2012/06/28

Estado de guerra

Distraida com euros, relvas e outras matérias de enorme actualidade, a maioria dos portugueses não se terá apercebido de uma notícia que já há tempos vem sendo referida pela imprensa: o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos está a organizar cursos de defesa pessoal para os seus membros.  Muitos contribuintes sentem-se injustiçados pela actuaçãao do fisco e, vai daí, decidem, em "cúmulo jurídico", fazer justiça pelas suas próprias mãos. Transformam assim os funcionários das Finanças, em ferramenta do seu "recurso", recebendo-os com violência quando estes tentam efectuar acções de penhora ou outras.
Não há duas leituras para este caso. Ou isto é o que muitos trabalhadores vêm reclamando dos sindicatos e do movimento sindical em geral, i.e., uma atitude mais musculada, ou estamos perante um fenómeno sinistro, que não nos pode deixar de causar enorme perplexidade. A mim, que talvez tenha cometido o crime de acreditar que havíamos há muito pousado a moca e saído do ambiente primitivo das cavernas, causa.
Não está aqui naturalmente em causa a regra do cumprimento dos deveres fiscais, nem tão pouco estou a defender o recurso à violência, por parte dos faltosos, para dirimir conflitos fiscais ou outros. O que está em causa, isso sim, é a magnitude do fenómeno no momento actual, a ponto de suscitar uma acção como esta do STI. O que está igualmente em causa é a "sociologia" destes conflitos. A maioria dos envolvidos neste tipo de situação não é, como afirma o próprio Sindicato, do tipo prevaricador fiscal contumaz, mas gente cumpridora que nesta altura tem sérias dificuldades para conseguir alimentar o triturador de défices. O que está certamente em causa é que o Estado, para, ele próprio, dirimir estes conflitos, deixe instalar (certamente também com a benção das hierarquias) um clima de quase guerra civil com os contribuintes, com os agentes e guardiões da Lei a assumir como boa a lei de Talião, explicita e institucionalmente.
Justiça e Fiscalidade à portuguesa tingem-se com as cores do kung fu...
Sabemos dos códigos que à ofensa corporal, tentada ou explicitamente perpetrada, é lícito responder com acto de defesa de igual grandeza. Sabemos também que é crime público o exercício da violência sobre agentes do Estado. É o próprio Estado que atacam quando atacam os seus agentes. Já custa, contudo, engolir que o Estado se comporte com os seus cidadãos, com aqueles cujos interesses é suposto defender e tratar com justiça e equidade, como se de vulgares criminosos se tratasse, em atitude de puro saque apenas destinado a garantir o seu voraz e aparentemente insaciável apetite.
Os trabalhadores do Fisco, ao escolherem, solidária e institucionalemente, a via do fitness, também se sujeitam a que a um uke alguém responda com um mais eficaz shotei e a diligência acabe com sanbon para o contribuinte...
Não admira, pois, com tudo isto que os cidadãos recebam os agentes do Fisco como flibusteiros. Eles estranham certamente que o Estado e as instituições democráticas que fiscalizam o seu funcionamento tenham deixado chegar as coisas a este ponto, com a total impunidade dos seus autores, mas com uma intransigência raivosa para as suas vítimas, e, no seu espírito, a resposta à via de violência escolhida para resolver esta situação não passa de um acto de auto defesa.
Algo vai desgraçadamente errado hoje no nosso País quando vemos o Estado e os seus agentes a, para fazer cumprir as suas próprias leis, comportarem-se como um qualquer bando de mafiosos a fazer a colecta da "taxa de protecção" lá no bairro...

Freud explica

Agora que Portugal foi eliminado do Euro, após semanas em que o sentimento dos portugueses alternou entre a descrença, a esperança e a ilusão, é sempre reconfortante ouvir os treinadores de bancada opinar sobre a grande prestação da equipa portuguesa. Uma vez mais, ganhámos moralmente: não jogámos melhor do que a Espanha, mas merecíamos ganhar nos 90 minutos, pesem os 30 minutos de tempo extra onde os espanhóis podiam ter acabado com o jogo. Os penalties, são um capítulo à parte. Há quem lhe chame lotaria, azar ou destino. Obviamente, é preciso algum sangue-frio e isso os espanhóis tiveram-no. Tão simples como isto. Também não lembra a ninguém pôr o João Moutinho a marcar o primeiro penalti e deixar o Ronaldo para o fim. Sobre a prestação do "melhor jogador" do Mundo, as opiniões dividem-se: uns acham que esteve bem, outros que só às vezes e há quem ache que, na selecção, ele não rende tanto como nos clubes que representa. Uma das explicações para este facto, poderá ter a ver com a "ansiedade" que sempre demonstra nos jogos da "nossa" equipa. De acordo com uma opinião (imagino que de um treinador de divã) a "ansiedade" que caracteriza Ronaldo nos jogos da selecção, poderá ter a ver com uma infância infeliz e a falta de uma verdadeira mãe quando era criança (!?). Por isso, devemos compreendê-lo. Desta, confesso, nunca me tinha lembrado.

2012/06/25

Princípio do fim?


Este filme começa aqui. E nós, que estamos habituados a esta lógica cronológica,  deduzimos que é o princípio da acção.  Pergunto, contudo: e se este não fosse o fim do princípio, mas o princípio do fim? E se alguém meteu propositadamente a bobine ao contrário?
Vale a pena ler este artigo (já sinalizado no Twitter do Face, aí do vosso lado direito). "O “sistema da dívida” é o alimento do mundo financeirizado". Repito para o caso de não terem ouvido bem: "O “sistema da dívida” é o alimento do mundo financeirizado".
Mas, a dívida faz aumentar a dívida, constatamos nós, a menos que a ataquemos na origem. A esta realidade responde o "mundo financeirizado": não, nós gostamos que nos devam. Devam-nos, quanto mais melhor, devam-nos muito e vendam tudo, vendam-se!, o que importa é que nos consigam pagar! Não têm dinheiro? Pagam com mais dívida!
Por vezes os porta vozes deste "mundo" não o dizem assim, desta forma cruel e assassina. Usam meias palavras, insinuam, dão um carácter mais ou menos subtil, mais ou menos sofisticado ao discurso, mas o que resulta, no final, é apenas isto: "desviar recursos que deveriam se destinar a gastos sociais - com saúde, educação, saneamento básico, assistência social, moradia digna, entre outros – para o pagamento de encargos financeiros de uma “dívida pública” cuja contrapartida não se conhece," como diz o artigo. A dívida faz aumentar a austeridade, que faz aumentar a dívida, que faz aumentar a austeridade.
Aumento da austeridade é uma medida drástica, dizem os piedosos do regime; provisória, avisam, mas necessária. É preciso honrar compromissos, cumprir metas. Só assim se pode voltar a ganhar a confiança... do "mundo finaceirizado". O mesmo que vive disto. Como se alguém fosse acreditar que com o simples cumprimento dos compromissos o "mundo financeirizado" ficasse saciado.
Por que razão não se fala então em impor uma outra restrição drástica: cercear drasticamente a actividade deste "mundo financeirizado", o mesmo que vive disto, o mesmo que nos colocou nesta situação, para começar, e que não hesitará em tentar repetir a proeza logo que os nossos compromissos estejam satisfeitos? Passar o filme a partir do princípio, enfim?

2012/06/23

Murdoch volta, estás perdoado!

O 4º poder mostra o quão está sob o poder do poder. O caso é tão chocante que se lê e pensa-se logo: "não, isto é coisa do extinto Jornal do Incrível ou da Imprensa Falsa". Mas, não, é o DN e aconteceu, de facto, neste ano da graça, mas não engraçado, de 2012.  O News of the World parece obra de amadores ao pé disto.
Veja-se a gravura e leiam-se  aqui mais pormenores, incluindo a descrição dos factos, as respostas dos intervenientes e a análise do Provedor do Leitor do DN.


2012/06/22

"Relvas quis favorecer empresa de Passos Coelho"




Uma história sórdida descrita neste video e aqui neste artigo. O mais engraçado, no caso do video, é ver a outra a tentar defender o indefensável. As cambalhotas que ela dá para mascarar o argumento central de Helena Roseta...

Uma questão de Estado

Gaspar vai avisando, à cautela, que pode não ser possível cumprir a meta do défice para este ano. De imediato temos a reacção de uma data de "dótôres" a explicar o que o ministro quis dizer. Não vá a gente não ter percebido... Mas, a verdade é simples e, como dizia um grande pensador da economia portuguesa, "é fazer as contas..."
Com a actividade económica em queda livre, cujo resultado óbvio e totalmente previsível é a consequente diminuição das respectivas receitas fiscais, e com o aumento brutal dos encargos resultantes da escalada do desemprego, as despesas aumentam para além do limite já anteriormente insuportável, e as receitas diminuem, logo a meta do défice não pode ser cumprida. É assim, simples.
Nem com toda a contabilidade criativa, que o contabilista-mor do reyno entenda instituir, este processo pode ser invertido! Não resta outra alternativa que não seja recorrer aos mesmos aumentando os impostos, i.e, aos mesmos que pagam impostos! É claro como a água.
A solução óbvia pareceria ser então estimular a actividade económica interna (as famosas "exportações", em ascenção há já tanto tempo, não parecem chegar para as encomendas...) e combater o desemprego, o que, por sua vez, pode também ajudar nesse estimulo à actividade económica interna. Mas, nem isso se vislumbra no horizonte político do País.
Nesta corrida louca e totalmente descontrolada os responsáveis não parecem ser capazes de fazer mais do que, como se costuma dizer, empurrar o problema para a fente com a barriga, sem fim à vista nem qualquer meta clara.
Esta política deixa por responder várias questões perturbantes, às quais o douto ministro deveria, com a sobriedade e fina precisão que o caracterizam, responder, sob pena de pensarmos que essa serenidade e aparente rigor não passam de uma enorme encenação.
Responda então o senhor ministro...
Qual a relevância das funções que o Estado desempenha que justificam esta constante insaciabilidade financeira? Que medidas prevê o governo para estancar esta espiral crónica do défice, que corrijam as suas origens, para além de lhes continuar a deitar dinheiro para cima? E, mesmo que consiga equilibrar este défice —com, pelo menos, um estímulo eficaz à economia e o combate ao desemprego—, que legitimidade tem o Estado para se limitar a angariar mais receitas, como se fosse uma mera empresa em busca de manutenção no mercado, em registo de simples sobrevivência, sem rumo, sem estratégia, sem "produto", com prazo de validade confirmado, para vender aos clientes. Ou, no caso de haver "produto", especulando com o preço, valendo-se da posição monopolista para ir buscar umas coroas extra? Que "Estado" é este que os senhores continuam a deixar que se transforme numa simples instituição de prestamistas, comissionistas, especuladores e angariadores de vendas à rasca para arranjar negócio? Que funções deve afinal o Estado exercer e através de quem? Tem o senhor ministro uma ideia clara sobre isso? O que raio andamos nós afinal a pagar, é capaz de nos dizer? Porque nos sai o Estado tão caro, conseguirá explicar? Quem assinou e assina os cheques? É o senhor? É o senhor, senhor ministro da fazenda, que continua a cavar o défice? Qual a sua utilidade então? Para que nos serve, de facto, este Estado, que produziu este défice?

2012/06/21

Castidade

O PS enfia o cinto de castidade e anuncia a abstinência, perdão, a abstenção, na moção de censura do PCP. Esperemos que seja a tal abstenção violenta...

2012/06/18

Uma vitória de Pirro

Para descanso dos credores europeus, os gregos deram ontem a vitória ao partido que mais contribuiu para o endividamento da Grécia. Não é, pois, de admirar que a Alemanha e os países do núcleo duro do Euro se congratulem com o resultado obtido pela Nova Democracia. O pânico instaurado nas principais capitais europeias, devido à ascensão do Syriza - um partido bem menos radical do que alguns analistas nos fizeram crer - revelou-se, afinal, infundado. As campanhas de intimidação levadas a cabo pelos principais políticos e banqueiros alemães, a que não faltaram anúncios publicados na imprensa europeia a apelarem ao "voto responsável" dos gregos, fizeram o resto e acabaram por ser determinantes para a vitória de Samaras. Acontece que, apesar desta vitória, a Nova Democracia não tem a maioria absoluta dos votos (longe disso!) pelo que não poderá governar sozinha. Depende, por isso, de uma coligação, que poderá contar com o PASOK, terceiro partido mais votado e o grande derrotado destas eleições. Consciente da sua força negocial, o líder do PASOK já veio declarar que só entrará para o governo caso a coligação governamental inclua o Syriza e a Esquerda Democrática, numa clara estratégia de cimentar a unidade nacional. Pesem as intenções dos socialistas, não é de crer que Samaras, escudado na sua vitória de ontem e pressionado pela Alemanha, venha a ceder nesta coligação alargada. Também não é de acreditar que Tsipras, cuja campanha eleitoral foi baseada na denúncia deste memorando, venha renunciar aos seus princípios. No dia seguinte às eleições mais importantes em décadas, a sociedade grega continua tão dividida como nunca, nada garantindo que a saída deste impasse tenha sido resolvida com o recente sufrágio. Uma coisa parece certa: os maiores responsáveis por esta crise (a Nova Democracia e o PASOK) ganharam um oponente de peso. A partir de agora, o Syriza perfila-se como uma oposição respeitável, em quem os gregos depositaram a sua confiança e mais de 26% dos votos. Nada mau, para quem foi apelidado de radical durante semanas de campanha e que acabou por influenciar todo o discurso anti-memorando que hoje atravessa as principais forças partidárias do país. Se as condições de austeridade a que estão sujeitas os gregos, mudarem, ao Syriza se deve.

2012/06/16

Tranquilidade

O PCP anunciou a apresentação de uma moção de censura ao governo. O BE mete o ponto morto e diz que tem de ver o texto primeiro. O Seguro do PS proclama, em estranho dueto com o PR, deus nos livre!, uma crise política agora, esquecendo-se que é, ele próprio, a crise política! O mesmo PC que apresenta esta moção —que estaria sempre derrotada à partida—, invocando a favor dela, com toda a justiça, o seu carácter simbólico e a necessidade de marcar uma posição face ao bombardeamento em curso contra o povo português, não se coibiu, ele próprio, no passado de criticar iniciativas de índole semelhante com o argumento que... estavam  derrotadas à partida.
Fragilizada, atomizada, incoerente, oportunista, preconceituosa e pífia, assim vai a esquerda portuguesa, certamente para grande gáudio da direita, desta direita reles e nauseabunda que governa e atrofia o grande País que é Portugal.
A direita não resolve os problemas do país com as suas soluções. Vê-se, sente-se. É fácil provar. Mas também a esquerda, que tem nela própria as armas para o fazer, reage desta forma patética e rasteira perante a necessidade de se mobilizar e de constituir uma frente unida. Num País a necessitar de uma solução de esquerda e de pão para a boca!
Não admira pois que o primeiro primeiro ministro estagiário que tivemos desde o 25 de Abril declare que está tranquilo...

2012/06/11

Não chega!

Aqui há tempos Manuela Ferreira Leite sugeriu, como é sabido, a "suspensão da democracia" como forma de resolver os problemas do país. Agora Rui Rio vem sugerir, por sua vez, que nos municípios com dívidas a democracia também seja suspensa e sejam nomeadas "comissões administrativas" para substituir o processo democrático.
Se formos rigorosos na nossa análise, nada disto surpreende. Não vou, pois, lembrar o passado destas criaturas, nem usar o argumento de que os problemas (reais e causados em grande parte por eles, gente como esta ou gente que eles poderiam ter controlado em tempo oportuno,) que levam estes grandes pensadores políticos a sugerir a "suspensão" da democracia, são ditados justamente pela falta de democracia ou por um exercício deficiente de democracia, que devia ter sido há muito corrigido. Nem tão pouco direi que, para resolver os problemas do país, é minha forte convicção que se deveria ter mais democracia, não menos. Nem sequer usarei o argumento que os democratas, sobretudo os que exercem funções de serviço público e são para isso pagos, têm a obrigação de contribuir para melhorar o regime, não sugerir a sua subversão. Não vale a pena lembrar nada disto.
O que me parece porém verdadeiramente surpreendente é olhar para a acção deste governo em que o PSD manda, ver o caos em que fez cair o país, ver os métodos e os ataques constantes à democracia que são praticados, as malfeitorias que diariamente nos são feitas, ver o perigo iminente em que, na prática, a democracia está e verificar que os referidos personagens, advogados da subversão do regime, se encontram no grupo dos críticos desta acção!
Pelos vistos este atropelo diário à democracia ainda não chega...

2012/06/05

Resignação

Uma sondagem diz-nos que o PSD se vai aguentando e o PS continua seguindo em segundo. Não admira. Não por essa revelação em si, mas por uma outra questão: uma esmagadora maioria não vê alternativa à governação PSD.
Não percebem que a alternativa é isso mesmo, alternativa. Não percebem que se o PSD governa mal e o PS não é alternativa ao PSD, a alternativa é outra e tem de ser construída activamente. Não percebem que a alternativa à má governação e aos escândalos do governo PSD não é a má governação e escândalos socialistas, é outra coisa que ponha termo a esta pouca vergonha.
O que os portugueses revelam com esta sondagem (a serem verdadeiros os seus resultados) é uma preocupante resignação.

2012/06/04

O dealer

Ao distribuir estas doses cavalares de morfina entorpecente, como hoje mais uma vez, o ministro Gaspar pensa que a droga vai ficar a "bater" e que todos nos vamos esquecer do essencial. Mas, não, está enganado. Não nos vamos, nunca poder esquecer que todas as reformas, todos os "ajustamentos", servem apenas para garantir duas coisas. Em primeiro lugar, que os privilegiados deste país mantenham os privilégios, mesmo que estes sejam totalmente obscenos, ilegítimos ou desproporcionados. Em segundo lugar, que continua a ser aos mesmos que é pedida a sustentação desses privilégios, mesmo que o façam à custa dos seus próprios, legítimos, pequenos e bastas vezes duramente conquistados, privilégios.
Não há droga que nos faça esquecer isto e não há droga que nos faça esquecer a única solução possível para resolver esta situação de forma "sistémica"...

2012/06/01

Esquerda revolver!


Se o desemprego é o patrão 
Tens que te defender, mas como? 
Tens que todo o Estado 
De baixo a cima revolver...

Os números do desemprego (o real, o "estatístico" e o projectado) vão desabando em cima de nós, como se estivéssemos a ser vítimas de um terramoto em fúria máxima e réplica permanente, como se pontes, estradas e edifícios nos estivessem desabando em cima, soterrando-nos, como se a destruição e a ruína nos cercassem e outra coisa não pudéssemos esperar que não fosse mais réplicas, mais desabamentos, mais destruição e mais ruína.
Reparamos (reparámos há muito) que a "Protecção Civil" anda entretida. Entretida a aparar relvas e a manter os livros de contas a bater certo, totalmente indiferente a toda esta destruição e ruína, de olhos fechados para os sulcos profundos que se abrem na crosta da Terra, para os tsunamis que se vão gerando e para as vítimas que estão a ser engolidas por esta convulsão medonha.
O cataclismo é real, a metáfora poderá pecar por defeito.
"Tens de todo o Estado de baixo a cima revolver...." dizia Brecht. De que será que as vítimas desta "Protecção Civil" estarão à espera para revolver?

2012/05/30

"A taxa de pobreza infantil é o melhor indicador que uma sociedade pode ter acerca de si própria"

Um relatório da Unicef, acabado de publicar, sobre pobreza infantil nos países ricos diz que "cerca de 13 milhões de crianças na UE, incluindo ainda a Noruega e a Islândia, foram consideradas em estado de privação. São crianças a quem faltam os elementos básicos para o seu desenvolvimento. Entretanto, 30 milhões de crianças vivem em estado de pobreza em 35 países com economias desenvolvidas."
De que "crise" falamos quando falamos em crise? A que estado de desvergonha foi preciso chegar para chegarmos a este estado?  A que estado de lassidão se deixou conduzir a "democracia de tipo ocidental" —que se compraz dizendo irresponsavelmente de si própria ser "o pior sistema com excepção de todos os outros"— que a leva a, com auto-instituída impunidade, fazer agora vista grossa a estas realidades?
O relatório é claro: que chance terão as crianças africanas se a francesa Lagarde nem sequer consegue perceber a vergonha que é seu próprio país?


 


(PS- Resta acrescentar que o lugar que Portugal ocupa neste relatório deveria constituir prova suficiente para levar os responsáveis políticos que a ele conduziram à barra dos tribunais...)

2012/05/28

Na rota do Zeca

Entre as inúmeras celebrações que decorrem em 2012 para assinalar os 25 anos da morte de José Afonso, uma deve ser destacada pela originalidade e qualidade dos seus intérpretes. Refiro-me ao concerto "De ouvido e coração", um projecto do compositor e pianista Amilcar Vasques Dias, anunciado para ser apresentado este fim-de-semana em Évora. Lá fomos, na esperança de ouvir os músicos e cantora principais, Vasques Dias (piano), Luís Cunha (violino) e Esther Merino ("cantaora") que, habitualmente, fazem parte do programa. Desta vez, havia convidados: a cantora lírica Natasa Sibalic (Sérvia) e o "cantador" local Joaquim Soares, que participavam pela primeira vez no concerto. Depois, o lugar, o magnífico Mosteiro dos Remédios, onde está sediada a Associação Musical "Ebora Mvsica" que, desde 1987, vem organizando e apresentando programas de formação musical na área dos grandes mestres polifonistas da Sé de Évora. A Associação dá ainda formação na área de instrumentos de cordas, sopros e teclas, organiza oficinas de Canto Gregoriano e ciclos de concertos nos Claustros e na Igreja, onde "De ouvido e coração" estava incluído. Desde o primeiro tema, "Vejam bem", a assistência, que enchia por completo a Igreja dos Remédios, percebeu estar em presença de um concerto especial. Esse sentimento aumentaria nos temas seguintes, com "Coro da Primavera", "Ó que janela tão alta" e "A Mulher da Erva", para culminar no celebrado "Venham mais Cinco". Seria com a primeira interpretação de Esther Merino, em "Nana del Caballo Grande", um tema de Garcia Llorca a anteceder a "Canção de Embalar" de José Afonso, que os presentes explodiram num aplauso intenso. A partir daí, o concerto estava ganho e a genialidade da música de Afonso, ganhava outra dimensão. Temas como "Menino de Oiro" e "Balada de Outono", interpretados respectivamente pelo cantador alentejano Joaquim Soares e pela cantora lírica Natasa Sibalic, comprovaram a excelência do reportório afonsino. Quando Esther voltou para interpretar "Cantar Alentejano" (Catarina Eufémia) a canção mais dramática de toda a sessão, muitos dos presentes choravam lágrimas de emoção. O concerto terminou formalmente ali, mas os seus ecos permanecerão no Convento por muito tempo. Hoje, no regresso a casa, não pude deixar de pensar no Zeca e de como ele gostaria de ter ouvido a sua música neste lugar.

2012/05/26

Marciano ou leviano

No mesmo dia em que a S&P atribui a categoria de "lixo" a três bancos espanhóis, Cavaco Silva anuncia na Austrália que só há um problema na União Europeia: a Grécia.
Um ser vindo de outro planeta, este presidente, determinado a lixar-nos a vida até ao seu último suspiro, ou um tipo sem qualquer competência para ocupar o lugar que ocupa, que não se coíbe de opinar sobre o que lhe dá na tineta, só para fazer prova de vida.
Escolham.

2012/05/23

Os números da felicidade

De acordo com o último relatório da OCDE, a recessão, em 2012 e 2013, não só vai continuar como piorar em Portugal. Nos quatro principais indicadores avaliados (variação do PIB, variação do consumo privado, taxa de desemprego e défice público) os números da OCDE são todos piores do que as previsões do governo português: Variação do PIB: Governo (0,6%), OCDE (-,09) Variação do Consumo Privado: Governo (0,7%), OCDE (-3,2%) Taxa de Desemprego: Governo (14,1%), OCDE (16,2%) Défice Público: Governo (3%), OCDE (3,5%). Perante tal diagnóstico, a organização internacional recomenda mais medidas de austeridade ao governo português, única forma de Portugal conseguir obter as metas exigidas no Memorando da Troika. Ou seja, se esta receita não curou o doente, aplique-se uma dose cavalar, para ver se ele recupera. O perigo, já sabemos, é o doente morrer da cura. Não seria a primeira vez e, que nos lembremos, esta receita só resultou com uma ditadura, no Chile de Pinochet. Interrogados sobre estas projecções, os membros do governos apressaram-se a relativizar a gravidade dos números, declarando que estes "estavam errados". Talvez, mas não seria a primeira vez que organismos internacionais, como a OCDE, a Eurostat ou o FMI, vêm corrigir, em baixa, as previsões governamentais portuguesas. Perante tal cenário, não é de admirar que no "índice europeu da felicidade" (ontem mesmo divulgado), os portugueses, certamente mais preocupados com a sua sobrevivência e por isso mais pessimistas, ocupem o penúltimo lugar em 36 países. Em primeiro lugar está (uma vez mais) a Dinamarca e, em último, a Turquia. Sabendo que o primeiro país é um dos mais ricos e equilibrados da Europa e que o último é um dos mais desiguais, não devemos estranhar que entre a percepção do que é felicidade e a qualidade de vida, haja uma correlação evidente. E, se é verdade que o dinheiro não traz felicidade, lá que ajuda, ajuda...os dinamarqueses que o digam!

2012/05/20

Cancioneiro popular



Ó Relvas, ó Relvas!
Até salta à vista.
Ligações secretas
Sem interacção.
Desculpas sem culpas,
Mas que confusão.
O melhor remédio 
É a demissão!
É a demissão!
É a demissão!
É a demissão!

2012/05/17

Grécia: e se não houver plano B?

Perante o falhanço das conversações interpartidárias na Grécia e a crescente subida do Syriza nas sondagens, que apontam para a vitória deste partido nas próximas eleições, o BCE não esteve com meias medidas: suspendeu todos os contactos com a banca grega. O mesmo aconteceu com o FMI, que anunciou só voltar à Grécia quando houver um governo estável. Resultado: uma corrida desenfreada aos bancos, donde foram levantados mais de mil milhões de euros esta semana. A este ritmo, dentro de um mês, o sistema económico entrará em colapso e a Grécia terá de declarar bancarrota, com todas as consequências daí advindas. Desde logo, a saída do Euro. Mas, não serão apenas os gregos a sofrer directamente as consequências. Toda a zona euro será afectada, a começar pelos credores, as economias mais débeis (Portugal) e mesmo outros países, como o Reino Unido, com relações económicas directamente dependentes da zona euro. A estratégia é clara: através desta pressão, a banca tenta destabilizar o processo eleitoral em curso, com vista a evitar a chegada ao poder da única força de esquerda que declarou querer romper com o programa da Troika e aliviar o programa de austeridade imposto à Grécia. Curiosamente, enquanto 80% dos gregos dizem querer continuar no Euro, figuras prominentes como a Sra. Lagarde (FMI) e a própria Merkel, dizem tudo querer fazer para ajudar o povo grego (!?). Em que ficamos, afinal? Porque a História avança e o tempo começa a ser curto para arrepiar caminho, seria bom saber quais as consequências para a moeda única em caso de bancarrota de um dos seus estados membros e se existe um plano B para salvar a Grécia. Vamos acreditar que sim, porque se não existe, então está tudo louco e, quem acreditar nesta gente, corre sérios riscos de ficar contaminado.

Inteligência e progresso



Platão criticou a escrita no Fedro. Porque, dizia, ela colocava o pensamento fora da sua sede natural, retirava-o da mente e dirigia-o para fora, para os apetrechos, artificiais e estranhos, dessa escrita. Ao fazê-lo, acrescentava ainda Platão, a escrita tornava também a mente preguiçosa porque enfraquecia os mecanismos da memória. Platão colocou felizmente as suas dúvidas por escrito, porque se assim não fosse não teríamos tido delas conhecimento...
Mas, não será esta a única debilidade do seus discurso. Longe estava Platão de imaginar que o pensamento escrito, condensado na literatura científica e filosófica e amalgamado ao longo da história, poderia vir um dia permitir a construção de máquinas —bem mais complexas que os simples implementos da escrita do seu tempo— comandadas... pelo pensamento.
Os jornais relatavam  ontem a criação de um braço robotizado que pode ser comandado pelo pensamento, à distância. Parece milagre, mas não é: foi obra de cientistas. É uma manifestação da inteligência humana que não pode deixar de deslumbrar. Mas, coloca também algumas interrogações, que vão para além do próprio objecto.
A consciência humana pode manifestar-se agora fora da mente. Com que fins? A que distância? Através de que corpos ou objectos?
É óbvio que a inteligência é capaz de feitos notáveis. Para o bem e para o mal. Apesar da evidência diária e dos esmagadores e aparentemente inelutáveis sinais de estupidez —também ela, ora consequente ora inconsequente— que nos chegam constantemente de todo o lado, a Humanidade lá vai progredindo qualquer coisita. Parece também, como me dizia a minha amiga AG, que a inteligência, quando colocada ao serviço do progresso, é, de facto, uma coisa extraordinária e esse é um factor que contribui sobremaneira para esse efeito de deslumbramento que esta invenção suscita.
Então por que diabo deixamos constantemente que a estupidez vença a inteligência? E por que razão permitimos que a inteligência maléfica triunfe? Qual a razão para a manifesta dificuldade que temos em  distinguir a inteligência que está ao serviço do progresso da que não está. Por que razão hesitamos em  premiar e proteger a primeira, mas não condenamos decididamente a segunda?
O que que nos impede de apreciar um qualquer acto de um indivíduo ou instituição, avaliando-o,  valorizando-o e distinguindo-o à luz deste princípio singelo: trata-se ou não de um acto de inteligência, ao serviço do progresso?

(Nota: a foto foi "picada" dos jornais, espero que, perante a importância do feito que documenta, com a indulgência do seu autor.)

2012/05/15

Da democracia na Grécia

É oficial: a Grécia vai para eleições, agora que o Presidente da República deu por terminada a ronda de conversações com os principais partidos gregos sem ter conseguido um acordo. Este era um desfecho previsto, quando os partidos da Troika (Nova Democracia e PASOK) não quiseram aliar-se num governo de coligação e a frente anti-troika (SYRIZA) não reunia votos suficientes para formar governo. Restava a opção tecnocrata, que todas as forças partidárias recusaram. Cabe ao povo grego (voltar a) escolher a via que deseja seguir: aceitar os ditames da Troika, sabendo que mais sacrificios e privações serão pedidos, numa espiral sem fim à vista; ou romper com este círculo vicioso, sabendo que os sacrifícios e privações continuarão de qualquer forma, ainda que feitos numa perspectiva libertadora. Uma escolha difícil, que irá condicionar, não só o futuro da Grécia, mas toda a Europa e os países intervencionados (Portugal e Irlanda) em especial. É por isto que estas eleições são tão importantes: uma derrota das forças progressistas significará o reforço das medidas neoliberais na Europa e um passo atrás na mudança da opinião pública (que, timidamente, começara a manifestar-se com Hollande); enquanto uma vitória dos partidos anti-troika, poderá significar um "turning point" na política de intervenção levada a cabo nos países da periferia que, desta forma, ficarão em melhores condições de renegociar os ditames dos credores internacionais. Também por isto, estas eleições não serão apenas gregas, pois a todos dizem respeito. Em particular, aos portugueses.

Relvas diz que nunca teve relação estreita com Jorge Silva Carvalho - TSF

Relvas diz que nunca teve relação estreita com Jorge Silva Carvalho
Não estaria na altura de ligar o corta-Relvas?

2012/05/10

Keep on going

"Sobre este caso em particular não tenho ideia de ter recebido qualquer informação particular, e disso não resultou qualquer interacção da minha parte" (Miguel Relvas, Ministro dos Assuntos Parlamentares)