2011/10/13

A peste bancária

A Nature, segundo dizem os jornais de hoje (veja aqui, aquiaqui e aqui, por exemplo), dá conta da reconstrução do genoma de uma bactéria, a Yersinia pestis, responsável pela peste negra e origem dos surtos modernos da doença. Para os mais destemidos, aqui está o estudo original.
Em meados do século XIV, a peste matou 20 a 50% (vinte a cinquenta por cento!) da população europeia. Números redondos: cerca de 50 milhões de pessoas, durante um período de menos de 10 anos.
A peste bancária pode matar mais. Esperemos que o genoma desta nova bactéria não demore 700 anos a reconstruir. Dia 15 vamos fazer pesquisa...

2011/10/11

Falta a vontade...

A crónica do José Vítor Malheiros hoje no Público é leitura obrigatória. Continua a haver gente determinada em expor e desmontar, com grande talento, o gigantesco embuste em que vivemos hoje e continua a haver gente sem vontade de o ver e de actuar para castigar duramente os artífices desse embuste.
Parece que estamos todos envolvidos num colossal número de alucinação colectiva, uma novidade da indústria de entretenimento a que podemos chamar ilusionismo social.
Falta a vontade... mas não se diga que faltam os meios!

2011/10/07

Ainda a Apple

Ler tudo aquilo que tem sido publicado sobre a morte de Steve Jobs e sobre a sua obra na Apple, não deixa de me dar, em certos casos, uma imensa vontade de rir.
Lembro-me quando em 1983 (creio que terá sido nessa altura, não o posso confirmar com precisão) eu e o meu querido amigo Pedro M. Freitas nos deslocámos a uma loja que ficava ali para as bandas da Av. João Crisóstomo para ver uma novidade que me descreviam como "bombástica". Era o Apple Lisa. Lembro-me do Pedro ter imediatamente começado a sonhar com as possibilidades que um computador deste tipo oferecia para as suas arquitecturas e eu imaginava futuros sonoros que, não muito tempo depois, se começaram a poder concretizar de uma forma sólida e acessível, graças à Apple. O sonho era possível para mim e para o Pedro. Continuamos irmanados nesse sonho.
Lembro-me também que nos tempos que se seguiram, muita desta gente que hoje tece loas a Steve Jobs, criticava a Apple por produzir computadores que pareciam brinquedos caros, com voz fininha, penugem e a cheirar a puberdade, ao contrário dos "compatíveis" que falavam grosso, tinham barba rija e pelos no peito. Usar computadores a sério era usar "Pc's" e homem que era homem usava DOS. Em vão a gente tentava explicar que alguns dos "defeitos" da Apple acabavam por ser virtudes. O sistema operativo era inovador (a metáfora, computers as theatre...), bastante mais blindado, mais fácil de usar, mais intuitivo e o facto de só correr nos Macs era uma vantagem porque tornava a sua operação mais fluida e menos sujeito às incompatabilidades de que sofriam os "compatíveis". O utilizador de Pc's olhava para nós com ar de comiseração e lá seguia na dele, enquanto nós seguíamos na nossa.
Até que um dia chegou uma coisa chamada "windows"... Uma vergonha tão grande que, segundo creio, foi retirado do mercado após uma primeira tentativa de o comercializar. Só lá para uma versão mais adiantada a Microsoft teve a lata de o voltar a colocar no mercado. Os valentes utilizadores do DOS exultavam com a possibilidade de fazer agora coisas que os utilizadores dos Mac's faziam há anos. Como utilizar um rato, por exemplo... Lembro-me das sessões de tortura que foram as primeiras tentativas de usar um rato num PC.
O "windows" era uma cópia descarada, mal enjorcada e retardada do Mac OS original, que já levava, nesta altura, um avanço ainda maior, proporcionado por muitas versões e aperfeiçoamentos que o foram tornando cada vez mais fácil de usar e eficiente. Só o preconceito impediu durante anos que determinadas aplicações informáticas comuns corressem no sistema operativo Macintosh. O preconceito ou o medo de que funcionassem melhor, como se veio depois a confirmar.
A verdade é que, eu pessoalmente, em quase 30 anos de utilização de produtos da Apple, nunca tive um vírus, um "crash", ou um problema de incompatibilidades ou dificuldades de instalação de periféricos, para além dos que me foram causados por "nabice" minha ou incompetência da EDP... O melhor sistema operativo, as melhores e mais inovadoras aplicações sempre foram as dos Macs. Para já não falar na sua beleza e na sua sempre exigente e comprovada correcção ergonómica.
Um outro aspecto que não tem sido suficientemente valorizado é que a inovação do conceito Apple criou ferramentas que inspiraram novas actividades e revolucionaram outras. Os Macs "inventaram" o desktop publishing. O mundo da multimédia e o seu potencial como nova ferramenta pedagógica e de escrita, estavam já presentes num simples processador de texto como o MacWrite e no, certamente já esquecido,  mas importantíssimo HyperCard. O tão badalado iPad é um longínquo herdeiro desta aplicação comercializada em 1987. Até as análises de DNA só eram possíveis em plataformas Apple.
E nem vale a pena falar no espantoso NeXT.
No princípio poucos compreendiam a visão de Jobs, o desígnio da Apple e o rumo que ele queria imprimir à companhia. Os primeiros produtos da Apple não foram propriamente estrondosos sucessos comerciais. Mas, a lógica da marca foi-se tornado clara, os cépticos foram-se muito lentamente rendendo e a Apple acabou por chegar à posição dominante que é a sua hoje. São todos estes, velhos utilizadores e outros recém convertidos, que agora lamentam o desaparecimento do homem que inspirou tudo isto.
Mas, creio que é forçoso reconhecê-lo, a Apple perdeu. Nesta querela  entre a lógica de uma informática ubiquitária, útil, para todos, e uma informática secreta, para informáticos e generais... ganharam os generais. A Apple perdeu tempo, recursos e energias e perdemos,  também, todos nós, com isso. A lógica sem compromissos da Apple foi durante muito tempo subjugada pela lógica badalhoca da Microsoft.
Hoje a situação inverteu-se. Mas, hoje também há quem pergunte para onde vai a América, agora que a inovação mora noutras paragens e os seus líderes empresariais e trabalhadores mais criativos desaparecem, ou migram para novas paragens, e a sua capacidade de inovação parece desvanecer-se no tsunami do caos económico. Talvez a estéril querela entre estes dois conceitos de aplicação de uma área em que os EUA dominaram —sem rival à altura, mas na tal lógica da badalhoquice— ajude a explicar um pouco a situação que por lá se vive hoje. A Apple acabou por ganhar, mas talvez tarde demais para que o seu país de origem possa colher dividendos sérios.
Mas, que dá vontade de rir ver muita desta gente a fazer o panegírico de um personagem que verdadeiramente nunca compreenderam (imaginem o dr. Cavaco!!) e continuam a não compreender, lá isso dá...

2011/10/06

Steve Jobs

Uso produtos da Apple desde 1984. Quando Jobs saiu da Apple "passei" pela NeXT, para depois "voltar" com ele à Apple. Os Macs, iPhones, etc, fazem parte de um contínuo de ferramentas que culmina no iPad (de cujo impacte ainda nos estamos todos a refazer...) e marcaram indelevelmente o meu quotidiano. Fizeram e farão sempre parte significativa desse quotidiano. 


A Apple é um fenómeno único, muito mais que um mero fabricante de "computadores" ou de produtos de "consumo". Um fenómeno digno da nossa reflexão, produto do fenómeno Steve Jobs.
Sempre pensei em Jobs como uma espécie de "membro da família". E sigo-lhe desde há muito o conselho...

2011/10/05

Fuck You! (carta aberta à EDP)

Os factos:
No dia 3 de Outubro último, tocaram à porta, estava eu a trabalhar em casa. Era um funcionário da EDP com uma ordem para cortar a energia eléctrica. Perguntei-lhe se tinha a certeza de ser o endereço certo, pois não tinha recebido qualquer comunicação, e ele confirmou o meu nome. Sem perceber o que se estava a passar (uma vez que a EDP tinha autorização para transferir os 22 euros mensais que gasto em energia), pedi-lhe que esperasse um momento para eu esclarecer o que se passava. Sem me dar tempo a telefonar, subiu a escada e desligou o quadro (!?). Fiquei sem energia e sem poder telefonar, pois possuo apenas um telefone fixo. Dirigi-me à vizinha de cima e usei o seu telefone para averiguar o que se passava. Depois de contar a minha história à telefonista que me atendeu, ela passou a chamada a uma funcionária de relações públicas. Esta explicou-me que os serviços tinham tentado fazer uma transferência da quantia mensal, para a qual tinham a minha autorização e que, nessa data, eu não teria saldo suficiente na conta (!?). Posteriormente, ter-me-iam enviado uma carta (que nunca recebi!) com uma data-limite para regularizar a situação. Desconhecedor da infração e sem poder, por isso, reagir, não paguei em tempo-útil. Daí o corte da energia.
Acontece que tenho sempre dinheiro na conta que a EDP tinha (já não tem!) autorização para movimentar. Nunca fui contactado directamente para solucionar a situação. Burocraticamente, não procuraram solucionar a situação através de um telefonema (tenho atendedor automático) ou um simples Mail, cujo endereço possuem. O funcionário que veio repôr a ligação, disse-me que até por 2 euros de dívida cortam a energia aos clientes...Pior, terei de pagar a nova ligação (quanto?) sem que tenha, para isso, sido ouvido ou achado. Grande negócio: cada vez que refazem uma ligação ganham duas vezes o aluguer. Isto, apesar dos moradores desta casa (os meus pais desde 1943 e eu, desde 1996) nunca termos falhado um pagamento em 68 anos.
Duas hipóteses:
A carta com o aviso de pagamento nunca foi entregue (estou a averiguar junto dos correios) ou, pura e simplesmente, extraviou-se. Vá lá saber-se porquê...
Duas certezas:
A EDP deixou de ter autorização para mexer na minha conta e eu vou mudar de empresa fornecedora de electricidade. Se é isso que queriam, far-lhes-ei a vontade.
De mim, a empresa presidida pelo Sr. Mexia, não vê nem mais um tostão. Como diria um conhecido comendador madeirense:"fáquiu!".

2011/10/03

Má consciência

Há vinte e quatro horas que os noticiários e principais orgãos de comunicação social noticiam que a PJ e a PSP estão de prevenção com vista a detectar e impedir possíveis contestações sociais violentas (!?) no seguimento das últimas medidas anunciadas pelo governo...
Não se percebe tanta preocupação. Ainda hoje um comentador televisivo veio, pela enésima vez, reafirmar que somos um povo de "brandos costumes" não sendo de esperar reacções violentas. Nós somos um "povo de comer e calar", nas suas próprias palavras. "Não somos iguais aos gregos", dizia o homem com ar muito convencido.
Não sei onde é que estes iluminados foram buscar tais certezas.
Não está provado que os portugueses são "mansos" (leia-se a nossa história), nem ninguém pode avaliar o que os gregos estão a passar. Eu, se fosse grego, reagia do mesmo modo. É intolerável exigir a uma população inteira, que foi alvo da gânancia e promessas da sua classe dirigente, que pague por uma crise da qual não é responsável. Mesmo admitindo que os "gregos" consumiam mais do que produziam (de resto, o mesmo se passa em relação aos portugueses), é impossível a qualquer povo resistir a estas medidas completamente desproporcionadas que não têm em conta as necessidades básicas da população e arrastam para a miséria absoluta milhões de cidadãos indefesos.
Só me ocorrem duas explicações para tal frenesim controlador da polícia: ou as forças de ordem querem, com este aviso, amedrontar os potenciais contestatários; ou estão com medo de que algo incontrolável possa acontecer. Como na Grécia, na Grã-Bretanha e (pasmem só) nos EUA onde os "indignados" ocupam há duas semanas a Wall Street.
De uma coisa, estou certo: os governantes têm a (má)consciência do que estão a fazer e sabem que estas medidas não vão resolver o problema estrutural português. Por isso, refugiam-se em ameaças veladas. As ameaças de quem se sente fraco.

2011/09/29

As águas turvas de Portugal

Foi Saramago que, certamente angustiado com o raciocínio tortuoso de alguns políticos sobre o tema das privatizações, sugeriu que "se privatizasse a puta que os pariu!" Vem a propósito recordar aqui o desabafo do Nobel...
Há uma operação que este governo se prepara para executar que é possível que só vá suscitar o interesse e a atenção dos portugueses quando for tarde demais. Estou-me a referir ao anunciado projecto de privatização da Águas de Portugal.
Este é um, entre muitos, destes projectos assassinos que se preparam; mais um que vai contribuir para tornar o futuro dos nossos descendentes ainda mais miserável. Mas este, em particular, pelo valor elementar do "produto" e pela reflexão a que obriga, talvez até possa ajudar a perceber que tudo o que se passa no domínio das privatizações tem um só desígnio: apanhar os portugueses a dormir e aproveitar para lhes extrair o tutano, pessoal e vital.
Anteontem a ministra Assunção Cristas veio dizer, em tom ultrapassado de mestre sem escola, que a água é um recurso que "tem de ser devidamente valorizado. As pessoas têm de saber que a água custa dinheiro, a água não é para desperdiçar, a água é para ser usada com todo o cuidado e com toda a parcimónia." Vai daí, como os portugueses não sabem nada disto, vamos lá entregar o recurso valiosíssimo —com cuidado e parcimónia porque se trata de gestão da coisa pública— ao privado para ele lhe espremer, certamente sem parcimónia, o valor que tem.
Não fala a ministra em pôr cobro ao regabofe das "empresas municipais" criadas para fazer finalmente uma "gestão competente" de uma antiga e quase sempre bem exercida competência camarária, que súbita e inexplicavelmente se sumiu. Empresas que não servem para mais do que criar emprego adicional para uma data de boys, ou ir começando a ensaiar umas benesses experimentais a alguns privados. De todo este regabofe tem resultado a prestação de um serviço mais miserável e amiúde mais caro. Não fala a ministra na aplicação badalhoca da Lei da Água. Não fala a ministra em corrigir o problema escandaloso das perdas (diz-se que a atingir nalguns casos os 40%!) e outros problemas técnicos inadmissíveis, reveladores de total incompetência, que afectam a exploração racional deste recurso. Não fala a ministra em promover acções sérias de esclarecimento e educação das populações e dos consumidores institucionais para a necessidade do uso "parcimonioso" deste recurso. Não  fala a ministra em criar critérios rigorosos para taxar a água de forma justa. Uma coisa é gastar água a lavar o Rolls Royce ou a encher a piscina, outra coisa é gastar água na higiene básica diária ou a satisfazer a sede. Não fala a ministra em vigiar os próprios organismos públicos (certamente dos maiores consumidores deste recurso de uso parcimonioso...) que a desperdiçam de forma escandalosa e impune. É ver regas públicas ao meio-dia, no verão, é ver torneiras públicas a verter água durante dias, sem que ninguém ligue um boi ao assunto. Não fala a ministra em vigiar e castigar severamente os poluidores privados da agricultura, indústria e serviços que, de um só golpe, são capazes de dar cabo do tal recurso valioso de uma forma que nos levaria, a nós, simples mortais, séculos, a nós que apenas procuramos cozer umas batatas, o asseio básico ou saciar o diabo da sede!
Não! O que é preciso, para a populaça aprender, é aumentar o raio da água a mim ou a si, leitor do Face, que somos uns malvados, pecadores hidro-contumazes. E entregar tudo isto a privados, pois então, porque, claro está, os privados, cujo objectivo confesso é dar borlas ao pessoal, vão certamente fazer o seu trabalho cantando alegremente e prescindindo da sua mais-valia. Dê-se-lhe com o privado porque a  população é totalmente atrasada mental e não percebe que, se é possível gerir bem e fazer baixar os custos de gestão deste sector (e é disso que precisamos) com privados, essa gestão estaria muito melhor entregue aos organismos do Estado, que o podem fazer, pelo menos, igualmente bem (se lhes for ordenado que o façam...) e sem mais-valia nenhuma. É que o privado não tem o exclusivo da inteligência, como o público não tem o exclusivo da estupidez, como alguns ministros, pelo seu comportamento e pelas propostas que nos apresentam, nos levam muitas vezes a fazer crer...
A água, perdoem-me o cliché, é um bem tão básico, tão básico que nem damos por ele. Só quando falta. Há duas ideias, entretanto, que me deixam pior que estragado, mas que são repetidas até à exaustão, sem que aparentemente surja contraditório. Uma, é esta de que tudo é privatizável e a privatização tudo resolve. Há um problema? "Privatize-se" que ele fica logo resolvido. Outra ideia é esta de que gestão e critérios de gestão são faculdades só aribuídas a entes iluminados, crentes nas virtudes sagradas da economia de mercado. Mais ninguém é capaz de "gerir". As contas, leitor, as somas e subtracções, o deve e o haver, a procura do equilíbrio entre as receitas e os gastos, são artes superiores, apenas reservadas a mentes especiais, a quem tem para cima de 20 gravatas e guia um carro de alta cilindrada.
Uma e outra ideia só podem surgir da mente de imbecis, de indigentes intelectuais, ou de malfeitores. Não há outra possibilidade. Privatizar e gerir de forma privada este recurso tão, tão básico —parece-me, em resumo— é coisa que só pode pois passar pela cabeça de imbecis, indigentes intelectais ou malfeitores.
Não sou fundamentalista, se calhar até há coisas que podem ser exploradas pela iniciativa privada, com vantagens. Mas, a água?! Por este andar, os nossos filhos vão mesmo ter de pagar pelo ar que respiram.
Saramago tinha razão...


PS- Desde há algum tempo que corre uma petição para levar o assunto da privatização da água a referendo. Está aqui. Assine-a e divulgue-a, ela precisa do seu empurrão. É obrigatório levar este assunto a referendo! Tentativas de privatizar a água noutros países foram derrotadas. Espero que Portugal não fuja à regra.

Na terra do faz de conta

Cavaco - o Sr. Silva - deu mais uma entrevista à televisão. Deu, é como quem diz; pediu uma entrevista à TVI, pois, nestas coisas, um pedido do presidente é uma ordem.
Como é habitual, seguir-se-á o ritual das análises e comentários dos politólogos de serviço que, de resto, ontem mesmo iniciaram a interpretação das palavras explicitas e implicitas do entrevistado.
E o que disse Cavaco de importante? Pouco, como é habitual.
Uma crítica explícita à Sra. Merkel e à sua visão unilateral da Europa comunitária, uma crítica explícita às altas taxas de juro praticadas pelo BCE e o desejo implícito que o mesmo banco Europeu pudesse comprar as dívidas públicas de um país, de forma a evitar falências anunciadas como a Itália ou a Espanha.
De fora, como sempre, ficou a crítica aos desvarios da Jardim (Cavaco tem medo do líder madeirense), a crítica às dívidas acumuladas durante os governos antecendentes (do PS ao PSD), o "buraco" do BPN que todos temos de pagar (e que foi provocado pelos seus amigos mais chegados) ou uma visão internacional dos problemas que, de resto, duvidamos que tenha...
Tão pouco falou do acelerado empobrecimento da população portuguesa, que vai agravar-se em 2012 e, quando questionado sobre se não devia haver uma maior comparticipação dos mais ricos em tempo de crise (nomeadamente da banca), refugiou-se no legalismo hipócrita do modelo de contribuição fiscal aprovado pela AR em 1989, quando o PSD tinha a maioria...Ou seja, se a banca paga hoje menos contribuições do que um assalariado português médio, isso deve-se aos legisladores (leia-se deputados) que votaram este modelo no tempo em que o seu partido governava. Esclarecedor, o argumento de Cavaco Silva.
Mas, temos de ser coerentes: se o actual modelo de contribuição data de 1989, quando o partido do Sr. Silva tinha uma maioria absoluta na AR, este modelo não foi alterado quando o PS de Sócrates teve a maioria parlamentar entre 2005 e 2009. Logo, o modelo é aquele que os partidos do arco de governação (leia-se bloco central de interesses) escolheram para Portugal. Nisso, Cavaco Silva não é diferente dos presidentes que o antecederam.

2011/09/21

Mais medo que vergonha

O orçamento do MAI vai ser reforçado. O ministro justifica este reforço com malabarismos verbais que não podem deixar de dar vontade de rir. Mas, o que significa este privilégio em tempo de vacas magras?
Parece possível que este reforço revele apenas má consciência por parte do governo e medo do que aí poderá vir (com tantas alusões aos "tumultos", vindos de gente tão variada e insuspeita a sugerir e a quase legitimar a possibilidade da sua ocorrência, da Igreja Católica a Mário Soares, é estranho que ainda não tenham ocorrido de facto...). Mas, tendo em conta que o que aí poderia vir já deveria ter vindo e não veio, este brinde exclusivo às forças de segurança actua apenas como potente dissuasor de quaisquer veleidades futuras de mobilização, que, na prática, se tem revelado bastante pífia.
Porque, é verdade, não há tumultos, nem sequer contestação verdadeira às medidas assassinas que este governo vem levando a cabo. Muita conversa, mas pouca acção eficaz. Qualquer oposição séria ao rumo que o País tomou apanhará agora as forças de segurança —vítimas, elas próprias, dos desgovernos passados e do presente, que nunca deles deveriam ser instrumento— com o flanco menos desguarnecido.
Quem tem afinal medo da contestação?
O governo está muito (demais!) à frente!

2011/09/20

A lógica do sistema (1)

Jardim admite que "até dentro do PSD" haverá quem queira ver-se livre dele. E, assim, uma questão de Estado (grave, como todos admitem) é facilmente transformada numa mera questiúncula partidária, a dirimir, talvez, num qualquer Conselho Nacional.
Desta forma se fica a perceber a lógica profunda do sistema que nos trouxe até aqui.

2011/09/18

Operação Palito (3)

Dois meses após ter deixado de enviar emails, através do sistema "entourage", telefonaram da Netcabo para comunicar que o sistema de envio estava operacional. Aparentemente, bastou substituir o IP por um novo. Há coisas que são difíceis de explicar. Mas, como dizia o poeta, "algo és algo".

2011/09/16

Da gravidade das palavras

O Tribunal de Contas detectou a situação da irregularidade das contas na Madeira em Abril passado. O governo, decorridos meses, veio, pela voz do Ministro das Finanças, definir esta situação, numa conferência de imprensa que teve lugar no mês passado, de crise grave. Insustentável, disse mesmo. Agora é o INE e o BdP que consideram grave o desvio detectado nas contas. Depois de tudo isto, depois de Juncker se ter confessado surpreendido e enquanto Ollie Rehn mostrava o semblante grave perante as notícias do empenamento da Madeira, de repente, até o Primeiro Ministro classifica o que se passa na Madeira como "uma irregularidade grave." Imperdoável, diz mesmo. Os partidos, da direita à esquerda, consideram também esta situação grave.
Grave é... grave. Ou não será?
O responsável por toda esta gravidade acha que não, que tudo não passaria de um agudo sentido de gestão. E promete continuar.
Por outro lado, numa clara demonstração de solidariedade para com o povo mártir da Madeira e o seu líder incontestado, o senhor Silva —também conhecido por Presidente da República—, personalidade a quem compete, segundo o nº 134 da Constituição da República Portuguesa, "pronunciar-se sobre todas as emergências graves para a vida da República" (e esta, todos aparentemente concordam, é grave!), não vê, ao que tudo indica, qualquer gravidade em tudo isto e lembra-nos mesmo, a propósito, que "ninguém está imune aos sacrifícios que são pedidos a Portugal, para cumprir os compromissos assumidos internacionalmente."
Por outras palavras, o Presidente da República parece estar a querer dizer para tirarmos o cavalinho da chuva perante a necessidade de intervir neste caso, e lembra, de forma contorcida, que é aos eleitores portugueses que cabe pagar solidariamente os desmandos do régulo da Madeira, apesar de não terem a possibilidade de correr democraticamente com ele e apesar de existir o perigo real de os eleitores madeirenses o virem mesmo, em breve, a confirmar no cargo (Passos Coelho cede-lhes a incumbência de lhe continuarem a dar ou de lhe retirarem a confiança política), deixando-o assim prosseguir livre e impunemente a sua tresloucada caminhada.
Giro, isto!

Passos pré-eleitoral

Prometo publicar aqui, semanalmente, estas promessas pré-eleitorais do actual primeiro ministro Passos Coelho até que o actual governo cesse funções. Socorro-me de um trabalho publicado no excelente blog "Democracia em Portugal?".
Infelizmente, a maior parte das vezes, a memória é curta e a tolerância para com a falta de palavra tornou-se um hábito. Pelo meu lado, não vou deixar que tudo isto caia no esquecimento. Ora recordem lá o que disse o senhor dos Passos...

"Estas medidas põem o país a pão e água. Não se põe um país a pão e água por precaução."


"Estamos disponíveis para soluções positivas, não para penhorar futuro tapando com impostos o que não se corta na despesa."


"Aceitarei reduções nas deduções no dia em que o Governo anunciar que vai reduzir a carga fiscal às famílias."


"Sabemos hoje que o Governo fez de conta. Disse que ia cortar e não cortou."


"Nas despesas correntes do Estado, há 10% a 15% de despesas que podem ser reduzidas."


"O pior que pode acontecer a Portugal neste momento é que todas as situações financeiras não venham para cima da mesa."


"Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos."


"Vamos ter de cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos."


"Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Os que têm mais terão que ajudar os que têm menos."


"Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado."


"Já estamos fartos de um Governo que nunca sabe o que diz e nunca sabe o que assina em nome de Portugal."


"O Governo está-se a refugiar em desculpas para não dizer como é que tenciona concretizar a baixa da TSU com que se comprometeu no memorando."


"Para salvaguardar a coesão social prefiro onerar escalões mais elevados de IRS de modo a desonerar a classe média e baixa."


"Se vier a ser necessário algum ajustamento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas."


"Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português."


"A ideia que se foi gerando de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento."


"A pior coisa é ter um Governo fraco. Um Governo mais forte imporá menos sacrifícios aos contribuintes e aos cidadãos."


"Não aceitaremos chantagens de estabilidade, não aceitamos o clima emocional de que quem não está caladinho não é patriota."


"O PSD chumbou o PEC 4 porque tem de se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento."


"Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate."


"Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?"

2011/09/14

Quando a parvoíce não tem cura

Tinha prometido a mim mesmo não escrever durante as férias. Aproveitei para encontrar-me com alguns amigos e amigas holandesas que vieram até Portugal. Com uma delas, artista plástica em Haia - autora de um projecto sobre escadas rolantes na Europa - conversei longamente sobre a estação do metro Baixa-Chiado, que ela ignorava ser da autoria de Siza Vieira. A "bonita estação branca" como ela lhe chama e que filmou longamente para inclui-la no seu projecto.
Hoje, li num matutino que a estação vai passar a chamar-se "Baixa-Chiado PT Bluestation", devido a um contrato de patrocínio estabelecido com a PT. Por quatro anos. Ou seja, durante esse período, a estação de metro com saídas para o Largo do Chiado e para a Rua do Crucifixo, vai ter um nome diferente do original (!?).
O pior, é a maioria da vereação da Câmara (socialista) ter votado a favor desta nova toponímia, tornando assim, a decisão irreversível. Será que esta vereação ensandeceu?
Perante tanta cretinice, só me resta mesmo voltar para férias. O mais longe possível desta gente.

2011/09/07

A alegoria do pão

Enquanto o dr. Passos Coelho nos revela finalmente a sua faceta autoritária (o lobo com pele de escuteiro...), coadjuvado pelo dr. Portas que avisa, sibilino, que a contestação é má para os contestatários, o dr. Cavaco, fino que nem um alho, alerta para o perigo do excesso de futebolistas estrangeiros nos campeonatos nacionais.
Entretanto, o preço do pão (produto em que nem o dr. Salazar se atreveu a tocar) vai subir, por causa, dizem, de um pretenso aumento da matéria prima. O aumento do pão vai previsivelmente contribuir para a diminuição do consumo, que já está, de resto, em queda de há algum tempo a esta parte. Os industriais do sector temem esta possível quebra de vendas, mas, dizem, não têm alternativa. Ou aumentam o produto ou o sector não se aguenta. Se o aumento for para a frente o sector pode manter-se à tona de água, mas, se o fizerem, diminuem as vendas e o sector... afunda-se.
Esta é a terrível contradição em que se encontra a economia portuguesa. Para a resolução da qual, é preciso dizer-se, o governo demonstra uma arreliadora e exasperante falta de qualidades.
O português, exaurido pela sanguessuga fiscal, vai observando a alegoria do pão que se estende desde há muito a outros sectores da economia nacional, que parecem ir definhando, sucessivamente com ele, sem remissão, até ao estertor final.
É este retrato de um país improvável. E é neste cálculo de improbabilidades que cada um lança mão dos recursos que melhor domina: Portas e Coelho constroem trincheiras e limpam espingardas, enquanto Cavaco lança o seu trompe l'oeil futebolístico. Estarão eles mesmo, mesmo cientes da dimensão do sarilho que estão a criar?
Infelizmente, com as novas medidas do ministro da saúde sobre doações e transplantes de órgãos este governo e este presidente não vão poder receber o órgão de que tanto precisavam: uma nova cabeça.

2011/09/05

Rever a Constituição

A sugestão feita pelo dr. António Barreto para que seja criada uma comissão que discuta a revisão constitucional é para ser levada muito a sério. A começar pelo dr. António Barreto. Concordo com a necessidade de a fazer e concordo com as metas sugeridas.
Espero que esta tarefa venha mesmo a ter lugar e que seja o proponente a tomar a iniciativa de a organizar e implementar. Não lhe falta a experiência, os meios, as ligações, a preparação técnica necessária e a noção do momento. Faz parte da elite do país a quem cabe passar da teoria aos actos.
A nós compete-nos acompanhar a discussão, participar nela e dar a mão no que for preciso, na exacta medida dos nosso talentos e da nossa esfera de acção, na perspectiva da urgência da tarefa. Estou certo que um amplo movimento cívico se formará em torno desta ideia. É preciso colocá-la em marcha.
Espero estar a discutir a revisão constitucional muito em breve e espero que um projecto de constituição revista possa ser submetido a um referendo em tempo oportuno.

2011/08/31

O dia em que os porcos voaram...

Encontra-se em exibição, numa sala de Lisboa, um filme assaz interessante. Trata-se do documentário "A autobiografia de Nicolae Ceausescu" (Ceausescu par lui-même) do realizador romeno Andrei Ujica. Na verdade, mais do que um documentário, trata-se de um verdadeiro "documento" sobre a ascensão, reinado e queda do ditador que governou a Roménia entre 1964 e 1989.
Contrariamente à maior parte dos documentários históricos, que seguem uma narrativa mais ou menos estruturada e onde, para além dos diversos pontos de vista, as imagens são frequentemente sublinhadas por uma voz "off", esta "biografia" de Ceausescu tem a particularidade de ser editada a partir das filmagens oficiais que o ditador mandava fazer de si mesmo. Ujica necessitou de quatro anos para visionar e editar mais de 1000 horas de filme, antes de chegar ao produto final, um condensado de 3 horas...
O documentário começa com o célebre julgamento de Nicolae e Elena Ceausescu, após a sua captura em Dezembro de 1989, dando depois início a um longo "flashback" sobre as principais fases do governo romeno. Destaque para os congressos do partido comunista, onde o culto do camarada Ceausescu atinge proporções faraónicas, só ultrapassadas pela sua visita à Coreia do Norte, onde o regime de Kim Il Sum lhe proporciona uma recepção ainda mais apoteótica. Inúmeros são, também, os visitantes ilustres que passam pela Roménia, desde De Gaulle a Nixon, da mesma forma que o filme mostra as viagens do casal Ceausescu aos EUA, a Inglaterra e à China, onde é recebido por Carter, a Rainha Isabel II e Mao Tse Tung.
Não faltam momentos de antologia, entre os quais as festas da "nomenklatura" romena e as caçadas do casal Ceausescu, nas quais o ditador dispara animadamente contra ursos e veados, alimentados em coutadas do regime. Um dos momentos mais hilariantes é a intervenção do camarada Parvulescu, que pede a palavra em pleno congresso do partido para se opor à reeleição de Ceausescu, acusando-o de manipular o Comité Central onde, mais uma vez, seria eleito. Do camarada Parvulescu nada sabemos, mas não nos custa acreditar que ele não tivesse sobrevivido ao fim do regime.
Num dos últimos discursos do filme, Ceausescu ensaia uma piada que os presentes, entre os quais a sua devota mulher, aplaudem demoradamente. Dizia ele, que o capitalismo nunca triunfaria na Roménia. Mais fácil seria ver um porco voar. E enquanto todos riam, ele avisava: "não se riam, que com os avanços da ciência genética, nunca se sabe o que o futuro nos reservará".
Vem-me à memória esta cena ao ouvir hoje o Nicolae da Madeira a justificar a dívida que contraiu à custa dos nossos impostos. Resta-me a esperança de ver a genética avançar de tal modo que os porcos possam voar.

2011/08/30

Brandos ou lorpas?

Os portugueses são descritos frequentemente como um povo de brandos costumes. Na situação actual alguns autores e analistas afirmam que essa brandura de costumes está contudo em risco e que a tampa poderá saltar a qualquer momento, fruto da escalada da degradação de condições de vida para além do suportável. Duvido. O confronto não tem de ter necessariamente uma expressão violenta, mas pode e deve ocorrer se as circunstâncias o justificarem. Podemos ser brandos no confronto, mas isso não significa demitirmo-nos dele e, sobretudo, que tenhamos que ser lorpas. Ora, os portugueses não dão boas indicações neste domínio.
Veja-se o anunciado processo de privatizações. Já se lhe antevê um desfecho (se o desfecho vai ter ou não o sucesso desejado é outra coisa...) e creio que a maioria esmagadora dos portugueses ainda nem se deu conta do que aí vem, nem lhe adivinha as consequências.
Não falo nas privatizações dos bocados suculentos das empresas onde o Estado ainda ganha algum. Embora ache simplesmente estúpido e um acto de má gestão a perda de receitas seguras ou de posição estratégica em sectores como a energia, o transporte aéreo ou os seguros, por exemplo, nada disto me coloca dúvidas existenciais. Não se tratando de sectores vitais, parece-me um acto de simples incompetência deixar escorregar das nossas mãos, nesta altura, todo este potencial. Talvez as novas sedes destas empresas se acabem até por mudar para um qualquer paraíso fiscal, como referia o Rui Mota ontem aqui, e se percam, para além das receitas, parte significativa das receitas fiscais. Mas, como já estamos habituados a estes actos de "gestão" a coisa não parece de todo inusitada.
Outra questão diferente é a privatização da RTP e, sobretudo, das Águas de Portugal. Não deixa de ser estranho que não haja um debate sério sobre esta matéria, que os partidos da oposição não o promovam e que tanta cabecinha pensante deste país, que perora sobre tudo e mais um par de botas, se mantenha em silêncio perante o que está aí para acontecer.
O panorama dos orgãos de comunicação em Portugal é lamentável. Quando o classifico assim não me estou a referir ao seu aspecto exterior, ao figurino que passeia nas passerelles públicas todos os dias. Nesse sentido Portugal não é diferente de qualquer outro país ocidental ou ocidentalizado. A comunicação social, em Portugal como em muitos outros países, é um dos instrumentos usados pelos ricos para promover um certo modelo de vida, este modelo de vida em crise para os pobres, desenhado para engordar justamente os ricos.
A "comunicação social" não é nem mais nem menos que isso: um elemento vital nesta estratégia de condicionar sonhos e formatar o pensamento ao serviço de quem o sabe manipular. A RTP não é, também neste contexto, outra coisa senão uma ferramenta de manipulação. Mas, ao contrário do que se passa com a SIC ou a TVI, é nossa! Em última análise, temos sempre a possibilidade de questionar o seu sentido e de lhe exigir a correcção do rumo. Não sendo especialista nestas matérias, ainda assim, acho, como mero observador, que é isso que me parece que desde o 25 de Abril se tem passado quanto à RTP: um questionar constante do seu sentido e um esforço constante para lhe corrigir o rumo. Os resultados são os que conhecemos, uma desgraça. Mas a grande diferença é esta: podemos sempre exigir uma prestação de contas, porque a RTP tem de nos prestar contas. Só a nossa demissão impede que isso seja feito.  As ingerências na SIC ou na TVI, conditio sine qua non, ficam entre muros (excepção feita ao episódio Sócrates & Manuela...), na RTP tudo salta naturalmente cá para fora.
O que se prepara é a doação deste poder a mais um qualquer grupo económico. O que se prepara é a existência de mais um canal que vai promover o ponto de vista do dono sobre o sistema em que acha que temos de viver, manipulando como puder, como se faz agora, sem que o possamos questionar, como agora se pode fazer. O que se prepara é uma delegação injustificada de poderes, sobre a qual, repito, ninguém parece reflectir de modo sério. O que se prepara é mil vezes mais grave que a "venda" do BPN a patacos, mas ninguém parece muito preocupado com isso.
O coro indignado  dos donos dos canais privados revela apenas apreensão quanto à partilha de influência, é uma questão entre eles. Não há razão para temores. Se a privatização for para a frente (nunca se sabe...) resta-nos sempre a possibilidade de fazer ao futuro canal o que eu faço à SIC e à TVI: cortar-lhe o pio! Não me agrada assistir à operação de lavagem colectiva ao cérebro que as televisões proporcionam aos meus concidadãos, mas, pelo menos a mim, não me apanham na conversa e não me incluem nas audiências.
Outra coisa bem mais grave é aquilo que se prepara com a água. Estamos perante um bem que não podemos escolher, vital e escasso, que ao que tudo indica vai ser entregue a "privados". Para quê?! Que liberdade de escolha proporciona a entrega das Águas de Portugal à "iniciativa" privada? Que "iniciativa" é esta? O que é "privatizar" a água? Que mais valia poderia trazer? Que vantagem ignota proporciona? Para que raio serve uma operação desta natureza? Estarão os portugueses cientes daquilo que lhes vai acontecer, do modo como vão ficar condicionados no que de mais vital existe nas suas vidas? Preparam-se para entregar a gestão deste último dos nossos "baldios" a um único senhor e fica tudo calado, sem reacção?
Será que afinal brando é lorpa mesmo?

2011/08/28

Os ricos, esses pobres...

Os ricos andam numa "fona".
Depois do americano Warren Buffet (que paga 17% de impostos!) e dos "capitães da industria" francesa (do L'Oréal ao Citroën), já tivemos os italianos de Berlusconi e, hoje mesmo, os austríacos ricos. Todos querem ser taxados! Só Zapatero, certamente a pensar nas próximas eleições, deu o dito por não dito e recuou nas intenções de aumentar a taxa fiscal. Entretanto, em Portugal, o governo faz um compasso de espera para "estudar o assunto", mas, depois das declarações de Cavaco, dificilmente deixará passar esta oportunidade em querer parecer mais "social"...
Há, claro, os renitentes: à cabeça, o Amorim que "não é rico, mas trabalhador" e o homem da Jerónimo Martins, que criou um fundo de apoio para os trabalhadores daquela cadeia de supermercados a viver com dificuldades (!?).
Engraçado é ver os especialistas da matéria na SICN (ontem, um conhecido fiscalista e a directora da revista Única do "Expresso") a alertarem para o "perigo" das grandes fortunas poderem fugir de Portugal (como se essa não fosse já a realidade dos grandes grupos económicos portugueses).
De acordo com uma investigação levada a cabo pelo "Público", os vinte maiores grupos económicos em Portugal têm 74 sedes no estrangeiro. A Holanda é um dos países preferidos e, só em Amsterdão, têm sede fiscal: o BCP, a PT, a Sonaecom, a EDP, a Cimpor, a Brisa, a Sonae Industria, a Galp, a Mota-Engil, a Semapa e a Portucel...
Tudo gente trabalhadora e patriota, como é bem de ver!
Ou seja, se os pobres protestam, os ricos vão-se embora e, para estes não "fugirem", os pobres devem contentar-se com o que têm. Ou seja, nada. Como não têm nada, devem estar muito agradecidos pelo facto dos ricos quererem ser taxados. Se não fossem os ricos, nem essa ajuda recebiam.
Não é de admirar que os pobres andem cada vez mais baralhados. Quando a "esmola" é grande...

2011/08/24

Os túneis de Tripoli

Agora que o regime líbio parece viver as suas últimas horas, ninguém de bom senso arrisca vaticinar os dias que vão seguir-se. Quem dirige, na realidade, as forças que combatem contra Kadhafi, eufemisticamente apelidadas de "forças rebeldes"? Chefes das muitas tribos e etnias que formam a nação líbia? Movimentos de oposição exilados em capitais ocidentais? Movimentos integristas, federados na "irmandade muçulmana"? O "Al Qaeda", ou o que dele resta? Mercenários do Chade, de sotaque americano, que se deslocam em jeeps de alta cilindrada e usam óculos "ray-ban"? Ou, o povo oprimido pela ditadura que, ainda há poucas semanas atrás, aclamava entusiasticamente o coronel na mesma "Praça Verde" onde hoje destrói os símbolos do regime deposto?
Não sabemos. Ninguém sabe. Do sempre bem informado Nuno Rogeiro (mais conhecido pelo "verdadeiro banda larga"), ao especialista do médio-oriente Robert Fisk, todos os analistas se interrogam sobre as virtudes desta "Revolução Árabe". Sim, porque há mais do que uma versão: a tunisina, que é diferente da egipcia que, por sua vez, é diferente da líbia e esta da síria, que ainda está para durar...
Também não se percebe porque é que o "Ocidente", através da NATO, não interveio na Tunísia e no Egipto e apoiou agora as "forças rebeldes". O argumento, da repressão usada por Kadhafi contra o seu povo, é defensável, mas então, porque não bombardear igualmente Assad (Síria) que já matou milhares de populares indefesos? A que se deve esta diferença de critérios? Talvez o facto da Líbia ter petróleo ajude a explicar algumas destas questões.
E porque é que Israel, a "única" democracia na região, nunca se pronunciou a favor dos movimentos emancipatórios árabes? Será que, lá no fundo, o governo israelita prefere os ditadores, desde que estes reprimam os fundamentalistas islâmicos que ameaçam a sua própria integridade? Tudo é possível, neste Mundo de "realpolitik", onde não interessa tanto se Kadhafi é um "son of a bitch", desde que seja o "nosso" filho da puta.
Uma coisa parece certa: depois da "Primavera", já estamos no "Verão" e nada nos garante que não iremos assistir a um "Outono árabe". As revoluções árabes, vão continuar por muito tempo e muitas destas ditaduras não cairão para já. Ou, talvez caiam, para serem substituidas por outras mais sofisticadas, sempre ao serviço das mesmas elites que vão continuar a explorar os seus povos.
Entretanto, algures no subsolo de Tripoli, o coronel continua à procura de um túnel com luz ao fundo. Uma dúvida me assalta: terá ele levado as garbosas "amazonas" virgens que sempre o defenderam? Nesse caso, estará em boa companhia...

2011/08/22

Operação Palito (2)

Enquanto assisto na televisão à queda de Kadhafi em directo, recebo um telefonema dos serviços técnicos da ZON: os serviços técnicos detectaram uma falha no meu antigo IP (Nº 10101747872) e desactivaram-no. Porque estão a desactivar todos os IPs na área onde resido e se trata de uma operação sistémica, deve demorar entre 2 e 14 dias até receber um novo IP e uma nova certificação. Até lá, continuo impossibilitado de enviar "emails" através da minha plataforma "entourage". Conseguirá, Kadhafi, resistir tanto tempo?

2011/08/19

Operação Palito

Há cerca de um mês deixei de poder enviar "emails" através da minha plataforma do "entourage" (para quem não saiba, o "entourage" é um serviço do MAC, correspondente ao "outlook" no PC). Sempre que desejava enviar ou responder a um "email", surgia um texto no écran do computador a avisar que os meus "emails" não estavam "certificados" e que necessitava de autorização para tal (!?). No entanto, sempre que clicava na tecla "send", os "mails" eram enviados. Saíam, mas nunca chegavam aos destinatários!
Só dei por isso ao fim de uns dias, quando as pessoas a quem enviava "mails" me diziam que não tinham recebido nada (!?). Ou seja, os "mails" saíam, mas caiam literalmente no "buraco negro" de que falam os astrofísicos.
Queixei-me à ZON, onde tenho a minha assinatura da Netcabo, mas, os sucessivos técnicos que me tentaram ajudar, deram-se por vencidos ao fim de algumas horas de tentativas. Aconselhado a ir a um representante MAC, pois podia tratar-se de um problema do "entourage", lá fui. Numa das lojas que visitei, o técnico alterou a configuração das contas de envio de "mails", fez dois testes à minha frente e os mails saíram e entraram no computador dele. Estava a funcionar!
Voltei a casa, recomeçei a enviar mails (agora já sem o aviso no écran) e esperei pela resposta. Como ninguém me respondia, confirmei que nada tinha mudado. Sempre que me ligava à Netcabo, deixava de poder enviar "mails" através do "entourage". Entretanto, uma das técnicas da ZON, forneceu-me um webmail temporário, através do qual posso enviar "mails", mas não pela plataforma "entourage".
Desesperado, queixei-me pela enésima vez à ZON, que me pôs em contacto com a PC-clínica um serviço de apoio informático. Deste vez, o técnico com quem falei, mandou-me desligar o "modem" e introduzir um palito vulgar num dos orifícios existentes, na parte detrás do aparelho, durante 30 segundos. Após tão delicada operação, enviou-me um "mail" e pediu para eu fazer um "reply". Assim fiz, mas ele nunca recebeu o meu "mail". Foi, presumo, para o tal buraco negro...
Ontem, fui a outra loja MAC. O técnico voltou a configurar o envio de mails e fez um teste à minha frente. Os mails saiam do meu computador e entravam no dele...estava em ordem. Pediu-me para, quando chegasse a casa, lhe enviasse um "reply" para confirmar se estava tudo OK. Assim fiz. Como ele não respondesse, telefonei-lhe. Não tinha recebido o "mail"...explicou-me que eu não sou o primeiro com este tipo de problemas, mas que a Netcabo não vai admitir que é um problema da "certificação" no servidor.
Hoje voltei a telefonar para a ZON. Mesma história, mesmos testes. Sem palito. No prazo máximo de cinco dias, entram em contacto comigo, para confirmar se o problema está resolvido...
Eu sei que estas histórias não têm interesse nenhum, mas, como estamos na "silly season", parto do princípio que fazem parte do Verão. Prometo, desde já, contar o fim desta operação, quando e se ela acabar em bem. Entretanto, e pelo sim pelo não, resolvi precaver-me e fui ao supermercado comprar uma caixa de palitos. Da marca "Elos" (redondos grandes) que, segundo o meu merceeiro, são os melhores...

2011/08/15

A classe média, esse «reservatório inesgotável»



Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV ( século XVII), extraído da peça de teatro Le Diable Rouge, de Antoine Rault:



«Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandá-lo para a prisão. Então, o Estado continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E então os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como o penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.»

À deriva

Nunca o marxismo, na sua tendência grouchista, foi tão pertinente. No registo do pensamento marxista-grouchista há, recordar-se-ão, aquele célebre telegrama enviado à direcção do exclusivíssimo Friar's Club de Beverly Hills, em que Groucho Marx pede a demissão porque, justificava ele, "não quero pertencer a um clube que me aceita como membro."

O ministro das finanças alemão diz-se contra o que ele chama de "apoio ilimitado" aos países afectados pela crise da dívida soberana. Diz-se também contra as chamadas eurobonds. A França ajuda à missa. Em contraponto, parecem existir sectores do governo alemão que admitem as eurobonds. A Itália aperta o cinto. A Espanha tenta acertar na fivela. Em Inglaterra surgem vozes preocupadas. Os efeitos da propagação da crise da dívida irão certamente repercurtir-se seriamente neste país. As reformas operadas em Inglaterra, mesmo com esta fora da zona euro, correm o sério risco de esbarrar contra a evolução da crise da moeda única. A Inglaterra está, por tabela, em risco de ter de calçar os motins e deslizar por aí fora.

O desafio para a Europa não está na forma de lidar com a dívida dos Estados Unidos, mas na inabilidade da Europa "Desunida" para resolver a sua própria crise. Ninguém parece estar a salvo, o perigo de desagregação é iminente. Mesmo assim, ninguém parece conseguir entender-se. A imagem que fica é a de uma Europa totalmente à deriva. Entretanto, George Soros e outras vozes sugerem que a Grécia e Portugal deviam sair da zona euro.

A Europa aceitou Portugal, Grécia e Irlanda como membros dos seu Friar's Club. Está porventura na hora de levar a tese marxista-grouchista mais longe: estes países não deveriam permanecer num clube que os aceitou como membros. Sair agora seria, para nós, um acto de higiene elementar. Uma espécie de triunfo dos "pigs".

A saída provocaria, estou certo, um debate sério, externo e interno, em claro contraste com a falta de debate sobre a entrada e sobre o pecado original da falta de democracia do projecto europeu. A saída permitiria ouvir os europeus sobre o que pensam sobre a Europa, sobre o euro, sobre os alargamentos passados e futuros (se é que pensam alguma coisa), sobre a sua noção de "comunidade". A saída levaria, estou certo, a reflectir  sobre o modo como vai sobreviver a Desunião Europeia, agora que o poder mora lá longe, agora que é mais claro o modo como a Europa alicerçou a sua riqueza, agora que a América tem mais com que se preocupar, agora que a vantagem cultural europeia se esvaiu.

Silly Season

Com o país a banhos, e na melhor tradição envergonhada dos políticos portugueses (que esperam sempre pelo Verão para anunciar medidas gravosas para a população) voltámos ao tempo das "não-notícias". Há quem lhe chame "silly season" (estação parva) por falta de matéria noticiosa, mas a realidade não dá descanso aos optimistas. Por mais que o primeiro-ministro repita no Pontal (o ponto alto da parvoíce partidária) que o governo está a reduzir o "estado gordo", a verdade é que não se vêem "cortes", mas apenas aumentos: no imposto sobre o 13º mês, no preço dos transportes, no gás e na electricidade, na saúde e na educação. Ou seja, nos bens de consumo essenciais e que mais directamente afectam os consumidores. O governo, como de resto todos os anteriores, tenta aumentar as receitas através dos impostos (sempre a maneira mais fácil) e não reduz as despesas (entre outras, do tal aparelho do estado que não se cansa de apelidar de "gordo"). Pior, nomeia para a direcção do banco do estado (CGD) os "boys" do costume, a ganharem ordenados ofensivos para a maioria dos trabalhadores deste país, enquanto o conselho de estado é literalmente invadido por ex-secretários gerais do PSD e o inenarrável Lopes é convidado para dirigir a Misericórdia de Lisboa...
Não contente com o desvario liberal que anuncia privatizações a eito (EDP, PT, Galp, Brisa, RTP) proclama que não vai ficar por aqui: quer ir mais além do que as medidas exigidas pela Troika (!?), única forma de sairmos do ciclo de recessão em que nos encontramos...
Dado que não se vêem quaisquer medidas de fundo que contrariem esta recessão (que é real) e muito menos uma estratégia de crescimento económico que possibilite a tal recuperação, pergunta-se como é que a economia portuguesa pode crescer se não há programa de emprego que o permita?
Não por acaso, depois de ter anunciado todas estas medidas, Coelho apelou à calma e à conciliação nacional, certamente temendo uma revolta genuina de todos aqueles que diariamente são alvo desta colossal idiotice. O homem é parvo e quer fazer de nós parvos.