos apontam todos no mesmo sentido: desertificação do interior (75% da população vive no litoral); ordenamento do território (não existe um cadastro de terras a Norte do Tejo, o que dificulta a identificação e emparcelamento das propriedades); monocultura de determinadas espécies, como o eucalipto e o pinheiro bravo (o que aumenta a combustão e alimenta o fogo) e, finalmente, o aquecimento global que existe e vai aumentar. À excepção da última variável, que não podemos controlar, o governo pode tentar inverter e melhorar a situação. Fogos, existirão sempre. Trata-se de minimizá-los e para isso é preciso investir na prevenção, que é como quem diz, no futuro. Deixar o país melhor, deve ser o desígnio de qualquer político. A verdadeira "prova de fogo".    
  



  

        

2018/07/12

Taxi Driver (14)

Boa noite, então para onde vamos?
- Para a Buraca, se faz favor...
Pelo Monsanto, não é verdade?
- Sim, a esta hora, parece-me melhor. Há pouco trânsito...
Pouco trânsito? Isto até parece de dia!
- Sim, é Verão. Há muitos turistas na cidade...
Isto está cheio, amigo. Ainda por cima havia futebol no Terreiro de Paço...
- Também, também...agora, com o Mundial, é todos os dias.
Grande "jogatana", hoje. Viu o jogo?
-  Vi, mas gostei mais do jogo de ontem...
O França-Bélgica? Claro. Também eu. Mas, olhe que a Croácia também dá uns "toques"...
- Sim, sim, muito boa equipa, mas penso que não terá grandes hipóteses, contra a França, na final.
Pois não. Devem estar cansados. Tiveram dois prolongamentos, "penalties", um dia a menos de descanso...
- Nunca se sabe, mas tanto faz, agora que Portugal foi eliminado...
E bem eliminado. Não mereciam ter passado da fase de grupos.
- Se calhar, não. Fizeram os mínimos, mas esperava mais.
Olhe, amigo eu gosto muito de futebol, mas a selecção portuguesa já não me entusiasma...
- Pois. Já teve melhores dias, apesar de ser o actual campeão da Europa.
Pois é, mas deviam ter levado outros jogadores. Eu, se fosse treinador, tinha levado o Éder.
- O Éder?...
Sim, o Éder. Não o queria na minha equipa, mas na selecção...nem que fosse para jogar só 10 minutos, eu tinha-o convocado...
- Para ser franco, não me entusiasma nada...
Pois não. Já lhe disse, o Éder nunca faria parte de uma equipa que eu treinasse, mas devia ter ido à Rússia. Como talismã. Entrava, quando os outros estivessem cansados, atrapalhava os defesas e, no meio da confusão, ainda marcava um golito!..
- Quem sabe?...
Era cá uma fé. Não viu no Spartak de Moscovo? Foi ele que marcou o golo que deu o campeonato russo ao Spartak. Os russos nunca mais se vão esquecer dele..levava só o Ronaldo e punha o Éder ao lado, para marcar golos...
- E os outros?
Quais? O André Silva e o Guedes? Mas, jogaram alguma coisa? Só atrapalharam, homem...
- De facto, desiludiram um bocado. Também esperava mais...
Até o Bernardo, que fez uma grande época no Manchester, não jogou metade do que sabe...
-  Pois não...talvez estivesse cansado...
Cansado? Nada disso. Os gajos são todos uns "mimados" e passam sempre a bola ao Ronaldo, para não terem responsabilidades se falharem...
- É verdade, esta selecção está muito dependente do Ronaldo...
Essa é que é a questão. O amigo já percebeu que eu adoro futebol...podia estar aqui a falar a noite inteira. Eu também gostava da selecção, mas, de há uns anos a esta parte, não me convence. Olhe que eu cheguei a ir a Inglaterra ver a selecção em 1996. Vi 3 jogos. Nessa altura tínhamos uma selecção de luxo...
- A chamada "geração de ouro"...
Isso, a "geração de ouro": o Figo, o Rui Costa, o João Pinto, o Paulo Sousa, o Fernando Couto...
- Estou de acordo. Todos bons jogadores, mas fomos eliminados...
Sim, com o "chapéu" do Poborsky ao Victor Baía...isso, sim era uma selecção...
- Está a ver: quando jogávamos bem, éramos eliminados, quando jogamos menos, somos campeões da Europa...
Exactamente. Não merecíamos ter ganho o campeonato. Aquela fase de grupos, foi uma lástima...
- Mas, em 2000, também tínhamos uma boa selecção. Eu cheguei a ver um jogo na Holanda, contra a Turquia. A selecção, nesse ano, era treinada pelo Humberto Coelho.
Sim, sim, essa também era boa. Durou até 2002, quando fomos eliminados na Coreia. Aí começou a decadência, com aquele murro do João Pinto...
- Mas olhe que em 2004, com o Scolari, quase que éramos campeões europeus...
Pois, mas convenceram-se que iam ganhar e estragaram tudo. E a "geração de ouro", já estava no fim...o Figo estava a jogar os seus últimos anos e o Ronaldo ainda estava "verde"...
- Sim, houve ali um período de transição menos bom, mas de há uns anos a esta parte, temos uma nova geração de talentos...
Qual talento? Eles são todos muito bons, mas é nos clubes que lhes pagam! Agora, é o Ronaldo, que está muito acima dos outros e mais dois ou três: o Patrício, o Pepe, o Quaresma, vá lá...
- Os veteranos...
Claro. Ainda são os melhores. Não temos grandes talentos, convença-se disso. Daqui a dois ou três anos, já nem esses jogam e, com este treinador, não vamos longe...
- Sim, é verdade, às vezes irrita um bocado, aquele jogo mastigado...
Se irrita! É só passes para o lado, passes para trás...além disso, este ano os adversários já conheciam a forma de nós jogarmos e não conseguimos marcar golos. Marcámos aqueles 3 à Espanha, sem saber como. Se não fosse o Ronaldo, não sei, não sei...claro que contra o Uruguai, já não tivémos hipótese. Têm uma grande defesa e depois, aqueles dois "cavalões" no ataque, o Suaréz e o Cavani...Nós só temos um "cavalão", o Ronaldo... 
- É verdade.
Bom, estamos a chegar. Desculpe lá a conversa, mas já deve ter percebido que eu gosto muito de futebol...
- Não faz mal. É sempre bom desabafar. Ficamos por aqui, então. Até uma próxima vez...
Até a uma próxima. E, no domingo, que ganhe o melhor!
- Isso mesmo.

2018/07/11

A república brasileira é uma banana


Se dúvidas houvesse sobre a situação política e a justiça brasileira actuais, os acontecimentos do último fim-de-semana (relacionados com a prisão do ex-presidente Lula da Silva) bastariam para dissipá-las
O que se passou, afinal?
No passado domingo, o Tribunal Federal Regional de Porto Alegre, aceitou um pedido de "habeas corpus" para a libertação de Lula, que está a cumprir uma pena de 12 anos e um mês por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. O "habeas corpus", fora apresentado na passada sexta-feira, por 3 deputados do Partido dos Trabalhadores (PT), com o argumento de que não existiria fundamento jurídico para a prisão de Lula. Surpreendentemente, o juiz desembargador Rogério Favreto, de turno no fim-de-semana, deferiu o pedido no domingo. A reacção não se fez esperar: o juíz Sérgio Moro, responsável pela investigação e acusação de Lula, no processo Lava Jato, recusou o cumprimento da ordem, argumentando que Favreto (na sua qualidade de juíz de turno) seria "incompetente" para deliberar, sem o acordo do relator (João Gebran Neto) do Tribunal Regional Federal (TRF). 
Seguiu-se uma nova ordem de libertação, por parte de Favreto, a exigir a libertação imediata de Lula. Foi nesta altura, que João Gebran Neto, na sua qualidade de relator do processo e instigado por Moro, decidiu suspender a ordem, subscrita pelo desembargador, pela segunda vez. O argumento utilizado, foi o de "evitar maior tumulto para a tramitação do "habeas corpus", dado que a decisão foi tomada durante um turno (plantão)" pelo que só ele a poderia confirmar ou recusar.
Ou seja, Lula esteve "livre", durante duas vezes e, no mesmo dia, "regressou" à prisão, sem desta ter saído. A "saga" parece, no entanto, não ter terminado e aguardam-se os próximos capítulos deste caso singular, sobre o qual o parecer dos especialistas está dividido: enquanto Sérgio Moro, defende a decisão, com base na condenação de Lula em 2ª instância (que, na sua interpretação, permite enviar um acusado para a prisão); outros especialistas, como o juíz Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal de Justiça (que ainda não se pronunciou sobre o caso), considera a prisão ilegal, com base no estado de direito internacional, segundo o qual um acusado é considerado inocente, até o processo transitar em julgado. Como na justiça portuguesa, por exemplo.
Independentemente das interpretações da lei, a verdade é que todo o processo está inquinado desde o início, pois há muito deixou de ser apenas um processo judicial, para tornar-se um processo político, no qual os juízes possuem a sua própria agenda. Mais do que provar quem cometeu crimes de corrupção, de que toda a "elite" brasileira é hoje acusada, os juízes (com Moro à cabeça) aspiram a tornar-se uma força determinante na cena brasileira, a exemplo do que sucedeu em Itália, onde - perante o caos e a desagregação da sociedade italiana - juízes "justiceiros", como Falcone, decidiram "limpar a sociedade de políticos corruptos, com ligações à Máfia". Sabemos o que aconteceu: os partidos políticos tradicionais perderam a pouca credibilidade que ainda tinham e, em sua substituição, surgiu o populista Berlusconi que, após três mandatos e inúmeros processos em tribunal, acabaria por ser condenado por...corrupção.
Mais importante do que isto, no entanto, parece ser a completa desorientação da maioria do povo brasileiro, dividido entre o apoio a um líder popular preso, que poucas hipóteses parece ter neste momento; e um governo impopular, destituído de qualquer moral, tantos são os implicados na corrupção generalizada que atravessa o país.
O que resta?
Muito pouco e mau: à direita, as principais forças políticas estão fragmentadas e não conseguem arranjar um candidato unificador que possa destronar Lula (31% da intenção de voto). À esquerda, é notória a incapacidade em arranjar outro candidato, que não Lula, no qual o PT e as restantes forças parecem apostar todas as fichas. Entretanto, na extrema-direita populista, o candidato preferido parece ser o fascista Jair Bolsonaro (17% na intenção de votos), que é hoje apoiado pela maioria das forças evangélicas, cuja mensagem o candidato passou a utilizar com vista a obter os votos que lhe dêem uma vitória na segunda volta. Como aconteceu com Trump, na América, de resto.
As eleições são já em Outubro e, a menos que surjam novos candidatos para além dos nomes tradicionais, não há ninguém, suficientemente consensual, que possa ganhar numa primeira volta. À excepção de Lula, que está preso. Ora, parece ser essa, precisamente, a questão. Com Lula em liberdade, as probabilidades do ex-presidente se candidatar e ganhar, seriam enormes. Esse é, de resto, o medo da "elite" e da classe média brasileira, que acantonadas nos seus privilégios de classe, querem, a todo o custo, impedir o regresso do PT ao poder.
Entre o medo e o desânimo, a maioria do povo brasileiro parece descrente numa solução que possa melhorar o seu futuro. Se nada de radical mudar, o país pode vir a tornar-se uma república inviável, igual a tantas outras da mesma latitude que, num passado não muito longínquo, determinado fruto ajudou a popularizar.
   

 

2018/07/10

Tudo bem, quando acaba bem.


"All well that ends well", diria Shakespeare.
Os jovens tailandeses e o seu treinador, estão a salvo. Os últimos a sair, serão agora os mergulhadores-salvadores, que garantem a operacionalidade nas zonas submersas.
Durante a última semana, o Mundo pôde ver em directo uma das maiores e mais dramáticas operações de salvamento a nível internacional, pese embora a morte, no início das operações, de um mergulhador tailandês. Impossível não pensar nos mineiros chilenos das minas de Atacama que, em 2010, ficaram soterrados no local onde trabalhavam.
Um feito notável, tanto a nível técnico como de entreajuda e solidariedade internacional, sem a qual uma operação desta envergadura muito dificilmente seria possível.
Este acto, verdadeiramente heróico, nunca será demais realçado e passará, a partir de agora, a constituir um "case study" para futuras acções de salvamento.
Pena que os meios e a solidariedade internacional, não estejam sempre presentes em cenários não menos dramáticos e que merecem, igualmente, a nossa atenção. Desde logo, em situações onde crianças e adultos estão - por razões alheias à sua vontade - em perigo: guerras, perseguições ou tragédias climatéricas, hoje um pouco por todo o Mundo. É o caso do drama das vítimas das guerras no Médio-Oriente, dos refugiados do Mediterrâneo ou dos migrantes latino-americanos, que tentam entrar nos EUA, para citar três dos exemplos mais gritantes da última década.
Nesse sentido, a última cimeira europeia, agendada para discutir o Euro (que não chegou a ser discutido) acabou por se transformar numa cimeira sobre migrações, com cedências impensáveis de Merkel às chantagens do seu ministro do interior, apoiado pelos governos xenófobos da Itália, Áustria, Hungria e Polónia. A Europa "fecha-se" assim, mais uma vez, agora à volta de um "eixo", que cobre todo o território da Itália,  o antigo império austro-húngaro e a "grande" Alemanha, a lembrar velhos fantasmas do século passado. Sabemos da história, que o nacionalismo nunca foi boa opção e esteve na origem das duas últimas guerras. Liderados por políticos populistas, que desejam voltar às fronteiras do passado, os países do centro e Norte da Europa dão, desta forma, um exemplo negativo do que deve ser a solidariedade e o cosmopolitismo das sociedades modernas. Resta acrescentar que às (vagas) propostas dos líderes europeus citados - entre as quais a criação de centros de "contenção" e "triagem" dos migrantes que chegam à Europa, nos países a Sul e a Norte do Mediterrâneo - nenhum país ou governo se ofereceu para tê-los nos seus territórios. Sim, existe uma proposta, mas ninguém quer ficar com o ónus desta decisão. Enquanto a Europa não estiver de acordo sobre uma estratégia comum, para tentar solucionar este problema, continuarão a morrer milhares de pessoas, que não terão a atenção do Mundo, como tiveram (e bem) as crianças na Tailândia. O adiar deste problema, certamente um dos maiores da actualidade, contribuirá para acirrar os discursos de ódio e o populismo crescente na Europa. As eleições europeias do próximo ano, só conformarão esta tendência, mas pode já ser tarde.
Uma última palavra sobre as intermináveis reportagens e cobertura das operações de salvamento na Tailândia. Não fora os relatos sucintos e objectivos da Reuters, da SkyNews, da CNN e do The Guardian, estaríamos reduzidos aos comentários em estúdio de dezenas de "experts"que, ao longo da semana, foram passando pelos diversos canais e, na maior parte dos casos, se limitavam a especular sobre as dificuldades sentidas na gruta...Até especialistas, em meditação budista foram ouvidos em estúdio. Já não havia pachorra. 
Ainda bem, que tudo acabou bem.      

2018/07/05

Na rota do Flamenco (5)

Entre 1992 e 2014, desapareceram quatro dos maiores nomes da "renovação flamenca", a geração surgida no panorama musical espanhol - após a queda do regime franquista - que rompeu com o denominado "flamenco operático" e outros estereótipos do género, popularizados através dos "tablaos" para consumo turístico. Camarón de La Isla (1950-1992), Enrique Morente (1942-2010) no "cante"; Antonio Gades (1936-2004) no "baile" e Paco de Lucia (1947-2014) no "toque", foram as figuras principais desta transição que contribuiu para a renovação do "cante jondo" e a sua projecção internacional. O género deixou de ser uma arte marginal (interpretada por ciganos) e desprezada durante a ditadura, para se afirmar nos circuitos musicais de renome, sendo hoje reconhecido pela Unesco, como Património Imaterial da Humanidade.
Um longo caminho, com mais de 200 anos, onde pontuam nomes como El Planeta, Silverio, Antonio Chacón, Manuel Torre, El Fosforito, Manolo Caracol, La Niña de Los Peines, Tomas Pavón, Antonio Mairena, Fernanda e Bernarda de Utrera, Carmen Amaya, Antonio Gades, Farruco, Ramón Montoya, Sabicas, Pepe Habichuela e tantos outros...   
A vitalidade do Flamenco pode ser constatada nos inúmeros locais onde continua a praticar-se, sendo a cidade de Sevilha um bom exemplo desta popularidade. Para turistas apressados, "O Museu del Baile Flamenco" (com sessões contínuas diárias e um corpo de baile residente), situado a meio caminho entre o Centro e o Barrio de Santa Cruz, pode ser uma boa alternativa. Para os mais conhecedores, a "Casa de la Memoria" (Centro Cultural Flamenco) situada em pleno Centro (Calle Cuna), oferece sessões de flamenco tradicional, com actuações de "cante", "toque" e "baile" de muito boa qualidade. Foi lá que vimos a excelente "bailaora" La Choni e, mais recentemente, uma sessão dedicada ao "cante jondo", com Ana Real, David Bastidas e Marta "La Niña" (cante), Yolanda Osuna e Óscar de los Reyes (baile) e Raúl Cantizano (toque). Um programa para iniciados, com incursões polifónicas nas "saetas", "martinetes" e "soléas", de nível. Outra boa opção, é "CasaLa Teatro", um teatro de bolso (28 lugares), situada em pleno Mercado de Triana, no bairro do mesmo nome, junto à Ponte de Isabel II. Vimos lá um trio flamenco constituído por Carmen Lara, Celedonio Garrido e Sergio Gòmez, que valeu bem a visita.
Porque, em 22 de Junho, actuava Miguel Poveda na cidade, não resistimos ao apelo de um dos maiores nomes do Flamenco actual, que ali apresentou o seu último concerto "Enlorquecido", dedicado ao poeta andaluz Federico Garcia Lorca.
O concerto, esgotado com antecedência, teve lugar no auditório "Rocío Jurado" (inaugurado em 1991 para a Exposição Universal de Sevilha) que dispõe de 4000 lugares sentados. Pesem os preços algo exagerados e as deficientes condições de comodidade (cadeiras de plástico), o programa era aliciante e não defraudou as expectativas.
Poveda, velho conhecido do público português, tinha estreado duas destas canções no programa que apresentou aquando da sua última passagem pela Gulbenkian, no passado mês de Novembro. Desta vez, foram doze os poemas de Lorca escolhidos pelo cantor e musicados pelo pianista Joan Albert Amargós, os quais constituem a primeira parte do concerto. Excelentes músicos (13 pessoas em palco), entre os quais Amargós (no piano) e Jesús Guerrero (na guitarra), que também tinham acompanhado Poveda em Lisboa.  
Entre os clássicos "Chapéu de Três Bicos" e "Sevilhanas del Siglo XVIII", tempo para novo reportório, com "No me Encontraron", "Alba", "El Silencio", ou o pictórico "Son de Negros en Cuba". Um concerto, misto de flamenco e rock sinfónico, onde o som (óptimo) era apoiado por imagens projectadas em fundo, que sublinhavam a dramaticidade das canções, numa simbiose perfeita entre as diversas técnicas multimédia utilizadas.
A segunda parte, deu-nos a ver o Poveda, cuja carreira acompanhamos há vinte anos. Flamenco puro e duro, onde as "saetas", as "soléas" e as "seguiriyas", foram interpretadas com a mestria de alguém que domina os "palos" básicos do Flamenco como poucos. Nos "encores", tempo ainda para homenagear Camarón e Morente, com uma interpretação épica do hino "La Leyenda del Tiempo". O concerto, que duraria duas horas, terminaria com as tradicionais "bulerías", cantadas e dançadas, por todos os músicos em palco. Um magistral Poveda, no auge da sua maturidade artística.  
Sim, o Flamenco está vivo e recomenda-se!

2018/07/02

Na rota do Flamenco (4)

Reservámos para o fim do nosso curto périplo, a cidade de S. Fernando, vizinha de Cádiz, a capital da província do mesmo nome.
Situada à entrada do istmo, sobre o qual foi edificado o porto mais importante da Andaluzia, San Fernando - também conhecida por "La Isla" - é uma densa urbe de 97.000 habitantes, limitada a sul por uma extensa área de salinas e braços do mar, que é atravessada pelo Caño, o rio da cidade. 
Falar de Cádiz e de S. Fernando, é falar de duas das mais emblemáticas cidades flamencas de Andaluzia. De Cádiz partiram (e chegaram) as conhecidas cantigas de "ida e volta", que haveriam de influenciar os "cantes aflamencados", de origem hispano-americana: as "guajiras", as "colombianas", as "habaneras", as "milongas", as "vidalitas" e as "rumbas".
Entre os flamencos notáveis, nascidos nesta província, destaque para Manuel de Falla (compositor) Paco de Lucia (guitarrista), Sara Baras (bailaora), os "cantaores" Niña Pastori, José Llerena Ramos "El Chato" e, o maior de todos, Camarón de La Isla.
José Monje Cruz, El Camarón (1950-1992) é hoje o maior legado do Flamenco na cidade. Logo à entrada, na Praça Juan Vargas, deparamos com o monumento em sua honra, uma estátua em bronze, da autoria de Antonio Mota, fundida em 1992 e recentemente decorada com letras garrafais vermelhas, por ocasião do 25º aniversário da sua morte. O departamento de turismo criou, inclusive, um trajecto (La ruta de Camarón de La Isla), assinalado no mapa da cidade: inclui a "Casa-Museu", situada na Calle Carmén, onde nasceu e viveu o cantor; a mítica "Venta de Vargas", a "peña" flamenca onde Camarón começou a cantar aos oito anos de idade; o monumento referido; a "Fragua de Camarón", onde ele aprendeu a profissão de ferreiro; o "Mausoléu de Camarón", situado no cemitério da cidade e a "Peña de Camarón", lugar tradicional do "cante". A marca "Camarón" é, de resto, visível na maior parte dos estabelecimentos e lojas de "souvenirs", desde os artefactos mais simples aos mais elaborados (canecas, cachecóis, t-shirts, porta-chaves, estatuetas, bustos, reproduções do mausoléu...).
Porque era sábado e a "siesta" é sagrada, tivemos de aguardar pelas cinco da tarde, para visitar a Casa-Museu, ex-libris da "ruta Camarón". Trata-se de uma casa renovada, construída sobre as ruínas do pátio, onde a família do cantor viveu com mais seis famílias, em divisões minúsculas, dispondo apenas de uma cozinha e lavabos comuns, num dos bairros mais pobres da cidade. Acontece que a casa estava fechada (!?). No posto de turismo da cidade, uma simpática funcionária, informou-nos que, com a crise, o "ayuntamento" não tinha dinheiro para destacar uma pessoa a tempo-inteiro para a função, pelo que o Museu só abria em dias de festa ou nos meses de Verão, durante os festivais de Flamenco. Depois de nos contar a história da família do cantor, cujos descendentes continuam a habitar a cidade, aconselhou-nos a visitar a igreja matriz, um austero local de culto, onde, de acordo com a "lenda", o cantor ia rezar junto do nazareno vestido de roxo à esquerda da porta principal. Lá fomos, não sem antes termos preenchido o livro de reclamações do posto de turismo, na esperança de poder visitar a Casa-Museu numa próxima excursão a bela cidade de S. Fernando.
A recompensa surgiria em Sevilha, dois dias mais tarde, quando assistimos ao documentário "Camarón: flamenco y revolución", uma longa-metragem de Alexis Morante, com guião de Raúl Santos, narrada por Juan Diego, conhecido actor sevilhano. O filme, realizado em 2017, foi este ano apresentado no festival de Málaga, tendo aí recebido os maiores elogios. Nele se conta a atribulada e fascinante vida do cantor, da qual não são omitidos os aspectos mais dramáticos (dependência de drogas e a ruptura com Paco de Lucia), num estilo moderno e inovador, onde o "flash-back" e as sequências de animação, alternam com imagens de arquivo, nem sempre em ordem cronológica, mas certamente fiéis ao homem que foi El Camarón, por muitos considerado o maior "cantaor" da história do Flamenco.     
(continua)

2018/06/29

Na rota do Flamenco (3)

Centro Andaluz del Flamenco
Jerez de la Frontera, principal cidade da província de Cádiz, é o coração da rota flamenca.
Cidade monumental, onde se destacam a Catedral, o Alcázar e a antiga muralha que circunda parte do casco histórico, concentra - nos bairros de Santiago e de S. Miguel - os principais santuários flamencos. É lá que podemos encontrar grande parte das "peñas", onde diariamente cantam e tocam os intérpretes do género, para além dos "tablaos", mais vocacionados para os turistas em busca do "baile" andaluz. Registámos, só nas ruas circundantes à Plaza del Arenal (onde parámos para as "tapas" e para a "caña" habitual), as "peñas" flamencas, "Buena Gente", "La Buleria", "Antonio Chacón", "Los Cervícalos", "Garranzo" e "Tablao Flamenco Pura Arte"...

A cidade produziu inúmeros "cantaores" de nomeada, mas dois destacam-se dos restantes pela sua excepção na interpretação da arte "jonda": Antonio Chacón e Manuel Torre.

Don Antonio Chacón
Don Antonio Chacón (1869-1929) é, ainda hoje, considerado a grande figura do "cante" da primeira metade do século passado. Homem culto e estudioso, dominava a maior parte dos estilos,  ainda que fosse especialista em "granaínas", "malagueñas" e "cartageneras", o que lhe granjeou a popularidade e admiração entre os pares. Foi um dos grandes animadores dos "cafes cantantes" de Sevilha e, dele se dizia, que tinha de ser o último da noite a cantar, porque se fosse o primeiro, os clientes saiam da sala e já não queriam escutar mais ninguém. Na sua qualidade de "cantaor" e conhecedor do género, foi escolhido para presidir ao júri do 1ª Concurso de Cante Flamenco (Granada, 1922) acontecimento histórico, idealizado pelo compositor Manuel de Falla e que teve o apoio e divulgação do poeta Garcia Lorca e do guitarrista clássico Andre Segovia. De Chacón, são históricas as suas gravações em estúdio com os guitarristas Ramón Montoya e Sabicas, recentemente reeditadas numa caixa de luxo, para gáudio dos seus inúmeros admiradores. Enquanto deambulávamos pelas estreitas travessas da cidade, encontrámos, na Calle Salas 2, próximo das caves do vinho Xerez, o "Centro Cultural Don Antonio Chacón", que promove regularmente noites flamencas onde, para além do "cante", "toque" e "baile", são organizadas tertúlias sobre o tema.

Manuel Torre
Manuel Torre (1878-1933) de origem cigana, e unanimemente considerado um dos maiores nomes do "cante" de sempre, é a outra grande figura da cidade. Foi convidado especial para participar no Concurso de Granada, onde cantou "seguirias", tendo recebido variados prémios de consagração ao longo da carreira. Era avesso a gravações em estúdio e dele restam poucos registos de qualidade, ainda que as "gravações históricas", sejam um "must" para qualquer coleccionador. Um busto, recorda o homem, numa das praças da cidade.

Destaque ainda para intérpretes como La Paquera, El Torta, El Pipa e Jose Mercé, este último nomeado para os Grammy Latinos 2012, todos eles filhos de Jerez e grandes intérpretes da "arte jonda", que (à excepção de El Torta, falecido em 2013) actuam regularmente na cidade.
Em Jerez, existe ainda o único instituto de flamencologia de toda a Espanha, objectivo último da nossa visita. O instituto, entretanto rebaptizado de "Centro Andaluz del Flamenco", está alojado num antigo solar, que dá para uma pequena praça, na Calle San Juan. Alberga mais de 5000 registos escritos e fonográficos, para além de filmes, vídeos, trajes e cartazes, considerada uma das maiores colecções iconográficas do país. Porque era sábado (feriado, 31 de Maio), o Centro estava fechado.

Frustração absoluta, para quem tinha viajado mais de 100km. para visitá-lo. Resta-nos, como consolação, ter descoberto uma cidade magnífica e, agora, um novo pretexto para voltar...
(continua)
     

2018/06/27

Na rota do Flamenco (2)

A pouco mais de 30km de Sevilha, na estrada que liga a capital andaluz a Cádiz, encontram-se três das mais emblemáticas localidades flamencas, naquele que é considerado o triângulo dourado do "cante": Utrera, Lebrija e Las Cabezas. Uma região plana, de grande latifúndio, onde a criação de touros e o cultivo do tomate, constituem as principais actividades da população, considerada uma das mais pobres da região.

Para lá nos dirigimos, na acalentada esperança de um dia compensador, sabendo de antemão que a hora do dia não seria propícia a grandes revelações. Já passava do meio-dia e, quando o sol cai a pique, é melhor procurar outras paragens, como o castelo local, a magnífica Casa da Cultura (onde tivemos direito a uma visita guiada) e ao "Hospitalito", situado no antigo edifício do Convento de las Carmelitas, hoje transformado num museu famoso, onde pudemos admirar o pátio decorado com motivos "mudéjares" e largos espaços onde, em tempos, funcionaram as enfermarias.

irmãs Bernarda e Fernanda
Em Utrera, terra de nascimento das míticas irmãs Bernarda e Fernanda, as mais famosas filhas da terra, realiza-se o "Potaje Gitano", o mais antigo festival de Flamenco do Mundo (1957) que tem lugar no último fim-de-semana de Junho. O programa deste ano era de fazer crescer "água na boca", ainda que as temperaturas já ultrapassem largamente os 30 graus positivos, algo comum nesta altura do ano. Lá estarão, a partir de amanhã, El Pele, La Mañanita, Rancapino Chico, Tomás de Perrate, Inés Bacán, Tomasito, Perico El Pañero, El Galli y El Chimenea, acompanhados por Pedro Maria Peña e Antonio Higuero (toque) e Pepe Torres, Farru e María Marrufo (baile). A sessão de abertura estará a cargo de Enrique El Extremeño e haverá um debate dedicado a Enrique Montoya, nos 25 anos da sua morte. Um programa 100% cigano, como é aliás timbre do festival.

Antonio Mairena
Entre "tapas" e "cañas", tempo para deambular pelo bem conservado casco histórico da vila, à procura da "última experiência". Para o fim, estava-nos reservado o melhor. Quis o destino termos ido parar à Pérez Galdós, uma "calle" como as outras, onde, no número 11, está situada a Peña Cultural Flamenca "Curro de Utrera". Para quem não sabe, uma das mais famosas da região e lugar de culto por onde passaram todos os grandes nomes do "cante" flamenco. Um largo espaço, decorado com motivos flamencos, repleto de mesas e com um palco ao fundo, onde têm lugar as actuações e concursos, avaliados por júris que elegem os melhores em cada categoria. Nas paredes, cobertas por fotografias autografadas, lá estava Antonio Mairena (1º "chave de ouro" do "cante"), as irmãs Utrera, Paco de Lucia, Camarón, Carmen Linares ou Mayte Martín, entre dezenas de muitos outros. Os mentores da "peña", ainda que ocupados nos preparativos para a sessão daquela noite, não quiseram deixar os seus créditos por mãos alheias e disponibilizaram-nos toda a informação solicitada, tendo-nos inclusive convidado a regressar este mês, quando o "Potaje" estiver no auge.

No regresso ao centro, passagem pela Plaza de Altozano, lugar de confluência da população local que, ao fim da tarde, enche as esplanadas e confraterniza ao redor de "cañas" e de "mostachones", o doce local vendido em todas as pastelarias. Por coincidência, ou talvez não, realizava-se a Feira do Livro anual. Não resistimos e adquirimos "La Música Preflamenca", um estudo de José Miguel Hernández Jaramillo, editado pela Junta de Andaluzia, por ocasião da Bienal de Flamenco 2002. O dia estava ganho.
(continua)

2018/06/20

Na rota do Flamenco (1)


Mais do que um género musical, o Flamenco é um "modo de vida", seguido por milhares de intérpretes e aficionados em todo o planeta, o que o torna simultaneamente universal e uma industria cultural de sucesso. Poucas músicas serão de imediato tão identificáveis e arrebatadoras, seja pela força telúrica expressa no "quejio" dos seus "cantaores", seja pela destreza e coreografias das "bailaoras", elas próprias um verdadeiro ex-libris da região andaluza. Quando ambas as vertentes são acompanhadas por guitarristas de excepção (e eles são tantos!) a magia impõe-se por definição. Nesses momentos, o "duende" acontece. Assistir a um concerto de Flamenco, nos locais onde o género nasceu e se afirmou é, ainda hoje, quase dois séculos passados sobre os primeiros registos conhecidos, uma experiência única que qualquer melómano não deve perder.
Em 2003, durante uma visita a Sevilha, por ocasião da "Feira de Músicas do Mundo" (Womex), tive o privilégio de assistir ao "Festival Mundial de Flamenco" que tinha lugar paredes-meias com a Womex. Durante três dias, pude conviver e assistir a diversos "showcases" dos flamencos participantes e, se até então, a paixão já era indisfarçável, depois dessa data tornou-se uma obsessão. Nesse ano, a Junta de Turismo local, produziu um guia, composto de 1 livro, dois CDs e um desdobrável, sobre as "Rutas del Flamenco de Andaluzia" o qual, para além da história do género e de uma introdução geral sobre os diversos "palos", indicava os trajectos culturais ligados aos estilos popularizados pelos grandes mestres do género, alguns deles ainda vivos.
Por razões que a razão desconhece, e ainda que tenha voltado inúmeras vezes a Sevilha, nunca tinha tido oportunidade de fazer os trajectos sugeridos. Guardei, no entanto, o guia, para a eventualidade de um dia lá voltar. Foi agora, ou melhor, começou este ano e não vai parar...
Ainda que toda a Andaluzia seja, por definição, "terra flamenca", existem dentro das suas fronteiras lugares considerados verdadeiros "cadinhos" da arte. Dos sete trajectos sugeridos pelo guia, iniciámos a nossa peregrinação pela rota 4, intitulada "El compás de tres por quatro: los cantes básicos" (la soleá, la buleria, el flamenco y la sociedad rural). Um vasto triângulo, localizado na planície que se estende ao longo do Guadalquivir e que abrange, para além de Sevilha, Utrera, Lebrija, Jerez de la Frontera e Cádiz.
Iniciámos a nossa visita pela zona de Triana, na margem direita do Guadalquivir, hoje um bairro de Sevilha que, no século XIX, ainda era uma zona portuária afastada da cidade, maioritariamente ocupada por populações rurais e pela comunidade cigana. Foi aí, que teriam surgido as primeiras formas de flamenco, também chamadas de "cante hermético", por serem cantados em espaços fechados, normalmente em casas particulares onde só os iniciados tinham acesso. A grande revolução dá-se a partir de 1850, quando o Flamenco passa a ser cantado e escutado em estabelecimentos públicos, os chamados "cafés cantantes" ou "cafés de cante", que conheceram a sua época áurea entre 1850 e 1936. O mais célebre dos primeiros "cafés cantantes" foi o "Salón de Recreo", dirigido por Luís Botello, nos anos sessenta do século XIX, situado na Rua Tarifa, a que sucedeu uma academia de dança, instalada no mesmo local. A maior parte destes cafés apresentava espectáculos de dança (baile) que nem sempre eram anunciados como Flamenco. Um dos mais famosos, foi o "La Escalleria", criado em 1880 por Silvério Franconetti, que mais tarde abriu o "Café de Silvério". Nesse período, considerado a "idade de ouro do Flamenco", passaram pelos dois cafés os maiores nomes do "cante" andaluz. Para além do próprio Silvério, discípulo de "El Fillo", cantou no café o grande António Chacón, discípulo de outro "cantaor" fundador, Enrique Jiménez (El Melizzo). No café "El Burrero", mais um cantor de nomeada fazia, entretanto, a sua aparição: Francisco Lema "El Fosforito".
No seu apogeu, e só em Sevilha, os "cafés cantantes" eram mais de trinta, Existiam ainda cafés em Cádiz, Jerez, Segóvia, Granada, Málaga e quase todas as cidades andaluzas.
Hoje, já não há cafés. Restam as lápides, onde se assinala a sua existência nos lugares onde há cem anos imperava o "cante" e agora se homenageiam os grandes "cantaores" do passado, como Tomás Pavón (1893-1952), irmão da mítica Niña de los Peines, cuja passagem está assinalada na Alameda de Hércules, um espaço aberto que, em tempos foi um braço fluvial e onde a "movida" sevilhana começa sempre para lá das dez da noite...
(continua)

PEDOFILIA DE ESTADO!


2018/06/19

O eterno retorno do fascismo


Assistimos, nos dias que correm, a acontecimentos que julgávamos banidos da história da Humanidade, pelo menos daquela parte que considerávamos civilizada.
As imagens de milhares de migrantes que diariamente atravessam mares e fronteiras, correndo riscos que só podem ser justificados quando nada mais há a perder; ou de crianças apartadas dos seus pais, enquanto esperam pela deportação num qualquer barracão de uma fronteira norte-americana, são, para além da sua crueldade extrema, um exemplo paradigmático de regimes que, desprezando todas as regras civilizacionais e democráticas, se outorgam o direito de utilizar métodos que julgávamos banidos desde a 2ª guerra mundial. Não que, desde então, noutros países e latitudes, o autoritarismo, o racismo, a xenofobia e a discriminação, não se tenham manifestado, porventura com maior virulência e de forma brutal, como é próprio dos regimes ditatoriais, como sabemos.
O que espanta nos casos mais recentes (emigrantes africanos, abandonados pelo governo italiano e emigrantes latinos expulsos dos EUA) é estarmos perante acontecimentos passados em países e democracias sólidas, elas próprias construídas graças ao esforço e trabalho de milhões de migrantes ao longo de séculos.
Nada disto é, na realidade, novo, mas há um contexto que ajuda a explicar o aumento exponencial de tais atitudes em diversos países ao mesmo tempo.
É verdade que Trump nunca escondeu as suas intenções e anunciou-as vezes sem fim, durante a campanha eleitoral de 2016. Sempre disse que uma das suas primeiras medidas, seria a de construir um "muro", para impedir a entrada de imigrantes pela fronteira do Sul, ainda que tivesse desistido da ideia quando percebeu que o Congresso (republicanos incluídos) não estava disposto a pagar os biliões que custaria tal desvario. Da mesma forma, recuaria em outras tantas proclamações, cada qual mais disparatada do que a anterior, não porque não desejasse pô-las em prática, mas porque alguém mais "avisado" do seu gabinete, ou os próprios "checks and balances" que protegem o sistema democrático americano, o impediram.
O mesmo se passou em Itália, durante a campanha para as últimas eleições, que dariam a vitória aos partidos "Cinco Estrelas" (populista) e à "Liga Norte" (xenófobo e anti-imigração), que tendo feito campanhas anti-Europa e anti-sistema (o que quer que isso seja) desde sempre disseram ao que vinham. E ganharam. Como, de resto Trump (apesar de ter menos votos), ganhou.
Ou seja, apesar dos seus programas nacionalistas e reaccionários, conseguiram aliciar uma parte não negligenciável da população que (na falta de alternativas credíveis e descrentes das elites políticas tradicionais) optaram por votar em líderes populistas, cuja única mensagem era a recusa do "status-quo" e o ódio ao estrangeiro, bode expiatório de todos os males em sociedades com fortes componentes de imigração, ainda fortemente abaladas por uma crise económica e social, da qual não se refizeram.
O mesmo, de resto, está a passar-se na Europa "civilizada" (Hungria, Polónia, Áustria e Eslovénia) onde os respectivos governos, que incluem partidos de extrema-direita, já alteraram as constituições, advogam a diminuição dos direitos civis, querem o registo de minorias (ciganos, etc.) e a expulsão de estrangeiros ilegais. Também na Europa mais a Norte, em países onde governam coligações liberais, assiste-se com apreensão ao crescimento dos movimentos xenófobos e racistas, como é o caso de Le Pen (França), de Wilders (Holanda), ou o novo partido AfD (Alemanha).
O curioso em toda esta história, é que nenhum dos líderes dos partidos mencionados se reconhece nas práticas que caracterizam os partidos fascistas. Como bem nos lembra Rob Riemen, num seminal ensaio sobre a matéria, o fascismo novo, adapta-se aos tempos. Escreve o filósofo holandês: "Em 2004, o eminente historiador americano e especialista em história do fascismo, Robert O. Paxton, publicou a sua notável obra "The Anatomy of Fascism", onde sublinha que no século XXI nenhum fascista se designará a si próprio como tal. Os fascistas não são estúpidos e são mestres na arte da mentira. Os fascistas contemporâneos distinguem-se em parte pelo que dizem, ainda que seja importante o modo como actuam. À semelhança de Togliatti, Paxton afirma que o fascismo, devido à sua angustiante falta de ideias e ausência de valores universais, assumirá sempre a forma e as cores do seu tempo e da sua cultura. Assim, o fascismo na América será religioso e contra os negros, ao passo que na Europa Ocidental será laico e contra o Islão, na Europa de Leste, católico, ou ortodoxo e anti-semita. A técnica usada é a idêntica em toda a parte: um líder carismático, populista, para mobilizar as massas; o seu próprio grupo é sempre vítima (das crises, da elite ou dos estrangeiros); e o ressentimento orienta-se para um "inimigo". O fascismo não necessita de um partido democrático cujos membros sejam individualmente responsáveis; necessita de um líder  inspirador e autoritário ao qual se atribuem instintos superiores (as suas decisões não têm de ser justificadas), de um líder capaz de ser seguido e obedecido pelas massas. O contexto em que esta forma de política pode dominar é o de uma sociedade de massas afectada pela crise que ainda não aprendeu as lições do século XX" (Riemen, Rob: "O eterno retorno do fascismo", Bizâncio, 2012).
Só não percebe quem não quer.

2018/06/15

O populismo, pai do hooliganismo

Decorreu um mês sobre o incidente de Alcochete. Nesse dia (15 de Maio), cerca de meia centena de "alegados apoiantes", de um clube da capital, invadiram as instalações de treino da equipa principal de futebol e espancaram selvaticamente os seus jogadores e treinador, tendo ainda, durante a fuga, destruído parte do balneário e outras instalações. Algo nunca visto neste país e que, até hoje, associávamos a outros países e latitudes, normalmente fora da Europa.
Um mês decorrido, sobre este lamentável episódio, que balanço pode ser feito?
Foram detidos cerca de trinta indivíduos, que participaram nesta acção, faltando ainda apurar quem são e onde se encontram os vinte restantes; não são conhecidos formalmente os cabecilhas da acção, apesar da maioria das denuncias apontarem na mesma direcção (os líderes de uma das claques e, por extensão, a direcção do clube em causa, que autorizou e incentivou tais formas organizadas dentro das suas instalações). Finalmente, a ligação dos membros desta claque, ao tráfego de drogas, extorsão e associação criminosa, com extensões a movimentos de extrema-direita, como a própria polícia reconhece e vem a alertar há anos a esta parte.
Entretanto, no clube em causa, as recriminações sucedem-se: parte dos orgãos sociais já se demitiu, metade do plantel rescindiu unilateralmente os seus contratos e o próprio treinador (também ele, um dos agredidos) rumou a outras paragens. Os prejuízos, materiais e não só, são agora difíceis de calcular, mas irão afectar gravemente, não só o clube, mas todo o futebol português por extensão, já que o que se passou na Academia de Alcochete, podia ter-se passado noutro clube, onde a maioria dos "hooligans" (que compõem as claques) são apoiados pelas próprias agremiações e incentivados a comportamentos que extravasam o simples meio desportivo. Quando é o responsável máximo de um clube a criticar os seus jogadores e a incentivar os sócios contra a própria equipa, não nos devemos admirar dos efeitos destes discursos demagógicos e populistas nas claques apoiantes, muitas delas ligadas a práticas violentas e com cadastro criminal conhecido das autoridades. É o caso do "skinhead" Mário Machado, líder e fundador do Partido neo-nazi português (entretanto proibido) acusado e preso por diversos crimes, entre os quais o da morte do cabo-verdiano Alcindo Monteiro, no dia 10 de Junho de 1995, sobre cuja morte passou esta semana mais um aniversário (ver artigo de Rui Tavares in "Público" de 13 de Junho de 2018).
Monteiro, que passeava com outros amigos em Lisboa, foi barbaramente espancado por um grupo de "cabeças rapadas", sem motivo aparente, apenas por ser negro. O caso, muito badalado à época, terminou com a acusação e prisão dos 15 implicados nestas agressões, entre os quais Manuel Machado, condenado a dez anos de prisão, dos quais cumpriu apenas seis. Encontra-se actualmente em liberdade, tendo há poucos meses sido visto (e entrevistado por uma estação de televisão!) à saída de um restaurante, onde acabara de participar numa refrega, contra outro grupo da extrema-direita, por alegadas disputas sobre territórios de tráfego de droga. Ora, foi este mesmo Manuel Machado que - após a prisão do ex-líder da claque, que invadiu a Academia de Alcochete - anunciou, em comunicado, querer candidatar-se a líder dessa mesma claque (!?). Lemos e não acreditamos.
Os acontecimentos de Alcochete deixaram marcas e, porque um dos seus principais culpados morais  se encontra ainda em funções (deu ontem mais uma conferência de imprensa, transmitida em horário nobre pelos principais canais de televisão) é de admitir que, daqui a um mês, ainda estejamos a ouvir falar das consequências desta situação verdadeiramente aberrante, a que toda a comunicação social continua a dar cobertura, contribuindo para incendiar paixões, que há muito extravasaram o simples clubismo. O futebol profissional (não só em Portugal, de resto) deixou de ser apenas um desporto, para se tornar uma industria, que gera milhões e encobre negócios ilícitos (tráfego de influências, corrupção, fugas ao fisco, lavagem de dinheiro de drogas, etc.), como é conhecido de toda a gente.
Ora, o que fazem os governantes portugueses, perante factos e provas irredutíveis desta criminalidade organizada (dirigentes, bancos, máfias, neo-nazis), que gira à volta do futebol profissional português há décadas? Recusam falar sobre tal matéria, remetendo as questões polémicas para a justiça, para não ferir susceptibilidades, não vá o poderoso mundo do futebol (um estado dentro do estado) insurgir-se contra as críticas. Só esta semana, quatro dos principais governantes portugueses portugueses (o presidente da república, o primeiro-ministro, o ministro da educação/desporto e o presidente da Assembleia da República) irão à Russia "apoiar" a selecção nacional e, implicitamente, bajular Putin, um ditador sem escrúpulos, que é hoje o grande vencedor desta competição que se chama campeonato mundial de futebol. A promiscuidade entre o futebol e a política é total e não pode ser ignorada. Assim, não vamos lá.