Haverá quem ache certamente que a acção deste governo é séria (se calhar até mesmo dentro do governo!). Haverá quem ache que as sugestões que têm sido feitas (a última feita pelo próprio primeiro ministro) para que os portugueses procurem no estrangeiro a cura milagrosa para os seus males são legítimas.
A ideia de propor a um português que se vá embora, feita por um alto responsável desse país, eleito com base num determinado programa sufragado nas urnas, é, em si mesma, abjecta. Só esta geração de governantes que é a que presentemente nos dirige, arrogante, ignorante e profundamente estúpida poderia contemplar sequer uma hipótese destas. Talvez nem tudo seja, contudo, estupidez inocente.
Muito se comentou a recente sugestão de Passos Coelho. O incómodo que causou é evidente e generalizado. Por mim, faço a pergunta: que benefício colheria o país de uma hipotética fuga dos seus cidadãos mais qualificados para os novos "paraísos" da economia mundial?
Não seria a emigração desqualificada de outrora esta que agora se sugere, mas sim a fuga desordenada de um conjunto altamente qualificado de gente —"a geração mais qualificada de sempre," como frequentemente é referido— que deixaria um vazio. Uma saída em massa para o estrangeiro de toda esta gente privaria o País, seguramente, do que de melhor temos neste momento.
Nem sequer estaríamos perante o fenómeno do torna-viagem que caracterizou os picos de emigração anteriores. Hoje, quem decide partir, fá-lo sem vontade de voltar a Portugal, mais consciente do que nunca do desamor da Pátria por si e da incapacidade para lhe proporcionar condições de vida, a si que, justamente por causa disso (contradição insanável!), a tem de abandonar.
Neste cenário de divórcio, litigioso e sem remédio, o país não só deixa de poder ver o futuro como deixa de poder contar com as "remessas" de outrora. Uma saída em massa para o estrangeiro apenas iria beneficiar os países de acolhimento, que para além de ganharem esse contributo dos nossos melhores para o seu desenvolvimento, iriam ainda embolsar a receita fiscal daí decorrente.
De resto, para que país voltaria o jovem emigrante, agora que os direitos e regalias, que serviram justamente para fazer regressar os que anteriormente partiram, são diariamente destruídos? Para que passado sem o seu futuro regressaria o jovem emigrante que partisse?
Portugal, diz-se, é um país que precisa de se modernizar, melhorar métodos de trabalho, aumentar a produtividade. Um país para construir quase de raiz, um país que necessita de mudança como de pão para a boca. Ora, a receita do primeiro ministro e desta maldita corrente neoliberal, que papagueia (e mal!) a receita "europeia" e domina a política portuguesa, para mudar o país é simples: em vez de criar as condições de mudança, vamos sugerir o êxodo dos que podem, pela horizonte temporal de que dispõem, pela mentalidade, pela formação e pela energia, operar essa mudança. A receita é: vamos ceder, de borla!, aos outros o nosso futuro. E, pelo caminho, vamos deixar condenar implicitamente todos os que restarem —as vítimas da falta de oportunidades, da idade ou da desqualificação— a uma lenta agonia até ao estertor final.
É isto que resultará das políticas do governo Passos Coelho se não forem firmemente travadas. Pensem nisto os que tencionam emigrar e pensem nisto os que, caso o êxodo venha a ter lugar, serão condenados a ficar. Vejam entretanto, uns e outros, quem beneficia de tudo isto...
2011/12/20
2011/12/18
Conhecer a dívida para poder pagá-la
Decorreu este fim-de-semana a Convenção "Auditoria Cidadã à Dívida Pública: conhecer para agir e mudar" que, ao longo de dois dias, reuniu cerca de 700 participantes no cinema S. Jorge em Lisboa. Uma iniciativa de representantes da sociedade civil que, a exemplo de acções similares em países como o Equador, a Grécia, a Irlanda, a Bélgica e a França, tem vindo a ser preparada nos últimos meses.
Depois da primeira sessão, centrada na questão "O que é a auditoria cidadã à dívida?", onde participaram Ana Benavente, Éric Toussaint e Costas Lapavitsas, os trabalhos da segunda sessão seriam dedicados às comunicações de diversos especialistas sobre a origem e as especificidades da dívida portuguesa. Finalmente, na terceira e última sessão, foi aprovado o texto final da resolução da convenção e eleita a comissão (constituida por 44 nomes da sociedade civil) que dará seguimento às indicações sugeridas pela Comissão Técnica da Auditoria (ICA).
Espera-se, agora, um apoio alargado da sociedade civil a esta iniciativa, pois, como bem lembrou Éric Toussaint, "encontrar técnicos para nos apoiar nunca será o problema, o problema é o apoio da sociedade civil, o factor determinante de todo o processo". Ou, como é sugerido no preâmbulo da resolução, para pagarmos temos de conhecer a factura detalhada:
"Salários e pensões confiscados, trabalho adicional não pago, mais impostos sobre o trabalho e bens básicos de consumo, mais taxas sobre a utilização de serviços públicos, menos protecção no desemprego, cedência a privados de bens comuns pagos por todos - tudo justificado pela necessidade de servir a dívida pública sem falha. Dizem-nos que cortar a despesa pública, aumentar impostos e taxas, degradar o nível de provisão e de qualidade dos serviços públicos para servir a dívida sem falha, é a "única alternativa". Mas, como pode ser alternativa o que não chega sequer a ser uma solução? A austeridade, o nome dado a todos os cortes e confiscos, não resolve nenhum problema, nem sequer os da dívida e do défice público. Pelo contrário, conduz ao declínio económico, à regressão social e, depois disso, à bancarrota. É chegado por isso o momento de conhecer o que afinal é esta dívida, de exigir a factura detalhada. De onde vem a dúvida e porque existe? A quem deve o Estado? Que parte da dívida é ilegitima e ilegal? Que alternativas existem para resolver o problema do endividamento e do Estado? Tudo isso incumbe a uma auditoria à dúvida pública. Uma auditoria que se quer cidadã para ser independente, participada, democrática e transparente" (do preâmbulo do projecto de resolução da convenção "Auditoria Cidadã à Dívida Pública").
Os trabalhos da comissão podem ser seguidos através do "site": www.auditoriaadivida.pt
Depois da primeira sessão, centrada na questão "O que é a auditoria cidadã à dívida?", onde participaram Ana Benavente, Éric Toussaint e Costas Lapavitsas, os trabalhos da segunda sessão seriam dedicados às comunicações de diversos especialistas sobre a origem e as especificidades da dívida portuguesa. Finalmente, na terceira e última sessão, foi aprovado o texto final da resolução da convenção e eleita a comissão (constituida por 44 nomes da sociedade civil) que dará seguimento às indicações sugeridas pela Comissão Técnica da Auditoria (ICA).
Espera-se, agora, um apoio alargado da sociedade civil a esta iniciativa, pois, como bem lembrou Éric Toussaint, "encontrar técnicos para nos apoiar nunca será o problema, o problema é o apoio da sociedade civil, o factor determinante de todo o processo". Ou, como é sugerido no preâmbulo da resolução, para pagarmos temos de conhecer a factura detalhada:
"Salários e pensões confiscados, trabalho adicional não pago, mais impostos sobre o trabalho e bens básicos de consumo, mais taxas sobre a utilização de serviços públicos, menos protecção no desemprego, cedência a privados de bens comuns pagos por todos - tudo justificado pela necessidade de servir a dívida pública sem falha. Dizem-nos que cortar a despesa pública, aumentar impostos e taxas, degradar o nível de provisão e de qualidade dos serviços públicos para servir a dívida sem falha, é a "única alternativa". Mas, como pode ser alternativa o que não chega sequer a ser uma solução? A austeridade, o nome dado a todos os cortes e confiscos, não resolve nenhum problema, nem sequer os da dívida e do défice público. Pelo contrário, conduz ao declínio económico, à regressão social e, depois disso, à bancarrota. É chegado por isso o momento de conhecer o que afinal é esta dívida, de exigir a factura detalhada. De onde vem a dúvida e porque existe? A quem deve o Estado? Que parte da dívida é ilegitima e ilegal? Que alternativas existem para resolver o problema do endividamento e do Estado? Tudo isso incumbe a uma auditoria à dúvida pública. Uma auditoria que se quer cidadã para ser independente, participada, democrática e transparente" (do preâmbulo do projecto de resolução da convenção "Auditoria Cidadã à Dívida Pública").
Os trabalhos da comissão podem ser seguidos através do "site": www.auditoriaadivida.pt
2011/12/17
Cesária
Devo ter ouvido falar dela, pela primeira vez, em finais dos anos oitenta, quando o conceito "world music" ainda estava por inventar. Em rigor, ela foi a primeira artista lusófona a entrar no circuito das chamadas "musiques du monde". Os franceses, sempre atentos, tiveram a percepção do seu enorme talento e ofereceram-lhe a possibilidade de gravar e distribuir os albuns que consolidaram a sua fama.
Viria a conhecê-la pessoalmente durante a primeira edição da feira Womex, realizada em 1994 na cidade de Berlim. Lembro-me que falámos longamente no "lounge" do hotel onde a maior parte dos artistas e delegados da feira estavam alojados e de me ter dito que só se sentia bem em palco, pois as pessoas estavam sempre a fazer as mesmas perguntas e que tudo era muito cansativo: as viagens, os hotéis, as entrevistas...
Nessa noite, quando actuou no auditório principal da "Casa das Culturas do Mundo" onde decorriam os "showcases" da feira, esperavam-na os mil privilegiados que conseguiram acesso ao concerto, já que a lotação da sala estava esgotada há muito. Lá me enfiei para o pé do palco (ao nível do chão) e ali ficaria sentado o tempo todo a tirar fotografias para um artigo do João Lisboa, enviado do "Expresso". Um concerto memorável, onde a "diva" cantou, descalça, durante 45 mágicos minutos. No final, a assistência, hipnotizada pela sua voz incomparável, rendeu-lhe a maior ovação da noite. O "showcase" de Cesária Évora seria considerado um dos melhores daquele ano e, no dia seguinte, toda a gente falava desta mulher que, no meio das canções, parava para beber um gole e fumar com a displicência de quem tinha todo o tempo do Mundo à sua frente. Uma actuação inesquecível.
A partir daí, a história é conhecida. Acabou hoje, após setenta anos de vida e de canções que tornaram Cabo-Verde e a sua grande música, reconhecidos em todo o Mundo. Não é coisa pouca. Imortal Cesária.
Viria a conhecê-la pessoalmente durante a primeira edição da feira Womex, realizada em 1994 na cidade de Berlim. Lembro-me que falámos longamente no "lounge" do hotel onde a maior parte dos artistas e delegados da feira estavam alojados e de me ter dito que só se sentia bem em palco, pois as pessoas estavam sempre a fazer as mesmas perguntas e que tudo era muito cansativo: as viagens, os hotéis, as entrevistas...
Nessa noite, quando actuou no auditório principal da "Casa das Culturas do Mundo" onde decorriam os "showcases" da feira, esperavam-na os mil privilegiados que conseguiram acesso ao concerto, já que a lotação da sala estava esgotada há muito. Lá me enfiei para o pé do palco (ao nível do chão) e ali ficaria sentado o tempo todo a tirar fotografias para um artigo do João Lisboa, enviado do "Expresso". Um concerto memorável, onde a "diva" cantou, descalça, durante 45 mágicos minutos. No final, a assistência, hipnotizada pela sua voz incomparável, rendeu-lhe a maior ovação da noite. O "showcase" de Cesária Évora seria considerado um dos melhores daquele ano e, no dia seguinte, toda a gente falava desta mulher que, no meio das canções, parava para beber um gole e fumar com a displicência de quem tinha todo o tempo do Mundo à sua frente. Uma actuação inesquecível.
A partir daí, a história é conhecida. Acabou hoje, após setenta anos de vida e de canções que tornaram Cabo-Verde e a sua grande música, reconhecidos em todo o Mundo. Não é coisa pouca. Imortal Cesária.
O mesmo Geppetto
Muito se falou em Pinóquio a propósito do engenheiro Sócrates. As montagens sucediam-se com a foto do então primeiro ministro a mostrar um nariz cada vez mais comprido. As imagens correram por blogs e emails. Recordar-se-ão, certamente.
Pinóquio! Marioneta de pau tosco, neto de um sujeito chamado Geppetto, sinuoso bonecreiro, manipulador de cordel.
Pois, após estes curtos meses de governação de Passos Coelho somos levados a reconhecer que há um novo nariz que se exibe, exuberante.
Dois narizes, um só Pinóquio, o mesmo Geppetto.
2011/12/16
Revoltante
Na sua mensagem natalícia publicada na página do Facebook, Cavaco Silva desejou aos Portugueses um ano novo "tão bom quanto possível".
"Virem-se! É o melhor que se pode arranjar. Eu nem tenho nada a ver com isto..." parece querer dizer esta triste criatura, travesti de um Presidente da República.
"Virem-se! É o melhor que se pode arranjar. Eu nem tenho nada a ver com isto..." parece querer dizer esta triste criatura, travesti de um Presidente da República.
2011/12/06
Melancholia
Estreou recentemente em Portugal a última obra do cineasta dinamarquês Lars von Trier.
Autor de uma obra polémica ("Europa", "Breaking Waves", "The idiots", "Dancer in the Dark", "Dogville", "Antichrist"), von Trier ama-se ou odeia-se. Não há meio termo.
"Melancholia" não foge à regra. Há quem o considere uma obra-prima (mais uma!) e quem o ache um pretencioso pastelão.
O filme descreve a relação entre duas irmãs, algures num idílico castelo, que aguardam (com sentimentos contraditórios) a aproximação à Terra de um planeta desconhecido (Melancholia). A história divide-se em duas partes distintas: a primeira centrada em Justine, a irmã rebelde e sonhadora, que rompe com o noivo no próprio dia de casamento e se apaixona pelo planeta mistério; e a segunda, centrada em Claire, a irmã bem casada, pragmática e rica, que entra em pânico à medida que o choque do planeta com a Terra se torna inevitável.
Na semana de todas as decisões sobre a Europa, e quando a agência "Standard & Poors" acaba de alertar a zona Euro para a eventualidade de uma descida de notação de 15 dos seus membros (Alemanha e França incluídas!), não podemos deixar de pensar em "Melancholia", a metáfora perfeita para os tempos que correm.
Não sei se von Trier pensou na crise do sistema económico ocidental quando fez o filme. Uma coisa é certa: o pânico está instalado e não há ameias nem castelos que nos protegam do choque inevitável que nos atingirá a todos: da fraca Grécia, à poderosa Alemanha.
Autor de uma obra polémica ("Europa", "Breaking Waves", "The idiots", "Dancer in the Dark", "Dogville", "Antichrist"), von Trier ama-se ou odeia-se. Não há meio termo.
"Melancholia" não foge à regra. Há quem o considere uma obra-prima (mais uma!) e quem o ache um pretencioso pastelão.
O filme descreve a relação entre duas irmãs, algures num idílico castelo, que aguardam (com sentimentos contraditórios) a aproximação à Terra de um planeta desconhecido (Melancholia). A história divide-se em duas partes distintas: a primeira centrada em Justine, a irmã rebelde e sonhadora, que rompe com o noivo no próprio dia de casamento e se apaixona pelo planeta mistério; e a segunda, centrada em Claire, a irmã bem casada, pragmática e rica, que entra em pânico à medida que o choque do planeta com a Terra se torna inevitável.
Na semana de todas as decisões sobre a Europa, e quando a agência "Standard & Poors" acaba de alertar a zona Euro para a eventualidade de uma descida de notação de 15 dos seus membros (Alemanha e França incluídas!), não podemos deixar de pensar em "Melancholia", a metáfora perfeita para os tempos que correm.
Não sei se von Trier pensou na crise do sistema económico ocidental quando fez o filme. Uma coisa é certa: o pânico está instalado e não há ameias nem castelos que nos protegam do choque inevitável que nos atingirá a todos: da fraca Grécia, à poderosa Alemanha.
2011/11/30
Contradições do sistema
Seis bancos centrais (o Banco Central Europeu, a Reserva Federal dos EUA, o Banco de Inglaterra, o Banco Nacional Suíço e o Banco do Japão) levaram hoje a cabo uma acção concertada, de proporções significativas, para fornecer liquidez à banca. Os "mercados", claro, exultaram e as bolsas pularam.
A justificação dada para esta operação, segundo relata o Público, é a de que era necessário "aliviar os constrangimentos dos mercados e 'mitigar' os seus efeitos no fornecimento de crédito às famílias e empresas, e assim ajudar a animar a actividade económica.”
Vamos lá a saber então: a dívida é boa, afinal? E viver acima das suas possibilidades anima a actividade económica, é? Austeridade, sim ou não? Em que ficamos?
A justificação dada para esta operação, segundo relata o Público, é a de que era necessário "aliviar os constrangimentos dos mercados e 'mitigar' os seus efeitos no fornecimento de crédito às famílias e empresas, e assim ajudar a animar a actividade económica.”
Vamos lá a saber então: a dívida é boa, afinal? E viver acima das suas possibilidades anima a actividade económica, é? Austeridade, sim ou não? Em que ficamos?
Estranhos silêncios
É paradigmático que o grande problema da vida nacional, a corrupção, tenha estado totalmente ausente do debate sobre o OE2012. Nem uma medida do governo, nem uma proposta da oposição. Nada! Trata-se, pois, de um tema tabu.
Se olharmos para os números da corrupção em Portugal, se nos recordarmos que há quem diga que a corrupção é a origem da presente crise, não podemos senão concluir que se trata de um problema central e que, nesse caso, o silêncio é estranho.
Enquanto o tema da corrupção não for discutido e o problema não for objecto de resoluções sérias é certo que este país nunca irá passar desta mediocridade permanente que a todos corrói.
Queria somente lembrá-lo aqui...
Se olharmos para os números da corrupção em Portugal, se nos recordarmos que há quem diga que a corrupção é a origem da presente crise, não podemos senão concluir que se trata de um problema central e que, nesse caso, o silêncio é estranho.
Enquanto o tema da corrupção não for discutido e o problema não for objecto de resoluções sérias é certo que este país nunca irá passar desta mediocridade permanente que a todos corrói.
Queria somente lembrá-lo aqui...
2011/11/28
A quem serve o medo?
Querem ver como se constrói um clima de irresponsabilidade para minimizar os efeitos da incompetência do governo e do mais que certo fracasso da sua política?
O método baseia-se na criação do fantasma da sublevação popular e mete "terroristas", serviços de informação, polícias e agentes infiltrados. Faz lembrar a célebre "revolta dos pregos" que Angelo Correia, o mentor e tutor político do primeiro ministro, inventou há anos. Haverá, pois, aqui hoje também, dedo de Angelo pela certa.
Para além de Angelo, a manobra tem também contado com o contributo de gente tão insuspeita como Mário Soares, vários membros da hierarquia da Igreja Católica e outras figurinhas, jornalistas, analistas, politólogos e outros "peritos" mais ou menos patéticos. Todos vêem sangue no horizonte. Junta-se-lhes o Ministro da Defesa que vem a jogo pronunciar-se sobre a "ilegitimidade" de manifestações legítimas, só porque estaríamos perante a "legitimidade" de um "programa" que, segundo ele, foi sufragado pelo voto. Para ajudar à festa até Carvalho da Silva, de quem não se esperaria tamanha ingenuidade, vem lançar alertas que devem ter soado como música aos ouvidos do governo. No dia da greve, demarcava-se correctamente, por um lado, dos ainda não totalmente explicados incidentes em S. Bento, afiançando, contudo, que eles constituíam sinais da insatisfação que por aí vai. Uma conversa, no mínimo, politicamente canhestra. Duvido que os provocadores colocados pela polícia no meio da manifestação de dia 24 estivessem a pensar na insatisfação do povo que lhes paga o salário.
Até Fernando Santos, o engenheiro do penta e especialista na difícil arte do biqueiro, logo que lhe colocaram um microfone à frente apressou-se a dizer, lá de longe e do alto da sua respeitável e reconhecida expertise em teoria política, que Portugal não tem a tradição "anarquista" da Grécia, mas os desacatos do dia da greve constituem sinais "preocupantes" de agitação.
É isto: primeiro, lança-se a ideia (de forma deliberada ou ingénua) de que há sinais preocupantes no ar. Depois, quando ocorre uma legítima, significativa e pacífica greve geral, unindo uma grande massa de espoliados do regime, a polícia intervém de forma totalmente despropositada, provocatória e, sobretudo, ilegítima, levando as pessoas a reagir, naturalmente, perante os atropelos grosseiros da lei, cometidos por aqueles que, num regime democrático, devem ser os primeiros a respeitá-la escrupulosamente. De seguida, meia dúzia de pessoas que não se sabe oficialmente quem foram, de onde vêm, o que representam e por quem foram instigados, exibem durante a manifestação que se seguiu à jornada grevista comportamentos marginais, que de forma alguma representam o espírito dos manifestantes, nem a mensagem que pretendem transmitir de protesto contra as medidas que o governo teima em levar a cabo. Finalmente, com a inestimável colaboração da imprensa, ficamos a saber que desta empolgante "primavera à portuguesa" estão recenseados, por um serviço qualquer de informações, uns, certamente, perigosíssimos 60-anarquistas-60. Aí está a revolta popular! Como é diferente o Tahir em Portugal.
Está criado um clima tendente a desmobilizar o protesto legítimo, pelo direito ao qual surgiu o 25 de Abril. De repente, num passe de mágica, a liberdade de opinião transforma-se em delito de opinião. O medo de existir, esse mal português que não despega nem à lei da bala, reinstala-se. A injustiça, a iniquidade, a corrupção e outros traços distintivos da nossa actuação colectiva ganharão tolerância de pronto! Tudo está perdoado, no fundo somos todos uns gajos porreiros.
Mais ainda: toda a leviandade, desonestidade, incompetência e arrogância exibidas pelo governo, todos os seus falhanços, inconsistências, equívocos, toda a sua "moral" de esgoto será perdoada e conquistará intenções de voto. Sacrifícios, quais sacrifícios?
Paulo Baldaia avisava ontem no DN a maioria de idosos deste país que ainda lê jornais: "Desenganem-se os que excluem a hipótese de termos violência na rua, porque isso está em exclusivo na mão dos indignados, entre os quais há muita gente que não tem nada a perder. Os mais radicais já começaram a alimentar essa ideia, vandalizando repartições públicas, colocando na Net um vídeo com alegada violência policial, procurando um efeito viral idêntico ao que se passou noutras partes do mundo. Nessa geração há muito quem não se importe de ter no currículo uma cena de pancadaria com a polícia. Há muito quem acredite que as coisas não mudam pacificamente." Não sei onde Baldaia recolhe a sua informação, não sei onde estava em 62 e em 69, não sei onde estava no 25 de Abril, não sei se alguma vez assistiu a alguma revolução ou a violência a sério, não sei quantos indignados entrevistou, mas o fantasma da agitação nas ruas só serve hoje, objectivamente, para quatro coisas: instituir um clima de medo, manipular a opinião pública, iludir responsabilidades e preparar o perdão à incompetência governativa.
O método baseia-se na criação do fantasma da sublevação popular e mete "terroristas", serviços de informação, polícias e agentes infiltrados. Faz lembrar a célebre "revolta dos pregos" que Angelo Correia, o mentor e tutor político do primeiro ministro, inventou há anos. Haverá, pois, aqui hoje também, dedo de Angelo pela certa.
Para além de Angelo, a manobra tem também contado com o contributo de gente tão insuspeita como Mário Soares, vários membros da hierarquia da Igreja Católica e outras figurinhas, jornalistas, analistas, politólogos e outros "peritos" mais ou menos patéticos. Todos vêem sangue no horizonte. Junta-se-lhes o Ministro da Defesa que vem a jogo pronunciar-se sobre a "ilegitimidade" de manifestações legítimas, só porque estaríamos perante a "legitimidade" de um "programa" que, segundo ele, foi sufragado pelo voto. Para ajudar à festa até Carvalho da Silva, de quem não se esperaria tamanha ingenuidade, vem lançar alertas que devem ter soado como música aos ouvidos do governo. No dia da greve, demarcava-se correctamente, por um lado, dos ainda não totalmente explicados incidentes em S. Bento, afiançando, contudo, que eles constituíam sinais da insatisfação que por aí vai. Uma conversa, no mínimo, politicamente canhestra. Duvido que os provocadores colocados pela polícia no meio da manifestação de dia 24 estivessem a pensar na insatisfação do povo que lhes paga o salário.
Até Fernando Santos, o engenheiro do penta e especialista na difícil arte do biqueiro, logo que lhe colocaram um microfone à frente apressou-se a dizer, lá de longe e do alto da sua respeitável e reconhecida expertise em teoria política, que Portugal não tem a tradição "anarquista" da Grécia, mas os desacatos do dia da greve constituem sinais "preocupantes" de agitação.
É isto: primeiro, lança-se a ideia (de forma deliberada ou ingénua) de que há sinais preocupantes no ar. Depois, quando ocorre uma legítima, significativa e pacífica greve geral, unindo uma grande massa de espoliados do regime, a polícia intervém de forma totalmente despropositada, provocatória e, sobretudo, ilegítima, levando as pessoas a reagir, naturalmente, perante os atropelos grosseiros da lei, cometidos por aqueles que, num regime democrático, devem ser os primeiros a respeitá-la escrupulosamente. De seguida, meia dúzia de pessoas que não se sabe oficialmente quem foram, de onde vêm, o que representam e por quem foram instigados, exibem durante a manifestação que se seguiu à jornada grevista comportamentos marginais, que de forma alguma representam o espírito dos manifestantes, nem a mensagem que pretendem transmitir de protesto contra as medidas que o governo teima em levar a cabo. Finalmente, com a inestimável colaboração da imprensa, ficamos a saber que desta empolgante "primavera à portuguesa" estão recenseados, por um serviço qualquer de informações, uns, certamente, perigosíssimos 60-anarquistas-60. Aí está a revolta popular! Como é diferente o Tahir em Portugal.
Está criado um clima tendente a desmobilizar o protesto legítimo, pelo direito ao qual surgiu o 25 de Abril. De repente, num passe de mágica, a liberdade de opinião transforma-se em delito de opinião. O medo de existir, esse mal português que não despega nem à lei da bala, reinstala-se. A injustiça, a iniquidade, a corrupção e outros traços distintivos da nossa actuação colectiva ganharão tolerância de pronto! Tudo está perdoado, no fundo somos todos uns gajos porreiros.
Mais ainda: toda a leviandade, desonestidade, incompetência e arrogância exibidas pelo governo, todos os seus falhanços, inconsistências, equívocos, toda a sua "moral" de esgoto será perdoada e conquistará intenções de voto. Sacrifícios, quais sacrifícios?
Paulo Baldaia avisava ontem no DN a maioria de idosos deste país que ainda lê jornais: "Desenganem-se os que excluem a hipótese de termos violência na rua, porque isso está em exclusivo na mão dos indignados, entre os quais há muita gente que não tem nada a perder. Os mais radicais já começaram a alimentar essa ideia, vandalizando repartições públicas, colocando na Net um vídeo com alegada violência policial, procurando um efeito viral idêntico ao que se passou noutras partes do mundo. Nessa geração há muito quem não se importe de ter no currículo uma cena de pancadaria com a polícia. Há muito quem acredite que as coisas não mudam pacificamente." Não sei onde Baldaia recolhe a sua informação, não sei onde estava em 62 e em 69, não sei onde estava no 25 de Abril, não sei se alguma vez assistiu a alguma revolução ou a violência a sério, não sei quantos indignados entrevistou, mas o fantasma da agitação nas ruas só serve hoje, objectivamente, para quatro coisas: instituir um clima de medo, manipular a opinião pública, iludir responsabilidades e preparar o perdão à incompetência governativa.
2011/11/27
Fado, Património Cultural Imaterial
É oficial: o Fado foi hoje reconhecido Património Cultural Imaterial pela UNESCO.
O reconhecimento de um género musical que só os portugueses fazem bem - e por isso é parte da identidade nacional - é um justo prémio para a equipa que, durante anos, trabalhou nesta candidatura, não esquecendo os seus principais divulgadores (cantores, instrumentistas, letristas e editores), sem os quais a transmissão da tradição não seria possível. É esta tradição, com cerca de 200 anos, que hoje foi reconhecida na Indonésia. Não que o Fado necessitasse do reconhecimento da UNESCO para ser Património Cultural Imaterial. Já o era e continuará a sê-lo por muitos e bons anos. Mas, o reconhecimento dará mais visibilidade a uma arte, durante muito tempo considerada menor, que hoje tem milhões de adeptos em todo o Mundo. O trabalho de recolha, classificação e divulgação do Fado, iniciado há cinco anos atrás, continuará: agora com mais responsabilidade, mas também com mais certezas. É isto que se espera deste reconhecimento.
O reconhecimento de um género musical que só os portugueses fazem bem - e por isso é parte da identidade nacional - é um justo prémio para a equipa que, durante anos, trabalhou nesta candidatura, não esquecendo os seus principais divulgadores (cantores, instrumentistas, letristas e editores), sem os quais a transmissão da tradição não seria possível. É esta tradição, com cerca de 200 anos, que hoje foi reconhecida na Indonésia. Não que o Fado necessitasse do reconhecimento da UNESCO para ser Património Cultural Imaterial. Já o era e continuará a sê-lo por muitos e bons anos. Mas, o reconhecimento dará mais visibilidade a uma arte, durante muito tempo considerada menor, que hoje tem milhões de adeptos em todo o Mundo. O trabalho de recolha, classificação e divulgação do Fado, iniciado há cinco anos atrás, continuará: agora com mais responsabilidade, mas também com mais certezas. É isto que se espera deste reconhecimento.
O corte e cola orçamental
O Ministro das Finanças comporta-se como um seráfico coveiro da democracia. Para ele a democracia é um álibi da esquerda para bloquear o combate ao défice e o orçamento o teste de uma demonstração de perícia numérica perante o juízo certamente neutro e científico da troika. O objectivo, depois de posta a democracia na gaveta – esta não será apenas a mítica liberdade e outros tê-lo-ão feito com o socialismo – é certamente a harmonia decrescente dos números percentuais da dívida, mas fundamentalmente a sua performance como académico, a confirmação por A mais B de que cortar cegamente faz crescer, uma quadratura numérica do círculo para centro-europeu e polícia financeira global aplaudirem. A margem de erro, para a maravilhosa alquimia de números, sempre mínima, pensará feliz o perito coveiro, zero ponto um ou dois – o orçamento da cultura chegará aos zero vírgula três? E a sua expressão em percentagem do PIB ao zero quê? À soma de zeros enfiados, perfeição matemática, com um vago um no fim da fila?
Conclui-se deste tipo de mentalidade que o orçamento e as suas aritméticas sectoriais são, pela via de manipulações curandeiras, a solução para o nosso problema – mais valia ler nas entranhas das aves, as linhas da vida de uma mão sem emprego ou ir à macumba. Portanto vai de cortar até que as contas dêem certo, se ainda não dão é necessário cortar mais. Se ainda não se chegou lá baixemos mais as calças pois a nota da troika, o exame trimestral, sobe em direcção à possibilidade de exportarmos a solução para a crise por termos atingido a forma paradigmática de a resolver: corte após corte até ao corte perfeito, descoberta e inovação financeira de excelência que praticamos na pátria global dos mercados especulativos. Eis como a solução pode também fazer crescer: vender a arte de talhante financeiro aos parceiros europeus em aflição por contágio, já os do centro da Europa, pois chegou à Bélgica. Exportemos o corte como suprema técnica orçamental, vendamos inteligência quantitativa.
É de facto uma panaceia, esta dos números e o princípio da subtracção a operá-los. Se não acreditarem, dirá o coveiro, ide a outro bruxo da mesma escola. É como em tudo na vida, poupar, cortar, diminuir, amputar, extinguir, reduzir, só traz saúde e faz crescer, principalmente com tudo bem embrulhado numa retórica da racionalidade dos números envolta no vocabulário religioso da austeridade, a palavra sacrifício repetida à exaustão como quem lava as mãos da tragédia que cria – os números são geneticamente ciência e academicamente demonstrações da inevitabilidade da sua intocável abstracção quantitativa. Quando se atira uma percentagem à cara da vida, espetando a faca do corte numa parte do corpo da democracia com a tal neutralidade da visão académica, só se pode espalhar o bem. Primeiro o sacrifício, a morte, depois o maná.
O Ministro das Finanças olha para uma peça de teatro, para um livro, para um libreto de ópera, para uma partitura, para um corpo que fala num palco – aqui não olha porventura, nem lá irá, nunca foi visto - para uma orquestra regional, para uma companhia de teatro, para um documentário, para uma ficção cinematográfica, e vê percentagens, cortes por fazer. Se assim não fosse e justamente em nome da crise, não descobria cortes a fazer onde o investimento é quase nenhum e a expressão numérica no orçamento ridícula. Pegando por exemplo num Beckett, um autor europeu bilingue razoavelmente feito entre nós – não poderão apelidá-lo de propagandista de nada, nem do absurdo e o Paulo Eduardo de Carvalho queria editar as suas obras completas em português, projecto já avançado e europeizado quando faleceu - numa sua peça proposta para ser editada e o Ministro logo contará as páginas que tem a mais e o seu número insuportável de caracteres. Corta-se, dirá logo, este livro, este projecto é realizável aplicando-lhe o princípio do corte, e reparem, não é cego, é o que é, necessário para a perfeição da percentagem final dos números que lhe pertencem a favor da sua colaboração no esforço da dívida - sim, estas páginas são demais nesta conjuntura, cortem-se trinta e oito, assuma-se o imperativo numérico e orçamental. Sim, a troika é um papão bom, um tribunal do Santo Ofício cujo credo está no dogma da Santa Trindade Orçamental, corte-se em nome do pai da dívida, do filho da dívida e do santo espírito desta. E nós, os melhores alunos, quais irlandeses ou gregos, respeitamos e baixamos as calças.Estranho mundo o dos números e estranho mundo os das cabeças que olhando para um orçamento não vêem vida potencial, actividade cultural, criação artística, economia a fervilhar, país e pátria, língua portuguesa, unidade territorial, ordenamento, macrocefalia de novo crescente, interior abandonado, urbanismo acéfalo a necessitar de emenda, inexistência de autonomia alimentar à míngua da força inexistente e politicamente provocada das pescas e da agricultura, vendidas aos prémios e subsídios europeus, esses sim sectores subsidiodependentes. A cultura é a mais das transversais das actividades do real e é um alimento constante do quotidiano dos cidadãos, não tem medida de aferição científica mas tem consequências anímicas, e várias rendibilidades, determinantes da vida e da economia. Não se confunde com o consumo porque é uma actividade que transforma, não é ritual de confirmações e desenvolve o afecto da língua pelo conhecimento da sua diversidade, nada tem a ver com o que são os rituais associados a uma outra expressão da sua existência, a do mercado, a do que é cultura de massas – infelizmente ler Gil Vicente, António José da Silva, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Natália Correia, António Lobo Antunes, por exemplo, não são fenómenos massivos mesmo que sejam muitos os livros vendidos, o problema não é tanto esse, é mais o da leitura e dos modos de ler. Esse é o trabalho da criação e dos profissionais da cultura para além do trabalho dos criadores propriamente ditos. Nem o milhão de espectadores de teatro, números da década que já passou do Instituto Nacional de Estatística – factos numéricos e não cálculo imaginários - é a expressão de um fenómeno massivo, é, isso sim, a multiplicação da existência de inúmeros “teatros de câmara”, de pólos e focos de vida. Se a leitura tem a importância de ser um acto individual, o teatro tem a importância de ser um acto assembleiístico, cidadão, vida democrática emergindo, reemergindo, prática constante da democracia como o parlamento tenta ser, mas voluntariamente frequentado – seria interessante ver o share do canal parlamento. Não se lhe pode fazer o que se faz ao cavalo do inglês, diminuindo-lhe um tanto a ração diariamente para que se habitue, pois acaba por morrer. Esse assassinato lento está em marcha, aqui e agora, como se dizia antes de Abril.
Será assim, pela sua perfeição endógena e articulações internas que o orçamento cumprirá um papel na nossa vida e história, como academicamente professará para si o Ministro na intimidade das suas quantificações proféticas. Na realidade somos o cavalo do inglês, ou melhor somos o cavalo da alemã. Mas mesmo esta, a alemã, acaba de fazer um extraordinário reforço de investimento no sector cultural, um aumento de 5,1% no apoio às artes – artes, berrei – num total de 50 milhões de euros. Pois é, há duas Europas, mesmo três a caminho, sendo que toda ela está num coma de crescimento augurado dir-se-á.
Conclui-se deste tipo de mentalidade que o orçamento e as suas aritméticas sectoriais são, pela via de manipulações curandeiras, a solução para o nosso problema – mais valia ler nas entranhas das aves, as linhas da vida de uma mão sem emprego ou ir à macumba. Portanto vai de cortar até que as contas dêem certo, se ainda não dão é necessário cortar mais. Se ainda não se chegou lá baixemos mais as calças pois a nota da troika, o exame trimestral, sobe em direcção à possibilidade de exportarmos a solução para a crise por termos atingido a forma paradigmática de a resolver: corte após corte até ao corte perfeito, descoberta e inovação financeira de excelência que praticamos na pátria global dos mercados especulativos. Eis como a solução pode também fazer crescer: vender a arte de talhante financeiro aos parceiros europeus em aflição por contágio, já os do centro da Europa, pois chegou à Bélgica. Exportemos o corte como suprema técnica orçamental, vendamos inteligência quantitativa.
É de facto uma panaceia, esta dos números e o princípio da subtracção a operá-los. Se não acreditarem, dirá o coveiro, ide a outro bruxo da mesma escola. É como em tudo na vida, poupar, cortar, diminuir, amputar, extinguir, reduzir, só traz saúde e faz crescer, principalmente com tudo bem embrulhado numa retórica da racionalidade dos números envolta no vocabulário religioso da austeridade, a palavra sacrifício repetida à exaustão como quem lava as mãos da tragédia que cria – os números são geneticamente ciência e academicamente demonstrações da inevitabilidade da sua intocável abstracção quantitativa. Quando se atira uma percentagem à cara da vida, espetando a faca do corte numa parte do corpo da democracia com a tal neutralidade da visão académica, só se pode espalhar o bem. Primeiro o sacrifício, a morte, depois o maná.
O Ministro das Finanças olha para uma peça de teatro, para um livro, para um libreto de ópera, para uma partitura, para um corpo que fala num palco – aqui não olha porventura, nem lá irá, nunca foi visto - para uma orquestra regional, para uma companhia de teatro, para um documentário, para uma ficção cinematográfica, e vê percentagens, cortes por fazer. Se assim não fosse e justamente em nome da crise, não descobria cortes a fazer onde o investimento é quase nenhum e a expressão numérica no orçamento ridícula. Pegando por exemplo num Beckett, um autor europeu bilingue razoavelmente feito entre nós – não poderão apelidá-lo de propagandista de nada, nem do absurdo e o Paulo Eduardo de Carvalho queria editar as suas obras completas em português, projecto já avançado e europeizado quando faleceu - numa sua peça proposta para ser editada e o Ministro logo contará as páginas que tem a mais e o seu número insuportável de caracteres. Corta-se, dirá logo, este livro, este projecto é realizável aplicando-lhe o princípio do corte, e reparem, não é cego, é o que é, necessário para a perfeição da percentagem final dos números que lhe pertencem a favor da sua colaboração no esforço da dívida - sim, estas páginas são demais nesta conjuntura, cortem-se trinta e oito, assuma-se o imperativo numérico e orçamental. Sim, a troika é um papão bom, um tribunal do Santo Ofício cujo credo está no dogma da Santa Trindade Orçamental, corte-se em nome do pai da dívida, do filho da dívida e do santo espírito desta. E nós, os melhores alunos, quais irlandeses ou gregos, respeitamos e baixamos as calças.Estranho mundo o dos números e estranho mundo os das cabeças que olhando para um orçamento não vêem vida potencial, actividade cultural, criação artística, economia a fervilhar, país e pátria, língua portuguesa, unidade territorial, ordenamento, macrocefalia de novo crescente, interior abandonado, urbanismo acéfalo a necessitar de emenda, inexistência de autonomia alimentar à míngua da força inexistente e politicamente provocada das pescas e da agricultura, vendidas aos prémios e subsídios europeus, esses sim sectores subsidiodependentes. A cultura é a mais das transversais das actividades do real e é um alimento constante do quotidiano dos cidadãos, não tem medida de aferição científica mas tem consequências anímicas, e várias rendibilidades, determinantes da vida e da economia. Não se confunde com o consumo porque é uma actividade que transforma, não é ritual de confirmações e desenvolve o afecto da língua pelo conhecimento da sua diversidade, nada tem a ver com o que são os rituais associados a uma outra expressão da sua existência, a do mercado, a do que é cultura de massas – infelizmente ler Gil Vicente, António José da Silva, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Natália Correia, António Lobo Antunes, por exemplo, não são fenómenos massivos mesmo que sejam muitos os livros vendidos, o problema não é tanto esse, é mais o da leitura e dos modos de ler. Esse é o trabalho da criação e dos profissionais da cultura para além do trabalho dos criadores propriamente ditos. Nem o milhão de espectadores de teatro, números da década que já passou do Instituto Nacional de Estatística – factos numéricos e não cálculo imaginários - é a expressão de um fenómeno massivo, é, isso sim, a multiplicação da existência de inúmeros “teatros de câmara”, de pólos e focos de vida. Se a leitura tem a importância de ser um acto individual, o teatro tem a importância de ser um acto assembleiístico, cidadão, vida democrática emergindo, reemergindo, prática constante da democracia como o parlamento tenta ser, mas voluntariamente frequentado – seria interessante ver o share do canal parlamento. Não se lhe pode fazer o que se faz ao cavalo do inglês, diminuindo-lhe um tanto a ração diariamente para que se habitue, pois acaba por morrer. Esse assassinato lento está em marcha, aqui e agora, como se dizia antes de Abril.
Será assim, pela sua perfeição endógena e articulações internas que o orçamento cumprirá um papel na nossa vida e história, como academicamente professará para si o Ministro na intimidade das suas quantificações proféticas. Na realidade somos o cavalo do inglês, ou melhor somos o cavalo da alemã. Mas mesmo esta, a alemã, acaba de fazer um extraordinário reforço de investimento no sector cultural, um aumento de 5,1% no apoio às artes – artes, berrei – num total de 50 milhões de euros. Pois é, há duas Europas, mesmo três a caminho, sendo que toda ela está num coma de crescimento augurado dir-se-á.
Etiquetas
António José da Silva,
António Lobo Antunes,
Fernando Pessoa,
Gil Vicente,
Jorge de Sena,
LM,
Natália Correia,
Orçamento,
Vitor Gaspar
2011/11/26
Turbulência financeira
Segundo o venerando pai da democracia e principal subscritor do recente "manifesto dos 9", que anda por aí a circular, os governos estão a ser dominados pelos mercados.
A sério? E nós que ainda não tinhamos dado por isso...
A sério? E nós que ainda não tinhamos dado por isso...
2011/11/21
Corrupção: a dimensão do problema
O programa da TVI24 Olhos nos Olhos abordou o tema da corrupção no nosso País. O programa contou com a presença de Paulo Morais da associação Transparência e Integridade. Ficámos a saber que em Portugal, apesar dos 37 anos de regime democrático, da separação de poderes e da proliferação de organismos fiscalizadores de toda a ordem, a corrupção aumentou. Ficámos a saber de leis que geram favorecimentos nas grandes negociatas com o Estado, como se fazem e quem as faz. "As leis são deliberadamente confusas (...), feitas por escritórios de advogados a que pertencem os deputados que depois as votam," afirmou Paulo Morais. "A crise está ligada à corrupção, não tenho dúvida," afirmou ainda. "A constituição do BPN é matéria que devia ser investigada de alto a baixo," acrescentou.
A gente ouve tudo aquilo, pasma e interroga-se. Como é possível termos chegado a este ponto? Como é possível que isto se tenha tornado num fenómeno quase banal? Como é possível que, tendo em conta os mecanismos de que, apesar de tudo, dispomos para combater esta chaga, não exista em Portugal um único condenado por corrupção? Como é possível que estas denúncias, feitas assim publicamente, de forma directa e clara, não suscitem reacções oficiais imediatas dos órgãos com responsabilidade directa nesta matéria?!
Como é possível que tenhamos pobres, "novos pobres", Banco Alimentar, Misericórdias, Igreja, etc, etc, a distribuir os restos dos ricos (enriquecidos à custa de toda esta situação nojenta) e estes à solta, enquanto chafurdam na gamela da corrupção, rindo-se certamente de tudo isto, e, quem sabe até, contribuindo, para assim disfarçar ou calar as suas más consciências...? Como é possível ouvir certas figurinhas do Estado dizer que aí vêm tempos piores e "futuros pobres" sem lhes ouvir antes falar de uma iniciativa sequer para acabar com este escândalo, uma das causas principais da crise? Como?!!
A gente ouve tudo aquilo, pasma e interroga-se. Como é possível termos chegado a este ponto? Como é possível que isto se tenha tornado num fenómeno quase banal? Como é possível que, tendo em conta os mecanismos de que, apesar de tudo, dispomos para combater esta chaga, não exista em Portugal um único condenado por corrupção? Como é possível que estas denúncias, feitas assim publicamente, de forma directa e clara, não suscitem reacções oficiais imediatas dos órgãos com responsabilidade directa nesta matéria?!
Como é possível que tenhamos pobres, "novos pobres", Banco Alimentar, Misericórdias, Igreja, etc, etc, a distribuir os restos dos ricos (enriquecidos à custa de toda esta situação nojenta) e estes à solta, enquanto chafurdam na gamela da corrupção, rindo-se certamente de tudo isto, e, quem sabe até, contribuindo, para assim disfarçar ou calar as suas más consciências...? Como é possível ouvir certas figurinhas do Estado dizer que aí vêm tempos piores e "futuros pobres" sem lhes ouvir antes falar de uma iniciativa sequer para acabar com este escândalo, uma das causas principais da crise? Como?!!
2011/11/19
AL QUI MIA DE SI LA BAS
Como numa alquimia
As sílabas efervescendo do contacto que costuram
Que faz delas súbitas asas em corpo de palavras
Na pele e entre a página e a respiração
Assim é nas mãos pousar silêncios
Colhê-los com olhos abertos
Desenhar as frases longitudinalmente
Endireitá-las com uma faca de precisão em incisões invisíveis mágicas
Que não as firam às letras e não lhes amputem nem pernas nem acentos e cedilhas
Nem lhes ponham reticências que nas cabeças estão
Suspendê-las
No limite da página na vertigem
Ao encontro da sua própria respiração e latitude
Qualquer arremedo de ficção
Nasce do desencontro entre os ritmos cardíaco o silêncio e as teclas
Desencontro na impossibilidade da tensão harmónica
Que a tensão harmónica faz sono
E para que seria esta
Passa agora um peixe amarelo
Mas podia ser o insecto cor de violino do chileno célebre
Os dedos estão repletos do rasto de letras encavalitando-se à procura do seu sítio
Uma vogal na sombra de uma consoante
E a palavra desejo
A abrir para uns lábios
Ou para o sorriso de que fala Bolano em entrevista recente
Essas coisas ficam
Os sorrisos
E deles resta o que os nomeia
E uma certa percepção nervosa a aflorar à face das mãos
Esta coisa de sermos animais tácteis é mesmo mais que sermos racionais
Somos racionais até ao ponto de efervescência das letras na flor da pele
E de uma imagem que amarelece na memória e é diabo no inconsciente
Vagueando nele como o outro pela estrada fora
O inconsciente é sabido: tem as suas avenidas
Este diabo já avistado
Está como as fotos de Marte cada vez mais precisas e preciosas
Ou como outrora a Ásia para Colombo e a Guiné para o Cão
Tudo uma questão de medo
Medo do que se não vê nem conhece
Foi avistado mas dá-nos a volta ao miolo e o psiquiatra pescador
Não lá vai nem com a ciência nem com a conversa
É
Espécie de cauda de cascavel a circular nos sonhos fragmentários que vais sonhando com cada vez maior falta de nitidez e que de repente explodem de nitidez antes que disso tenhamos consciência e não estou a simplificar pois não é exactamente apenas um força mas também um destino que se procura
Que miopia afectará a luminosidade do cinema dos sonhos?
A página um laboratório mesmo
Nesta era digital
Mas ao surgir do papel imaginando-o
Todo o ritual regressa como era
E eis a alquimia da coisa
As sílabas efervescendo do contacto que costuram
Que faz delas súbitas asas em corpo de palavras
Na pele e entre a página e a respiração
Assim é nas mãos pousar silêncios
Colhê-los com olhos abertos
Desenhar as frases longitudinalmente
Endireitá-las com uma faca de precisão em incisões invisíveis mágicas
Que não as firam às letras e não lhes amputem nem pernas nem acentos e cedilhas
Nem lhes ponham reticências que nas cabeças estão
Suspendê-las
No limite da página na vertigem
Ao encontro da sua própria respiração e latitude
Qualquer arremedo de ficção
Nasce do desencontro entre os ritmos cardíaco o silêncio e as teclas
Desencontro na impossibilidade da tensão harmónica
Que a tensão harmónica faz sono
E para que seria esta
Passa agora um peixe amarelo
Mas podia ser o insecto cor de violino do chileno célebre
Os dedos estão repletos do rasto de letras encavalitando-se à procura do seu sítio
Uma vogal na sombra de uma consoante
E a palavra desejo
A abrir para uns lábios
Ou para o sorriso de que fala Bolano em entrevista recente
Essas coisas ficam
Os sorrisos
E deles resta o que os nomeia
E uma certa percepção nervosa a aflorar à face das mãos
Esta coisa de sermos animais tácteis é mesmo mais que sermos racionais
Somos racionais até ao ponto de efervescência das letras na flor da pele
E de uma imagem que amarelece na memória e é diabo no inconsciente
Vagueando nele como o outro pela estrada fora
O inconsciente é sabido: tem as suas avenidas
Este diabo já avistado
Está como as fotos de Marte cada vez mais precisas e preciosas
Ou como outrora a Ásia para Colombo e a Guiné para o Cão
Tudo uma questão de medo
Medo do que se não vê nem conhece
Foi avistado mas dá-nos a volta ao miolo e o psiquiatra pescador
Não lá vai nem com a ciência nem com a conversa
É
Espécie de cauda de cascavel a circular nos sonhos fragmentários que vais sonhando com cada vez maior falta de nitidez e que de repente explodem de nitidez antes que disso tenhamos consciência e não estou a simplificar pois não é exactamente apenas um força mas também um destino que se procura
Que miopia afectará a luminosidade do cinema dos sonhos?
A página um laboratório mesmo
Nesta era digital
Mas ao surgir do papel imaginando-o
Todo o ritual regressa como era
E eis a alquimia da coisa
2011/11/17
A política dos três pilares em versão tuga
O ministro Gaspar, também conhecido por ministro das finanças, congratulou-se ontem, ufano, com a avaliação da troika sobre o cumprimento dos "três pilares do programa de ajustamento, designadamente, a evolução das finanças públicas, a estabilização do sistema financeiro e a concretização da agenda de transformação estrutural." Há uma metáfora sinistra nisto tudo.
Temos três pilares para uma ponte sem tabuleiro. Uma ponte que deliberadamente não une porque já caiu antes de abrir ao tráfego.
Os dois primeiros "pilares" resultam de problemas de contabilidade criativa, que deveriam levar à cadeia quem os provocou e lavrou os resultados em livro de caixa. O terceiro "pilar" é, recordemo-lo, eufemismo para a venda em saldo das participações do Estado em diversas empresas. A satisfação do ministro e os recados da troika deveriam indignar os portugueses.
No fim de tudo isto, e quando o ministro Gaspar der por concluida a sua missão de mero gestor da massa falida e a troika se for embora, deixando um derradeiro elogio sobre o cumprimento do "programa de ajustamento", ficaremos todos exactamente como estávamos antes, sem que se tenham operado quaisquer modificações de fundo que permitam encarar o futuro com outro optimismo. Pagámos para deixar o ministro Gaspar e a troika que o pariu todos contentes.
Tudo isto a troco de um sacrifício sem precedentes do grosso do povo Português. Financiámos os pilares, mas fica-nos a faltar o tabuleiro da ponte para que a possamos atravessar.
Quase que aposto que quando levarmos a sério o projecto de passar mesmo a ponte, o ministro Gaspar não vai ficar na nossa margem...
Temos três pilares para uma ponte sem tabuleiro. Uma ponte que deliberadamente não une porque já caiu antes de abrir ao tráfego.
Os dois primeiros "pilares" resultam de problemas de contabilidade criativa, que deveriam levar à cadeia quem os provocou e lavrou os resultados em livro de caixa. O terceiro "pilar" é, recordemo-lo, eufemismo para a venda em saldo das participações do Estado em diversas empresas. A satisfação do ministro e os recados da troika deveriam indignar os portugueses.
No fim de tudo isto, e quando o ministro Gaspar der por concluida a sua missão de mero gestor da massa falida e a troika se for embora, deixando um derradeiro elogio sobre o cumprimento do "programa de ajustamento", ficaremos todos exactamente como estávamos antes, sem que se tenham operado quaisquer modificações de fundo que permitam encarar o futuro com outro optimismo. Pagámos para deixar o ministro Gaspar e a troika que o pariu todos contentes.
Tudo isto a troco de um sacrifício sem precedentes do grosso do povo Português. Financiámos os pilares, mas fica-nos a faltar o tabuleiro da ponte para que a possamos atravessar.
Quase que aposto que quando levarmos a sério o projecto de passar mesmo a ponte, o ministro Gaspar não vai ficar na nossa margem...
2011/11/15
Sevilha é uma festa!
Está-se bem em Sevilha.
Não fora o extravio da bagagem, algures em Barajas, esta tinha sido a visita perfeita. Para tal muito contribuiu a disponibilidade da minha anfitriã sevilhana, Rosario Solano, uma "cantaora" de fados que, de há anos a esta parte, vem divulgando a arte fadista no país vizinho. Foi dela o primeiro concerto, subordinado ao título "Fados à Minha Maneira", apresentado num Centro Cultural da cidade, onde contou com o acompanhamento de dois músicos locais: Manolo Imán e Yorgos Karalis.
O dia seguinte seria preenchido com uma visita a Carmona, verdadeira "ex-libris" andaluz, onde as influências islâmicas, judaicas e cristãs, se cruzam ao longo das ruas e casas de um branco alvíssimo. Foi aqui que Francesco Rosi filmou, em 1984, alguns dos exteriores da "Carmen", com Plácido Domingo, naquela que é provavelmente a melhor adaptação cinematográfica da ópera de Bizet. O "parador" da cidade, construído em estilo árabe sobre as ruinas de uma antiga fortificação e vista para a planície imensa, é de cortar a respiração.
A segunda actuação desta curta, mas preenchida visita, seria dedicada ao Flamenco mais tradicional (cante jondo) num dos "tablaos" do bairro de Santa Cruz. Aqui actua regularmente La Choni (irmã de Rosario) uma das "bailaoras" mais promissoras da nova dança flamenca. Um programa rigoroso onde, ao longo de uma hora, passaram em revista os "palos" mais clássicos: "soleás", "seguiryas" e "bulerias", cantadas, dançadas e tocadas por três intérpretes de excepção.
Voltaríamos a ver Choni e Cia Flamenca, na noite seguinte, agora no Teatro Municipal de Palacios, um "pueblo" a 20 quilómetros de Sevilha, onde apresentou o seu mais recente espectáculo "La Gloria de mi Mare". Trata-se de uma peça multidisciplinar plena de humor e dramatismo, onde os quatro actores em cena, para além de teatro, cantam, tocam e dançam. "La Gloria..." ganhou recentemente o Prémio Escenarios de Sevilla 2011 para o melhor espectáculo de Teatro. Duas horas de prazer, onde a qualidade de todos os intérpretes é notável.
A noite não podia acabar sem uma visita a uma das "peñas" mais antigas de Andaluzia, descrita e filmada em diversas obras de referência flamenca. Por ela passaram nomes como D. António Chacon (primeira metade do século passado) e António Mairena, "cantaor" e teórico do Flamenco, cuja foto domina a sala central do edifício.
A visita à capital andaluza não terminaria sem um concerto seminal, na moderna sala do Teatro Central de Sevilha, construído na Cartuja para a Expo de 1992. Nela actuaram, na noite do último sábado, Dave Holland (contrabaixo) e Pepe Habichuela (guitarra flamenca), apoiados por três membros da família Carmona, entre os quais se destaca o guitarrista Josemi Carmona, filho de Pepe. O quinteto interpretou temas do albúm "Hands" e da obra mais conhecida de Habichuela, "Yerbaguena" de 2001. Flamenco-Jazz ao mais alto nível, numa hora e meia do mais puro gozo musical.
Era já noite alta, quando comemos as últimas "tapas" no bairro de Triana. Como dizia a canção, Sevilha tem mais encanto na hora da despedida. Que viva Sevilha!
(foto EuropaPress/Teatro Central)
Não fora o extravio da bagagem, algures em Barajas, esta tinha sido a visita perfeita. Para tal muito contribuiu a disponibilidade da minha anfitriã sevilhana, Rosario Solano, uma "cantaora" de fados que, de há anos a esta parte, vem divulgando a arte fadista no país vizinho. Foi dela o primeiro concerto, subordinado ao título "Fados à Minha Maneira", apresentado num Centro Cultural da cidade, onde contou com o acompanhamento de dois músicos locais: Manolo Imán e Yorgos Karalis.
O dia seguinte seria preenchido com uma visita a Carmona, verdadeira "ex-libris" andaluz, onde as influências islâmicas, judaicas e cristãs, se cruzam ao longo das ruas e casas de um branco alvíssimo. Foi aqui que Francesco Rosi filmou, em 1984, alguns dos exteriores da "Carmen", com Plácido Domingo, naquela que é provavelmente a melhor adaptação cinematográfica da ópera de Bizet. O "parador" da cidade, construído em estilo árabe sobre as ruinas de uma antiga fortificação e vista para a planície imensa, é de cortar a respiração.
A segunda actuação desta curta, mas preenchida visita, seria dedicada ao Flamenco mais tradicional (cante jondo) num dos "tablaos" do bairro de Santa Cruz. Aqui actua regularmente La Choni (irmã de Rosario) uma das "bailaoras" mais promissoras da nova dança flamenca. Um programa rigoroso onde, ao longo de uma hora, passaram em revista os "palos" mais clássicos: "soleás", "seguiryas" e "bulerias", cantadas, dançadas e tocadas por três intérpretes de excepção.
Voltaríamos a ver Choni e Cia Flamenca, na noite seguinte, agora no Teatro Municipal de Palacios, um "pueblo" a 20 quilómetros de Sevilha, onde apresentou o seu mais recente espectáculo "La Gloria de mi Mare". Trata-se de uma peça multidisciplinar plena de humor e dramatismo, onde os quatro actores em cena, para além de teatro, cantam, tocam e dançam. "La Gloria..." ganhou recentemente o Prémio Escenarios de Sevilla 2011 para o melhor espectáculo de Teatro. Duas horas de prazer, onde a qualidade de todos os intérpretes é notável.
A noite não podia acabar sem uma visita a uma das "peñas" mais antigas de Andaluzia, descrita e filmada em diversas obras de referência flamenca. Por ela passaram nomes como D. António Chacon (primeira metade do século passado) e António Mairena, "cantaor" e teórico do Flamenco, cuja foto domina a sala central do edifício.
A visita à capital andaluza não terminaria sem um concerto seminal, na moderna sala do Teatro Central de Sevilha, construído na Cartuja para a Expo de 1992. Nela actuaram, na noite do último sábado, Dave Holland (contrabaixo) e Pepe Habichuela (guitarra flamenca), apoiados por três membros da família Carmona, entre os quais se destaca o guitarrista Josemi Carmona, filho de Pepe. O quinteto interpretou temas do albúm "Hands" e da obra mais conhecida de Habichuela, "Yerbaguena" de 2001. Flamenco-Jazz ao mais alto nível, numa hora e meia do mais puro gozo musical.
Era já noite alta, quando comemos as últimas "tapas" no bairro de Triana. Como dizia a canção, Sevilha tem mais encanto na hora da despedida. Que viva Sevilha!
(foto EuropaPress/Teatro Central)
2011/11/14
Sobre a evidência
Nada serve carregar a evidência do que a berra
Poderia ser um dito de Keuner
Esse Brecht desavindo com o outro
Empregado na História e por assim dizer tão oficial
Que acampou para a eternidade próximo da campa de Hegel
Se não me engano
Dela se servindo para nela inocular os valores do espectacular
Os videirinhos do drama e da média
Lambem o chantilly do seu salário
Somando sangue ao que é por si encalhado e vistoso
Para satisfazer os níveis de adrenalina sadomasoquista
Que o hiper-consumo de massas naturaliza e o patrão exige
Ao por si da evidência acrescentaram as pirotecnias softwerianas dos meios sofisticados
Da tecnologia ideológica na nossa vida pós moderna
As mediações que multiplicam
Gritante
A evidência na sua proliferação
Como também numa outra natureza diversa do que é
Enervando o que a excede das cores que retintas transbordam
De cromatismo falando e não de rios
A operação necessária é a inversa
A de lhe subtrair
O que nela é mais que ela
E a obscurece de hiper-evidente
As velhas contas do drama
Oitocentista
Fabricavam-se no proscénio
E nessa proximidade
A ruga da actriz
Punha mais drama que a própria intriga tecia
A costura na liga entusiasmava
De como que dizer
Permitir à costureira e ao empregado de escritório
—mesmo ao provinciano actor amador —
Entrar num Olimpo de pacotilha
Que viam como luxo sem limite de estrelas
O tropeçar na sílaba o sotaque arranhado
Tudo coisas que ao rés-do-chão de uma respiração comum
São mais do que a penúria e o desleixo:
Eis porque na tragédia se morria em bastidor
Prevalecendo a notícia à foto do caso
A voz que rugia mais que o esfacelado corpo martirizado
E quando este vinha era já sepulto e longe do acto
Estas estratégias
De deferimento do momento bárbaro
Na Tragédia
Só à inteligência devem o seu modo
E o caso é que quem as compunha
Das guerras tinha a experiência
E por certo da morte em directo
Dela correndo em pensamento quando com ela se deparassem na criação
Do mesmo modo Tucídides fala do Porto de Siracusa:
Um mar pejado de cadáveres
De tal modo
Que estes faziam um chão que o encobria
A luz que tudo torna visível
Não é a que abre os olhos abertos
A luz que torna visível
É a que se alia ao que a sombra pode de contornar
E é a que sabe que os negros de escuro são necessários a qualquer estratégia de clareza
Pausas são respirações e estas são cerebrais
E sendo neuronais são evidentemente cardíacas
E por isso misturando aquela harmonia de uma pitada de empatia
Com uma pitada de crítica d’olho analítico
E uns grafismos de raciocínio em sequência que pertencem à gramática do lance em jogo já que a cada objecto ou situação pertence a sua especificidade estética
Uma natureza morta mimética nada tem a ver com o infinito das janelas em sucessivas camadas de abstracção cosmopolita
Nenhuma evidência é mais trágica do que a do coelho que cede aos faróis que o ofuscam
Deixando a vida num ápice em pleno excesso de luz
Conclui-se não lhe vê a origem
Pois no caso o que luz seria móvel
Massa metálica ameaçando
Máquina de morte sobre quatro rodas
Nem a si se vê o láparo como alvo
Os olhos nos faróis em adeus final
Nem o fora vê nem o dentro acorda o instinto
Olhos na luz hipnotizado
O excesso pára e não esclarece
É este o modo trágico da evidência que é simulacro da clareza
Porque luz
Mas da clareza nada fica
E na retina se instala o que oposto do negro fero
É já menos que este
Pois este não come do mesmo modo o que escuta
A luz que cega é a mesma que ensurdece
E o ouvido na noite cerrada alcança o que no ultra-som alcança a baleia em outro oceano
Ao coelho nem as orelhas salvam dos faróis nem o famoso faro
Nem o futuro em cenoura
Essa candura de banda desenhada dos coelhos
Não pertence ao real
É um modo de tirar ao real
O que ele é
Pintando-o com as cores convenientes da moleza supostamente protectora de uma civilização de peluche
Nada mais útil e didáctico que as arestas
Nem a evidência é por si legível
Pois o por si evaporou-se
Desde logo após os primeiros talheres de sílex
E após a queda da evidência no seu relato
Se as formas de premeio não a refizessem
Ela manteria as qualidades que Vaz de Caminha naquela índia
Descobriu
Na beleza das partes vergonhosas
Expostas quando a lei ministrada de Deus as encobria
E das quais ou de quem não tirou os olhos
Até ao consumar da prosa
O que é evidente desividencia-se com a força do preconceito no corpo desnudo mais a marca do crime aberta luz na foto celebrizada pelo concurso
E seu punctum
Ferida aberta ao culto ritual da nossa impotência sensível
Pode o corpo encenar-se e dar-se a ver aos cordeiros
E abutres
Que do lado de lá do ecrã
Apascentam as suas neuroses
No sossego perturbado do fim da intimidade
Cercados de máquinas e imagens
Nós mesmos no exterior de qualquer hipótese de interior
Paisagens que são um oceano único galgando as margens de todas as singularidades
E empurrando-as para cotas historicamente inimagináveis de egocêntrico anonimato e ausência ruminada num dentro entre o calcinado e o mole
Jogando-nos peixes fora de água no seu caudal de coliformes fecais reluzente nas sucessivas horas de ponta
O corpo abandonado
Quem o ressuscita se apenas a Jesus calhou e não à estudante de treze anos
A quem nenhum terceiro dia acenou
Menos ainda a striper de dezanove
Exposta a sua singularidade num varão para ex Cinderelas
Sejam corpos ou o acidente nuclear
Por exemplo Fukushima ou as quatrocentas e trinta mulheres assassinadas em Ciudad Juarez
Sublinhá-lo de forma aristotélica
Nada clarifica
Que é do comércio da evidência sem o excesso que a torna escândalo
Dirão os mercados
E que é dele sem choque ou sangue ou excesso de luz e crueldades
Porque nada poupam à evidência
Os que dela se servem
Manobrando-a numa transparência suposta que cega
Eis a questão
Poderia ser um dito de Keuner
Esse Brecht desavindo com o outro
Empregado na História e por assim dizer tão oficial
Que acampou para a eternidade próximo da campa de Hegel
Se não me engano
Dela se servindo para nela inocular os valores do espectacular
Os videirinhos do drama e da média
Lambem o chantilly do seu salário
Somando sangue ao que é por si encalhado e vistoso
Para satisfazer os níveis de adrenalina sadomasoquista
Que o hiper-consumo de massas naturaliza e o patrão exige
Ao por si da evidência acrescentaram as pirotecnias softwerianas dos meios sofisticados
Da tecnologia ideológica na nossa vida pós moderna
As mediações que multiplicam
Gritante
A evidência na sua proliferação
Como também numa outra natureza diversa do que é
Enervando o que a excede das cores que retintas transbordam
De cromatismo falando e não de rios
A operação necessária é a inversa
A de lhe subtrair
O que nela é mais que ela
E a obscurece de hiper-evidente
As velhas contas do drama
Oitocentista
Fabricavam-se no proscénio
E nessa proximidade
A ruga da actriz
Punha mais drama que a própria intriga tecia
A costura na liga entusiasmava
De como que dizer
Permitir à costureira e ao empregado de escritório
—mesmo ao provinciano actor amador —
Entrar num Olimpo de pacotilha
Que viam como luxo sem limite de estrelas
O tropeçar na sílaba o sotaque arranhado
Tudo coisas que ao rés-do-chão de uma respiração comum
São mais do que a penúria e o desleixo:
Eis porque na tragédia se morria em bastidor
Prevalecendo a notícia à foto do caso
A voz que rugia mais que o esfacelado corpo martirizado
E quando este vinha era já sepulto e longe do acto
Estas estratégias
De deferimento do momento bárbaro
Na Tragédia
Só à inteligência devem o seu modo
E o caso é que quem as compunha
Das guerras tinha a experiência
E por certo da morte em directo
Dela correndo em pensamento quando com ela se deparassem na criação
Do mesmo modo Tucídides fala do Porto de Siracusa:
Um mar pejado de cadáveres
De tal modo
Que estes faziam um chão que o encobria
A luz que tudo torna visível
Não é a que abre os olhos abertos
A luz que torna visível
É a que se alia ao que a sombra pode de contornar
E é a que sabe que os negros de escuro são necessários a qualquer estratégia de clareza
Pausas são respirações e estas são cerebrais
E sendo neuronais são evidentemente cardíacas
E por isso misturando aquela harmonia de uma pitada de empatia
Com uma pitada de crítica d’olho analítico
E uns grafismos de raciocínio em sequência que pertencem à gramática do lance em jogo já que a cada objecto ou situação pertence a sua especificidade estética
Uma natureza morta mimética nada tem a ver com o infinito das janelas em sucessivas camadas de abstracção cosmopolita
Nenhuma evidência é mais trágica do que a do coelho que cede aos faróis que o ofuscam
Deixando a vida num ápice em pleno excesso de luz
Conclui-se não lhe vê a origem
Pois no caso o que luz seria móvel
Massa metálica ameaçando
Máquina de morte sobre quatro rodas
Nem a si se vê o láparo como alvo
Os olhos nos faróis em adeus final
Nem o fora vê nem o dentro acorda o instinto
Olhos na luz hipnotizado
O excesso pára e não esclarece
É este o modo trágico da evidência que é simulacro da clareza
Porque luz
Mas da clareza nada fica
E na retina se instala o que oposto do negro fero
É já menos que este
Pois este não come do mesmo modo o que escuta
A luz que cega é a mesma que ensurdece
E o ouvido na noite cerrada alcança o que no ultra-som alcança a baleia em outro oceano
Ao coelho nem as orelhas salvam dos faróis nem o famoso faro
Nem o futuro em cenoura
Essa candura de banda desenhada dos coelhos
Não pertence ao real
É um modo de tirar ao real
O que ele é
Pintando-o com as cores convenientes da moleza supostamente protectora de uma civilização de peluche
Nada mais útil e didáctico que as arestas
Nem a evidência é por si legível
Pois o por si evaporou-se
Desde logo após os primeiros talheres de sílex
E após a queda da evidência no seu relato
Se as formas de premeio não a refizessem
Ela manteria as qualidades que Vaz de Caminha naquela índia
Descobriu
Na beleza das partes vergonhosas
Expostas quando a lei ministrada de Deus as encobria
E das quais ou de quem não tirou os olhos
Até ao consumar da prosa
O que é evidente desividencia-se com a força do preconceito no corpo desnudo mais a marca do crime aberta luz na foto celebrizada pelo concurso
E seu punctum
Ferida aberta ao culto ritual da nossa impotência sensível
Pode o corpo encenar-se e dar-se a ver aos cordeiros
E abutres
Que do lado de lá do ecrã
Apascentam as suas neuroses
No sossego perturbado do fim da intimidade
Cercados de máquinas e imagens
Nós mesmos no exterior de qualquer hipótese de interior
Paisagens que são um oceano único galgando as margens de todas as singularidades
E empurrando-as para cotas historicamente inimagináveis de egocêntrico anonimato e ausência ruminada num dentro entre o calcinado e o mole
Jogando-nos peixes fora de água no seu caudal de coliformes fecais reluzente nas sucessivas horas de ponta
O corpo abandonado
Quem o ressuscita se apenas a Jesus calhou e não à estudante de treze anos
A quem nenhum terceiro dia acenou
Menos ainda a striper de dezanove
Exposta a sua singularidade num varão para ex Cinderelas
Sejam corpos ou o acidente nuclear
Por exemplo Fukushima ou as quatrocentas e trinta mulheres assassinadas em Ciudad Juarez
Sublinhá-lo de forma aristotélica
Nada clarifica
Que é do comércio da evidência sem o excesso que a torna escândalo
Dirão os mercados
E que é dele sem choque ou sangue ou excesso de luz e crueldades
Porque nada poupam à evidência
Os que dela se servem
Manobrando-a numa transparência suposta que cega
Eis a questão
2011/11/11
A síndrome de Gasparger
Ficámos hoje a saber, pela boca do senhor ministro das finanças, que se a política do governo Passos Coelho falhar e se o programa de assistência financeira aprovado pela coligação PS-PSD-CDS e implementado por este governo, der com os burrinhos na água, a culpa não é destas forças políticas e do dito Passos Coelho ou do seu ministro, o Lobito Gaspar. A culpa é... do PCP e do BE pois então! A culpa não será da maioria absoluta do Parlamento, nem do governo por ela apoiado. A culpa não será de quem tem responsabilidade de executar este programa. A culpa será da minoria absoluta que se lhe opõe.
Quem tem culpa não é quem assina o cheque careca, mas quem o recebe devolvido.
Ficámos também a saber outra coisa extraordinária. É que, segundo Gaspar, se esta política falhar e a maioria dos portugueses vier a demonstrar que não se revê nela, a culpa dessa rejeição é de forças minoritárias que conseguiriam assim um feito absolutamente notável para o governo e a maioria que o sustenta: sendo minoritárias conseguiriam porém dominar a maioria! Forças que nem sequer constituem a totalidade da minoria, mas são uma minoria dessa minoria.
Estranha democracia esta (a merecer atenção do senhor PR) em que um governo, sustentado por uma maioria legítima, antevê já deixar-se dominar por uma minoria da minoria que se lhe opõe...
Não senhor ministro Gaspar! Se a política de assistência financeira fracassar a culpa não é de nenhuma minoria de esquerda do parlamento. Não, é totalmente sua! É o senhor que tem de a colocar em execução e terá a cabeça a prémio se falhar. É o senhor e o Caminheiro Coelho que têm a responsabilidade total perante um eventual falhanço.
Como, de resto, terão em caso de "triunfo". Disso não tenha a menor dúvida.
Quem tem culpa não é quem assina o cheque careca, mas quem o recebe devolvido.
Ficámos também a saber outra coisa extraordinária. É que, segundo Gaspar, se esta política falhar e a maioria dos portugueses vier a demonstrar que não se revê nela, a culpa dessa rejeição é de forças minoritárias que conseguiriam assim um feito absolutamente notável para o governo e a maioria que o sustenta: sendo minoritárias conseguiriam porém dominar a maioria! Forças que nem sequer constituem a totalidade da minoria, mas são uma minoria dessa minoria.
Estranha democracia esta (a merecer atenção do senhor PR) em que um governo, sustentado por uma maioria legítima, antevê já deixar-se dominar por uma minoria da minoria que se lhe opõe...
Não senhor ministro Gaspar! Se a política de assistência financeira fracassar a culpa não é de nenhuma minoria de esquerda do parlamento. Não, é totalmente sua! É o senhor que tem de a colocar em execução e terá a cabeça a prémio se falhar. É o senhor e o Caminheiro Coelho que têm a responsabilidade total perante um eventual falhanço.
Como, de resto, terão em caso de "triunfo". Disso não tenha a menor dúvida.
2011/11/08
Acabou-se o "bunga-bunga"
"Allora, che cosa facciamo? Eh, andiamo a lavorare..." (*)
(*) diálogo final do filme "I Vitelloni" de Frederico Fellini (1953)
(*) diálogo final do filme "I Vitelloni" de Frederico Fellini (1953)
2011/11/04
O socialismo continua na gaveta
Para que os europeus não pensem que Portugal é a Grécia, o inseguro Tó Zé já indicou o sentido de voto da sua bancada na próxima discussão do Orçamento de Estado 2012. Será a abstenção: na generalidade e na especialidade. Desta forma, não haverá o perigo dos "mercados" nos confundirem com os gregos socialistas...
2011/11/01
Poker Grego
Ao admitir referendar o segundo pacote de ajuda financeira à Grécia, Papandreou não só se colocou numa posição (aparentemente) insustentável, como abriu uma crise que pode vir a afectar toda a zona Euro e, por extensão, a própria Europa.
Desde logo, no seio do seu próprio partido, que hoje mesmo perdeu dois deputados e onde se exige a sua demissão, o que conduziria a eleições antecipadas. Depois, no governo, onde o seu ministro das finanças, que conduz o processo da dívida em Bruxelas, foi completamente ultrapassado pela notícia. Finalmente, na zona Euro, onde o contágio da crise grega parece agora o mais provável.
A avaliar pelas reacções da população grega, a tendência parece ser negativa. Se houver um referendo, o mais natural é o "não" ser maioritário. Nesse caso, a Grécia deixará de receber ajuda, será declarada insolvente e terá de sair do Euro. O regresso ao Dracma e a um longo período de pobreza será, nesse caso, inevitável. A vencer o "sim", o primeiro-ministro grego sairá fortalecido da crise, pois verá o pacote ser aceite pela população, legitimando dessa forma a sua posição.
Restam os "mercados" que, como sempre, ficaram "nervosos". Em Frankfurt, um dos corretores entrevistados dizia hoje que, desta forma, a Grécia teria de sair do Euro, o que já devia ter acontecido há muito tempo...
Acontece que a queda da Grécia arrastará, inevitavelmente, outros países europeus. Portugal, mas também a Irlanda, a Espanha ou a Itália, serão os próximos alvos dos especuladores. Nessa altura, Merkel perceberá que a estigmatização da Grécia, poderá significar a derrota da estratégia alemã. Será este o último "bluff" de Papandreou?
Desde logo, no seio do seu próprio partido, que hoje mesmo perdeu dois deputados e onde se exige a sua demissão, o que conduziria a eleições antecipadas. Depois, no governo, onde o seu ministro das finanças, que conduz o processo da dívida em Bruxelas, foi completamente ultrapassado pela notícia. Finalmente, na zona Euro, onde o contágio da crise grega parece agora o mais provável.
A avaliar pelas reacções da população grega, a tendência parece ser negativa. Se houver um referendo, o mais natural é o "não" ser maioritário. Nesse caso, a Grécia deixará de receber ajuda, será declarada insolvente e terá de sair do Euro. O regresso ao Dracma e a um longo período de pobreza será, nesse caso, inevitável. A vencer o "sim", o primeiro-ministro grego sairá fortalecido da crise, pois verá o pacote ser aceite pela população, legitimando dessa forma a sua posição.
Restam os "mercados" que, como sempre, ficaram "nervosos". Em Frankfurt, um dos corretores entrevistados dizia hoje que, desta forma, a Grécia teria de sair do Euro, o que já devia ter acontecido há muito tempo...
Acontece que a queda da Grécia arrastará, inevitavelmente, outros países europeus. Portugal, mas também a Irlanda, a Espanha ou a Itália, serão os próximos alvos dos especuladores. Nessa altura, Merkel perceberá que a estigmatização da Grécia, poderá significar a derrota da estratégia alemã. Será este o último "bluff" de Papandreou?
2011/10/29
As contas de Relvas
Esta semana o governo desdobrou-se em declarações sobre o eventual desaparecimento do 13º mês que, actualmente, é pago na maioria das empresas em Portugal. O inenarrável Relvas foi mesmo mais longe e chegou a dizer que, em países como a Inglaterra e a Holanda, não existia sequer 13º mês!
Acontece que já trabalhei em ambos os países: em Inglaterra os ordenados são maioritariamente pagos à semana e, na Holanda, os trabalhadores recebem normalmente 8,5% de subsídio de férias em Maio.
A lógica é fácil de perceber. Tanto num como noutro país, os trabalhadores recebem o 13º mês, seja diluído no ordenado anual, seja como gratificação extra. No caso inglês, a soma dos ordenados anuais é calculado na base das 52 semanas (e não em meses de 4 semanas) enquanto na Holanda os 8,5% correspondem a um mês extra de ordenado.
E em Portugal? Suponhamos que um trabalhador português recebe €700 de ordenado mensal. Ao fim do ano receberá um total de €8400. Se acrescentarmos o 13º mês (+ €700) chegaremos a um total de €9100. Este cálculo não leva em conta que nem todos os meses têm 4 semanas (há meses com 20 dias de trabalho e meses com 22 dias). Se dividirmos o valor mensal (€700) por 4 semanas, chegaremos a €175 por semana. Ora basta multiplicar €175 x 52 semanas, para chegar aos mesmos €9100! Ou seja, o dito 13º mês corresponde aos dias que não são pagos durante os meses de 22 dias. No caso da Holanda, os 8,5% pagos em Maio, corresponde exactamente a um mês extra de ordenado (o 13º mês). Como diria um conhecido primeiro-ministro, "é só fazer as contas"!
Mas, será que esta gente pensa que somos todos burros?
Acontece que já trabalhei em ambos os países: em Inglaterra os ordenados são maioritariamente pagos à semana e, na Holanda, os trabalhadores recebem normalmente 8,5% de subsídio de férias em Maio.
A lógica é fácil de perceber. Tanto num como noutro país, os trabalhadores recebem o 13º mês, seja diluído no ordenado anual, seja como gratificação extra. No caso inglês, a soma dos ordenados anuais é calculado na base das 52 semanas (e não em meses de 4 semanas) enquanto na Holanda os 8,5% correspondem a um mês extra de ordenado.
E em Portugal? Suponhamos que um trabalhador português recebe €700 de ordenado mensal. Ao fim do ano receberá um total de €8400. Se acrescentarmos o 13º mês (+ €700) chegaremos a um total de €9100. Este cálculo não leva em conta que nem todos os meses têm 4 semanas (há meses com 20 dias de trabalho e meses com 22 dias). Se dividirmos o valor mensal (€700) por 4 semanas, chegaremos a €175 por semana. Ora basta multiplicar €175 x 52 semanas, para chegar aos mesmos €9100! Ou seja, o dito 13º mês corresponde aos dias que não são pagos durante os meses de 22 dias. No caso da Holanda, os 8,5% pagos em Maio, corresponde exactamente a um mês extra de ordenado (o 13º mês). Como diria um conhecido primeiro-ministro, "é só fazer as contas"!
Mas, será que esta gente pensa que somos todos burros?
2011/10/24
Cadáveres incómodos
Os vídeos que diariamente vão surgindo e nos mostram a captura e o corpo, já sem vida, de Kadhafi, confirmam o que se imaginava: o coronel foi assassinado pela turbe que o capturou, vá lá saber-se se a mando de alguém...
Esta é uma história que se repete amiúde, ainda que alguns ditadores tenham tido mais "sorte" do que outros: há aqueles, como Salazar, Franco, Pinochet, Estaline ou Mao, para quem a morte foi um alívio. Outros, como Hitler, que escolheram o suicídio, para não darem oportunidade aos seus inimigos de os julgarem; e há aqueles que não puderam escapar ao julgamento terreno. Kadhafi, faz certamente parte deste último grupo, onde podem ser incluídos títeres como Mussolini, Ceauscescu e Saddam, executados por populares ou tribunais que, de justiça, tiveram muito pouco.
Há ainda um quarto grupo, onde se incluem os "inimigos de estimação", como Guevara, Bin Laden e, porque não (?), o coronel líbio, que interessou manter vivo enquanto foi útil ao Ocidente. Kadhafi podia ter fugido da Líbia, como chegou a ser proposto por vários dirigentes africanos, seguindo o exemplo do presidente da Tunísia, exilado algures no Médio Oriente. No entanto, preferiu morrer no seu país, como de resto sempre afirmou. Isso não faz dele um personagem mais simpático, nem apaga o regime de terror que instaurou na Líbia onde ditou as suas leis durante mais de 40 anos.
O que é extraordinário nisto tudo é o cinismo e a hipocrisia dos dirigentes ocidentais que, após anos de convívio e amizade com o regime pária do coronel, lhe voltaram as costas quando perceberam que o vento estava a mudar no Médio Oriente.
Sim, a morte de Kadhafi era inevitável. De preferência, sem julgamento. Não tinha Hillary Clinton, aquando da sua visita à Tunisia, pedido aos "rebeldes" líbios a captura do coronel vivo ou morto? A semana passada, estes fizeram-lhe a vontade.
Esta é uma história que se repete amiúde, ainda que alguns ditadores tenham tido mais "sorte" do que outros: há aqueles, como Salazar, Franco, Pinochet, Estaline ou Mao, para quem a morte foi um alívio. Outros, como Hitler, que escolheram o suicídio, para não darem oportunidade aos seus inimigos de os julgarem; e há aqueles que não puderam escapar ao julgamento terreno. Kadhafi, faz certamente parte deste último grupo, onde podem ser incluídos títeres como Mussolini, Ceauscescu e Saddam, executados por populares ou tribunais que, de justiça, tiveram muito pouco.
Há ainda um quarto grupo, onde se incluem os "inimigos de estimação", como Guevara, Bin Laden e, porque não (?), o coronel líbio, que interessou manter vivo enquanto foi útil ao Ocidente. Kadhafi podia ter fugido da Líbia, como chegou a ser proposto por vários dirigentes africanos, seguindo o exemplo do presidente da Tunísia, exilado algures no Médio Oriente. No entanto, preferiu morrer no seu país, como de resto sempre afirmou. Isso não faz dele um personagem mais simpático, nem apaga o regime de terror que instaurou na Líbia onde ditou as suas leis durante mais de 40 anos.
O que é extraordinário nisto tudo é o cinismo e a hipocrisia dos dirigentes ocidentais que, após anos de convívio e amizade com o regime pária do coronel, lhe voltaram as costas quando perceberam que o vento estava a mudar no Médio Oriente.
Sim, a morte de Kadhafi era inevitável. De preferência, sem julgamento. Não tinha Hillary Clinton, aquando da sua visita à Tunisia, pedido aos "rebeldes" líbios a captura do coronel vivo ou morto? A semana passada, estes fizeram-lhe a vontade.
2011/10/23
Porcos
Depois de ter sido denunciado publicamente que as pensões dos antigos titulares de cargos políticos não iriam ser abrangidas pelas medidas restritivas do OE 2012, o ministro Vítor Gaspar reagiu apressadamente admitindo a rectificação dessa situação. Hoje foi a vez do ministro Miguel Macedo vir anunciar que renuncia ao subsídio de alojamento que lhe foi atribuido para pagar a sua casa de Lisboa (ele diz que vai "abdicar de um direito"), depois desta situação ter sido amplamente denunciada.
Foi preciso criar algum alarido para depois corrigir estes dois casos particulares e, muito provavelmente, se estas denúncias continuarem ainda abatemos mais uns milhões no défice do Estado.
O problema tem, porém, outras ressonâncias, talvez mais graves.
Para ordenhar a teta dos impostos até à última gota o governo não hesitou em criar, ele também, alarido à volta da ideia de que "vivemos acima das nossas possibilidades"! Repetida até à exaustão, a conversa lá vai convencendo os portugueses a aceitar o facto de terem de ficar sem os seus legítimos subsídios, salários, pensões, etc. Há muitos —muitos até, certamente, que nunca gastaram um tostão acima das suas posses— que repetem como papagaios e como se fosse uma prece sua, o slogan que lhes foi subtilmente gravado no inconsciente pela máquina da propaganda.
Fomos todos apanhados nesta rede, cuidadosamente tecida. Mas, infelizmente, não gozamos da mesma protecção que permite ao ministro Macedo vir impunemente, com ar convicto e num passe de mágica, transformar uma situação inquestionavelmente abjecta, protagonizada por um membro de um governo que saca tudo o que tilinta à sua volta, numa atitude eticamente louvável, quiçá, patriótica.
É que falta aos portugueses em geral a chance de escolher entre o deixar-se ou não esbulhar dos seus legítimos proventos e de poder dizer, como faz Macedo, que "por decisão pessoal minha, amanhã mesmo, vou formalizar a renúncia a este direito que a lei me dá."
Episódios como estes sintetizam bem o nojo que é a classe política portuguesa e a qualidade moral dos nossos governantes.
"Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros," decretavam os porcos da Animal Farm de Orwell. Temo que o fariseu Coelho acredite nisso e não venha, desta vez, pedir desculpas aos portugueses.
Foi preciso criar algum alarido para depois corrigir estes dois casos particulares e, muito provavelmente, se estas denúncias continuarem ainda abatemos mais uns milhões no défice do Estado.
O problema tem, porém, outras ressonâncias, talvez mais graves.
Para ordenhar a teta dos impostos até à última gota o governo não hesitou em criar, ele também, alarido à volta da ideia de que "vivemos acima das nossas possibilidades"! Repetida até à exaustão, a conversa lá vai convencendo os portugueses a aceitar o facto de terem de ficar sem os seus legítimos subsídios, salários, pensões, etc. Há muitos —muitos até, certamente, que nunca gastaram um tostão acima das suas posses— que repetem como papagaios e como se fosse uma prece sua, o slogan que lhes foi subtilmente gravado no inconsciente pela máquina da propaganda.
Fomos todos apanhados nesta rede, cuidadosamente tecida. Mas, infelizmente, não gozamos da mesma protecção que permite ao ministro Macedo vir impunemente, com ar convicto e num passe de mágica, transformar uma situação inquestionavelmente abjecta, protagonizada por um membro de um governo que saca tudo o que tilinta à sua volta, numa atitude eticamente louvável, quiçá, patriótica.
É que falta aos portugueses em geral a chance de escolher entre o deixar-se ou não esbulhar dos seus legítimos proventos e de poder dizer, como faz Macedo, que "por decisão pessoal minha, amanhã mesmo, vou formalizar a renúncia a este direito que a lei me dá."
Episódios como estes sintetizam bem o nojo que é a classe política portuguesa e a qualidade moral dos nossos governantes.
"Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros," decretavam os porcos da Animal Farm de Orwell. Temo que o fariseu Coelho acredite nisso e não venha, desta vez, pedir desculpas aos portugueses.
Subscrever:
Comentários (Atom)
