2012/07/13

Nacionalizar a banca: um acto de higiene pública

Este artigo ou este são dos muitos que abordam a questão do escândalo da manipulação de informação para fixação das taxas de juro levado a cabo pelo banco Barclays. Mais um escândalo envolvendo a banca.
Para onde quer que nos viremos não vemos senão isto: escândalos envolvendo bancos e banqueiros, dos quais podem resultar os tais "efeitos sistémicos", para cuja prevenção ou tratamento os Estados (os contribuintes) têm de entrar com somas astronómicas de dinheiro. Quando esse dinheiro não existe os Estados pedem-no aos fundos internacionais dominados pela... banca. Depois damos conta de casos como este da Libor, em que a banca manipula as taxas de juro com implicações, ainda por avaliar na totalidade, na crise das dívidas soberanas.
Este é um caso em que se soube o que se estava a passar. Mas o fenómeno é certamente generalizado e suspeito mesmo que o fundamentalismo de certos países, lá mais para norte, seja uma forma de praticar aquela moral cínica de que eles também e tão bem são capazes. Haverá certamente por lá casos que convém disfarçar, apontando o pecado aos outros. Relembre-se o que se passou na insuspeita, ecológica e democrática Islândia, o nível a que o escândalo chegou.
A crise portuguesa —repetem-nos incessantemente os governos desde o tempo de Sócrates até agora— tem uma componente "internacional" que condiciona e limita a actuação do governo. Mas, esta componente "internacional" resulta, sobretudo, de um esquema brutal de vigarice montado pelos bancos, como se tem vindo a observar desde que o Lehman Brothers foi obrigado a fechar a loja.
Pois é, a "crise" em Portugal tem duas componentes, uma nacional e outra internacional. Vigarice é a palavra que as une, e em ambos os casos é a banca que está envolvida.
Qualquer política estrutural, quaisquer medidas "estruturantes", venham elas da troika ou do governo, que não vise acabar com a vigarice dos bancos é, ela própria, uma vigarice. É poeira para os olhos.
A banca é, directa ou indirectamente, a mãe de todas as "crises". Acabar com ela e com os seus agentes é um acto de higiene social. Enquanto este acto não for praticado vamos ter sempre mais do mesmo. Essa é a verdadeira revolução.

2012/07/11

Está encontrada a alternativa para este governo



Como unir os portugueses de bem

Não posso deixar de dar relevo a este texto intitulado "No questions asked," de autoria de João Paulo Batalha, no blogue da Transparência e Integridade Às Claras.  Considero que contém —em formato simples, claro e sucinto— os princípios básicos sobre os quais todos os portugueses de bem se podiam unir, neste momento que grita alto por mudança.
É (mesmo, assim) simples!

2012/07/06

Quem verifica a constitucionalidade do TC?

Há cerca de 3 anos, Manuela Ferreira Leite sugeriu a suspensão da democracia. Por seis meses, dizia ela. Depois recomeçava-se tudo de fresco. O Tribunal Constitucional acaba de colocar exactamente em prática a sugestão da veneranda criatura.
Desafio os editores daquela série de livros para tótós a lançarem um sobre direito constitucional. Qualquer coisa que nos ajude a perceber como funciona afinal a Constituição! Eu confesso, face ao que se está a passar, a minha perplexidade e ignorância quanto a esta matéria.
Na altura em que M. Ferreira Leite nos brindou com a sua sugestão, ela suscitou comentários inflamados de repúdio por parte de uma série de almas piedosas que por aí andam. Gostaria de os ouvir agora! Gostaria que falassem alto, se possível, para todos os ouvirmos, e que levassem o seu clamor até às últimas consequências.
A propósito de clamor, já agora, aproveito para deixar uma pergunta final: tendo em conta o estado de relaxo a que tudo isto chegou, não estará na altura de pensar em criar mecanismos para verificar a constitucionalidade das decisões do Tribunal Constitucional? Seria útil e inovador...

2012/07/05

O sonho é possível



Do que falamos quando falamos do tal bosão de Higgs? Falamos de uma partícula subatómica, qualquer coisa de uma magnitude e de uma forma que a maior parte de nós ainda não consegue sequer imaginar. Falamos de uma investigação que dura há pelo menos 50 anos (se não incluirmos em tudo isto o trabalho anterior, de séculos, que conduziu a essa investigação). Falamos da construção do LHC, —o Grande Colisionador de Hadrões—, o maior acelerador de partículas do mundo. Um monstro de 27 km de comprimento, situado a cerca de 180 m de profundidade, entre a França e a Suiça. Concebido para acelerar partículas subatómicas que geram uma energia de 7x2 TeV. Ou seja, —tente imaginar…,— 7x2 Tera electrão-Volt (1 eV=1 602 177 33 (49) x 10-19 joule;  1 joule, por sua vez, é o trabalho necessário para levantar uma massa de 98 g a uma altura de 1 m, sob o efeito da gravidade terrestre.) Falamos da maior máquina do mundo, que demorou 16 anos a construir e custou 10 mil milhões de dólares. Falamos das cerca de 10 000 pessoas que trabalham no projecto, entre os que estão envolvidos directamente na operação do LHC e os físicos que trabalham nas experiências em curso. Falamos de números grandes, grandes! Os feixes de protões lançados no túnel de colisão percorrem os seus cerca de 27 km do túnel a 11 245 km por segundo, a velocidades próximas das da luz. A temperatura de colisão é de cerca de 1016 graus centígrados, um milhão de vezes a temperatura do centro do Sol. Os 1232 electromagnetos necessários para conduzir os feixes de protões geram campos magnéticos da ordem dos 8,36 Tesla, 100 000 vezes mais que o campo magnético da Terra. Para tornar tudo isto possível, 128 toneladas de hélio asseguram o arrefecimento de todo o complexo contido no anel de cerca de 8 km de diâmetro, a temperaturas de cerca de -271ºC, próximas do zero absoluto. Cada experiência levada a cabo no LHC gera volumes de dados capazes de preencher 100 000 DVD de 8,6 GB por ano. São alguns dos números, sem dúvida, impressionantes, mesmo para um leigo na matéria, como eu. É, pois, de tudo isto e de muito mais que falamos quando falamos do bosão de Higgs.

Para que serve toda esta parafernália? Para testar a existência de uma partícula subatómica. Para dar uma ideia do tamanho de um átomo, o raio atómico do hélio (o átomo de menor dimensão) é 32 pm. O bosão de Higgs será parte de um "caldo" de partículas que interferem com os átomos e lhes dão massa, lhes conferem resistência ao seu livre movimento, subdividindo-se depois. Foram precisos 10 000 físicos, foi preciso gerar energia da ordem de 14 TeV, foram precisos 10 mil milhões de dólares e tudo o mais que sabemos, para confirmar a existência de uma partícula que mede portanto menos de 1/1 000 000 000 000 de metro.

No mundo atómico a importância das partículas não se mede aos palmos e a verdadeira capacidade de sonhar não se detém nos obstáculos por mais pequenos que sejam...

Não vou ser ingénuo: haverá também certamente interesses pouco desinteressados no meio de tudo isto, mas o facto é que todos estes recursos brutais, estas forças que se conseguem gerar, estes 10 000 físicos, estes 85 países envolvidos, este necessariamente complexo sistema de gestão e coordenação, tudo isto resulta, antes de mais nada, de um imenso acto de fé colectivo, com o epicentro sobretudo na Europa. Nada conseguiu deter a Europa nesta urgência de observar simples partículas, cuja magnitude a imaginação mais fértil mal consegue ainda conceber, e que ninguém tinha conseguido provar experimentalmente que existiriam sequer.
Aos autos de fé de antigamente, que alguns teimam em querer recuperar, contrapõem-se estes actos de fé colectiva, que contradizem os inexplicáveis e entorpecentes mercados, as crises, as revisões macroeconómicas em baixa, as agências de rating, os banqueiros e os financeiros. Aqui não foram regateados meios. A provar que afinal o progresso é a meta da civilização, é a meta da Europa, embora a ignorância, a crueldade, a irresponsabilidade e a selvajaria de alguns possam por vezes sugerir o contrário. Afinal, são os sonhadores que estão, como sempre estiveram, certos. Sem sonho e sem capacidade para o compreender, a vida não é certa.
Como entender de outra forma a investigação que levou a tudo isto, à construção e à gestão de todo este complexo sistema, à disponibilização de todos estes recursos, ao equilíbrio de todas estas sensibilidades para provar a existência de uma pequena, pequena partícula subatómica? Em torno de que outro motivo se reúne tudo isto, que não seja um sonho de civilização que a todos nos une? Que outro objectivo poderia motivar a investigação sobre o bosão de Higgs? Que outra mola que não seja a fé, nos leva a admitir que, agora que sabemos que o bosão de Higgs existe, podemos vir a perceber ainda melhor o que Leucipo e Demócrito, cerca de 500 anos a.C., começaram por intuir, sem a ajuda de qualquer tecnologia?
Como compreender, finalmente, que a Europa, esta Europa tão badalhoca, deprimida, descrente de si, e tão cruel no seu comportamento comunitário, tão atreita ao encómio a dignitários de barro, esta Europa tão fértil em cimeiras e em tratados da plástico, não se tenha engalanado toda hoje, para celebrar um projecto desta natureza, construído maioritariamente com vontades e dinheiros Europeus, assente na fortíssima tradição de um saber Europeu, ironicamente originário da sua região actualmente mais problemática, que uns tantos achariam bem ver fora da Comunidade?

É possível, pois, um futuro mais brilhante. É possível um futuro em que os problemas que nos afligem possam ser corrigidos. Basta sonhá-lo.
O exemplo do LHC, do CERN e de outras instituições científicas similares diz-nos que o sonho é possível, que o progresso e a civilização são conceitos a preservar e a alargar e que, em vez de se deixar tentar por resvalar para a barbárie, a Europa deveria querer continuar a desempenhar em tudo isso o papel fulcral que sempre desempenhou.

2012/07/04

À atenção dos enfermeiros

Deixem de ser burros! Façam uma licenciatura de um ano e filiem-se na Maçonaria. Com um pouco de sorte, ainda chegam a ministro...

2012/06/28

Estado de guerra

Distraida com euros, relvas e outras matérias de enorme actualidade, a maioria dos portugueses não se terá apercebido de uma notícia que já há tempos vem sendo referida pela imprensa: o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos está a organizar cursos de defesa pessoal para os seus membros.  Muitos contribuintes sentem-se injustiçados pela actuaçãao do fisco e, vai daí, decidem, em "cúmulo jurídico", fazer justiça pelas suas próprias mãos. Transformam assim os funcionários das Finanças, em ferramenta do seu "recurso", recebendo-os com violência quando estes tentam efectuar acções de penhora ou outras.
Não há duas leituras para este caso. Ou isto é o que muitos trabalhadores vêm reclamando dos sindicatos e do movimento sindical em geral, i.e., uma atitude mais musculada, ou estamos perante um fenómeno sinistro, que não nos pode deixar de causar enorme perplexidade. A mim, que talvez tenha cometido o crime de acreditar que havíamos há muito pousado a moca e saído do ambiente primitivo das cavernas, causa.
Não está aqui naturalmente em causa a regra do cumprimento dos deveres fiscais, nem tão pouco estou a defender o recurso à violência, por parte dos faltosos, para dirimir conflitos fiscais ou outros. O que está em causa, isso sim, é a magnitude do fenómeno no momento actual, a ponto de suscitar uma acção como esta do STI. O que está igualmente em causa é a "sociologia" destes conflitos. A maioria dos envolvidos neste tipo de situação não é, como afirma o próprio Sindicato, do tipo prevaricador fiscal contumaz, mas gente cumpridora que nesta altura tem sérias dificuldades para conseguir alimentar o triturador de défices. O que está certamente em causa é que o Estado, para, ele próprio, dirimir estes conflitos, deixe instalar (certamente também com a benção das hierarquias) um clima de quase guerra civil com os contribuintes, com os agentes e guardiões da Lei a assumir como boa a lei de Talião, explicita e institucionalmente.
Justiça e Fiscalidade à portuguesa tingem-se com as cores do kung fu...
Sabemos dos códigos que à ofensa corporal, tentada ou explicitamente perpetrada, é lícito responder com acto de defesa de igual grandeza. Sabemos também que é crime público o exercício da violência sobre agentes do Estado. É o próprio Estado que atacam quando atacam os seus agentes. Já custa, contudo, engolir que o Estado se comporte com os seus cidadãos, com aqueles cujos interesses é suposto defender e tratar com justiça e equidade, como se de vulgares criminosos se tratasse, em atitude de puro saque apenas destinado a garantir o seu voraz e aparentemente insaciável apetite.
Os trabalhadores do Fisco, ao escolherem, solidária e institucionalemente, a via do fitness, também se sujeitam a que a um uke alguém responda com um mais eficaz shotei e a diligência acabe com sanbon para o contribuinte...
Não admira, pois, com tudo isto que os cidadãos recebam os agentes do Fisco como flibusteiros. Eles estranham certamente que o Estado e as instituições democráticas que fiscalizam o seu funcionamento tenham deixado chegar as coisas a este ponto, com a total impunidade dos seus autores, mas com uma intransigência raivosa para as suas vítimas, e, no seu espírito, a resposta à via de violência escolhida para resolver esta situação não passa de um acto de auto defesa.
Algo vai desgraçadamente errado hoje no nosso País quando vemos o Estado e os seus agentes a, para fazer cumprir as suas próprias leis, comportarem-se como um qualquer bando de mafiosos a fazer a colecta da "taxa de protecção" lá no bairro...

Freud explica

Agora que Portugal foi eliminado do Euro, após semanas em que o sentimento dos portugueses alternou entre a descrença, a esperança e a ilusão, é sempre reconfortante ouvir os treinadores de bancada opinar sobre a grande prestação da equipa portuguesa. Uma vez mais, ganhámos moralmente: não jogámos melhor do que a Espanha, mas merecíamos ganhar nos 90 minutos, pesem os 30 minutos de tempo extra onde os espanhóis podiam ter acabado com o jogo. Os penalties, são um capítulo à parte. Há quem lhe chame lotaria, azar ou destino. Obviamente, é preciso algum sangue-frio e isso os espanhóis tiveram-no. Tão simples como isto. Também não lembra a ninguém pôr o João Moutinho a marcar o primeiro penalti e deixar o Ronaldo para o fim. Sobre a prestação do "melhor jogador" do Mundo, as opiniões dividem-se: uns acham que esteve bem, outros que só às vezes e há quem ache que, na selecção, ele não rende tanto como nos clubes que representa. Uma das explicações para este facto, poderá ter a ver com a "ansiedade" que sempre demonstra nos jogos da "nossa" equipa. De acordo com uma opinião (imagino que de um treinador de divã) a "ansiedade" que caracteriza Ronaldo nos jogos da selecção, poderá ter a ver com uma infância infeliz e a falta de uma verdadeira mãe quando era criança (!?). Por isso, devemos compreendê-lo. Desta, confesso, nunca me tinha lembrado.

2012/06/25

Princípio do fim?


Este filme começa aqui. E nós, que estamos habituados a esta lógica cronológica,  deduzimos que é o princípio da acção.  Pergunto, contudo: e se este não fosse o fim do princípio, mas o princípio do fim? E se alguém meteu propositadamente a bobine ao contrário?
Vale a pena ler este artigo (já sinalizado no Twitter do Face, aí do vosso lado direito). "O “sistema da dívida” é o alimento do mundo financeirizado". Repito para o caso de não terem ouvido bem: "O “sistema da dívida” é o alimento do mundo financeirizado".
Mas, a dívida faz aumentar a dívida, constatamos nós, a menos que a ataquemos na origem. A esta realidade responde o "mundo financeirizado": não, nós gostamos que nos devam. Devam-nos, quanto mais melhor, devam-nos muito e vendam tudo, vendam-se!, o que importa é que nos consigam pagar! Não têm dinheiro? Pagam com mais dívida!
Por vezes os porta vozes deste "mundo" não o dizem assim, desta forma cruel e assassina. Usam meias palavras, insinuam, dão um carácter mais ou menos subtil, mais ou menos sofisticado ao discurso, mas o que resulta, no final, é apenas isto: "desviar recursos que deveriam se destinar a gastos sociais - com saúde, educação, saneamento básico, assistência social, moradia digna, entre outros – para o pagamento de encargos financeiros de uma “dívida pública” cuja contrapartida não se conhece," como diz o artigo. A dívida faz aumentar a austeridade, que faz aumentar a dívida, que faz aumentar a austeridade.
Aumento da austeridade é uma medida drástica, dizem os piedosos do regime; provisória, avisam, mas necessária. É preciso honrar compromissos, cumprir metas. Só assim se pode voltar a ganhar a confiança... do "mundo finaceirizado". O mesmo que vive disto. Como se alguém fosse acreditar que com o simples cumprimento dos compromissos o "mundo financeirizado" ficasse saciado.
Por que razão não se fala então em impor uma outra restrição drástica: cercear drasticamente a actividade deste "mundo financeirizado", o mesmo que vive disto, o mesmo que nos colocou nesta situação, para começar, e que não hesitará em tentar repetir a proeza logo que os nossos compromissos estejam satisfeitos? Passar o filme a partir do princípio, enfim?

2012/06/23

Murdoch volta, estás perdoado!

O 4º poder mostra o quão está sob o poder do poder. O caso é tão chocante que se lê e pensa-se logo: "não, isto é coisa do extinto Jornal do Incrível ou da Imprensa Falsa". Mas, não, é o DN e aconteceu, de facto, neste ano da graça, mas não engraçado, de 2012.  O News of the World parece obra de amadores ao pé disto.
Veja-se a gravura e leiam-se  aqui mais pormenores, incluindo a descrição dos factos, as respostas dos intervenientes e a análise do Provedor do Leitor do DN.


2012/06/22

"Relvas quis favorecer empresa de Passos Coelho"




Uma história sórdida descrita neste video e aqui neste artigo. O mais engraçado, no caso do video, é ver a outra a tentar defender o indefensável. As cambalhotas que ela dá para mascarar o argumento central de Helena Roseta...

Uma questão de Estado

Gaspar vai avisando, à cautela, que pode não ser possível cumprir a meta do défice para este ano. De imediato temos a reacção de uma data de "dótôres" a explicar o que o ministro quis dizer. Não vá a gente não ter percebido... Mas, a verdade é simples e, como dizia um grande pensador da economia portuguesa, "é fazer as contas..."
Com a actividade económica em queda livre, cujo resultado óbvio e totalmente previsível é a consequente diminuição das respectivas receitas fiscais, e com o aumento brutal dos encargos resultantes da escalada do desemprego, as despesas aumentam para além do limite já anteriormente insuportável, e as receitas diminuem, logo a meta do défice não pode ser cumprida. É assim, simples.
Nem com toda a contabilidade criativa, que o contabilista-mor do reyno entenda instituir, este processo pode ser invertido! Não resta outra alternativa que não seja recorrer aos mesmos aumentando os impostos, i.e, aos mesmos que pagam impostos! É claro como a água.
A solução óbvia pareceria ser então estimular a actividade económica interna (as famosas "exportações", em ascenção há já tanto tempo, não parecem chegar para as encomendas...) e combater o desemprego, o que, por sua vez, pode também ajudar nesse estimulo à actividade económica interna. Mas, nem isso se vislumbra no horizonte político do País.
Nesta corrida louca e totalmente descontrolada os responsáveis não parecem ser capazes de fazer mais do que, como se costuma dizer, empurrar o problema para a fente com a barriga, sem fim à vista nem qualquer meta clara.
Esta política deixa por responder várias questões perturbantes, às quais o douto ministro deveria, com a sobriedade e fina precisão que o caracterizam, responder, sob pena de pensarmos que essa serenidade e aparente rigor não passam de uma enorme encenação.
Responda então o senhor ministro...
Qual a relevância das funções que o Estado desempenha que justificam esta constante insaciabilidade financeira? Que medidas prevê o governo para estancar esta espiral crónica do défice, que corrijam as suas origens, para além de lhes continuar a deitar dinheiro para cima? E, mesmo que consiga equilibrar este défice —com, pelo menos, um estímulo eficaz à economia e o combate ao desemprego—, que legitimidade tem o Estado para se limitar a angariar mais receitas, como se fosse uma mera empresa em busca de manutenção no mercado, em registo de simples sobrevivência, sem rumo, sem estratégia, sem "produto", com prazo de validade confirmado, para vender aos clientes. Ou, no caso de haver "produto", especulando com o preço, valendo-se da posição monopolista para ir buscar umas coroas extra? Que "Estado" é este que os senhores continuam a deixar que se transforme numa simples instituição de prestamistas, comissionistas, especuladores e angariadores de vendas à rasca para arranjar negócio? Que funções deve afinal o Estado exercer e através de quem? Tem o senhor ministro uma ideia clara sobre isso? O que raio andamos nós afinal a pagar, é capaz de nos dizer? Porque nos sai o Estado tão caro, conseguirá explicar? Quem assinou e assina os cheques? É o senhor? É o senhor, senhor ministro da fazenda, que continua a cavar o défice? Qual a sua utilidade então? Para que nos serve, de facto, este Estado, que produziu este défice?

2012/06/21

Castidade

O PS enfia o cinto de castidade e anuncia a abstinência, perdão, a abstenção, na moção de censura do PCP. Esperemos que seja a tal abstenção violenta...

2012/06/18

Uma vitória de Pirro

Para descanso dos credores europeus, os gregos deram ontem a vitória ao partido que mais contribuiu para o endividamento da Grécia. Não é, pois, de admirar que a Alemanha e os países do núcleo duro do Euro se congratulem com o resultado obtido pela Nova Democracia. O pânico instaurado nas principais capitais europeias, devido à ascensão do Syriza - um partido bem menos radical do que alguns analistas nos fizeram crer - revelou-se, afinal, infundado. As campanhas de intimidação levadas a cabo pelos principais políticos e banqueiros alemães, a que não faltaram anúncios publicados na imprensa europeia a apelarem ao "voto responsável" dos gregos, fizeram o resto e acabaram por ser determinantes para a vitória de Samaras. Acontece que, apesar desta vitória, a Nova Democracia não tem a maioria absoluta dos votos (longe disso!) pelo que não poderá governar sozinha. Depende, por isso, de uma coligação, que poderá contar com o PASOK, terceiro partido mais votado e o grande derrotado destas eleições. Consciente da sua força negocial, o líder do PASOK já veio declarar que só entrará para o governo caso a coligação governamental inclua o Syriza e a Esquerda Democrática, numa clara estratégia de cimentar a unidade nacional. Pesem as intenções dos socialistas, não é de crer que Samaras, escudado na sua vitória de ontem e pressionado pela Alemanha, venha a ceder nesta coligação alargada. Também não é de acreditar que Tsipras, cuja campanha eleitoral foi baseada na denúncia deste memorando, venha renunciar aos seus princípios. No dia seguinte às eleições mais importantes em décadas, a sociedade grega continua tão dividida como nunca, nada garantindo que a saída deste impasse tenha sido resolvida com o recente sufrágio. Uma coisa parece certa: os maiores responsáveis por esta crise (a Nova Democracia e o PASOK) ganharam um oponente de peso. A partir de agora, o Syriza perfila-se como uma oposição respeitável, em quem os gregos depositaram a sua confiança e mais de 26% dos votos. Nada mau, para quem foi apelidado de radical durante semanas de campanha e que acabou por influenciar todo o discurso anti-memorando que hoje atravessa as principais forças partidárias do país. Se as condições de austeridade a que estão sujeitas os gregos, mudarem, ao Syriza se deve.

2012/06/16

Tranquilidade

O PCP anunciou a apresentação de uma moção de censura ao governo. O BE mete o ponto morto e diz que tem de ver o texto primeiro. O Seguro do PS proclama, em estranho dueto com o PR, deus nos livre!, uma crise política agora, esquecendo-se que é, ele próprio, a crise política! O mesmo PC que apresenta esta moção —que estaria sempre derrotada à partida—, invocando a favor dela, com toda a justiça, o seu carácter simbólico e a necessidade de marcar uma posição face ao bombardeamento em curso contra o povo português, não se coibiu, ele próprio, no passado de criticar iniciativas de índole semelhante com o argumento que... estavam  derrotadas à partida.
Fragilizada, atomizada, incoerente, oportunista, preconceituosa e pífia, assim vai a esquerda portuguesa, certamente para grande gáudio da direita, desta direita reles e nauseabunda que governa e atrofia o grande País que é Portugal.
A direita não resolve os problemas do país com as suas soluções. Vê-se, sente-se. É fácil provar. Mas também a esquerda, que tem nela própria as armas para o fazer, reage desta forma patética e rasteira perante a necessidade de se mobilizar e de constituir uma frente unida. Num País a necessitar de uma solução de esquerda e de pão para a boca!
Não admira pois que o primeiro primeiro ministro estagiário que tivemos desde o 25 de Abril declare que está tranquilo...

2012/06/11

Não chega!

Aqui há tempos Manuela Ferreira Leite sugeriu, como é sabido, a "suspensão da democracia" como forma de resolver os problemas do país. Agora Rui Rio vem sugerir, por sua vez, que nos municípios com dívidas a democracia também seja suspensa e sejam nomeadas "comissões administrativas" para substituir o processo democrático.
Se formos rigorosos na nossa análise, nada disto surpreende. Não vou, pois, lembrar o passado destas criaturas, nem usar o argumento de que os problemas (reais e causados em grande parte por eles, gente como esta ou gente que eles poderiam ter controlado em tempo oportuno,) que levam estes grandes pensadores políticos a sugerir a "suspensão" da democracia, são ditados justamente pela falta de democracia ou por um exercício deficiente de democracia, que devia ter sido há muito corrigido. Nem tão pouco direi que, para resolver os problemas do país, é minha forte convicção que se deveria ter mais democracia, não menos. Nem sequer usarei o argumento que os democratas, sobretudo os que exercem funções de serviço público e são para isso pagos, têm a obrigação de contribuir para melhorar o regime, não sugerir a sua subversão. Não vale a pena lembrar nada disto.
O que me parece porém verdadeiramente surpreendente é olhar para a acção deste governo em que o PSD manda, ver o caos em que fez cair o país, ver os métodos e os ataques constantes à democracia que são praticados, as malfeitorias que diariamente nos são feitas, ver o perigo iminente em que, na prática, a democracia está e verificar que os referidos personagens, advogados da subversão do regime, se encontram no grupo dos críticos desta acção!
Pelos vistos este atropelo diário à democracia ainda não chega...

2012/06/05

Resignação

Uma sondagem diz-nos que o PSD se vai aguentando e o PS continua seguindo em segundo. Não admira. Não por essa revelação em si, mas por uma outra questão: uma esmagadora maioria não vê alternativa à governação PSD.
Não percebem que a alternativa é isso mesmo, alternativa. Não percebem que se o PSD governa mal e o PS não é alternativa ao PSD, a alternativa é outra e tem de ser construída activamente. Não percebem que a alternativa à má governação e aos escândalos do governo PSD não é a má governação e escândalos socialistas, é outra coisa que ponha termo a esta pouca vergonha.
O que os portugueses revelam com esta sondagem (a serem verdadeiros os seus resultados) é uma preocupante resignação.

2012/06/04

O dealer

Ao distribuir estas doses cavalares de morfina entorpecente, como hoje mais uma vez, o ministro Gaspar pensa que a droga vai ficar a "bater" e que todos nos vamos esquecer do essencial. Mas, não, está enganado. Não nos vamos, nunca poder esquecer que todas as reformas, todos os "ajustamentos", servem apenas para garantir duas coisas. Em primeiro lugar, que os privilegiados deste país mantenham os privilégios, mesmo que estes sejam totalmente obscenos, ilegítimos ou desproporcionados. Em segundo lugar, que continua a ser aos mesmos que é pedida a sustentação desses privilégios, mesmo que o façam à custa dos seus próprios, legítimos, pequenos e bastas vezes duramente conquistados, privilégios.
Não há droga que nos faça esquecer isto e não há droga que nos faça esquecer a única solução possível para resolver esta situação de forma "sistémica"...

2012/06/01

Esquerda revolver!


Se o desemprego é o patrão 
Tens que te defender, mas como? 
Tens que todo o Estado 
De baixo a cima revolver...

Os números do desemprego (o real, o "estatístico" e o projectado) vão desabando em cima de nós, como se estivéssemos a ser vítimas de um terramoto em fúria máxima e réplica permanente, como se pontes, estradas e edifícios nos estivessem desabando em cima, soterrando-nos, como se a destruição e a ruína nos cercassem e outra coisa não pudéssemos esperar que não fosse mais réplicas, mais desabamentos, mais destruição e mais ruína.
Reparamos (reparámos há muito) que a "Protecção Civil" anda entretida. Entretida a aparar relvas e a manter os livros de contas a bater certo, totalmente indiferente a toda esta destruição e ruína, de olhos fechados para os sulcos profundos que se abrem na crosta da Terra, para os tsunamis que se vão gerando e para as vítimas que estão a ser engolidas por esta convulsão medonha.
O cataclismo é real, a metáfora poderá pecar por defeito.
"Tens de todo o Estado de baixo a cima revolver...." dizia Brecht. De que será que as vítimas desta "Protecção Civil" estarão à espera para revolver?

2012/05/30

"A taxa de pobreza infantil é o melhor indicador que uma sociedade pode ter acerca de si própria"

Um relatório da Unicef, acabado de publicar, sobre pobreza infantil nos países ricos diz que "cerca de 13 milhões de crianças na UE, incluindo ainda a Noruega e a Islândia, foram consideradas em estado de privação. São crianças a quem faltam os elementos básicos para o seu desenvolvimento. Entretanto, 30 milhões de crianças vivem em estado de pobreza em 35 países com economias desenvolvidas."
De que "crise" falamos quando falamos em crise? A que estado de desvergonha foi preciso chegar para chegarmos a este estado?  A que estado de lassidão se deixou conduzir a "democracia de tipo ocidental" —que se compraz dizendo irresponsavelmente de si própria ser "o pior sistema com excepção de todos os outros"— que a leva a, com auto-instituída impunidade, fazer agora vista grossa a estas realidades?
O relatório é claro: que chance terão as crianças africanas se a francesa Lagarde nem sequer consegue perceber a vergonha que é seu próprio país?


 


(PS- Resta acrescentar que o lugar que Portugal ocupa neste relatório deveria constituir prova suficiente para levar os responsáveis políticos que a ele conduziram à barra dos tribunais...)

2012/05/28

Na rota do Zeca

Entre as inúmeras celebrações que decorrem em 2012 para assinalar os 25 anos da morte de José Afonso, uma deve ser destacada pela originalidade e qualidade dos seus intérpretes. Refiro-me ao concerto "De ouvido e coração", um projecto do compositor e pianista Amilcar Vasques Dias, anunciado para ser apresentado este fim-de-semana em Évora. Lá fomos, na esperança de ouvir os músicos e cantora principais, Vasques Dias (piano), Luís Cunha (violino) e Esther Merino ("cantaora") que, habitualmente, fazem parte do programa. Desta vez, havia convidados: a cantora lírica Natasa Sibalic (Sérvia) e o "cantador" local Joaquim Soares, que participavam pela primeira vez no concerto. Depois, o lugar, o magnífico Mosteiro dos Remédios, onde está sediada a Associação Musical "Ebora Mvsica" que, desde 1987, vem organizando e apresentando programas de formação musical na área dos grandes mestres polifonistas da Sé de Évora. A Associação dá ainda formação na área de instrumentos de cordas, sopros e teclas, organiza oficinas de Canto Gregoriano e ciclos de concertos nos Claustros e na Igreja, onde "De ouvido e coração" estava incluído. Desde o primeiro tema, "Vejam bem", a assistência, que enchia por completo a Igreja dos Remédios, percebeu estar em presença de um concerto especial. Esse sentimento aumentaria nos temas seguintes, com "Coro da Primavera", "Ó que janela tão alta" e "A Mulher da Erva", para culminar no celebrado "Venham mais Cinco". Seria com a primeira interpretação de Esther Merino, em "Nana del Caballo Grande", um tema de Garcia Llorca a anteceder a "Canção de Embalar" de José Afonso, que os presentes explodiram num aplauso intenso. A partir daí, o concerto estava ganho e a genialidade da música de Afonso, ganhava outra dimensão. Temas como "Menino de Oiro" e "Balada de Outono", interpretados respectivamente pelo cantador alentejano Joaquim Soares e pela cantora lírica Natasa Sibalic, comprovaram a excelência do reportório afonsino. Quando Esther voltou para interpretar "Cantar Alentejano" (Catarina Eufémia) a canção mais dramática de toda a sessão, muitos dos presentes choravam lágrimas de emoção. O concerto terminou formalmente ali, mas os seus ecos permanecerão no Convento por muito tempo. Hoje, no regresso a casa, não pude deixar de pensar no Zeca e de como ele gostaria de ter ouvido a sua música neste lugar.

2012/05/26

Marciano ou leviano

No mesmo dia em que a S&P atribui a categoria de "lixo" a três bancos espanhóis, Cavaco Silva anuncia na Austrália que só há um problema na União Europeia: a Grécia.
Um ser vindo de outro planeta, este presidente, determinado a lixar-nos a vida até ao seu último suspiro, ou um tipo sem qualquer competência para ocupar o lugar que ocupa, que não se coíbe de opinar sobre o que lhe dá na tineta, só para fazer prova de vida.
Escolham.

2012/05/23

Os números da felicidade

De acordo com o último relatório da OCDE, a recessão, em 2012 e 2013, não só vai continuar como piorar em Portugal. Nos quatro principais indicadores avaliados (variação do PIB, variação do consumo privado, taxa de desemprego e défice público) os números da OCDE são todos piores do que as previsões do governo português: Variação do PIB: Governo (0,6%), OCDE (-,09) Variação do Consumo Privado: Governo (0,7%), OCDE (-3,2%) Taxa de Desemprego: Governo (14,1%), OCDE (16,2%) Défice Público: Governo (3%), OCDE (3,5%). Perante tal diagnóstico, a organização internacional recomenda mais medidas de austeridade ao governo português, única forma de Portugal conseguir obter as metas exigidas no Memorando da Troika. Ou seja, se esta receita não curou o doente, aplique-se uma dose cavalar, para ver se ele recupera. O perigo, já sabemos, é o doente morrer da cura. Não seria a primeira vez e, que nos lembremos, esta receita só resultou com uma ditadura, no Chile de Pinochet. Interrogados sobre estas projecções, os membros do governos apressaram-se a relativizar a gravidade dos números, declarando que estes "estavam errados". Talvez, mas não seria a primeira vez que organismos internacionais, como a OCDE, a Eurostat ou o FMI, vêm corrigir, em baixa, as previsões governamentais portuguesas. Perante tal cenário, não é de admirar que no "índice europeu da felicidade" (ontem mesmo divulgado), os portugueses, certamente mais preocupados com a sua sobrevivência e por isso mais pessimistas, ocupem o penúltimo lugar em 36 países. Em primeiro lugar está (uma vez mais) a Dinamarca e, em último, a Turquia. Sabendo que o primeiro país é um dos mais ricos e equilibrados da Europa e que o último é um dos mais desiguais, não devemos estranhar que entre a percepção do que é felicidade e a qualidade de vida, haja uma correlação evidente. E, se é verdade que o dinheiro não traz felicidade, lá que ajuda, ajuda...os dinamarqueses que o digam!

2012/05/20

Cancioneiro popular



Ó Relvas, ó Relvas!
Até salta à vista.
Ligações secretas
Sem interacção.
Desculpas sem culpas,
Mas que confusão.
O melhor remédio 
É a demissão!
É a demissão!
É a demissão!
É a demissão!