2012/08/21

Os coletes do Macedo

O Ministro da Administração Interna lá conseguiu "descobrir" 600 000 euros para gastar em coletes de protecção para a polícia. Durante a pomposa cerimónia de entrega dos preciosos acessórios, declarou que "o dinheiro pode faltar para tudo, mas não para isto."
Aproveitou a ocasião para lamentar também a falta de condições de trabalho da polícia, esquecendo por certo o mais de 1 milhão de desempregados que gostariam, estou em crer, de ter trabalho, qualquer trabalho, com ou sem condições.
As palavras de Miguel Macedo são repugnantes. Mostram uma criatura que não está à altura do cargo que desempenha. Mais um neste extenso rol de criaturas que vêm ocupando o poder em Portugal.
Não há justificação que se possa aceitar para transformar as polícias em excepção nesta altura de apertos orçamentais. A contradição entre a narrativa oficial corrente e actos como este é flagrante.  Não é fácil perceber para que serve tanto colete.
Se, como parece, a situação do país não é muito diferente, em matéria de segurança, do que tem sido até aqui, o reforço das polícias, do contingente, dos meios e das condições laborais, só pode, pois, querer dizer uma de três coisas: que 1) vem aí mais pilhagem e a cordita poderá não aguentar ou 2) o melhor é estar de bem com os homens do cassetete, não se vão eles lembrar um dia destes que também são vítimas desta política do governo ou, finalmente, 3) os cidadãos são brandos, mas nunca fiando: se tiverem alguma remota vontade de se indignarem com o esbulho de que estão a ser vítimas o governo está subtilmente a recordar-lhes: temos coletes!
Tudo isto é fraco, triste, desesperante! Os coletes com que brindou os polícias deviam ter sido distribuídos por Miguel Macedo aos cidadãos. A insegurança que este governo suscita nos cidadãos é total.

2012/08/12

Vómito

Na classificação das fobias há uma chamada coulrofobia, ou seja, o medo de palhaços. Nesta história de fobias com conotações circenses, contudo, há uma outra —que não sei se tem ou não designação técnica— que me afecta especialmente: tenho fobia a contorcionistas. Especialmente se se trata de gente sem espinha, uma condição que a torna particularmente vulnerável, em risco iminente de se partir.
O caso das declarações de Zita Seabra não deveria suscitar uma linha sequer, se vivessemos num país a sério, com gente a sério. Infelizmente, tudo isto originou reacções tão inacreditáveis que me levam a ter de dizer também qualquer coisa sobre o assunto.
O que estranho fundamentalmente em tudo isto é que, em primeiro lugar, a criatura em questão, amante da democracia, da verdade e da transparência política, esqueça que não estamos no período do PREC. Estamos em 2012. O PCP já nessa altura fazia papel político de embrulho. Hoje nem papel de embrulho faz. Quem tem uma participação activa e decisiva na destruição da vida dos portugueses, quem contribuiu e continua a contribuir para lhes agravar o seu dia a dia, para fazer do seu quotidiano um martírio sem precedentes e um sofrimento atroz, quem decide medidas que fazem aumentar o desemprego para níveis que apontam para o domínio do crime público, quem produz a contradição insanável de pretender lutar contra o défice aumentando permanentemente o défice, quem desprotege ainda mais os desprotegidos, quem destrói a justiça e o equilíbrio sociais, quem fez recuar o nosso nível de crescimento para valores medievais, quem beneficia os corruptos, quem lambe o rabo dos poderosos, quem assina as leis é o governo do partido de Zita Seabra. O PSD, não o PCP.
Há ainda um outro pormenor, não despiciendo: é da mais alta hierarquia do PSD que provêm todos estes personagens que estão presos, usam pulseiras electrónicas, andam meio a monte ou estão envolvidos em negócios de legalidade duvidosa, nunca totalmente esclarecidos. Não é da hierarquia do PCP.
Zita Seabra parece conviver bem com tudo isso. Nada disto lhe parece fazer comichão.
Colheu Zita Seabra, sabe-se lá com o beneplácito de quem, o favor dos deuses do éter para dizer o que disse, com aqueles ridículos tiques de funcionária clandestina de que não parece nunca conseguir livrar-se. E disse-o sem que ninguém expusesse nenhuma destas contradições, sem que ninguém questionasse a oportunidade destas declarações, sem que ninguém, uma vez obtido todo este efeito, lhe perguntasse se acha então que é o PSD que garante os ideais pelos quais entendeu trair o seu partido de origem.
O que me remete para um apontamento final sobre o PCP, a propósito da nota que, sobre este assunto, tornou pública. O PCP devia ter chamado a atenção dos portugueses justamente para tudo isto. O assunto tornou-se sério e politicamente importante a partir do momento em que a contorcionista Zita foi deixada sem resposta. O espetáculo deprimente desta figura profundamente emética devia mesmo merecer uma análise mais séria, política e solidamente fundamentada, que o PCP não fez e devia ter feito.

2012/08/11

Perguntas Simples

Se o MP não encontra os documentos do negócio dos submarinos no Ministério da Defesa, porque não pedi-los a Paulo Portas que, antes de sair do governo, fez 60.000 fotocópias no ministério que tutelava?

2012/08/10

Selvajaria

"A hipóteses de extinção da Fundação [Paula Rego] é grotesca, despropositada, uma selvajaria," diz António Capucho.
Selvajaria, recordemo-lo, é coisa de selvagem, alguém gosseiro, rude, animalesco, que responde apenas a instintos básicos. Capucho está a sugerir que os membros da coligação que está no poder e assegura, neste momento, a governação do país podem ser capazes de actos de selvajaria. Membros do seu próprio partido e do CDS, portanto.
Selvajaria opõe-se a civilização. O selvagem é alguém que reage por instinto, sem inteligência e desorganizadamente, que não contrbui para o progresso da sociedade. Inteligência, organização, progresso social são atributos de uma sociedade civilizada. Segundo António Capucho, a coligação PSD/CDS pode portanto não se encaixar nos parâmetros mais básicos de definição de civilização.  Concordo com Capucho. Ele acerta em cheio quando emprega o termo selvajaria para caracterizar o caso da Fundação Paula Rego.
Capucho descobriu tudo isto agora, em boa hora entenda-se, a propósito de uma questão perfeitamente legítima. Mas, o comum dos portugueses já o tinha descoberto há muito tempo. Já tinha percebido que estávamos perante actos de selvajaria pura quando viu os seus direitos mais básicos, duramente conquistados, serem desrespeitados, quando lhe foi roubado, sem respeito pelos seus direitos constitucionais, uma parte do seu salário, quando foi ilegitimamente sobrecarregado com novas taxas, à vista ou encapotadas, quando perdeu o emprego e viu os mecanismos de perda do emprego serem facilitados, quando viu o acesso ao subsídio de desemprego ser dificultado, quando viu o seu direito à saúde, à educação, à justiça ser simplesmente trucidado pelos selvagens da actual coligação, em nome de uma racionalidade nunca explicada e de um equilíbrio orçamental que, na prática, mais não faz do que manter os privilégios dos que mais têm. O comum dos portugueses já o tinha descoberto quando constata que quem assina o cheque não é responsabilizado, e vê o ónus da situação actual ser-lhe atirado para cima, numa enorme encenação de culpa colectiva que ao responsabilizar todos, em abstracto, apaga o papel dos verdadeiros responsáveis. O comum dos portugueses já o tinha descoberto quando, em tempos de austeridade, percebe que o aparelho partidário criado por estes selvagens continua a manter o controlo do acesso à administração apertado, de forma a que a ela e aos seus privilégios de excepção apenas tenham acesso os membros da selvática confraria. Tal como fizeram os membros da selvática confraria que os precedeu. O comum dos portugueses já tinha percebido a dimensão da selvajaria quando em tempos de aperto financeiro, de cortes generalizados, de redução dos serviços públicos na saúde, na educação, na cultura, da insegurança causada pelo desemprego galopante e pela precariedade do emprego, é a polícia a única entidade a quem cabe o privilégio dos aumentos e da dotação de novos meios. O comum dos portugueses sabe tudo isto.
Selvajaria pura é de facto a única forma de classificar o período da nossa História que estamos a viver. Retrocesso civilizacional é o que se passa hoje. Capucho deve agora levar as consequências do que afirmou até ao fim, sem rodriguinhos de retórica.

Silly Season

É fatal, como o destino. Todos os anos, por esta altura, as histórias mais inverosímeis enchem os orgãos de comunicação social. Com a classe política "a banhos" e o país "a ferro e fogo", os jornalistas necessitam de "casos" que ajudem a vender o seu produto. Nos países anglo-saxónicos chamam-lhe "silly season", nos germânicos "komkommertijd" (época dos pepinos) e nós? Talvez, "pepineiras". O que, aparentemente, começou por ser um caso de financiamento governamental para um projecto de painéis solares em Abrantes, ameaça transformar-se num argumento digna de Le Carré, mestre do romance de espionagem. A história conta-se em poucas palavras: Alexandre Alves, o famigerado "barão vermelho" (a cognome é todo um programa) foi acusado pelo ministério da economia de ter recebido uma avultada quantia do estado para iniciar um projecto de painéis solares. Dado que o projecto, por falta de verbas, não avançou em tempo útil, o governo quer o dinheiro de volta. Questionado por todas as estações televisivas em "prime time", Alves negou ter recebido qualquer verba do governo (o que foi corroborado pelo, então, presidente do Aicep) e apelidou de mentirosos os ministros que faziam tal calúnia. Foi assim na RTP, na TVI e na SIC. Faltava a SICN, onde Crespo, o "rei da pepineira", resolveu tirar da cartola, o trunfo das grandes revelações: Zita Seabra, personagem digna de um romance tantas são as histórias que deve ter para contar... E o que disse a Zita, instada pelo Mário sobre o "verdadeiro papel" da FNAC (não confundir com a cadeia francesa de produtos culturais), uma empresa de ar condicionado da qual Alexandre Alves foi presidente executivo nos anos oitenta? Que a "Fábrica Nacional de Ar Condicionado", a exemplo de tantas outras (jornal "O Diário", Editora "Caminho") era uma empresa do PCP, apoiada pela RDA (Alemanha de Leste), que teria um especial interesse em vender "ar condicionado" ao estado português... "Deixe cá ver se percebi bem", salivava o Crespo, antevendo a resposta à sua pergunta retórica: "A senhora está a dizer que a RDA queria vender aparelhos de ar condicionado aos ministérios, para poder pôr lá dentro microfones de espionagem? Em plena "guerra fria"? E Zita, rindo de matreira: "Bem, não posso afirmar que havia lá microfones, porque nunca os vi, mas que a RDA tinha um especial interesse em promover esses aparelhos, isso era claro"... Porque o jornalismo também é feito de contraditório, o Crespo lá convidou o Alexandre Alves para rebater a tese. Este explicou, de forma muito clara, o que estava a contecer e reafirmou que nunca recebeu qualquer dinheiro do governo, pela simples razão que o projecto nunca arrancou. Tornou a chamar mentirosos aos nossos governantes e desvalorizou as afirmações da Zita, de quem disse que "anda a viver à custa do anti-comunismo há mais de vinte anos". O Crespo, que não acreditava no que ouvia, não resistiu à última provocação: "Não o incomoda ser apelidado de "Barão Vermelho"? Ao que Alves responderia que era público que ele tinha sido militante do PCP há vinte anos e que, para além disso, era do Benfica... Hoje o DN notícia, em primeira página, que o Procurador Geral da República resolveu abrir um inquérito sobre as alegadas espionagens do PCP, no seguimento das acusações de Zita Seabra no programa da "Pepineira". A coisa promete. Resta-me uma dúvida metódica: Será que os aparelhos da FNAC, vendidos ao Sporting, tinham microfones do Benfica instalados?

2012/08/07

Quando a cor do tempo era vermelha

Chris Marker (1921-2012) morreu no passado 28 de Julho, dia do seu aniversário. Mais do que um documentarista, Marker era considerado pelos seus pares "um ensaísta do cinema". Foi escritor, jornalista, documentarista, artista multimédia e militante político. Ligado, desde sempre, às grandes causas, foi um observador atento e privilegiado de acontecimentos que marcaram o Mundo nos últimos cinquenta anos. Para quem acompanhou de perto as convulsões políticas das décadas de sessenta e setenta do século passado, episódios como a revolução cubana, a guerra do Vietnam, a morte de Che, Maio de´68, a Primavera de Praga, Watergate, o 25 de Abril ou a derrocada da URSS, são parte do nosso imaginário. Filmes como "Cuba Si!", "La Jetée", "Loin du Vietnam", "Le fond de l'air est rouge", "Sans Soleil", "Level 5", são hoje parte integrante do acervo documental dessa época. É impossível documentar a história do século XX em imagens, sem mostrar os filmes de Chris Marker. Esse será, provavelmente, o maior legado, ainda que os seus interesses se alargassem a outras áreas como a critica cinematográfica (foi colaborador dos "Cahiers du Cinema") e a militância política. Foi também um dos principais animadores do movimento dos cineastas da "rive gauche", agrupados no colectivo militante ISKRA, em Paris, onde viria a falecer. Associando-se às homenagens internacionais, o cinema Nimas, em Lisboa, organiza esta semana um ciclo dedicado a Chris Marker. Neste curto ciclo, podem ser vistos quatro das suas obras mais representativas. O primeiro e certamente o seu documentário político mais conhecido, "Le Fond de L'air est Rouge", passou ontem; prosseguindo a homenagem com "La Jetée" e "Sans Soleil" (hoje) e "Level 5" (amanhã), sempre às 21 horas. Para quem não possa assistir, ou queira rever os filmes, existe uma caixa da Atalanta com os últimos três títulos.

2012/08/06

Há 67 anos...

 

A 6 de Agosto de 1945, faz hoje portanto 67 anos, os E.U.A. lançaram a bomba atómica sobre Hiroshima. A bomba foi carinhosamente chamada de Little Boy. Seguiu-se a bomba sobre Nagasaki. Um crime hediondo, mil vezes repudiado, mas nunca expiado. 
O pior da espécie humana é, quanto a mim, a hipocrisia e o cinismo. Não há nada pior do que isto. O que a América mostrou, com este crime fria e deliberadamente executado, com esta Little Boy e a Fat Man que se lhe seguiu, foi este seu lado mais obscuro, que tanto avanço tecnológico e civilizacional não conseguiu contrariar. A sofisticação tecnológica e os avanços na organização da sociedade não foram suficientes para produzir outra resposta que não fosse a morte imediata de cerca de 250 000 pessoas, a maioria civis, e a morte lenta de mais uns largos milhares, posteriormente, devido aos efeitos da radiação. A resposta da sofisticada América ao conflito foi e continua a ser premir o gatilho. Não há nada de sofisticado nisto.
Hoje mesmo, uma sonda americana, a Curiosity, chegou a Marte com sucesso. "O mais sofisticado laboratório móvel que alguma vez aterrou noutro planeta" como referiu o presidente dos EUA. Quanto à sofisticação não tenho dúvidas e quanto à organização que a sociedade americana demonstra para conseguir esta proeza, também não me restam dúvidas.
Vamos é ver para que serve tudo isto. Vamos ver se no futuro, como há 67 anos, Curiosity doesn't kill the cat...

Um Cineasta Olímpico

Quem, por norma, assista às cerimónias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos, lembra-se, certamente, de Pequim. De todas as que vi, as cerimónias de 2008 foram as que mais me impressionaram. O principal responsável por esse evento foi Zhang Yimou. Zhang Yimou (1951) é o maior cineasta chinês da actualidade. Nascido numa época conturbada - a revolução maoista estava a dar os seus primeiros passos - cedo teve de interromper os estudos e, devido às suas origens "burguesas", obrigado a trabalhar no campo e numa tinturaria. Mais tarde, estudou fotografia. Estas experiências, com a realidade camponesa e com as cores, viriam a marcar toda a sua obra de cineasta. Terminada a "revolução cultural" e os seus desvarios, Yimou candidatou-se à Academia de Cinema, que o recusaria por não ter qualificações e mais de 27 anos, considerada a idade limite para admissão. Graças à reabilitação artística da época, acabaria por ser admitido e graduou-se em 1982. Do mesmo curso, sairiam alguns dos nomes mais sonantes do cinema chinês actual, como Chen Kaige, Tian Zhuangzhuang e Zhang Junzhao, também conhecidos como a "5ª geração". Data de 1987 a sua primeira longa-metragem, "Red Sorghum" (o campo de milho vermelho) que, no ano seguinte, conquistaria o Urso de Ouro do Festival de Berlim. Seguem-se cerca de 20 títulos, dos quais os mais famosos - "Ju Dou" (1990), "Raise the red lantern" (1991), "The story of Dou Ju" (1992), "To Live" (1994), "Shanghai Triad" (1995), "Not one less" (1999), "Hero" (2002), "House of Flying Daggers" (2004) - ganharam todos os grandes festivais (Berlim, Cannes e Veneza) e os óscares para o melhor filme estrangeiro (duas vezes) em Hollywood. Nem todos foram distribuidos em Portugal, mas os mais populares foram editados em DVD. Se tiverem de ver um, escolham "Raise the red lantern" (Esposas e Concubinas), provavelmente a sua obra-prima. Acontece que, depois de reabilitado, Yimou passou a ser idolatrado. No Ocidente e não só. Daí, o convite do governo chinês para dirigir a coreografia da delegação chinesa em Atenas (2004) e, quatro anos mais tarde, as cerimónias de Pequim. Sobre o evento escreveria Steve Spielberg, o famoso realizador americano: "no centro da cerimónia olímpica de Zhang, esteve a idéia que o conflito do homem profetiza o desejo de paz interior. Este é o tema que ele explora e aperfeiçoa nos seus filmes, sobre a vida de humildes camponeses e da exagerada realeza". Com tantos créditos a seu favor, não é difícil a Zhang conseguir apoios para os seus filmes. O último, "The Flowers of War", actualmente a passar nas salas portuguesas, teria custado mais de 90 milhões de dólares. Com tanto dinheiro à disposição, mal seria se alguma coisa falhasse. Mas, falhou. Não que o filme não se veja. Os ingredientes de uma boa história estão todos lá, Há ainda a "mise-en-scene" e direcção de actores, as cores e a fotografia, tudo de uma excelência ímpar. Mas não chega. Perpassa por todo o filme um moralismo e heroísmo de pacotilha, aliado ao nacionalismo bacoco, expresso no maniqueísmo do Bem (China) contra o Mal (Japão), típico dos filmes americanos do pós-guerra. Algumas das cenas (combates entre o soldado chinês e o destacamento japonês) e a personagem do herói, interpretada por Nolan, recordam-nos "O soldado Ryan" e "Indiana Jones" de Spielberg. Não tardará muito e Yimou será convidado a filmar nos Estados Unidos...

2012/08/05

O essencial na vida não é o triunfo...

...mas a competição, lembrava Pierre de Coubertin há um século atrás. Passada uma semana sobre a abertura dos JO em Londres, não se pode dizer que os atletas portugueses tenham esquecido as sábias palavras do fundador dos Jogos Modernos. Salvo honrosas excepções - vela, remo, canoagem, ténis de mesa e hipismo - as prestações da delegação portuguesa pouco têm impressionado. É verdade que, sem Naíde Gomes, Nélson Évora, Obikwelu, Rui Silva e Vanessa Fernandes, as probabilidades de Portugal alcançar um lugar no podium eram diminutas. Apenas Telma Monteiro e, eventualmente, João Pina, no judo, eram potenciais candidatos a uma medalha. Acontece que, mesmo estes, claudicaram no primeiro combate contra adversários que, normalmente, derrotam. Um afastamento precoce, talvez explicável pela pressão a que ambos foram sujeitos desde o início, dada a craveira e vitórias a que nos vem habituando. Resta a segunda semana de provas, dominada pelo atletismo, onde Portugal tem o melhor histórico. Hoje mesmo, na maratona feminina, Jessica Augusto obteve um excelente sétimo lugar e Marisa Basto o décimo-terceiro. Confirma-se, deste modo, a tradição portuguesa para as corridas de fundo que pode, ainda melhorar, quando Dulce Félix entrar em prova. Até lá, vamos competindo, pois há mais vida para além das vitórias e, mesmo estas, são efémeras, como sabemos...

2012/08/03

No nascimento do Zeca


Se fosse vivo, José Afonso teria feito ontem 83 anos. Para celebrar a efeméride, o núcleo de Lisboa da Associação José Afonso levou a efeito uma sessão evocativa. O evento realizou-se nas instalações da livraria Ler Devagar em Lisboa e contou com a participação de Rui Pato (mítico acompanhante do Zeca nas décadas de sessenta e setenta) e António Ataíde, um reconhecido valor da actual canção de Coimbra. Perante uma sala a transbordar, os dois magníficos intérpretes passaram em revista o reportório da fase coimbrã do Zeca, quando Pato era ainda seu exclusivo guitarrista. Grandes e menos conhecidas canções, a maioria das quais reunidas nos primeiros discos de Afonso, quando o acompanhamento se limitava a um instrumento acústico: a guitarra e os arranjos de Rui Pato. Zeca já tinha deixado a fase do Fado de Coimbra (ligada aos seus tempos de estudante) e ensaiava um novo ciclo, marcado por uma lírica nostálgica e metafórica onde, não raramente, os textos continham uma crítica implícita à ditadura de Salazar. Esta atitude militante, cedo viria a causar-lhe problemas de toda a ordem - censura, concertos proibídos, perseguição e dificuldades materiais - cuja realidade Pato ilustrou com humor durante o concerto, através da leitura da correspondência trocada à época entre os dois. Uma grande sessão de divulgação da música e poesia de José Afonso, onde as qualidades humanas e o espírito crítico do cantor ficaram, mais uma vez, bem expressas. As evocações do nascimento de José Afonso prosseguem amanhã, em Grândola, com um concerto de Janita Salomé e da Filarmónica Idanhense, evento igualmente organizado pela Associação José Afonso.

2012/08/01

A importância de ser Álvaro

Afirma Pereira, numa audição parlamentar hoje na AR, que "a importância disto (referia-se não percebi bem a quê) é porque estes dois projectos são importantes." A frase poderá não ter sido exactamente dita assim, mas foi mais ou menos isto.
É por estas e por outras que, depois de o ministro Pereira afirmar peremptoriamente, logo a seguir, que o seu ministério está a operar uma verdadeira revolução, eu fico totalmente convencido, arriscar-me-ia mesmo a dizer que acredito que acredito que  com as "reformas estruturais", —misteriosas, é certo, mas, segundo ele, absolutamente decisivas— e com Pereira ao leme, a economia portuguesa sairá da situação de estagnação, velha de décadas, em que se encontra. Fico tão convencido com estas palavras como com a sua previsão da "retoma" já em 2013 ou 2014, que a evidência contraria, ou com a sua fé nas virtudes do novo código laboral, que ele parece ser o único a ter.
Nem acredito que, depois de observar o ar determinado com que o ministro Pereria diz tudo isto, alguém me consiga agora convencer que os tempos de estagnação não estão terminados de vez. Ai estão, estão! Eu cá acredito!
Todos as previsões apontam para o mesmo (embora com uma latitude mais ou menos ampla): a recessão vai continuar e o desemprego vai aumentar. Em inequívoca sintonia, o país reconhece que o ministro Pereria não existe. Mas ele lá vai prometendo virar a economia do avesso, cantando solitárias hosanas ao código laboral e fabricando reformas virtuais.
Uma conclusão pode ser retirada, sem margem para dúvidas ou tergiversações, das afirmações do  ministro Pereira e da qualidade da sua governação: a importância do importante é importante.

2012/07/31

Nuno Teotónio Pereira, o nosso Mandela

Há já muito tempo que, por vários motivos, não compro jornais. Estando o Público indisponível na Internet sem ser a pagantes, só o leio quando me cruzo com um exemplar, no barbeiro ou em cafés, normalmente com uns dias de atraso.
Para dele tomar conhecimento, foi portanto necessário que uma mão amiga, a de Jorge Abegão, me fizesse chegar o artigo, publicado no Público de dia 29, a propósito da atribuição pela Igreja Católica do prémio Árvore daVida / P.e Manuel Antunes a Nuno Teotónio Pereira. Começa assim esse artigo de António Marujo:
«Cinco dias depois de ter deixado de ver de um dos olhos, em Maio de 2009, o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, hoje com 90 anos, acordou a sentir que a outra vista estava com sintomas semelhantes. Levantou-se, saiu de casa, no bairro de São Miguel, em Lisboa, e, como habitualmente, apanhou os transportes públicos atravessando a cidade para se dirigir ao ateliê, na Rua da Alegria. Ali, arrumou todas as suas coisas. Antes de deixar o gabinete, o arquitecto telefonou para a mulher, explicando o que se passava e dizendo que tinha de voltar ao oftalmologista. Ela pediu-lhe que apanhasse um táxi e viesse depressa. Mas Teotónio Pereira fez de novo como todos os dias: apanhou os transportes públicos. Ao entrar em casa, disse: "Despedi-me de Lisboa." À hora de jantar, perdera completamente a visão.»
Estou de acordo com o Jorge quando ele afirma que «esta história é borgeana.» Mas o que me tocou mais, até me comover, foi a apreciação sobre a foto que acompanha o artigo do Público: «é duma intensidade fulminante», refere. E descreve:
«São as mãos que avançam e falam dele como uma nova maquete desenhando um edifício onde estão presentes os três pilares, que perfilhou, "de forma equilibrada: a funcionalidade, a resistência ou solidez e a beleza". Borges, contrariando Shakespeare, na Cegueira, disse: "o mundo do cego não é a noite que as pessoas supõem". O mundo do Nuno, como o artigo denota, está cheio de claridade e de luz. Para muitos, como eu, enquanto jovens, quando pensávamos que o mundo justo estava ali mesmo à mão dos nossos vinte anos, Nuno foi a figura paterna, a referência ética de que necessitávamos e que resistiu ao acomodamento dos tempos.»
Bem hajam aqueles, e tão poucos são, que, como «o nosso Mandela»*, resistem ao acomodamento dos tempos!

*  Que ambos perdoem a comparação, já que ambos são incomparáveis.

2012/07/30

Ah! como é diferente a eugenia em Portugal...

Uma casa modesta, de idosa manifestamente modesta, uns parcos utensílios à vista. A mulher exibe os sinais da agressão de que foi vítima. Conta que "eles entraram por aqui dentro a gritar 'onde está o cordão? onde está o cordão?' Disse-lhes que não tinha nenhum cordão, bateram-me."
Aqui há tempos uma outra idosa, menos modesta, sugeria que os hemofílicos podiam ser descartáveis, estarão lembrados. Recentemente, Pinto Balsemão lamentava o facto de a população portuguesa ter idosos a mais. O problema do défice estaria resolvido, acha ele, se houvesse menos velhos. São formas de agressão encontradas por quem não tem a coragem ou o poder de nos liquidar fisicamente. O Governo, com o beneplácito do Presidente da República, e a troika, mais prosaicos,  optam por nos assaltar a casa à procura do cordão. Não o encontrando, agridem-nos a sério.
Exagero, pensará quem lê estas linhas. Mas há, por mais absurdo que possa parecer, uma lógica nisto tudo. Uma lógica que a nossa inércia forjou e encorajou.

2012/07/28

Os verdadeiros criminosos

Se dúvidas houvesse sobre o poder da música, este exemplo dissipava-as. Já aqui há algum tempo referi um outro exemplo maravilhoso que ilustra bem o poder da música e a capacidade que esta arte tem para forjar um sociedade melhor. Este outro exemplo, vindo agora dos E.U.A., mostra mais uma vez esse poder.
Pergunto-me o que teria acontecido se os fundos gastos actualmente em programas como este tivessem sido usados em programas escolares de formação musical, na altura certa, de todos estes detidos.
Não é um problema americano. A forma como, em geral, as artes são encaradas nas sociedades avançadas é patética. Os exemplos de cortes ou supressão de programas multiplicam-se um pouco por todo o lado.
Pergunto-me que noção terão os actuais responsáveis pelos sectores da Cultura e Educação do nosso país do significado que têm os cortes que se estão a efectuar nestas áreas para o nosso futuro? Pergunto-me o que pensa o país destes cortes...? Pergunto-me se o país tem noção do que vai ser o seu futuro com mais marginais e mais crianças abandonadas ao seu infortúnio, com a sensibilidade ferida de morte em lutas de gangs. Pergunto-me se o país tem a noção de quantos futuros detidos está a formar ao deixar que estes cortes se multipliquem, sem que ninguém pareça ligar grande coisa, tratando a cultura e a educação como uma coisa longínqua, um luxo a que uma sociedade, entroikada como esta está, se não pode dar?
O que se gasta na formação musical de uma criança hoje será certamente mais proveitoso do que o que se gasta na manutenção da prisão onde ela pode vir a ter de mourejar no futuro.
Quam são, pois, os verdadeiros criminosos: os que cortam os programas de educação e cultura ou aqueles que estão presos em Sing Sing e noutras prisões de alta segurança?

A ironia das ironias...

Os ingleses têm uma notável queda para a ironia. São imbatíveis nesse domínio. A cerimónia de abertura dos JO de Londres 2012 estava cheia de pequenos apontamentos deliciosos.
A cerimónia teve, contudo, outros apontamentos mais sérios, sem o splash que se observa em outros eventos do género, mas não menos significativos. E teve um, quanto a mim, particularmente notável: uma homenagem ao National Health Service britânico. Um serviço manifestamente querido e um óbvio motivo de orgulho para os ingleses, a ponto de encontrarem nele conteúdo suficientemente significativo para figurar numa cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos.
Sem ironia, diria mesmo, de forma cruel e cínica, por cá o primeiro ministro Passos Coelho, acompanhado pelo ministro Paulo Macedo à guitarra e pela Troika à viola, vão diligentemente dando cabo do nosso.
Irónicos, mas não distraídos estes ingleses...

2012/07/26

Começou a "época" dos fogos

Portugal, já sabemos, é um país de tradições. Porque a tradição ainda é o que era, pelo menos nalgumas áreas mais "tradicionais", todos os anos por esta época somos confrontados com o flagelo dos fogos. Há-os para todos os gostos: os de combustão "espontânea", os ateados por pirómanos, os de origem desconhecida, os provocados pelos madeireiros, pelas fábricas de celulose, pelos especuladores imobiliários, pelos pastores, pelas "queimadas", pela seca, pelo calor, pelo vento e, calculem só, por todas estas coisas em simultâneo! Faltam sempre meios: da protecção civil, dos bombeiros, de meios aéreos, de dinheiro, de coordenação e até de prevenção... Todos os anos - todos! - ardem dezenas de milhares de hectares de floresta pública e privada, assim como bens de todo o tipo, para além de vidas, muitas e preciosas, que morrem estupidamente sem sabermos bem porquê. Mais: na última década terão ardido mais de 1 milhão de hectares (1/3 do território nacional!), com picos de 340.000 hectares e 220.000 hectares em 2003 e 2005, respectivamente. Só este ano, já arderam 35.000 hectares. Pior: sabendo que a floresta (a par dos téxteis e calçado) é uma das principais riquezas nacionais (representando 3% do PIB português e 11% das exportações) não se percebe este desleixo verdadeiramente criminoso do estado português. Mas, a história não acaba aqui. De acordo com os dados da PorData, revelados por António Barreto num recente programa televisivo, metade do país (a zona a Norte do Tejo) não está sequer cadastrada. Ou seja, não se sabe ao certo qual a área e a quem pertencem os terrenos privados existentes! Dessa forma, torna-se impossível exigir medidas tão elementares como a limpeza das matas ou sancionar quem não cumpra estes pressupostos. Como o processo de cadastro exige tempo e dinheiro, os sucessivos governos vão adiando esta decisão fundamental para o nosso território, tornando-se cúmplices deste laxismo nacional que nos devia envergonhar pela ineficácia demonstrada. Estamos em Julho, a meio da "época de fogos". Muitos mais irão seguir-se, daqui até Setembro. No rescaldo, será feita mais uma avaliação e serão prometidas mais medidas, por ministros e secretários de estado de semblante grave e sisudo. Depois, esquece-se tudo, até ao próximo Verão, quando os "inevitáveis" incêndios voltarem a ser notícia. Tenho vergonha destes nossos governantes. De todos, sem excepção.

2012/07/23

"O princípio do fim da Segurança Social!"

De autoria de Carlos Paz, reproduzo este artigo que merece a vossa reflexão serena... 



O princípio do fim da Segurança Social!
PARTILHEM, discutam, debatam, ataquem, defendam…, o que quiserem!
Concordem ou discordem, não fiquem INDIFERENTES, não deixem passar em branco sem fazer ouvir a VOSSA OPINIÃO.

Como este texto vai ser longo (e poucos terão paciência para o ler até ao fim), começo pela conclusão:
- No dia 21 de Julho de 2012 assistimos ao MAIOR e mais sério ATAQUE, pensado, estruturado e assumido ao FUTURO da SEGURANÇA SOCIAL em Portugal;
- Quer concordem com a ideia de ACABAR com o modelo, quer prefiram a ideia de DEFENDER o modelo, MANIFESTEM-SE;
- O tema é DEMASIADO SÉRIO para ser deixado a cargo dos POLÍTICOS Portugueses e dos TECNOCRATAS Europeus;
- Quer estes senhores queiram ou não, o ESTADO é NOSSO, o PAÍS é NOSSO, a SEGURANÇA SOCIAL é NOSSA, o FUTURO é o NOSSO… de NÓS TODOS;
- Estamos no NOSSO DIREITO de sermos NÓS a DECIDIR!

Agora a história (vou SIMPLIFICAR os pormenores técnicos propositadamente, para que TODOS possam perceber não só o tema em questão, mas, principalmente, as consequências das acções – ou da falta delas):

1) Começando pelo início: em Portugal existe um documento fundamental de definição da estratégia de actuação do Governo – O Orçamento do Estado.
Este documento pode ser construído e analisado sob diversas perspectivas, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista económico.
No entanto, ATÉ ONTEM (21 de Julho de 2012), existiu uma ideia ACEITE por todos os que pensaram e trabalharam este assunto: Há uma parte ESPECÍFICA do Orçamento do Estado que deve ser ISOLADA e compartimentada – O Orçamento da SEGURANÇA SOCIAL.
Assim, as receitas do Estado (Impostos – IVA, IRS, IRC, etc… - Taxas, Coimas, etc…) são compartimentadas das receitas da Segurança Social (contribuições dos Trabalhadores e dos Empregadores – esta última designada por TSU, Taxa Social Única).
Do mesmo modo, as despesas do Estado (Salários, Juros da Dívida, Custos de Funcionamento – rendas, viaturas, consultorias, assessorias, comunicações, equipamento militar, etc…) são compartimentadas das despesas da Segurança Social (Reformas, Pensões, Subsídio de Desemprego, Abonos, etc…).
A razão desta separação prende-se com a necessidade de assegurar a SUSTENTABILIDADE da SEGURANÇA SOCIAL: As despesas do Estado podem (e deveriam) ser equacionadas e pensadas numa base “ano a ano” de forma a serem ajustadas aos Ciclos Económicos, e, ao contrário, uma parte significativa das despesas da Segurança Social tendem a ser perpétuas (como é o caso das Reformas: cada vez que um cidadão se reforma, a Segurança Social fica com um encargo – a pensão de reforma – que continuará a existir enquanto o cidadão for vivo, independentemente do ciclo económico ser positivo, ou negativo como o actual).
O nosso sistema de Segurança Social (ao contrário dos sistemas de SS PRIVADA) não se baseia num modelo de capitalização (em que cada pessoa desconta para a SEU plano de reforma, para o SEU seguro de saúde, ou para o SEU seguro de desemprego). Baseia-se, sim, num modelo de distribuição, também conhecido como de “solidariedade inter-geracional” (em cada instante, TODOS os activos – trabalhadores e empregadores – contribuem para TODOS os dependentes – crianças, desempregados, reformados, pensionistas e incapacitados). Assim, há necessidade de assegurar que as contribuições dos “activos” são as necessárias e suficientes para garantir o apoio aos “dependentes”.
Quando os ciclos económicos são positivos (muito emprego e crescimento económico) sobram verbas à Segurança Social (o contributo dos “activos” é maior que as necessidades dos “dependentes”). Neste caso o Estado não pode (E NÃO DEVE) utilizar esses recursos excedentários, mas, ao contrário, geri-los como forma de “poupança” para o futuro.
Por outro lado, quando os ciclos económicos são negativos (muito desemprego e retracção económica) faltam verbas à Segurança Social (o contributo dos “activos” é mais pequeno que as necessidades dos “dependentes”). Neste caso as contas devem ser equilibradas por recurso à “poupança dos anos bons” e às “transferências do OE”.
Para evitar a TENTAÇÃO de Políticos e/ou Tecnocratas pouco escrupulosos há alguns limites que têm sido aceites de não “misturar” as contas dos “impostos” com as da “segurança social”. Assim, IMPEDE-SE que, para aparentar um bom desempenho das contas públicas (nomeadamente o “famoso” deficit) se destrua o futuro da Segurança Social.
Já agora, mesmo no seio do OE há uma regra, da União Europeia, para “travar” ímpetos aos mais “criativos no mau sentido do termo” (e não destruir o futuro para “mostrar serviço” no presente). É um exemplo disso a PROIBIÇÃO da Consignação de Impostos: é proibido criar ou modificar “um imposto especial” para uma “despesa especial”.

2) Agora, a notícia de 21 de Julho de 2012: “A TROIKA quer obrigar o Governo a baixar a TSU e compensar (o impacto no deficit) com um aumento das Taxas mais baixas do IVA”.

Primeiro:
Não é obrigar o Governo, é obrigar Portugal (TODOS nós). O Governo não é uma entidade abstracta. É um conjunto de pessoas a quem os cidadãos do País atribuíram o DEVER de zelar pelos interesses, presentes e futuros, da comunidade.

Segundo:
Não se podem consignar Impostos. Quer concordemos ou não com a baixa da TSU, generalizada ou pontual, com ou sem regras de impacto nos preços, não se pode “atribuir uma parte do IVA” para “compensar a baixa da TSU”.

Terceiro (e MAIS IMPORTANTE):
Viola-se, pela primeira vez, a “regra fundamental” de não “misturar” as contas da SEGURANÇA SOCIAL (com características de perpetuidade) com as contas do Orçamento do Estado (com características pontuais – anuais).
E aqui reside o principal problema: As contas do OE e, principalmente, o seu controlo e correcta gestão (previsão, monitorização e reacção) são um instrumento do Governo e, principalmente, uma forma de aferição da qualidade da governação (NUM SÓ ANO).
Ao contrário, as contas da Segurança Social, são NOSSAS, do NOSSO FUTURO, não podem estar “à disposição” de cada um dos Governos.
Quando isto acontecer, a Segurança Social, como a conhecemos, deixa de ter capacidade para subsistir e está pronta para PRIVATIZAR.

3) Conclusão:
Duvido que alguém tenha tido a paciência de ler este “texto de explosão de alma” até ao fim.
Termino da mesma maneira que comecei: Estamos perante uma DECISÃO encapotada, que está a ser imposta: PRIVATIZAÇÃO da SEGURANÇA SOCIAL.

Que ao menos tenham a coragem de a ASSUMIR e DEBATER publicamente. Se ficarmos calados, o DEBATE nunca acontecerá.

2012/07/22

"Passos Coelho - O Desilusionista"

Aviso: imagens mesmo chocantes. Para o caso de ficar, de facto, em estado de choque, o número da Emergência Nacional é, relembro-o, o 112...











2012/07/20

Espanhóis e portugueses: diferenças óbvias

De facto, há diferenças entre portugueses e espanhóis. Enquanto em Portugal se espera pelo "parecer" do "opinioneiro" de serviço para ter opinião própria, e se exulta com os comentários dos "especialistas" que propõem o afrouxamento das medidas de austeridade, enquanto aqui se substitui a acção pela conversa mole (*), em Espanha, mal foram anunciadas as medidas de austeridade, centenas de milhar de pessoas vieram para as ruas em mais de 80 cidades, afrontando a polícia e os seus mastins.  Em Espanha não é preciso que a corda comece a apertar fatalmente a garganta para agir.
Enquanto a corda aperta, em Portugal, o PR e o deputado Ribeiro e Castro, tentando apequenar a contestação, descobrem que as manifestações de repúdio dos portugueses pelo esbulho a que estão a ser sujeitos (**) são "preparadas" (as medidas de austeridade não foram preparadas, são espontâneas...) e este insulto não gera uma onda de enorme indignação. Em Espanha a resposta à tentativa de esbulho não se fez tardar e acontece neste momento nas ruas, de forma intensa, de olhos nos olhos, com um saldo até agora de dezenas de feridos e detidos.
Enquanto a corda aperta, em Portugal, no primeiro semestre deste ano, foram à falência 24 empresas por dia, e a taxa efectiva de desemprego está, segundo o MSE, acima de 23%!
Mais uma diferença que também não deixa de ser curiosa: toda esta informação, sobre o que se passa em Espanha, pode ser recolhida num portal preparado pelo governo espanhol.

(*) Exemplos de conversa mole são os analistas de café ou de mesa de dominó e bisca, espalhados por esses parques públicos, os blogs, os programas sobre blogs e, claro está, os "foruns" e programas de "debate" na rádio e na tv, e a imprensa. Todos eles fervilham, todos os dias, de re-opiniões sobre as opiniões dos "especialistas". Veja aqui, um desses casos.

(**) O pouco que se tem feito, certamente muito aquém do que seria necessário, é obra de gente corajosa que teima em acreditar no país, e não passa, apesar de tudo, de umas meras assobiadelas e  umas palavras de ordem gritadas com o vocalizo mais ou menos estridente. Imaginem, tendo em conta a infinita lábia do artista, o efeito que terá, perante a ignomínia praticada pelo Relvas, uma simples vaia .


2012/07/18

O recipiente adequado para esta gente


Corre hoje uma notícia sobre uma Ana Moura, rapariga de outros fados, secretária e ex-vogal da comissão política do PSD de Setúbal, acusada de desvio de fundos. Que me perdoe a verdadeira Ana Moura. "Mas porque é que a gente não se encontra?"
Não vejo nada de terrivelmente surpreendente no comportamento da Ana do Sado, confesso. O que espanta e choca é o facto de ela já ter novo cargo nas Finanças. É o Fado da Ana, também conhecido pelo Fado do Cocei-te as Costas. O Relvas, entretanto, canta o Fado da Licenciatura Liofilizada, também conhecido pelo Fado do Finalista. Firmino ataca o Fado Menezes, com letra de protesto dirigida ao primeiro-ministro, e o Jardim (do buraco) da Madeira permite-se cantar ao despique o Fado Relvas, dedicado aos doutores instantâneos. Enquanto isso Menezes ensaia o Fado Firmino, com a sua própria letra e música, cujo refrão diz "Relvas é um homem sério", e o jovem Duarte acompanha à viola em tom menor, o Fado Gago, com culpas para o Mariano. O professor Marcelo Rebelo Karamba, picadinho, ataca o Fado Manife, um fado ridículo e já gasto, de opinião morta. A letra é um exercício pouco subtil em que se consegue afirmar que a manifestação de segunda-feira foi ridícula, sem perceber o ridículo da afirmação. As manifes medem-se aos palmos, pensa o iminente cantador; logo, Relvas, o primeiro-ministro que o escolheu e o presidente da república que o empossou, são o epítome da seriedade.
D. Januário Torgal vem, entretanto, dizer o que todos sabemos: que o guitarra e o viola são corruptos e dão notas ao lado. Mas o PSD precisa de mais provas.
Perante a confusão que vai na tasca, o primeiro ministro reage a tudo isto mudando de penteado. Um não primeiro ministro, portanto, que nem serve para atirar à ventoinha.
Toda esta gente faz parte do partido principal da coligação governamental, da qual o PP também não sabe, não pode ou não quer descolar, malgrado os RPP, recados público-privados...
Reparem bem: toda esta gente tem a responsabilidade da governação do nosso País, influencia directamente a nossa vida, molda o nosso actual e desgastante, penoso, injusto e revoltante dia a dia.
Este também não é um fado normal. Está na hora de atirar a porcaria, não para a ventoinha, mas para um recipiente apropriado.
Escolham.

À defesa!

O Bispo zurziu no governo forte e feio. Houve quem achasse bem, houve quem achasse mal. Houve quem se revisse nas palavras do bispo, houve quem tivesse ficado em estado de choque. Por exemplo, o ministro Aguiar-Branco reagiu mal às declarações de D. Januário Torgal; como se tivesse tido subitamente um percalço urinário...
Diz o i 0nline que Aguiar Branco, ministro da defesa do reino,  questionado à entrada de uma audição na Comissão de Defesa da AR, "sobre se o ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, tem condições para continuar no Governo, rejeitou fazer qualquer comentário." Justificou-se dizendo, solene, "eu vim aqui responder às questões relacionadas com a comissão de Defesa."
Como vinha tratar de assunto relativos à defesa, já se justificava o ataque ao Bispo... das Forças Armadas!
Confundiu, sem dúvida, a cadeia de comando, como lembra o Manuel António Pina neste seu artigo de hoje.

2012/07/17

Diz-me como conduzes, dir-te-ei qual é o grau de corrupção no teu país

Já alguma vez pensou nisto: o comportamento ao volante reflectirá os níveis de corrupção existentes no país? Não quero fazer extrapolações abusivas, nem criar ligações entre texto e imagem que davam jeito, mas podem ser precipitadas.
Lá que isto dá, contudo, que pensar, ah! lá isso dá...
Ora leia aqui este artigo "World’s Worst Traffic Jam" e conclua por si próprio. Eu fui ver uns dados comparados sobre acidentes rodoviários e condução em Portugal e já tenho uma ideia...



(a foto foi "picada" do blog A Nossa Terrinha)